O risco da opinião do meio sobre Olavo de Carvalho e similares

Podem ser resumidas em três as diferentes visões possíveis sobre Olavo de Carvalho e similares que surgiram depois dele, como Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino, Danilo Gentili, Leandro Narloch e Luís Felipe Pondé. Visão A: Eles são gênios. Concordo com tudo que eles escrevem. O Brasil precisa deles. Visão B: Não concordo com tudo que eles escrevem, eles exageram muitas vezes, mas a presença de colunistas deste tipo na imprensa é boa para o Brasil, porque algumas coisas que eles escrevem, é necessário que alguém escreva Visão C: Estes colunistas são nocivos e ponto final. Eles não oferecem qualquer contribuição positiva para o Brasil. Sua influência sobre nosso país é apenas negativa. A visão mais próxima da realidade é a C.

Estes colunistas só pioram, nunca melhoram a qualidade da opinião pública brasileira. A visão mais absurda de todas é a A. Mas a visão mais perigosa é a B. Os portadores da visão A nunca serão muito numerosos porque é necessário ter muitos parafusos desapertados na cabeça para idolatrar os colunistas mencionados. Mas é possível que os defensores da visão B sejam numerosos. Isto porque muitas pessoas têm fetiche pela opinião do meio. É perfeitamente possível ter a opinião do meio em muitos assuntos. O problema é que existem aqueles que têm necessidade de ter a opinião do meio em todos os assuntos. São conhecidos como os moderate heroes. Enxergam a opinião do meio como um fim em si. Associam a opinião do meio com maior sensatez, maior inteligência. Se vivessem na Espanha no tempo da Inquisição, provavelmente diriam que “é errado queimar judeus na fogueira, mas também é errado permitir que judeus continuem sendo judeus”. E por que a influência de Olavo de Carvalho e companhia é apenas negativa, e nunca positiva?  

Um: difusão de ignorância sobre História admite interpretações diferentes. Mas não a negação de fatos devidamente documentados. Olavo de Carvalho escreveu colunas dando a entender que apenas participantes da luta armada foram assassinados durante a ditadura militar no Brasil. Também escreveu que a censura tinha como objetivo apenas de evitar a propaganda da luta armada. Estas não são questões de “opinião”. Independente da “opinião” que Olavo de Carvalho e seu rebanho possa ter, Rubens Paiva, Wladimir Herzog e muitos outros que não participavam de luta armada foram assassinados no tempo da ditadura militar. E é fartamente conhecido que a censura foi muito além da propaganda da luta armada. Talvez sejam pessoas que gostam das colunas do Olavo de Carvalho e se “informam” por essas colunas que estendem faixas pedindo um novo golpe militar. Rodrigo Constantino e Leandro Narloch gostam de negar que Hitler fosse de extrema-direita porque o nome de seu partido era socialista e porque o governo nacional socialista praticava intervenção estatal na economia. Independente da “opinião” de Rodrigo Constantino, Leandro Narloch e seus seguidores, Hitler chegou ao poder em janeiro de 1933 com apoio dos partidos conservadores, do mercado financeiro e do ex-kaiser e com oposição de social democratas e comunistas. Isto está devidamente documentado. Basta consultar sites de jornais que têm acervos de edições antigas.

A “intervenção estatal” de Hitler foi congelar salários para aumentar lucros. Hitler apoiou Franco contra os socialistas e os comunistas na Guerra Civil Espanhola. Olavo de Carvalho gosta do Franco. Por muito tempo, acadêmicos de esquerda não enxergaram a necessidade de divulgar ao grande público que Hitler era de extrema-direita porque isto é apenas o óbvio, semelhante a dizer que a grama é verde. Mas infelizmente o monstro já está criado, e há uma molecada que pensa que Hitler era de esquerda. Os guias politicamente incorretos de Leandro Narloch merecem um parágrafo a parte. Não é ruim perceber distorções na historiografia de esquerda, porque eles existem, e escrever um livro criticando estas distorções. Mas Narloch não é a única pessoa que faz isso. Há historiadores profissionais que também fazem. O problema de Narloch é criar outras distorções sob o pretexto de combater distorções. Para falar sobre o Chile, Narloch utilizou como fonte um livro oficial de propaganda do regime Pinochet. Não é a fonte mais confiável para contar uma História sem distorções. E o pior destes livros são seus fãs: são pessoas que pensam que defender uma narrativa da História favorável às classes dominantes é um ato de rebeldia, contestação. Quem pensa assim só pode ser definido por uma única palavra: bundão. Ah, e o assunto muito repetido, o Foro de São Paulo. Muitos destes colunistas tratam o Foro de São Paulo como uma organização criminosa. Na verdade, o Foro de São Paulo é apenas uma associação de partidos de esquerda da América Latina, que inclui até mesmo o PSB e o PPS. As Farc fizeram parte do Foro até 2002, quando estava em processo de negociação para entregar as armas e virar um partido político. Este processo fracassou, e, por isso, as Farc não fazem mais parte do Foro.

Dois: risco de danos para a saúde pública Olavo de Carvalho é contra a vacinação obrigatória. Em 17 de julho de 2006, ele escreveu em sua coluna no Diário do Comércio “Alguns de meus oito filhos tomaram vacinas, outros não. Todos foram abençoados com saúde, força e vigor extraordinários, e nenhum deles deve isso aos méritos da ciência estatal, mas a Deus e a ninguém mais” http://www.olavodecarvalho.org/semana/060717dc.html Se ele acredita que Deus foi responsável pela boa saúde dos filhos dele, mesmo dos que não tomaram vacinas, é uma convicção pessoal dele e nós respeitamos. Agora, não há como negar que há outro determinante para a boa saúde dos filhos do Olavo independente de Deus: é que outros pais não têm mente perturbada e, por isso, levam todas as suas crianças para tomar vacina. Por isso, as doenças são erradicadas, e, desta maneira, uma ou outra criança que não tomou vacina também não pega doença. O perigo é que no futuro não seja apenas uma ou outra criança que não tome vacina. Por causa de malucos de extrema direita, o movimento anti-vacina vem crescendo. Já em 2008, uma reportagem do Estado de São Paulo mostrou que é na Classe A onde há maior parcela de crianças que tomaram menos vacina. A reportagem não mostrou a causa, mas não é difícil imaginar qual seja http://www.estadao.com.br/noticias/geral,estudo-mostra-que-crianca-da-classe-a-toma-menos-vacina,252716 Não só as vacinas são vítimas desta esquizofrenia ultradireitista. Reinaldo Azevedo gosta muito de atacar políticas governamentais de defesa do sexo seguro nos colégios. Há o risco de fomentar movimentos de pais e mães contra essas políticas. Este mesmo colunista também gosta de relacionar defesa da legalização da maconha, bandeira que envolve muitas pessoas sérias, com pessoas que louvam o ato de consumir maconha mesmo na ilegalidade. Há opositores da legalização da maconha que procuram utilizar argumentos bem elaborados. Não é o caso de Reinaldo.

Três: criação de um rebanho adestrado Basta ler as seções de comentários dos sites de notícias para perceber este rebanho. Não importa o assunto da notícia, o rebanho sempre encontra um pretexto para escrever petralhas, Farc, Foro de São Paulo, Gramsci, marxismo cultural e cem milhões de mortos. É perfeitamente possível as pessoas gostarem de um determinado colunista, mas entenderem que pode existir pessoas que não gostam. Isto não ocorrem com os seguidores de Olavo de Carvalho, apelidados de olavetes. Basta aparecer um texto crítico ao Mestre, que já começa a prática coletiva do jiu-jitsu verbal com os dedos no teclado do computador. E o comentário “é pago pelo PT para falar mal do Olavo” nunca falta. Ah, se as olavetes descobrirem este texto…

Quatro: incentivo ao vitimismo de quem não é vítima Alguns destes colunistas frequentemente falam como se existisse alguma restrição à liberdade de expressão de direitistas no Brasil. Isto existiu na antiga União Soviética, em Cuba. No Brasil, isto não existe e nunca existiu. Entre 1968 e 1978 existiu restrição à liberdade de expressão de esquerdistas. Alguns admiradores destes colunistas são tão adestrados que se descobrirem este texto, vão dizer que este texto é uma violação à liberdade de expressão dos mencionados colunistas. Não é. Existe a liberdade de expressão deles, que eu não contesto, mas também exista a minha liberdade de expressão. Não se contentando em praticar vitimismo com uma violação não existente de sua liberdade de expressão, a direita fomentada por estes colunistas quer acabar com a liberdade de expressão de outras pessoas, através do movimento Escola Sem Partido, que pretende estabelecer censura à atividade docente.

Cinco: fomento a preconceitos com minorias e pobres, e incentivo à aceitação de assassinatos de moradores de favela cometidos por policiais Reinaldo Azevedo não pratica racismo, machismo, homofobia e xenofobia de forma explícita, mas escreve agradando quem tem esses preconceitos, incentivando a tirar estes preconceitos do armário. Chama o presidente dos Estados Unidos de Barack Hussein Obama, o que é uma insinuação de que o sobrenome Hussein é um defeito. Ninguém fala John Fitzgerald Kennedy ou George Walker Bush. Usa o fato da líder do Passe Livre ser garçonete para fazer pirraça. Um colunista que não escreve sobre novela, resolve falar mal justamente da novela que teve um beijo gay, muito provavelmente fez isso para agradar quem ficou com raiva do beijo gay. Reinaldo Azevedo também tem o hábito de levantar supostos exageros de movimentos negro, feminista e LGBTT para desqualificar estes movimentos. Enquanto uns sofrem com opressão, Reinaldo Azevedo ganha fama e dinheiro agradando quem defende a manutenção de opressões e atacando quem luta contra estas opressões. Sem base em qualquer evidência decente, Reinaldo Azevedo já disse que o “verdadeiro negro” no Brasil é o homem branco heterossexual cristão. Racistas também gostas das gracinhas de Danilo Gentili. Luís Felipe Pondé escreveu uma coluna com ataques baixos a quem coloca Guarani-Kaiowá no nome no Facebook e insultos a índios. A brincadeira não é engraçada. Muitas pessoas colocaram Guarani-Kaiowá no nome no Facebook para alertar que muitos índios Guarani-Kaiowá estavam sendo assassinados no Mato Grosso do Sul. Brincar com isso é insensibilidade com a situação trágica de pessoas com as quais ele não se importa. Um colega de Reinaldo Azevedo na Veja tem o costume de levantar defeitos de moradores de favela assassinados por policiais. Isto contribui para que leitores achem aceitável matar moradores de favela desarmados.

Seis: violência Mesmo que não tenha havido sugestões explícitas de uso da violência, o estímulo a odiar uma pessoa somente porque ela é de esquerda pode ter sido a causa da recente onda de agressões. Leonardo Sakamoto já recebeu cuspe nas ruas de São Paulo. Gregório Duvivier já foi importunado em um restaurante do Rio de Janeiro. E não é possível dizer “ah, mas as pessoas estão bravas com os escândalos do PT”. Nenhum dos dois mencionados é do PT. Falam pouco de política partidária e muito mais de questões sociais. E mesmo se fossem do PT, tais atitudes não se justificam. Durante a campanha eleitoral de 2014, foram recorrentes ameaças de agressão, e mesmo agressões de fato, a pessoas que faziam campanha para Dilma.

Os argumentos dos que dizem “Não concordo com tudo que eles escrevem, eles exageram muitas vezes, mas a presença de colunistas deste tipo na imprensa é boa para o Brasil, porque algumas coisas que eles escrevem, é necessário que alguém escreva” estão listados a seguir, com as devidas respostas.

Um: Com tantos escândalos envolvendo altas lideranças do PT, é bom que existam pessoas que peguem pesado com o PT Resposta: Há muitos outros colunistas que pegam pesado com o PT sem fazer o que os mencionados colunistas fazem sobre outros temas. Não precisa ler os colunistas citados no primeiro parágrafo deste texto para ler textos que pegam pesado com o PT. Muito provavelmente, quem gosta destes colunistas gosta não por causa daquilo que eles falam do PT, que pode ser encontrado em textos de outros colunistas, mas das outras coisas que eles falam e que foram mencionadas aqui neste texto. E para quem pensa que estes colunistas são muito úteis contra o PT, é bom lembrar que em 1989, 1994 e 1998, quando estes colunistas não eram conhecidos, Lula perdeu. Lula ganhou em 2002 e 2006, e Dilma ganhou em 2010 e 2014, quando estes colunistas já ocupavam espaço na imprensa. Não há a intenção de dizer que estes colunistas causaram as vitórias do Lula e da Dilma, mas sim de dizer que, em eleição, eles não foram úteis. E quem acha que contra o PT vale tudo está se rebaixando ao nível de quem acha que a favor do PT vale tudo. Na prática, estes colunistas extremistas de direita e os colunistas fanáticos a favor do PT se retroalimentam. Uns são úteis para os outros. Os fanáticos a favor do PT gostam de fazer espantalhos de quem critica do Lula, de relacionar qualquer crítica ao Lula com pessoas que não se conformam em ver um metalúrgico no poder. Os colunistas da ultra direita fazem exatamente o papel deste espantalho. E por falar em corrupção, há uma indignação bem seletiva. Basta ver o que Reinaldo Azevedo escrevia sobre Eduardo Cunha, antes da divulgação das contas da Suíça, mas já no tempo em que eram conhecidos alguns escândalos.

Dois: como a esquerda domina as humanas das universidades públicas brasileiras, é bom que existam pessoas que façam o contraponto Resposta: Se for realmente verdade que a esquerda domina as humanas das universidades públicas brasileiras, isto não seria a meritocracia que a direita defende tanto? E se os acadêmicos esquerdistas brasileiros são ruins, cadê o brilhantismo acadêmico de seus críticos? Dos colunistas mencionados, apenas o Pondé teve uma longa carreira acadêmica. E os demais? Se eles pensam que há muitos esquerdistas na academia brasileira porque esses acadêmicos esquerdistas não deixam os direitistas entrar, por que esses colunistas não vão mostrar todo seu conhecimento e sabedoria em universidades estrangeiras? Por safadeza, alguns direitistas gostam de relacionar o atraso do Brasil com o esquerdismo da academia. Mas o fato é que quando a primeira universidade brasileira foi criada em 1920, o Brasil era muito atrasado. Então não dá para fazer essa relação. E além disso, é no mundo inteiro que as humanas de universidades públicas estão à esquerda da média da população. Tem muito a ver com o perfil das pessoas que desejam seguir essa carreira. A mesma explicação vale para o predomínio da direita em polícias e forças armadas do mundo inteiro.

Três: durante algum tempo, praticamente não existia direita no Brasil. Já foi feio se auto declarar de direita. É bom para a democracia que exista esquerda e direita. Resposta: É bom para a democracia que todos tenham o direito de se expressar. Em nenhum momento este texto defende que os mencionados colunistas não tenham o direito de se expressar. Eles devem ter este direito. Mas isto não quer dizer que o conteúdo deles seja bom para a sociedade. O tempo em que não existia direita no Brasil nunca existiu. Antes do PSDB ter se deslocado para a direita, o Paulo Maluf e o Antônio Carlos Magalhães eram políticos muito importantes. Não havia na imprensa colunistas que diziam que os politicamente corretos gramscianos iriam destruir a civilização judaico cristã ocidental, mas colunistas que defendiam o liberalismo econômico sempre existiram aos montes.

E não é apenas no Brasil que a palavra “direita” na política é mais feia do que a palavra “esquerda”. Na Alemanha, o CDU não se auto-define como rechts. Lá, a palavra rechts é mais associada com os neonazistas (sim, lá todo mundo sabe que eles são de direita). Na França, quando houve em 1974 a acirrada disputa entre François Mitterrand, de esquerda, e Giscard d’Estaign, de direita, somente Mitterrand dizia que se tratava de uma disputa entre esquerda e direita. Giscard d’Estaign preferia dizer que era uma disputa entre centro e extrema esquerda. O verbete em Inglês da Wikipedia sobre a diferença entre esquerda e direita na política diz que há uma assimetria no uso destes termos, que são utilizados muito mais pela esquerda do que pela direita. “There was asymmetry in the use of the terms left and right by the opposing sides. The right mostly denied that the left–right spectrum was meaningful because they saw it as artificial and damaging to unity. The left, however, seeking to change society, promoted the distinction. As Alain observed in 1931, “When people ask me if the division between parties of the right and parties of the left, men of the right and men of the left, still makes sense, the first thing that comes to mind is that the person asking the question is certainly not a man of the left”* em: https://en.wikipedia.org/wiki/Left%E2%80%93right_politics

E por falar em Wikipedia, o final deste verbete explica bem a origem da “Filosofia” de metade dos textos desta safra de colunistas. “A 21st-century conspiracy theory regards the Frankfurt School as the origin of a contemporary movement in the political left to destroy western culture, referred to as “Cultural Marxism” by theory proponents.[51][52] It advocates the idea that multiculturalism and political correctness are products of critical theory, which originated with the Frankfurt School. The theory is associated with American conservative thinkers such as William Lind, Pat Buchanan and Paul Weyrich, and has received institutional support from the Free Congress Foundation. “** em https://en.wikipedia.org/wiki/Frankfurt_School#Conspiracy_theory

 E para encerrar o texto, uma pequena desconfiança, que não chega a ser uma certeza: alguns (talvez poucos) dos que dizem que “discordam do Olavo e companhia em algumas coisas, mas acham que eles são necessários” na verdade amam Olavo e companhia, mas preferem emitir em público a opinião do meio porque consideram que assim vão ter mais aceitação. E sincera ou não, a opinião do meio neste caso já é muito ruim.

Traduções

*Houve assimetria no uso dos termos esquerda e direita pelos lados opostos. A direita muitas vezes negava que o espectro esquerda-direita era significativo porque considerava-o artificial e prejudicial à unidade. A esquerda, querendo mudar a sociedade, promovia a distinção. Como Alain observou em 1931, “quando pessoas me perguntam se a divisão entre partidos de direita e partidos de esquerda, homens de direita e homens de esquerda, ainda fazem sentido, a primeira coisa que me vem à mente é que essas pessoas não são de esquerda”

**Uma teoria conspiratória do século XXI considera a Escola de Frankfurt como a origem do movimento contemporâneo da esquerda política para destruir a civilização ocidental, movimento chamado de marxismo cultural pelos proponentes da teoria. Ela advoga a ideia de que o multiculturalismo e o politicamente correto são produtos da teoria crítica, que originou com a Escola de Frankfurt. Esta teoria é associada com pensadores conservadores americanos como William Lind, Pat Buchanan e Paul Weyrich, e recebeu apoio institucional da Free Congress Foundation.

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