Provocações Impertinentes: A esquerda que odeia a esquerda

“A modernidade líquida é um momento em que a sociabilidade humana experimenta uma transformação que pode ser sintetizada nos seguintes processos: a metamorfose do cidadão, sujeito de direitos, em indivíduo em busca de afirmação no espaço social; a passagem de estruturas de solidariedade coletiva para as de disputas e competição…” (Bauman)

Assim como muitos, fui expulso do grupo da Olavo de Carvalho nos Odeia, em que era membro desde a época do Orkut. Sempre valorizei a reunião de gente bem humorada e com boa bagagem política e histórica e acredito que essa conciliação era produtiva por lá ao ironizar o ícone do conservadorismo brasileiro. Nesse meio tempo, como de praxe no espaço virtual despersonalizado e opinativo, tive discussões e desafetos, mas nada que se aproximasse da arrogância e ódio pela diferença que alguns de seus membros tem cada vez mais cultivado sob o manto da parcialidade do julgamento dos seus colegas administradores.

Em época de opiniões políticas acirradas e que disputas ideológicas adquirem aspectos bélicos, é uma triste reflexão que essa intransigência impeça uma verdadeira união entre a(s) esquerda(s). Digo isso, para além da questão partidária, em que o PT é sangrado pelos limites de seu pragmatismo reformista e o PSOL ainda age com certo purismo de criança que não pisa na lama. Ou mesmo, para além da dicotomia que era motivo de piada no grupo, stalinistas governistas versus troskos do DCE. Ou, ainda, mais recentemente, a esquerda true “de pau duro” e os chamados pós-modernos.

Para além da lógica binária, há movimentos sociais, comunistas, foucaultianos, feministas, revolucionários, benjaminianos, social-democratas, anarquistas, militantes lgbt, humanistas, maoístas, libertários, etc. Todos, em seus graus, próximos ao que se construiu de ideário de esquerda. É, portanto, patético que pela incapacidade de respeitar a alteridade, se repudie um desses grupos por “não ser de esquerda o suficiente” ou “ser radical demais”, dando ainda mais munição para a ideologia predominante na sociedade brasileira, que é a de direita, untada como nunca (quem diria que fascistas e liberais estariam nesse love todo?). A situação das forças progressistas, ameaçada por conta da atual composição do Congresso e da reprodução do senso comum midiático por parte da população, só tende a piorar com esta animosidade dentro da própria esquerda.

Ultimamente tenho estudado a cultura negra e o panafricanismo; pensadores como Cheikh Anta Diop e Frantz Fanon, que focam no resgate ao mundo pré-europeu e na condenação veemente do racismo que perpassa a história da civilização ocidental. Ao identificar racismo no comportamento de um membro da Olavo de Carvalho nos Odeia, fui expulso do grupo sem nenhum aviso. Foi o mesmo dispositivo que fizeram com as feministas radicais (e outras nem tanto) ou defensores das manifestações de 2013. É o dispositivo de um tipo de esquerda que detesta a esquerda, que chegou em uma torre de marfim e não pensa em rever conceitos ou questionar privilégios.

Mas, enfim, não quero aqui chorar pitangas, apenas reiterar que com a ascensão da direita, que todos parecem concordar ser evidente, urge o restabelecimento de um diálogo firme mas amistoso, que encontre entre os discursos progressistas pontos em comum e não estimule a atual rivalidade das diferenças.

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