O que o Narloch tem a ver com o meu salário?

Homens ganham mais do que mulheres. Não é novidade que, mesmo exercendo funções idênticas, os salários femininos sejam menores. Assim como não é novidade que as brasileiras possuam grau de instrução maior do que os brasileiros e ainda assim, essa disparidade persista.  Quanto maior o nível de instrução maior a diferença, chegando até a 40% segundo a professora Regina Madalozzo do Insper, citada em recente artigo publicado no site UOL.

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Eis que, procurando inspiração para o texto de estreia (que foi o mais difícil de escrever de toda a minha vida até aqui), topei com o tal Leandro Narloch questionando se a igualdade salarial seria realmente vantajosa para as mulheres.

No texto, ele expõe em três argumentos o porquê acredita que nós mulheres tenhamos que nos contentar em ganhar menos que pessoas como ele, homens. Os dois primeiros levam em consideração as funções em que geralmente emprega-se força de trabalho feminina, como as áreas da educação, RH, etc. Segundo ele e sua amiga de Harvard o salário nessas áreas é baixo por causa da lei da oferta e da procura, tsc, nada a ver com gênero… O que ele ignora na verdade é o fato de que mulheres ganham menos que homens >>>mesmo trabalhando nas mesmas funções<<<, me deixa explicar em uma situação hipotética (mas que acontece com frequência), mesmo ocupando um cargo de chefia após ter se matado em estudar, revezando com a mãe, empregada doméstica, o cuidado com o filho que teve na adolescência e que o pai abandonou, Maria ganhará menos que João, que tem o mesmo nível de instrução e trabalha na mesma área. Se isso não tem a ver com gênero, Harvard precisa rever seus conceitos (ou preconceitos). A situação hipotética criada pode trazer um caráter subjetivo ao texto, mas não se engane ela foi criada para ilustrar a realidade das estatísticas. A disparidade salarial existe não porque nós mulheres somos professoras ou pediatras, ela existe porque o mercado de trabalho é machista e privilegia quem já nasceu privilegiado.

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Quase me esqueço, no segundo argumento diz-se que os homens ocupam os empregos mais desagradáveis e com maior incidência de acidentes. Aqui, comete-se o absurdo de afirmar que “Só quando houver igualdade na taxa de acidentes de trabalho será possível haver igualdade de salários.” A fala por si já é totalmente problemática, mas vamos lá. Quase 20% da população feminina brasileira trabalha como empregada doméstica. Você quer trabalho mais desagradável que limpar uma privada coberta de urina e ainda assim ganhar menos que um homem que realiza a mesma função? Pior, chegar em casa, limpar de novo e não ser remunerada por isso? Ficar exposta a produtos químicos, cair da janela do 20º andar porque o vidro estava sujo e… Por favor, né? Doméstica usando EPI?

Por fim a mais absurda, afirma-se que o que contribui para essa injustiça é o fato de que mulheres não querem crescer ou vencer na carreira. Nesse, o autor não enxerga a construção social. Não percebe (talvez intencionalmente) que meninas são educadas para serem servis, recatadas, mães de amor incondicional. Ele até sugere que “Para melhorar a estatística, seria preciso tornar as mulheres menos livres (caso fossem obrigadas a querer subir na vida, oi?)”. Isso em um mundo onde qualquer uma que ouse questionar o sistema é rechaçada. Esse talvez tenha sido guardado para o final justamente para causar essa indignação que estou sentindo. Pois quando nos impomos e exigimos direitos somos criminalizadas, ainda assim, nos atribuem a culpa por essa distinção.

Senhor Narloch, nesse momento existe uma jornalista escrevendo algo que contribuirá circunstancialmente para a luta por igualdade salarial, diferente do seu texto, e pasme, ela continuará ganhando até 40% a menos que o senhor.

Ariane Blum é estudante de Direito na Faculdade Metropolitana de Blumenau, comunista e militante dos movimentos sociais, dentre eles, Feminismo.

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