Resposta ao “Instituto Liberal”

Deu trabalho, mas respondi todas as 60 “perguntas desconcertantes” de um certo instituto liberaleco.

Tenho que dizer que estou decepcionado. Na maioria das vezes não são perguntas de verdade, são retóricas, com várias afirmações implícitas e falaciosas.

As “perguntas”, na verdade, não passavam de falácias, construídas sobre bonecos de palha e afirmações do consequente. O que fiz, na maior parte das vezes, foi desmontar a pergunta falaciosa, que por sua vez era uma resposta a um boneco de palha criado especialmente para os fins do apologista do capitalismo.A fonte das pérolas pode ser conferida aqui: http://naofo.de/67q2. Mas o texto das perguntas está devidamente copiado e respondido/comentado a seguir.

 1 – O capitalismo exclui os pobres.

Você quer dizer que o capitalismo é o sistema que dedica-se a produzir joias, roupas de grife, carros esportivos e aviões executivos?”

 Resposta: primeiramente, o capitalismo não “exclui os pobres”, ele integra um contingente grande da população em condições miseráveis. Pobreza não é uma essência da pessoa, é um estado de privação de um conjunto de coisas que são necessárias a vida, é um estado de não satisfação de necessidades individuais ou coletivas. Sendo assim, não falamos de joias, roupas de grifes, carros esportivos e aviões executivos, embora a pergunta retórica tenha sido um tanto estranha – ora, não é exatamente dos produtos de luxo inúteis que os pobres são excluídos, eles são excluídos dos produtos básicos antes disso, e do luxo nem se fala. Quem está de fora do consumo de luxo é a classe média.

“2 – O capitalismo gera pobreza.

Essa é a sua conclusão ao comparar a lista dos países de melhor qualidade de vida com a lista dos países com maior liberdade econômica?”

Resposta: Primeiro, o capitalismo é uma “economia-mundo”, e não uma característica de um e outro país isolado. A África subsaariana está inserida no capitalismo global, tanto quanto os Estados Unidos da América. O que muda é a posição no mundo capitalista. Sendo assim, não faz sentido tentar contra argumentar citando um e outro país, e excluindo da avaliação a maioria dos povos que vivem sob o modo de produção capitalista globalizado.

Segundo, o tal “índice de liberdade econômica” é uma farsa, manipulado de antemão para tentar parecer que anda de mãos dadas com a “qualidade de vida”. Se o próprio IDH é duvidoso, pois, apesar de incluir variáveis da educação e saúde ao lado da renda, ele mede apenas a média, desconsiderando as desigualdades, temos na tal “liberdade econômica” um embuste sem mais nem menos.

A metodologia do ranking da Heritage leva em conta algumas variáveis que nada tem a ver com liberalismo econômico, como a eficiência legal e administrativa do Estado – afinal, quem é contra? – e desconsidera um conjunto de variáveis, como a presença de empresas estatais na economia. O que contribui para elevar ao topo do índice de “liberalismo econômico” países com poderosas empresas estatais, alta tributação e alto salário mínimo. Mais detalhes de uma crítica metodológica podem ser conferidos aqui: https://conhecimentoeconomico.wordpress.com/2015/04/16/a-farsa-do-indice-heritage/.

Mas mesmo no que ao menos é coerente, o tal índice da Heritage é altamente contestável. O que se entende por “liberdade econômica”? Por favor, me explique qual é a “liberdade econômica” dos mendigos, desempregados, analfabetos e crianças abandonadas em comparação com a “liberdade econômica” dos riquíssimos especuladores financeiros e executivos dos grandes grupos empresariais? Se a tal “liberdade econômica” tem alguma definição, o próximo passo é perguntar qual é a sua distribuição num cenário de alta concentração de renda e patrimônio? Que liberdade econômica existe num mercado dominado por oligopólios privados? Por que, em um país com altos problemas de miséria de massas, o governo deveria ter como prioridade a austeridade fiscal? Por que países que ainda estão se industrializando deveriam praticar uma “abertura comercial”, deixando a indústria local ser destruída pela concorrência estrangeira?

Com toda a sua falta de critério objetivo e medível e fontes confiáveis, o índice de “liberdade econômica” é manipulada de modo que “coincida” aproximadamente com o ranking do IDH. O tal índice é divulgado pela fundação Heritage, uma organização privada ligada às elites empresariais e ao Partido Republicano dos Estados Unidos – dois grupos muito interessados na entrega das riquezas dos países subdesenvolvidos às empresas transnacionais estadunidenses mediante “privatizações” ou “concessões” que privatizam apenas os lucros, e nunca os prejuízos e riscos. Trata-se, portanto, de um reles instrumento de propaganda neoliberal, sem nenhum compromisso com a análise científica da realidade social.

“3 – O capitalismo cria desigualdades.

Você poderia apontar um regime socialista no qual seus líderes usufruem dos mesmos confortos que a população comum?”

Resposta: a pergunta não refutou a afirmação, apenas mudou de assunto. Se os ditos “regimes socialistas” não cumpriram muito do que prometeram, isso não deslegitima as críticas ao capitalismo, e menos ainda dá razão para os seus apologistas vulgares. Nem impede que, fazendo a crítica ao capitalismo, e também às tentativas mais ou menos mal sucedidas de superá-lo, sigamos buscando alternativas, que não se confundem nem com o modelo soviético-stalinista, nem tentam repeti-lo. E enquanto os apologistas vulgares utilizam de um truculento neomacarthismo imbecilizante, o capitalismo, na prática, segue reproduzindo e ampliando sistemicamente as desigualdades socioeconômicas, criando uma segregação social e concentração de riquezas inimagináveis nos piores momentos da União Soviética e nos países que seguiram o seu modelo.

 “4 – O capitalismo não valoriza os esforços do trabalhador.

Como o socialismo valoriza os esforços do trabalhador se ele cobra que todos os trabalhadores de uma mesma categoria devem receber os mesmos salários?”

Resposta: esta cai no mesmo caso que a anterior: a crítica ao capitalismo não pode ser deslegitimada por uma crítica ao modelo soviético-stalinista, dito “coletivismo burocrático”. Seria como se os ideólogos do Antigo Regime respondessem às críticas iluministas ao feudalismo e ao clero com ataques ao capitalismo que estava emergindo…

E faz menos sentido ainda quando tais críticas são inválidas, e até contraditórias entre si. Num momento, atacam o socialismo por não igualar o rendimento do trabalhador de chão de fábrica e do alto escalão burocrático, noutro momento atacam o socialismo por querer igualar os salários de todos… acontece que Marx disse muito bem que o socialismo significada “de cada um, segundo sua capacidade, a cada um, segundo o seu trabalho”. Em outras palavras, o socialismo seria a verdadeira “meritocracia”, onde a coletivização da propriedade dos meios de produção e o acesso universal à educação criariam a verdadeira “igualdade de oportunidades”.

 “5 – O capitalismo destrói a natureza.

Você consegue imaginar quantas árvores deixaram de ser cortadas desde o surgimento da informática e da internet?”

Resposta: deixe a imaginação de lado e preste atenção aos FATOS estudados por cientistas. Ou visite áreas ecologicamente degradas por empreendimentos econômicos. Quatro exemplos bastam para pensar nisso: a devastação do cerrado e da Amazônia pelo agronegócio; o envenenamento de alimentos, água, terra e vegetação por agrotóxicos; a poluição do ar pelas indústrias de combustíveis fósseis; a destruição desmesurada da terra, do ar e das águas pela mineração.

O aumento de concentração de carbono na atmosfera, segundo muitos cientistas do clima, cria riscos de aumentos na temperatura média do planeta, já constatados. Ainda que hajam algumas críticas às predições do IPCC da ONU (equipe internacional de cientistas que avalia o estado do clima), nem de longe a mudança climática global é uma ilusão, nem é descartável que seja produto da poluição atmosférica, e menos ainda é o único problema ambiental provocado pela atividade econômica capitalista.

A região onde eu moro é um lugar onde é impossível deixar os móveis e a casa limpos. Isso ocorre porque os em pouco tempo fica tudo coberto de um “pó preto”, que é minério de ferro. A atividade de algumas fábricas da Vale, Acelor Mittal, Samarco, etc polui impunemente o ar e as águas. As empresas são grandes financiadoras eleitorais, o que implica em terem um acobertamento fortíssimo dos seus crimes ambientais pelas autoridades locais.

 A devastação ambiental está tão ligada ao capitalismo que seu impacto segue a lógica de distribuição desigual: os desastres ambientais ao particularmente duros para quem está nos pontos mais baixos da estratificação social, mas são lucrativos para quem está nas posições socioeconômicas mais altas. Por outro lado, a única maneira que conter a degradação, e, como esperança, reequilibrar a relação entre sociedade e natureza, é mediante uma planificação ecológica das atividades econômicas. Porque de uma coisa tenho certeza, não é o livre mercado que vai prevenir a “vingança” do meio ambiente violentado.

 “6 – Os bancos exploram as pessoas mais pobres.

Você já comparou o quanto uma pessoa comum paga de anuidade de cartão de crédito em relação ao quanto esta mesma pessoa paga de impostos ao governo num único dia?”

 Resposta: atualmente os bancos privados não exploram “os mais pobres” apenas, o que já é bastante ruim: eles exploram países inteiros, por meio do sistema de dívida pública, ganhando enormes transferências diretas e (ao contrário do Bolsa-Família) não condicionadas do orçamento público, todos os anos. Então, quando você paga impostos, você está pagando também juros aos bancos.

Além disso, os bancos privados brasileiros formam um cartel que lucra praticamente com extorsão em massa: juros extorsivos sobre os devedores, taxas extorsivas sobre os correntistas, exploração draconiana sobre os seus próprios empregados (exceto os executivos), etc.

É bom lembrar que não se trata de ser “antibanqueiro”. Os juros bancários garantem aos grupos financeiros uma parte na distribuição da mais-valia e do orçamento público. São parte de um sistema de exploração maior, no qual os bancos privados estão muito integrados à indústria e à política. É à integração banco-indústria-governo que damos o nome de “capitalismo financeiro”.

 “7 – A publicidade capitalista induz as pessoas ao consumo.

São as propagandas na TV e os outdoors na rua promovendo a maconha, a cocaína e o crack que fazem as pessoas a consumir essas drogas?”

 Resposta: se a propaganda não induz ao consumo, por que as empresas investem tanto em marketing? Por que dizem que é “a alma do negócio”? Por que os políticos e partidos gastam tanto com propaganda eleitoral?

É por isso, igualmente, que a legalização das drogas hoje ilegais deve ser acompanhada pela proibição da sua propaganda comercial, junto com as demais drogas, hoje vendidas normalmente (bebidas alcoólicas, cigarros, remédios psiquiátricos, etc).

Um bom exemplo, ainda no setor de psicoativos, é que a proibição da propaganda comercial de cigarro foi bem sucedida na redução do consumo, acarretando melhoria na saúde pública: “Um em cada três brasileiros deixou de fumar depois que medidas que restringiram a propaganda de cigarros na TV e em veículos de comunicação de massa entraram em vigor. É o que mostra pesquisa da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas)  no lançamento da campanha “Tabaco: proíba publicidade, promoção e propaganda”, em atenção ao Dia Mundial sem Tabaco, comemorado em 31 de maio.” (ver aqui: http://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/noticia/2013-05-28/restricao-de-propaganda-de-cigarro-levou-33-dos-brasileiros-deixarem-de-fumar-diz-pesquisa; também aqui http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI1375265-EI298,00.html)

 “8 – A mídia manipula a população contra o governo.

Em qual sentido, já que a mídia há 12 anos noticia sucessivos casos de corrupção e mesmo assim o PT está em seu 4° mandato consecutivo?”

 Resposta: mais uma mudança de assunto. Mas vamos convir numa coisa: o problema não é “denunciar casos de corrupção”, é deixar de denunciar, criando a ilusão de que só um determinado partido é corrupto, por meio da autocensura.

A mesma mídia que berra o tempo inteiro contra casos de corrupção envolvendo gente da administração neopetista silenciou sobre a corrupção envolvendo os membros da ditadura militar-capitalista. É também a mesma que finge não ter visto nada sobre a Privataria Tucana.

A palavra censura não é exagerada quando falamos de um mercado, o de mídia, dominado por meia dúzia de famílias, associadas a uma dúzia de grupos empresariais. A preferência deles pelos tucanos é notória, principalmente porque tem escondido, censurado mesmo, vários casos de corrupção cometidos pelas administrações nacionais e locais tucanas: Privataria Tucana, Lista de Furnas, superfaturamento de contratos do metrô de São Paulo, etc.

A conivência dos oligopólios de mídia com os tucanos e outras forças direitistas é tão notória quanto a sua perseguição implacável contra agrupamentos de esquerda e até de centro. Trata-se, afinal, de grupos empresariais que cresceram ligados à Ditadura Militar-Capitalista de 64-85.

 “9 – O capitalismo cria necessidades que as pessoas não têm.

Necessidades do tipo… produtos de higiene pessoal, medicamentos, roupas, energia elétrica, meios de comunicação mais confiáveis do que pombos-correios, moradias mais confortáveis do que cavernas, veículos de transporte mais rápidos do que cavalos e armazenamento de dados mais eficientes do que pedras?”

 Resposta: A criação de novas necessidades é um fato humano inegável, e não nasce com o capitalismo. Por exemplo, hoje em dia temos uma necessidade de letramento e escolarização que era desconhecida há muitos séculos atrás. Durante o Império Romano, o crescimento da população urbana gerou necessidades que não existiam nas antigas comunidades rurais que serviram de base a Roma. O problema não é a produção das novas necessidades, é a privação da maioria quando há condições técnicas da sua satisfação. É neste sentido que se fala de pobreza relativa, exclusão, etc. De fato, em épocas anteriores era possível uma vida mais frugal, e hoje há várias necessidades novas. Mais que isso, não só há novas necessidades insatisfeitas, quando há perfeitas condições técnicas de satisfação universal, como também há ainda gente vivendo em condições dignas das piores cidades medievais. E ao mesmo tempo em que alguns poucos gozam de luxos inimagináveis para a maioria.

Para além disso, o fato de que a propaganda comercial induz continuamente a comprar produtos inúteis apenas para mostrar aos outros que os possui é visível, ou com base em promessas que serão frustradas logo após o consumo. Não, não estamos falando de produtos básicos, como higiene, eletrificação, medicamentos… falamos de gente que faz questão de exibir a “marca” das suas roupas e aparelhos eletrônicos caríssimos, passear com carros importados que fazem a mesma coisa que qualquer carro popular, etc.

 “10 – O capitalismo oprime o consumidor.

Você quer dizer que o capitalismo oprime as pessoas ao oferecer produtos e serviços cada vez mais variados e a preços cada vez mais baixos?”

Resposta: A crítica mais consistente ao capitalismo se faz relativa à esfera da produção, e não do consumo. Ainda assim, não é difícil apontar que muitos vendedores usam práticas desonestas e monopolistas para espoliar os consumidores, e por isso estes exigem fiscalização contra cartéis, adulteração, etc.Tente imaginar o Brasil sem o PROCON.

Quanto aos preços cada vez mais baixos… inflação mandou lembranças!

 “11 – Os países escandinavos são exemplos de sucesso do socialismo.

Você considera exemplos de países socialistas aqueles que registram as menores participações do Estado na economia, os maiores níveis de liberdade econômica, as maiores taxas de poupança, as legislações que mais garantem a propriedade privada e as políticas que mais restringem a imigração?”

Resposta: A pergunta é retórica, na medida em que ela pressupõe a própria resposta nas suas premissas.

Trata-se, no entanto, de pura e simples mentira. Os países escandinavos sustentam seu alto índice de desenvolvimento humano com investimentos públicos em educação, saúde, previdência, assistência e outros serviços públicos, com base em um sistema de impostos diretos, progressivos e MUITO altos e setores nacionalizados da economia (como o petróleo norueguês, entre outras indústrias importantes).

Sendo assim, dizer que estes países tem “baixa participação do Estado na economia” não é nada mais que mentira das piores, repetida mil vezes na esperança de fazer algum otário acreditar.

 “12 – Eu falo dos programas sociais desses países.

Se você enxerga que programa social é a mesma coisa que sistema político-econômico, então, devo considerar que você também enxerga como países socialistas Alemanha, Suíça, Canadá, Austrália, Singapura, Japão, Coreia do Sul e, claro, Estados Unidos, já que eles empenham amplos programas sociais?”

Resposta: os programas sociais são autorizados por determinada política econômica. Medidas neoliberais de privatização, desregulamentação, austeridade fiscal, etc, costumam levar ao sacrifício dos mecanismos de prestação dos direitos sociais dos cidadãos: sucateamento da educação e saúde públicas, privatização ou restrição da previdência pública, etc.

E relembrando mais uma coisa: o capitalismo é um sistema econômico mundial. A divisão em Estados é política. Sendo assim, restringir o capitalismo a países mais ricos e excluir dele a sua outra face é falacioso, desonesto, o tipo de baixaria típica de um simples apologista vulgar sem fundamentação científica alguma.

 “13 – Como escreveu Marx, o socialismo é inevitável, já que o capitalismo está fadado ao colapso.

Sendo assim, qual a razão do ativismo revolucionário socialista?”

Resposta: Se o escravismo e o feudalismo foram superados, por que o capitalismo seria o único modo de produção eterno? A história acaba quando começa o capitalismo? Sendo assim, a “inevitabilidade” do fim do capitalismo se deve à sua própria natureza de forma histórico-social de reprodução da existência social. O que não exclui a necessidade de ação coletiva para a resistência à presente exploração capitalista e construção de um futuro pós-capitalista.

Antes de reclamar do “ativismo revolucionário”, lembre-se que é ao mesmo que você deve uma série de regulações garantidoras de direitos sociais, como a legislação trabalhista ou a previdência e assistência médica públicas. Se a burguesia não se sentisse ameaçada por revolucionários, jamais faria concessões. Sequer teríamos sufrágio universal.

 “14 – Marx foi deturpado.

Você pode explicar como o socialismo científico de Marx seria viabilizado com sucesso sendo que ele ignora completamente o calculo de preços e, em consequência, o princípio da escassez?”

Resposta: A deturpação dos grandes pensadores não é exclusividade de Marx. Lembremos do caso extremo do triste destino dos escritos do poeta e filósofo Friedrich Nietzsche, literalmente adulterados por sua irmã reacionária, e posteriormente utilizados como justificação da ditadura nazifascista. Podemos igualmente lembrar do filósofo-economista Adam Smith, indevidamente apropriado por apologistas vulgares do capitalismo – deturpação essa que foi denunciada pelo próprio Marx, que apesar das suas críticas considerava ele (junto a Ricardo) como clássicos da economia política.

Também não deixa de ser estranho que a mesma direita que afirma com tanta leviandade uma tese de infinitude dos recursos naturais, logo em seguida vêm falar do “princípio da escassez”, como se Marx acreditasse que os produtos do trabalho fossem infinitos.

 “15 – A burguesia é egoísta, racista, fascista e homofóbica.

Você se sente uma aberração genética e social por ser branco, nascido e criado na burguesia mas, a despeito disso, tem a mente e o coração voltados apenas para o bem da humanidade?”

Resposta: embora eu não seja nascido na burguesia não vejo problema algum na pessoa bem nascida se preocupar com a sorte dos menos favorecidos pelo destino. Me dá nojo, isso sim, o servilismo de algumas pessoas desfavorecidas e o egoísmo da maioria dos ricos. Isso sim é digno de repúdio, e não a preocupação com o bem-estar coletivo, mesmo de quem nasceu privilegiado.

 “16 – Os capitalistas são preconceituosos.

Os socialistas não são preconceituosos ao afirmar sobre o caráter e sobre o merecimento das pessoas a partir dos seus endereços e de suas contas bancárias?”

Resposta: Jamais vi alguém dizendo que “os capitalistas”, no sentido de proprietários do capital, sejam preconceituosos APENAS eles. Há gente preconceituosa em todas as camadas sociais.

Mas é fato que o preconceito é útil ao capitalismo. Se o mercado capitalista pós-escravidão colonial, que temos em vários países das Américas, é particularmente duro com os negros e indígenas, o preconceito racial é útil para justificar a miséria e a violência em função da “inferioridade natural” dos que sofrem a miséria, da mesma forma que o mito das “raças superiores” serve para legitimar a concentração de riquezas. O moralismo de fachada é hábil em legitimar a violência e a pobreza como “merecidas” por aqueles que as sofrem. Quem julga as pessoas por seu endereço e renda não é o socialismo. É uma cultura reacionária que serve a uma ordem desigual e injusta.

“17 – Os mais pobres estão se conscientizando sobre os males do capitalismo.

Você poderia apontar alguma pesquisa que mostra que a maioria da população mais pobre não tem ambições capitalistas, que não deseja acumular capital e propriedade?”

Resposta: não me lembro bem de ter ouvido essa afirmação um dia. Mas pelo menos uma parte dos trabalhadores tomou consciência: eles integram os movimentos sem-terras e sem-tetos, o sindicalismo independente, participaram das Jornadas de Junho reivindicando melhores condições coletivas, etc.

 “18 – O liberalismo defende que as grandes empresas tenham liberdade para fazer o que bem entenderem.

Qual foi o último livro de autor liberal que você leu?”

Resposta: já na graduação em Ciências Sociais eu li vários: John Locke, Charles Montesquieu, Aléxis Tocqueville, Raymond Aron, Anthony Downs, etc. Sem falar dos sociais-liberais, que aceitam uma parte das críticas ao capitalismo, mas ainda alimentam ilusões quanto ao sistema socioeconômico dominante.

Mas a crítica sobre a relação entre grandes empresas privadas e liberalismo econômico tem como alvo a prática, e não a abstrações livrescas. As políticas de “livre-mercado”, historicamente, são implantadas de maneira bastante seletiva, em prejuízo dos trabalhadores e das nações oprimidas, e em benefício da alta burguesia e dos Estados imperialistas.

É no mínimo contraditório reclamar quando é dito que Marx é deturpado e logo em seguida reclamar dizendo que os liberais clássicos foram deturpado.

“19 – Os empresários só pensam no lucro.

Você sabia que para um empresário obter lucro, antes ele precisa pagar salários, fornecedores, impostos, encargos e ainda satisfazer seus clientes?”

Resposta: Os empresários capitalistas, individualmente, podem até pensar na proteção dos direitos dos animais e em apoiar as artes. Como classe, a burguesia tende a subordinar todas as esferas sociais ao imperativo do lucro e da defesa da sua própria dominação classista. Todo resto é apenas instrumental em relação aos fins da lucratividade e defesa do status quo.

 “20 – Os empresários nunca pagam salários justos.

Você não acha que já está na hora dos socialistas montarem suas próprias empresas e começar a produzir de acordo com as relações de trabalho que eles tanto pregam?”

 Resposta: Isso já foi feito por um dos primeiros escritores socialistas, o britânico Robert Owen. Na fábrica que ele administrava, implantou creches, escolas, condições de trabalho descentes e salários razoáveis. Ele mesmo chegou à conclusão de que não havia solução privada para os males do capitalismo, e por isso passou a pregar uma reforma social mais ampla, por meios políticos. Ele e outros socialistas tentaram construir comunidades autogestionárias isoladas, o que não contribuiu para mudar a ordem existente. Foi depois destes experimentos que os socialistas se convenceram que só por meios políticos é possível combater a exploração.

Ler um pouco antes de falar bobagem não faz mal a ninguém.

“21 – O Estado tem que cobrar mais impostos dos mais ricos.

Você aceitaria que o condomínio onde você mora decidisse cobrar mensalidades e taxas proporcionais à renda de cada morador?”

 Resposta: Não moro em condomínio, mas se morasse acharia ótimo que as taxas de condomínio fossem progressivas em relação à renda dos moradores. Inclusive isso permitiria certa diversificação da origem social dos moradores.

“22 – O governo faz bem ao gerar emprego em sua própria máquina administrativa.

Você aceitaria que o condomínio de seu prédio contratasse ascensoristas?”

Resposta: não conheço ninguém, absolutamente NINGUÉM que apoie “cabides de empregos”.

Mas atribuir práticas clientelistas e patrimonialistas tradicionais à esquerda é de uma desonestidade das mais baixas.

Afinal de contas, o Brasil teve e ainda tem governos de direita que eram sistematicamente clientelistas e patrimonialistas.

A prática do concurso público, aliás, cresceu bastante exatamente quando tivemos um presidente de centro-esquerda governando por 8 anos.

E se quiser verificar por conta própria, pode notar que atualmente os ascensoristas em prédios são empregados terceirizados de empresas privadas, contratadas pelo governo (federal, estadual e municipal) para favorecer os lucros dos seus donos.

Quer dizer, é um elemento do capitalismo brasileiro…

“23 – O trabalhador tem que ter estabilidade de emprego, não pode ficar a mercê da vontade do patrão.

Você contrataria alguém que não possa demitir?”

Resposta: Talvez essa parte aqui deveria estar entre as primeiras perguntas… é claro que não aparece no topo, porque o apologista vulgar do capitalismo não pode bater no trabalhador assalariado (maioria da população) logo de cara… Pois bem, pergunte isso ao trabalhador: é bom para ele viver sob constante risco e insegurança dos seus rendimentos? É bom não ter garantia nenhuma contra o despotismo patronal? Ou quem fez a pergunta jamais trabalhou na vida?

 “24 – A iniciativa privada corrompe o Estado.

Seguindo este raciocínio, o policial corrupto deve ser tratado como vítima?”

 Resposta: A relação entre o corruptor e o corrompido não é de autor-vítima, mas sim de coparticipantes, cúmplices, do mesmo crime.

 “25 – O capitalismo corrompe a arte.

Você já procurou saber que a grande maioria dos eventos e projetos culturais são bancados pelo governo?”

Resposta: Primeiro, o governo é composto por capitalistas e geralmente age no sentido de garantir as condições de funcionamento do mercado capitalista. Sendo assim, faz pouco sentido opor governo e capitalismo, pois o que temos, na prática, é um governo capitalista.

Segundo, se a cultura depende de subsídio público… significa que o mercado não seria capaz de garantir o acesso das massas à cultura?

Terceiro, “corromper” é um termo com uma carga moralista muito forte, e a crítica à industrial cultural não trata disso, mas à subordinação da produção cultural ao mercado capitalista, ou seja, aos objetivos de lucro dos oligopólios privados (grupos empresariais), o que coloca os produtores imediatos (artista) sob intensa pressão, restringindo a sua autonomia criativa e favorecendo o conservadorismo estético, moral e político.

 “26 – O governo tem que proteger a sociedade do capital financeiro.

Quem protege a sociedade do governo?”

 Resposta: Na verdade o problema atual é o entrelaçamento entre o governo e o capital financeiro. Isso é parte da sociedade capitalista, e não um confronto entre governo de um lado, e sociedade pelo outro. Até porque os governantes vêm da sociedade, que não é unitária e homogênea, mas dividida em classes antagônicas.

 “27 – O Estado tem que proteger a sociedade dos monopólios privados.

Quem protege a sociedade do monopólio estatal?”

Resposta: Numa pergunta, o debatedor nega que o liberalismo econômico prático seja a defesa da supremacia das grandes empresas… Noutra, ele ataca a regulamentação antimonopólio.

De qualquer maneira, um monopólio público é sempre melhor que um monopólio privado. E por que? A) Sobre o monopólio estatal há um controle por meio da pressão política sobre o governo, melhor ainda se for um governo eleito e participativo; b) O monopólio privado tente a se tornar uma “zona cinzenta” entre Estado e mercado, pois exerce poderes coativos privatizados, mais ou menos como os senhores de escravos do passado. Se os cidadãos podem exercer algum controle sobre o monopólio estatal, quando o governo é democrático, no monopólio privado são os empresários que controlam o mercado para extrair o máximo lucro.

 “28 – A iniciativa privada também comete seus abusos e oferece maus serviços.

O que lhe causaria mais indignação: ser assaltado por um ladrão qualquer ou por um policial?”

 Resposta: Ora, se admitem que há falhas na iniciativa privada também, que os empresários são tão falhos quanto os burocratas, quer dizer que o debate evoluiu um pouco! Mas a coisa foi tão longe que agora os empresários capitalistas são comparados a um “ladrão qualquer”. Calma amiguinho, a exploração capitalista é uma lógica sistêmica! Embora muitos ricos sejam criminosos de colarinho branco (de fato, os estudos sobre o assunto chegaram à conclusão de que a criminalidade financeira e administrativa é pandêmica), mesmo sendo pessoas honestas o lucro deles vêm ainda da mais-valia.

 “29 – Enquanto o Estado não controlar os principais meios de produção, a sociedade será refém da ganância e da corrupção dos capitalistas.

Quem garantiria à sociedade que os agentes do governo que viessem a controlar os principais meios de produção não seriam igualmente ou mais gananciosos e corruptos que àqueles que viessem a ser depostos?”

 Resposta: mais uma vez, que bom que o debate evoluiu o bastante para constatar que o descontrole favorece gente gananciosa e corrupta! Se burocratas e empresários se igualam, então ambos devem estar submetidos a um rigoroso controle democrático participativo, pois a corrupção burocrática não é desculpa para deixar o povo refém da ganância dos capitalistas.

 “30 – É papel do Estado promover a justiça social.

Como o Estado conseguiria saber o que cada indivíduo merece?”

 Resposta: O primeiro pressuposto é a igualdade. Todo cidadão deve ter direito à assistência médica e instrução escolar gratuita, entre outros direitos, em iguais condições de acesso. O segundo pressuposto é a diversidade: algumas pessoas têm dificuldades ou deficiências especiais, que precisam ser compensados. Alguns são cegos, outros surdos, outros Down, perderam membros do corpo em acidentes tiveram má formação por doenças, são idosos, crianças, mulheres grávidas, moram longe dos locais de estudo ou atendimento, etc. Terceiro, temos o último critério, de merecimento por desempenho acadêmico, laboral e cívico, que só funciona realmente quando os dois primeiros (igualdade e diversidade) estão estabelecidos.

 “31 – Não é justo uns poucos terem muito enquanto a maioria tem tão pouco.

Quando você passa por um bairro rico e por um bairro pobre você consegue, só de olhar, saber que todos os moradores do primeiro são pessoas de péssima índole e que todos os moradores do segundo são pessoas dotadas de caráter admirável?”

 Resposta: Se você atravessa a rua, por que o céu é azul? Não estamos falando de “índole moral”, e sim de uma distribuição de riquezas que tem como principal explicação as desigualdades pré-existentes. É por ser filho de um rico ou de um pobre que alguém é rico ou pobre, no geral. A posição socioeconômica se transmite ao longo das gerações. Sendo assim, a “índole” boa ou má tem pouca relação – exceto pelo fato de os ricos geralmente se sentirem superiores por causa de uma riqueza que eles devem ao acaso, favores ou até a condutas inescrupulosas.

 “32 – A diminuição da maioridade penal não diminuirá a violência urbana.

Devemos, então, deixar solto um assassino, já que sua prisão não resolveria o problema da violência urbana?”

 Resposta: O perguntador simplesmente não sabe a diferença entre responsabilidade criminal e idade penal, além de não ter lido o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Adolescentes que matam NÃO ficam soltos. O regime penal diferenciado não implica em “impunidade”.

O verdadeiro problema é que a punição é seletiva, o modelo de segurança dominante é militarizado e repressivo e não há prevenção social efetiva para o crime violento. Tudo fica por conta de uma repressão militarizada que tenta apagar incêndios com gasolina.

Enfim, não deixa de ser curioso que a demonização da justiça redistributiva promovida por “o governo” venha acompanhado de uma defesa da expansão do braço punitivo do Estado.

Um antiestatismo bem seletivo, não? Tão seletivo quanto a expansão do aparelho punitivo defendido pela direita.

 “33– A violência urbana é uma reação das classes mais baixas à ostentação burguesa.

Sob esta ótica, o estupro é uma reação dos homens solitários à forma sensual com a qual algumas mulheres se vestem?”

 Resposta: O capitalismo é estruturalmente violento, assim como todas as formas de dominação de classe anteriores, da mesma forma que a dominação masculina é necessariamente violenta, mesmo quando disfarçada por cavalheirismos. A criminalidade violenta que assola as nossas grandes cidades não é uma “reação das classes mais baixas”, e sim uma consequência sistêmica que atinge com particular crueldade as camadas subalternas e os povos oprimidas.

 “34 – Todos têm direito a vida.

Por que, então, cada indivíduo não pode defender sua própria vida?”

 Resposta: quer dizer então que a direita discorda do direito à vida? Ela acha que algumas pessoas podem ser mortas impunemente?

 “35 – A liberação do porte de armas aumentaria a violência.

Seguindo seu raciocínio, se liberarem o consumo de drogas como você defende, mais pessoas passariam a se drogar?”

Resposta: Particularmente não sou partidário do “desarmamento”, mas tampouco de “liberação”. O direito de se armar para autodefesa deve ser bem regulamentado. Também sou favorável à legalização das drogas: como uma regulamentação rigorosa.

Mas ainda assim achei a analogia um lixo. São dois problemas diferentes. Se drogas fazem mal, é um mal que é feito ao usuário a si mesmo. Já as armas podem ser utilizadas facilmente para matar o semelhante. Ainda que nos dois casos eu defenda uma regulamentação rigorosa, ao invés da proibição.

 “36 – Todos têm direito a educação, saúde, moradia, alimentação, lazer e transporte.

E se todos resolverem parar de trabalhar e esperar que o governo lhes ofereça tudo isso?”

Resposta: então a direita é contra a educação, saúde, moradia, alimentação, lazer e transporte serem direitos de todos?

E se os direitos estiverem garantidos o povo vai imediatamente fazer uma greve geral? Ora, mas as greves não são motivadas pelo não cumprimento dos direitos sociais?

Mais um capítulo do “Fantástico mundo dos apologistas do capitalismo”.

 “37 – As mulheres devem ter mais espaço na política.

Elas querem?”

 Resposta: não cara, as mulheres querem mais é serem excluídas de todas as decisões políticas, especialmente as que dizem respeito diretamente a elas!

 “38 – A ditadura militar brasileira foi financiada pelos Estados Unidos.

Os grupos que lutavam contra a ditadura brasileira eram patrocinados por quem?”

 Resposta: Ninguém os financiava. Um grupo reduzido de militantes treinou guerrilha em Cuba, quando exilados. Alguns pequenos grupos adquiriram recursos tomando dinheiro de bancos e armas de quartéis.

Não acho que a ação armada contra uma ditadura terrorista como aquela estava errada, mas é bom frisar que a guerrilha urbana e rural era minoritária entre os opositores. As maiores ações contra a ditadura militar-capitalista foram protestos de rua, arte contestadora e greves operárias. E não tinha ninguém financiando, apenas gente indignada com o regime de miséria e terror imposto pelos generais corruptos – ao contrário destes mesmos generais e seus agentes, que eram bancados por grandes empresas e pelo governo estadunidense.

 “39 – Os interesses coletivos devem prevalecer sobre os interesses individuais.

Sendo assim, uma sociedade de maioria homofóbica tem o direito de intimidar, perseguir e matar gays?”

Resposta: Existe uma diferença profunda entre interesses e preconceitos coletivos. Sendo assim, não é objetivamente do interesse da maioria a violência contra os gays. Na verdade, desviar o foco dos conflitos estruturais do capitalismo para minorias estigmatizadas é uma estratégia muito utilizada por elites capitalistas – como as que apoiaram os esquadrões dos fascistas na Europa e da KKK nos EUA.

 “40 – O socialismo luta pelos direitos dos gays, dos negros e das mulheres.

Por que, então, os socialistas repudiam os Estados Unidos, o país governado por um negro de origem pobre, onde os gays e as mulheres mais gozam de liberdade?”

Resposta: A esquerda criticava os Estados Unidos muito antes do “negro de origem pobre” sentar no trono imperial, e continua criticando porque ele não mudou aquilo que era objeto da crítica da esquerda (inclusive a esquerda de dentro dos EUA): o imperialismo militar, financeiro e cultural e a segregação classista-racial interna. Obama foi uma boa estratégia de marketing e enlouqueceu os conservadores extremos, o que levou uma parte da esquerda a defendê-lo pragmaticamente. Mas ele foi incapaz, sequer, de acabar com o campo de concentração de Guantánamo e suspender o embargo sobre Cuba. Para piorar, está mandando drones matarem “suspeitos de terrorismo”, o que, além de ser uma execução sumária e extrajudicial, leva pelo menos 10 inocentes para cada suspeito morto. Os EUA continuam financiando governos ou opositores terroristas, de acordo com o interesse das suas megaempresas.

 “41 – Todos devem ser tratados igualmente.

Por que, então, vocês cobram tratamento especial a gays, negros, mulheres e líderes dos movimentos de esquerda?”

 Resposta: Não cobramos “tratamento especial”. A desigualdade é imposta pela estrutura socioeconômica capitalista e tradições mais antigas, enraizadas em hábitos mentais internalizados e pré-reflexivos, uma espécie de “inconsciente sociocultural”. Sendo assim, o que se busca é realizar uma igualdade social mais ampla, o que exige a derrubada de preconceitos arcaicos, que as pessoas aprendem a reproduzir sem pensar.

 “42 – Cobrar o fim da CLT é uma atitude fascista.

Mas a CLT não foi criada por Getúlio Vargas, o ditador brasileiro que inspirou-se em Mussolini, o ditador fascista italiano?”

 Resposta: Vargas não foi apenas ditador, tendo em vista que inicialmente ele derrubou um governo oligárquico e antidemocrático, e convocou uma assembleia constituinte democrática. Mesmo depois de ter imposto quase 10 anos de ditadura (contando o período de estado de sítio e o autogolpe estadonovista), foi eleito democraticamente. É um político com um legado complexo e contraditório, odioso por suas arbitrariedades contra opositores comunistas durante o período ditatorial, mas que tomou medidas importantes, levado por seu nacionalismo terceiro-mundista.

O mito de que a CLT se inspirou na legislação corporativista de Mussolini é bastante difundido, mas é… um mito. O que Vargas copiou do fascismo italiano foi a organização sindical corporativista, subordinada ao governo central. Já a compilação de direitos trabalhistas foi uma criação original, inspirada na legislação de vários países.

Agora a pergunta: por que o ataque à CLT não está entre as primeiras perguntas, já que é um dos principais objetivos do liberalismo econômico brasileiro? Tem medo de os trabalhadores torcerem o nariz, e por isso ficam enrolando com demagogia direitista contra impostos, “o governo” e outras babaquices?

 “43 – Eu só quero que mais pessoas tenham acesso aos produtos, serviços e tecnologias produzidas pelo capitalismo.

Como o socialismo espera atingir esse objetivo agindo contra o capitalismo?”

 Resposta: dizer que o socialismo extinguiria a tecnologia criada sob o capitalismo (e não “pelo capitalismo”, uma distinção sutil e importante) seria como dizer que o capitalismo extinguiu as técnicas agrícolas desenvolvidas nos milênios anteriores à formação da economia-mundo capitalista. É de uma desonestidade ímpar.

 “44 – A pobreza na África é resultado do capitalismo.

Você quer dizer que antes a África era um próspero continente povoado por inúmeras tribos que amavam umas as outras?”

 Resposta: Então por que o maravilhoso capitalismo não foi capaz de elevar as massas africanas a um nível de vida razoável? Quer dizer que a imposição do capitalismo na África não serviu para nada além de devastar as antigas formas estáveis de comunidade, tornando ainda mais miserável a vida das massas e enriquecendo ainda mais os imperialistas europeus e estadunidenses e seus tiranos-clientes africanos?

Que sistema extraordinário!

 “45 – O governo deve controlar o lucro das empresas.

E se os donos das empresas não aceitarem?”

 Resposta: que se tornem trabalhadores… ou não querem?

 “46 – O Estado deve intervir para fazê-las funcionar em função do interesse social.

Lembrando que isso já foi feito em muitos países e deu tragicamente errado em todos eles, qual a garantia de que com vocês tudo seria diferente?”

 Resposta: Em qual país, e segundo quais fontes de informação confiáveis e consistentes, isso foi feito com “trágicas consequências”?

 “47 – Não sou comunista.

Como você enxergaria alguém que vota e defende pessoas e partidos que realizam eventos e fazem referência positiva a ideias, personagens e símbolos nazistas?”

Resposta: Com repúdio total. Mas a “nova” extrema-direita neoliberal não abandonou os métodos e ideias da antiga extrema-direita fascista, apenas deu uma nova roupagem, repudiando apenas os símbolos e as “caras” do fascismo, enquanto se apropriam das suas práticas. Para mim, quem usa métodos fascistas para impor programas econômicos neoliberais é tão repugnante quanto o imbecil anabolizado semianalfabeto que idolatra Hitler.

 “48 – Cuba foi vítima do embargo econômico dos Estados Unidos.

Lembrando que uma das principais ideias da Revolução Cubana era o rompimento das relações comerciais com os Estados Unidos, por que Cuba não se desenvolveu economicamente relacionando-se com outros países?”

 Resposta: Foi o que Cuba fez durante décadas: trocou a dependência econômica em relação soa Estados Unidos pela dependência econômica em relação ao bloco soviético. Quando a onda de privatizações desmantelou o socialismo burocrático no antigo bloco soviético é que Cuba entrou em uma crise profunda. Detalhe importante: o embargo estadunidense não pune apenas o comércio bilateral Cuba/EUA, mas também terceiros. Se um produto tiver uma única peça estadunidense, não pode ser vendido a Cuba. Se alguma coisa tiver um único produto cubano em sua composição, não pode ser importado pelos EUA. Veículos que transporte mercadorias e pessoas de ou para Cuba não podem fazer o mesmo de ou para os EUA. Qualquer cubano que pisar numa praia do Estado da Flórida ganha automaticamente cidadania estadunidense, enquanto imigrantes do restante do mundo sofrem na ilegalidade. Lembrando que a ideia da Revolução Cubana não era guerrear com os Estados Unidos, mas derrubar o antigo regime-cliente de Fulgéncio Batista e promover a justiça social dentro de Cuba, o que, diga-se de passagem, conseguiu.

Estude um pouquinho as coisas, antes de pôr-se a falar asneiras.

 “49 – A medicina de Cuba é muito avançada.

Onde são fabricados os equipamentos utilizados na medicina cubana?”

 Resposta: quem elogia a saúde pública cubana é a Organização Mundial da Saúde, a Unicef e até o Banco Mundial. A esquerda apenas cita. Reclama com a OMS, a UNICEF e o Banco Mundial “comunistas”!

 “50 – A educação cubana é uma das melhores do mundo.

Ao cidadão cubano, para que lhe serve a educação?”

 Resposta: para se tornar médico, diplomata, engenheiro, técnico industrial, professor, para ler e escrever, praticar esportes e artes, etc.

 “51 – Ninguém morre de fome em Cuba.

Cuba é uma ditadura do bem?”

 Resposta: Se as rosas são vermelhas, por que você bebe cerveja? Se ninguém morre de fome em Cuba, ao contrário do que ocorrem em quase todos os lugares do mundo capitalista, isso não é digno de elogio?

Eu só gostaria de entender qual é a lógica que leva alguém a dizer que um regime policialesco e militarista dominado por uma oligarquia financeira bipartidária, como os Estados Unidos, é uma grande democracia, enquanto um governo parlamentarista eleito, como Cuba, é uma ditadura só ser “de partido único”, mas com candidatos indicados por comunidades locais e sem necessariamente serem filiados ao partido comunista.

 “52 – Eu não defendo o governo de Cuba, nem da Venezuela.

Quais suas críticas aos dois governos?”

 Resposta: várias, mas é preciso separar o que é limitação contextual do que é decisão errada dos governos.

 “53 – Eu apoio a Rússia, o Irã e a Palestina apenas por eles fazerem frente ao imperialismo norte-americano.

Então você, que defende a causa dos gays, dos negros e das mulheres apoia governos oficialmente homofóbicos, racistas e machistas apenas por eles fazerem frente aos Estados Unidos, aquele país construído por imigrantes, cuja presidente de sua maior empresa privada é uma transexual?”

Resposta: Eu não apoio a política interna da Rússia, Irã ou “Palestina” (que nem é país ainda!), eu repudio a agressão imperialista contra quaisquer países.

O imperialismo não está interessado na sorte dos que são perseguidos e estigmatizados, apenas em espoliar o povo. Prova disso está na aliança entre as elites dos EUA, Inglaterra e França com a monarquia saudita, um regime despótico e fanático que aplica pena de morte por “bruxaria” e “ateísmo”.

Aí devolvo a pergunta: e você que estigmatiza a militância negra, feminista e LGBT, mas critica quando o governo russo ou iraniano persegue gays?

 “54 – É hipocrisia crucificar o PT. Não foi ele quem inventou a corrupção.

Devemos, então, deixar solto um estuprador, já que não foi ele quem inventou o estupro?”

 Resposta: Então você só quer punir o cara com a camisa vermelha e acobertar o crime dos outros, que usam camisas, azuis, verdes e amarelas? Se vários grupos cometem crimes semelhantes, e você só critica um deles por isso, é hipocrisia SIM.

 “55– O PT reduziu drasticamente a pobreza no Brasil.

Considerando que o governo do PT estabeleceu que uma pessoa só deve ser qualificada como pobre se tiver renda abaixo de R$ 291, em qual classe social você enquadra o porteiro do prédio onde você mora?”

 Resposta: Os dados disponíveis indicam sim uma redução da desigualdade salarial, do desemprego e da informalidade do trabalho no período petista no governo federal, e por conseguinte das formas mais brutais de miséria. Os defensores do governo exageraram, mas é inegável que hoje há menos fome e desemprego no país.

Mas se quiser brigar com os fatos: boa sorte.

 “56 – O PT é vítima de uma conspiração das elites capitalistas.

O PT é inocente de quais acusações?”

 Resposta: Dados do Tribunal Superior Eleitoral mostram que o PT é financiado por elites capitalista. O que não impede que outra parte das elites capitalistas tenha interesse em desestabilizar o governo eleito, para forçá-lo a ceder em assuntos do seu interesse. Em situação crítica, amplos setores da elite capitalista podem sim conspirar para derrubar o atual governo eleito e substituí-lo por alguém de sua preferência.

 “57 – Não há base legal para um processo de Impeachment contra Dilma.

Você pensaria da mesma maneira se as mesmas acusações pesassem sobre um presidente da república de um partido não alinhado à suas convicções ideológicas?”

Resposta: Nada disso elimina o fato de que não há fundamento jurídico para impeachment contra a Dilma Rousseff.

Mas há fundamento jurídico para o impedimento de Eduardo Cunha, por ter violado a Constituição repetindo votações perdidas.

Mas isso a direita ama, porque foi para aprovar coisas que ela defende!

 “58 – O governo FHC quebrou o Brasil.

Devo concluir que você reconhece os governos Sarney e Collor-Itamar como ótimas administrações?”

Resposta: Engraçado atacar o Itamar para defender o FHC, porque o “príncipe” foi eleito se apropriando de um ato do governo Itamar Franco: o Plano Real.

Sim, o Plano Real foi implementado no governo Itamar, meses antes de FHC se tornar ministro da fazenda (cargo do qual ele saiu rapidinho, o que mostra mais ainda que foi uma pura operação de marketing).

E não, não preciso elogiar Sarney, ou Collor, ou qualquer outro pulha que tenha ocupado a cadeira presidencial antes para atacar o FHC.

Ou eu devo supor que pela direita atacar raivosamente o Lula eles acham que o Collor foi um maravilhoso presidente?

 “59 – As classe mais baixas reconhecem que foi graças ao PT que elas melhoraram de vida.

Você conhece a pesquisa realizada pelo Instituto DataFavela em 63 favelas brasileiras, na qual comprova-se que apenas 4% de seus moradores afirmam ter melhorado de vida por causa de programas do governo?”

 Resposta: O que não quer dizer nada, pois uma grande massa de pessoas pode ser beneficiada por um programa sem se darem conta disso. Prova são talvez os liberalecos que são beneficiados por vários subsídios e ficam berrando e choramingando na internet contra o Estado Malvadão.

Também não deixa de ser muito esquisito negar que o aumento gradual do salário mínimo, o Bolsa-Família e o incentivo ao emprego não tenham melhorado a vida de ninguém.

Apresente uma tese de doutorado dizendo que a redução da pobreza não teve nada a ver com os programas sociais, e vou pensar se dou ouvidos a tais asneiras.

 “60 – Não sou petista.

De quais acusações o PT é culpado?”

 Resposta: De se preocupar mais em pagar a dívida pública que em investir na educação, saúde, infraestrutura, de ser conivente com heranças maléficas do governo FHC e da ditadura militar-capitalista, de desmobilizar os movimentos populares e se aliar a grotescos políticos ruralistas e fundamentalistas.

POR: Matheus Boni

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