Por que escrever no Trincheiras

Um site como o Trincheiras torna-se necessário no momento em que o Brasil vive. Direitos sociais, individuais e políticos estão sob ataque. Fala-se em “flexibilizar” leis trabalhistas, descaracterizar o SUS, introduzir cobrança em universidades públicas, interromper o processo de demarcação de terras indígenas, criar um Estatuto da Família que exclui muitos tipos de família, dificultar o direito do aborto a vítimas de estupro, censurar a atividade docente, criar lei “antiterrorismo”. Além disso, o Congresso aprovou uma lei que acaba com a participação do PSOL em debates eleitorais televisionados, ocorre perseguição a pequenos doadores para o PSOL e cogita-se a possibilidade de reverter a decisão do STF sobre financiamento empresarial de campanha e de proibir doações de comissionados (o que inclui funcionários de parlamentares), o que secaria uma das fontes de recursos de partidos que não têm simpatia ideológica do meio empresarial.

“A indiferença é o peso morto da história.” – Antonio Gramsci

Não é coincidência que os ataques aos direitos sociais, individuais e políticos sejam atacados ao mesmo tempo. O Brasil de 2015 está no processo de “terapia de choque”, que a autora canadense Naomi Klein descreveu em 2008* para falar de várias experiências que ocorreram em outros países até então. A terapia de choque é dilapidar o Estado de Bem Estar Social em um período de tempo curto e implantar um projeto político favorável a um Estado que só não é mínimo porque a parte policial do Estado não é mínima. A autora explicou que como é muito difícil em um ambiente político democrático e em circunstâncias normais fazer este choque, isto é feito solapando o ambiente político democrático, ou, na impossibilidade de fazer isso, aproveitando-se de uma circunstância extraordinária. Exemplos disto foram os golpes militares do Chile em 1973 e da Argentina em 1976, ganho de popularidade de um governo causado por uma guerra como ocorreu na Grã-Bretanha em 1982, hiperinflação na Bolívia em 1985 e na Argentina em 1989, súbita transição política no Leste Europeu em 1989-1991 (caos permitiu bloquear a transição para uma social democracia e impor um capitalismo plutocrático), crise nos mercados financeiros na Ásia em 1997, atentados terroristas nos Estados Unidos em 2001, invasão ao Iraque em 2003, tsunami no Sudeste Asiático em 2004, Katrina na Louisiana em 2005.

No Brasil, as condições favoráveis à terapia de choque foram geradas pela crise econômica e por um grande escândalo de corrupção na Petrobras no qual o PT está envolvido (e forças políticas favoráveis à terapia de choque também), e por mais um motivo que será abordado nos próximos parágrafos deste texto. O caso brasileiro atual, que se enquadra na situação em que a democracia formal é mantida e é mais semelhantes não com os outros casos descritos em detalhes por Naomi Klein, mas com os Estados Unidos do final da década de 1970, quando estava sendo criado um clima favorável à contra revolução conservadora iniciada por Ronald Reagan em 1980. Nos dois casos, existe uma direita que tem dinheiro de milionários para fazer think thanks, tensão política que chega à violência, uso de boatos como forma de mobilização pela extrema direita (nos EUA, a beneficiária do food stamps que anda de Cadilac, no Brasil, os muitos boatos sobre Bolsa Família, Auxílio Reclusão, haitianos e outros), exploração de preconceitos e ressentimentos para fazer com que a classe média apoie projetos políticos que só beneficia os ricos, e aliança da direita econômica com a direita religiosa. Quando Reagan chegou ao poder, a desconcentração de renda nos EUA que tinha ocorrido durante e logo depois da Segunda Guerra Mundial foi revertida, e depois de 28 anos e quatro governos, os EUA já tinham novamente concentração de renda igual à que tinha em 1929. Retrocesso semelhante pode ocorrer no Brasil se não houver resistência. No Brasil, este retrocesso seria pior. Em 1980, o 1% mais rico dos EUA concentrava 8% da renda. No Brasil, o 1% mais rico já concentra 11%. Imaginem quando a pauta da direita for completamente implementada.

O motivo adicional para esse momento favorável ao choque da direita que este texto pretende tratar é o ambiente favorável na opinião pública falante. Um dos determinantes (mas não o único) para este ambiente muito citado por quem discute este problema é a grande mídia comercial, composta por grandes grupos empresariais como Globo, SBT, Bandeirantes, Abril, Folha e Estado. Por Globo, entende-se o canal de TV aberta, a Globonews, o jornal O Globo, a revista Época, o portal G1 e a rádio CBN. Engana-se quem considera que estes grupos são “a favor do PSDB”. Na verdade, estes grupos são um partido próprio sem registro no TSE, um Tea Party tupiniquim, e é na verdade o PSDB que é a favor deste partido. Se um dia o PSDB der algum sinal de “recaída” para sua ideia original de social-democracia (que nunca foi colocada em prática por este partido), o Tea Party tupiniquim se colocará contra. Se bem que fora da economia, o PSDB deu saltos para a extrema direita que vão além daquilo que os grandes grupos empresariais brasileiros de mídia defendem, ao apoiar o homofóbico Estatuto da Família e o PL 5069/2013, que dificulta o aborto para vítimas de estupro. Nem sempre a grande mídia comercial brasileira foi assim. Os donos dos grandes grupos sempre foram conservadores, mas espaço para opiniões diferentes existiam. Franklin Martins já foi comentarista da Globo. Maria Aquino, Maria Rita Kehl, Wanderley Guilherme dos Santos e Paulo Moreira Leite já foram colunistas da Época. Luís Felipe de Alencastro já foi colunista da Veja. Luís Nassif e José Arbex já foram colunistas da Folha. Ao longo da década de 2000, o que existia de esquerda foi sendo gradualmente expulso, e a tradicional direita econômica que sempre teve muito peso, recebeu a companhia a direita olavete (tema do meu texto anterior aqui neste site), que passou a ter representação cada vez maior na grande mídia. O exemplo mais clássico da política desta grande mídia foi um “debate” na Globonews sobre “esquerda e direita”, apresentado por William Waack, que contou com a participação de Bolívar Lamounier, Luís Felipe Pondé e Reinaldo Azevedo, ou seja, um “debate” sobre “esquerda e direita” em que os quatro participantes eram de direita. Um estrangeiro que só sabe sobre o Brasil pelo que ele lê por esta mídia poderia pensar que aqui o único especialista em finanças públicas é Raul Veloso, o único especialista em previdência é Fábio Giambiagi, os únicos especialistas em mercado de trabalho são Amadeo e Pastore, os únicos especialistas em educação são Cláudio Moura de Castro e Gustavo Ioschpe, os únicos especialistas em tudo são Demétrio Magnoli, Marco Antônio Villa e Dênis Lehrer Rosenfield. Também vai pensar que Leandro Narloch e Ali Kamel são grandes pensadores em inúmeros assuntos. A Folha é o único jornalão que dá espaço para visões divergentes. Tem colunas do Luís Felipe Pondé, do João Pereira Coutinho e do Reinaldo Azevedo, mas também tem coluna do Jânio de Freitas, do Vladimir Safatle, do Guilherme Boulos e do Marcelo Freixo. Por causa dessa reputação de “isenta” na escolha de colunistas, a Folha também dá um passo a frente em comparação a outros jornais na divulgação de boataria. A atual partidarização não se restringe à grande mídia privada. Até a TV “pública” Cultura, do governo do estado de São Paulo, entrou nessa. Basta ver o que virou o Roda Viva.

Uma alternativa bem conhecida a esta grande mídia comercial são os chamados “sites progressistas”**, que acertam em alguns assuntos, mas em outros acabam se tornando mais um problema do que uma solução. O maior problema destes sites é que eles relativizam os escândalos de corrupção que envolvem lideranças do PT, com base no discurso do “sempre foi assim, todo mundo fez, mas é que agora está sendo mais investigado”. Se sempre foi assim, sempre foi errado. Se todo mundo fez, todo mundo está errado. Se agora está sendo mais investigado, nada mais é do que a obrigação. Além desta prática já ser ruim em si, gera um efeito nefasto adicional: perda de credibilidade. Algumas pessoas adquirem repulsa a estes sites e acabam desconsiderando até algumas opiniões acertadas que eles têm. Um dos acertos é fazer pesadas críticas à grande mídia comercial. Porém, muitas vezes isto é feito de maneira bastante equivocada. Critica-se muito quando esta mídia faz denúncias sobre políticos do PT. Uma vez ou outra é necessário criticar sim, principalmente a Veja, porque algumas denúncias são infundadas. Mas muitas outras não são. É obrigação da imprensa denunciar corrupção, mesmo que seja cometida por políticos “progressistas”. É necessário sim criticar a falta de vontade com a qual estes grandes grupos de mídia tratam de crimes cometidos por políticos de outros partidos e também de empresários, mas isto não deve ser utilizado como pretexto para passar pano no que é feito por políticos do PT. Os mencionados “sites progressistas” também exageram quando dizem que os grandes grupos de mídia estão sistematicamente atacando os governos Lula e Dilma. Os ataques sistemáticos são feitos pelas revistas semanais Veja e Época. Mas meios de grande circulação, como o Jornal Nacional e o portal G1, só fazem ataques ao governo quando existe algum sinal de “recaída” para a esquerda. Quando o governo está bem comportado, a relação é pacífica. Em uma sociedade aberta, existe imprensa que fala mal do governo. Isto é bom. Os grandes grupos devem ser mais criticados pela bajulação de existia e existe até hoje em relação a Fernando Henrique Cardoso do que pelos “ataques” a Lula.

Vejo no Trincheiras a possibilidade de ser um meio difusor de ideias que façam um contraponto ao Tea Party da grande mídia comercial brasileira sem imitar todo o conteúdo de sites “aperta 13 e confirma”.

E isto serve como um gancho para tratar de outro motivo pelo qual o choque da direita ganhou um ambiente favorável no Brasil em 2015: depois de 2002, a esquerda descuidou da disputa cultural. Think thanks da direita “liberal”, colunistas da direita “olavete” e fundamentalistas religiosos perceberam este espaço vazio e ocuparam. A esquerda governista passou a pensar que apenas eleger e reeleger Lula e Dilma era o suficiente. A esquerda oposicionista se ocupou por muito tempo com a defesa de demandas corporativistas, muitas delas justas (a palavra corporativista não tem necessariamente significado negativo), mas concentrar apenas nelas não ajuda convencer as pessoas de fora das corporações de que as demandas são justas.

Os ataques elitistas e pobrefóbicos contra os beneficiários do Bolsa Família e outros programas sociais que votam no Lula e na Dilma esconderam um fato: por motivos diferentes dos apontados por esta escória que não considera miseráveis como cidadãos, o PT deveria ter percebido que é preocupante sim ter passado a depender do voto dos miseráveis, que é muito volátil e que não é a base original do partido, e que enquanto isso, a base de apoio original do partido que são os operários, os servidores públicos e os universitários, estava indo embora. Alguns foram para o PSOL, mas a maioria foi para a direita.

A esquerda precisa recuperar seu espaço na discussão de ideias, sobre desigualdade de renda e riqueza, papel do Estado, minorias, religião, sexualidade, drogas, educação, segurança. Enquanto a direita lança livros de leitura fácil como os guias politicamente incorretos, o “Tudo que você precisa saber para ser um idiota”, o “País dos petralhas”, a esquerda no Brasil não faz isso. Os livros de divulgação para o grande público atualmente são estrangeiros: o “23 coisas…” do Chang, o “Consciência de um Liberal” do Paul Krugman, o “A melhor democracia que o dinheiro pode comprar”, do Greg Palast, o já mencionado “A doutrina do choque” da Naomi Klein. A esquerda precisa colocar para a sociedade suas ideias de forma fácil para ser compreendida. A esquerda precisa voltar a marcar forte presença nas artes.

Alguns colunistas como Leonardo Sakamoto, Gregório Duvivier, Mattheus Pichonelli e Laura Capriglione já perceberam isso e estão fazendo um ótimo trabalho na guerra cultural. Mas ainda é pouco. Acredito que o Trincheiras terá muito a contribuir.

*Para quem estiver interessado em comprar o livro da Naomi Klein, vale a pena. É muito bom. http://www.saraiva.com.br/a-doutrina-do-choque-a-ascensao-do-capitalismo-do-desastre-2576088.html

**Não incluo a revista Carta Capital e seu site neste conjunto de críticas. A revista vem exercendo um excelente papel recentemente

Comentários