O problema da Micromilitância

Esse artigo tem como objetivo provocar os leitores em seu sentido mais nobre. Provocação aqui, compreendida como possibilidade de incomodar positivamente e proporcionar a quem lê novos questionamentos.

É notório para quem frequenta as redes sociais, principalmente o Facebook, que nossa militância tem cada dia mais acirrado os seus ânimos. De antemão, já deixo a observação que não devemos generalizar e dizer que todos os/as militantes estão sofrendo do mal estar da “micromilitância”, mas, é reconhecível que há um número consideravelmente “barulhento”. Micromilitância é um termo que inventei (não sei se já fora empregado por alguém) por usar alegoricamente, e creio que de maneira equivocada, as ideias de micropoder de Foucault.

Sucintamente podemos dizer que Foucault discordava que o poder manifestava-se somente na mão do Estado-Soberano, assim instituições sociais como família e igreja exerciam também influência na consolidação da subjetividade-docilidade dos indivíduos. A astúcia desse filósofo foi perceber uma nova manifestação do poder na sociedade industrial, que é diferente da relação pré-industrial.  O macropoder baseado na Soberania, principalmente representado pelos regimes absolutistas, atuava diretamente sobre a produção dos bens, visando extrair as riquezas do produto do trabalho, sobretudo no trabalho da terra.  Foucault  vai nos dizer que a teoria da soberania é vinculada a uma forma de poder muito mais próxima da terra e seus produtos do que aos corpos e atos. A era industrial trouxe novos desafios para a manutenção da ordem vigente e controle social, o aumento da produção de mercadorias e a urbanização/crescimento demográfico exigiram novos modelos de controle sobre os indivíduos, pois o poder baseado no modelo soberano não conseguiria controlar as eclosões dos movimentos de massa.  Assim, podemos considerar que a observação desse novo redirecionamento da manifestação do poder é válida, a era industrial “exige” um controle mais efetivo sobre cada indivíduo. Essa sociedade panóptica está imersa aos olhares disciplinadores, que geram saberes que, sucessivamente, podem ser novas manifestações de poder. Acredito ser importante interpretar essas premissas de micro e macro poder não como opostas, mas complementares, afinal essa manifestação de poder está nas mãos de uma classe dominante que com nossa democracia representativa possibilitou reforçar e legitimar o sistema vigente, não há uma negação do macropoder, mas uma reinterpretação de como o sistema hegemônico continua firme.

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Sobre a micromilitância podemos dizer que ela é interpretada aqui como a participação política somente dentro de uma manifestação estrutural de opressão, é aquela que não tem uma preocupação afinca de abrir pontes com outros movimentos e buscar interrogações em comum, pelo contrário, qualquer possibilidade de diálogo vai ser vista sempre pela ótica maniqueísta. Assim, o que era para ser tautológico, como ideia de protagonismo, torna-se o mantra de isolamento, de encapsulamento.

Ora, penso que toda atuação de militância necessita buscar espaços públicos, porém para ocorrer isso é preciso construir uma ligação do movimento social com a sociedade civil. O que se observa muitas vezes é que determinados movimentos têm sido utilizados por parte dos integrantes como pequenas igrejas ou divãs, onde lamentam e expõe suas frustações. A micromilitância, enquanto “webfenômeno”, constitui a descarga de frustrações. Qualquer um que questione suas prerrogativas acaba sendo taxado de opressor e demonizado enquanto “outro”.

Esse ritual faz com que só pelo fato de você existir já se torne opressor, sempre observando o outro ser humano (e não um sistema legitimado pela infraestrutura e superestrutura) como inimigo em potencial. Tal ritual é preenchido pelos “rachas” e comungado com irmãs/irmãos partícipes. Acusa meramente o outro por existir, e não uma estrutura historicamente constituída. E pior, não aceita uma proposta de interação dialética. Por mais que, na teoria, essa micromilitância diga estar vinculada a interesses sociais comuns, age tão somente em causa própria, prioriza apenas o seu movimento como se fosse o único capaz, de isoladamente, transcender aos problemas e chegar à emancipação, ignorando o contexto geral existente e toda a complexidade que se solidifica constantemente pelas instituições sociais.

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 Afinal, quando falamos de movimento social nos vem à ideia que sua constituição perpassa um grupo de indivíduos que consideram seus direitos desrespeitados ou ainda buscam meios de efetivar novos direitos. Para tanto, é necessário ligar essa busca ou manutenção de direitos a um contexto histórico, social e econômico que constitui a sociedade como um todo. Nada mais pertinente do que os diversos setores da sociedade, principalmente os historicamente marginalizados, criarem discursos em comum na procura de transgredir (ou até revolucionar) pelo bem comum. Por fim, é necessário refletir os limites e o alcance desse modelo de militância, procurando compreender seus projetos políticos e como trabalham as contradições gerais da sociedade. Ou seja, é preciso descobrir quais interesses, para além da causa própria, esse tipo de militância enfatiza e qual projeto político/societário defende.

 

Por: Alexandro Kichileski

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