Telemarketing: A Precarização Consentida

Muito se fala (mal) sobre o Telemarketing, porém poucos conhecem a realidade desse meio, local onde costumeiramente é primeiro emprego de muitos jovens, ou pais/mães de família sem condições de manter pessoas para cuidar dos filhos e filhas, pessoas já com ensino superior completo, porém com dificuldade para se adequar ao mercado de trabalho.

O que vemos nessa área é uma perfeita demonstração de como a terceirização age, provocando como conseqüência a precarização do trabalhador. Como a empresa contratante usa de empresas terceiras para a manutenção de um serviço, que na linguagem interna é chamado de produto, pode-se pagar menos que o valor real do serviço, gerando mais valor, pode-se demitir mais facilmente funcionários por conta da qualificação ser inferior, pode-se obter lucros enormes mesmo que os supervisores digam aos colaboradores que a empresa só toma prejuízo, etc.

Isso é um resumo de obviedades. Agora, tratemos do título do texto: Porque tal situação é consentida, seja pelo trabalhador, seja pelo estado burguês? Levantemos algumas hipóteses:

1) Sindicatos cooptados pelo poder (o famoso Peleguismo): Por conta de fatores citados no segundo trabalho, 95% dos trabalhadores da área (desculpem não dispor de fontes com dados, porém, minha experiência profissional na Mobitel/Dedic, Contax e TIVIT me permitem afirmar com segurança isso) não tem consciência da exploração diária que sofrem, mesmo sendo comum jornadas de trabalho em escalas 6×1, o que gera uma situação muito confortável para os burgueses que lucram na área, daí pra um Sindicato como a Força Sindical (não preciso dizer nada sobre Paulinho da Força, né?) controlar o SINTRATEL, o sindicato da categoria do estado de SP é fácil… E o pior, você tem rendimentos descontados para esses parasitas que não fazem nada por ti…

2) Avanço da Terceirização: Vimos que recente nosso congresso, infelizmente atualmente dominado por uma maioria conservadora, capitaneado pelo intragável Deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) recentemente tentou avançar diversos projetos para implantar a legalização da terceirização em serviços da esfera pública. Ora, se empresários já possuem tamanha força, para que tudo dentro do estado burguês democrático possa ser terceirizado, sendo que os serviços públicos são aqueles de acesso universal, conseguiriam fazer algo que só aumentaria a desigualdade social, imagine então no ramo aonde a terceirização ocorre desde sempre? Comentei anteriormente sobre o funcionamento superficial disso, então vou citar dois exemplos práticos pessoais sobre como uma empresa com serviço terceirizado obtém mais valor à custa da exploração abusiva; Em três empresas diferentes, só vi apenas UM funcionário ser contratado pela empresa principal, sendo que somados trabalhei na área 5 anos e 7 meses, e quando trabalhei para o produto final sendo um banco, o gerente de uma agência ganhava por volta de R$ 2.000,00 para fazer um serviço que eu fazendo o mesmo, e tendo mais conhecimento prático da tarefa ganhava R$ 950,00.

3) Falta de proximidade da esquerda e dos cidadãos progressistas: Nesses mesmos anos de trabalho, em conjunto com a militância (militei em algumas organizações de esquerda, de grande à pequeno porte), naturalmente conheci camaradas de esquerda e esquerda revolucionária que trabalharam na área em alguns momentos de suas vidas, porém militância prática dentro das empresas não existe. E sim, já levantei a pauta nessas organizações. Claro que o aparato repressivo moral é terrível, mas a falta de apoio é latente. E pra piorar, muitas pessoas de esquerda/esquerda revolucionária tratam com descaso o operador, um problema terrível, o setor é totalmente ignorado, salvo a grande exceção do prof. Ricardo Antunes (UNICAMP), quase nada na academia é escrito, e novamente voltando a experiência pessoal, eu já tive o desprazer de ter sido destratado ao atender uma acadêmica de muito renome no país, que apesar de toda sua história junto à militância comunista brasileira, agiu como uma burguesa qualquer, ou seja, estamos muito isolados…

O Quadro é complicado? É. Porém, mesmo sem base para compreender a exploração que sofrem, todo operador tem consciência das condições precárias físicas e psicológicas em que trabalha, ou seja, existem condições para que no jogo ideológico a esquerda possa lutar pela hegemonia (olha o Gramscianismo, Olavo!) dessas pessoas, embora o esforço físico e stress impeçam a maioria das leituras. O trabalho ideológico pode ser feito com base de diálogos, propostas visando o choque dialético de idéias, além de panfletagem, Porém voltando a destacar, a linguagem deve ser adequada ao público, afinal, esse é um grande problema da esquerda contemporânea, dialogar com as massas.

Esse foi um pequeno balanço, sobre a situação dentro das empresas de telemarketing. Como é um texto para contextualização, sem citação de fontes convencionais, mais baseando na vivência profissional e visando uma apresentação do contexto da área. Para que esse quadro seja revertido, precisamos repensar os fatores citados nas hipóteses, e ampliar nossos horizontes sobre essa área tão precarizada. Nós do Trincheiras acreditamos que esse quadro deva ser transformado urgentemente, por isso acreditamos na luta pelas bandeiras históricas da esquerda, e lutamos por sua realização, apesar do quadro crítico que vivemos atualmente Penso que a aproximação da esquerda do trabalhador de base, numa militância mais próxima, aliado à um trabalho teórico em linguagem acessível permitirá esse sucesso, e é por isso que não desistimos desse sonho.

Willian Alves de Almeida, 27 anos, é paulistano, graduado em Gestão em Turismo pela FUNDETEC, e licenciatura em História pela UNISA.

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