É pela minha vida e de todas as mulheres

Nas ultimas semanas temos assistido diversos protestos contra a chamada PL 5069  (de autoria de Eduardo Cunha do PMDB e outros) que retrocede em conquistas do direito ao aborto em casos já permitidos por lei. Esse texto tem a intenção (tentativa) de dialogar com esse tema, mas também de falar de uma forma mais humanista sobre a questão do aborto.

É inadmissível que em um país onde ocorrem mais de 50 mil estupros por ano, onde a cada 2 dias uma mulher morre em decorrência de complicações por abortos clandestinos e onde uma mulher é violentada a cada 12 segundos e assassinada a cada 2 horas estejamos criando leis para dificultar ainda mais a vida dessas mulheres, é inadmissível que em um governo dito de esquerda como nosso as mulheres tenham que lutar por uma questão básica de saúde e contra a violência. É inadmissível que em épocas de “#primeiroassedio” em que tudo é tão explicito nessa luta estejamos regredindo nas questões ligadas a mulher.

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Estima-se que no Brasil 1 milhão de abortos clandestinos aconteçam por ano.  Sendo que maior parte desses abortos são feitos em casa ou no que muitas mulheres chamam de açougue. Explico. Muitos abortos são provocados em casa com uso de medicamentos, ou até com perfurações do próprio corpo, outros são feitos em “clinicas” clandestinas sem um médico especializado, enfermeiro, condições de higiene. São desses abortos que temos os maiores indicies de complicações e que acabam matando uma mulher a cada dois dias. Outra forma de realizar tal procedimento é pagando caro. Algumas clinicas com médicos que realizam esse procedimento chegam a cobrar de 2 até 7 mil reais para faze-lo. Os riscos físicos nesses locais são muito menores. Podemos colocar aí então que o problema vai além de saúde publica que já sabemos, é um problema social, mulheres de diferentes classes abortam , mas só as pobres morrem, e além de tudo podem ser presas.

Como?

Como já dito antes, em muitos os casos, mulheres que fazem abortos caseiros, ou em locais não apropriados acabam tendo complicações, como infecções e hemorragias, essas mulheres se veem obrigadas a procurar emergências de hospitais e por muitas vezes são denunciadas a justiça por ir contra a lei do país que o proíbe e realizarem um aborto. E sim, mesmo descumprindo o código de ética médica, a maioria dessas mulheres ainda são denunciadas pelos médicos que as atendem e por administrações dos hospitais.

É nessa parte que quero (tentar) entrar com um pouco mais de sensibilidade. Uma mulher que realiza um aborto, tem muitos motivos para realiza-lo, desde a baixa idade, momento de vida e principalmente falta de condições financeiras para isso, e independente desses motivos, é um momento de extrema fragilidade para a mulher. Somos criadas em uma sociedade em que a mulher tem que ser mãe para “ser completa”, somos doutrinadas dentro da religião que condena basicamente tudo e coloca a mulher como uma procriadora, romper com tudo isso é difícil até para uma feminista em um momento como esse.  E tudo é feito para piorar. Além de abaladas pelos estigmas sociais, muitas mulheres ainda tem que procurar clinicas que podem pagar, realizar esses procedimentos caseiros, gastar o pouco que tem, muitas vezes sozinha, sem apoio familiar, sem apoio do homem que a engravidou, com MUITOS julgamentos de familiares e amigos e além de tudo, no meio desse turbilhão de emoções, com muito medo, de morrer ou ainda de ser presa.

É inacreditável que em um momento tão difícil da vida de uma mulher ainda tenham que passar por tudo isso e é mais inacreditável que estamos retrocedendo sobre o tema em nosso país. É inadmissível que nossos corpos recebam ordens de bancadas religiosas enquanto milhares de mulheres morrem e sofrem pelo aborto. Não podemos assistir outros países legalizando o aborto e melhorando a saúde pública enquanto as nossas mulheres morrem. Não podemos aceitar em silencio que mulheres pobres morram sangrando sozinhas.

Protesto pelos direitos da mulher na tarde desta quarta-feira (28), em frente à Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), no centro do Rio de Janeiro

Em momento de lutas feministas em redes sociais, nas ruas, nosso grito tem que ser um só. PELO ABORTO LEGAL SEGURO E GRATUITO. Pelo total direito aos nossos corpos. Pelo fim do assedio, por nenhuma mulher a menos por decidir pelo seu futuro, pelo direito pleno a maternidade, por educação sexual efetiva nas escolas, por contraceptivos efetivos para cada organismo, por tratamento humano para essas mulheres, com apoio psicológico. Lutemos com uma perspectiva revolucionária mostrando que somente acabando com esta sociedade de opressão e exploração é que teremos a verdadeira emancipação das mulheres.

Carta aos Futuros Educadores

* Esse texto foi originalmente publicado no dia 21 de Setembro de 2013 em meu blog pessoal, foram feitas edições mínimas para corrigir alguns erros de publicação.

“Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor” – Paulo Freire

Essa frase do grande pensador e educador Paulo Freire sintetiza com uma precisão perturbadora a atual condição do sistema educacional brasileiro. Um sistema que não oferece perspectivas aos estudantes pobres e excluídos socialmente, um sistema unilateral que não admite a participação dos alunos dentro do programa de aprendizado, que cria um desinteresse generalizado entre os estudantes que não reconhecem na escola um ambiente de desenvolvimento, mas sim de repressão e hostilidade.

Os sintomas desse problema são claros a qualquer um que reflita sobre como anda a educação – principalmente a pública – em nosso país, não é necessário nenhum estudo aprofundado ou uma análise complexa para compreender que a escola, em geral, não é atraente para os jovens, principalmente entre os jovens pobres. Mas a questão que fica é: como atrair o jovem para que possa ter uma formação cidadã e que participe ativamente da formação de nossa sociedade?

Essa pergunta parece ser direta e simples, porém, as respostas podem se demostrar antagônicas de acordo com os discursos adotados, e cabe a nós, professores e futuros professores compreender a realidade do ensino no Brasil e trabalhar com todas as nossas forças para mudar esse quadro vergonhoso que está presente em nossa sociedade.

Os setores mais reacionários culpam os próprios alunos pela sua suposta “incompetência” em adquirir e reproduzir conhecimento – levando em conta que esse discurso não trata o aluno como capaz de produzir nada – argumentando que o aluno não sabe se portar na sala de aula e não possui interesse nenhum em seu próprio desenvolvimento. Esse discurso é tão elitista que se torna até triste ter que contra argumentar, e mais triste ainda ver que professores formados compactuam com essa ideia.

Tratar os alunos como incompetentes é um argumento comum das classes dominantes que, embebidas nos valores individualistas do liberalismo, apelam para uma discurso que invoca a meritocracia e a moral burguesa, com sua defesa de que “todos têm as mesmas oportunidades, basta correr atrás” acusam os excluídos socialmente de não terem a capacidade ou o interesse de se integrar a sociedade sob as regras dos que os exploram e repudiam, em suma, cobrar uma espécie de “cidadania” daqueles que sempre foram tratados como “cidadãos de segunda classe”.

Infelizmente, esse modelo ainda é o que vemos hoje. A escola segue a ideia de que o aluno está lá para “aprender”, não para questionar ou produzir, apenas para acumular e reproduzir – característica marcante dos vestibulares e processos seletivos – para que assim possa se integrar à sociedade, ou seja, após abandonar todos os seus valores, ideias, experiências e negar a sua realidade, o estudante está pronto para ser “aceito” na sociedade.

Diante dessa realidade – que aumenta a evasão escolar, a desvalorização dos professores, o visão da educação como mercadoria e outras formas de segregação como o discurso de autoridade e a criminalização da pobreza – fica como nosso dever, o dever dos professores de uma nova geração, procurar uma solução e aplicá-la dentro da realidade das escolas brasileiras e que atendam às necessidades e expectativas dos estudantes, que antes de estudantes, devem ser considerados cidadãos, e antes disso, como pessoas livres, independentes e capazes!

Após todas essas acusações e críticas, que demostram uma realidade desmotivadora e quase sem esperanças, fica a pergunta “o que fazer?”. Não existe uma solução pronta, intransigente, absoluta ou sagrada, mas sim uma série de mudanças que os professores e professoras podem levar adiante para lutar por uma sociedade mais justa!

O aluno, assim como qualquer outro ser humano, quer ter voz, quer ser ouvido, quer mostrar que também tem poder, que também pensa, que também tem ideias e opiniões! Por esses motivos, é cada vez mais necessário que os professores abram mão da educação como via unilateral, que larguem o discurso de autoridade, que trabalhem com respeito e não com demonstrações de poder e intimidação. Um professor que defende sua posição de “autoridade” com chantagens, ameaças de notas baixas e opressão de qualquer espécie, não merece o título de educador, na verdade, é uma grande vergonha a todos os educadores que uma criatura desse tipo tenha um diploma em Licenciatura.

Precisamos lutar por uma educação inclusiva, que respeite o aluno, sua cultura, sua realidade e suas necessidades! Por um sistema de educação que seja maleável, dinâmico e coerente com as diversas realidades e contradições existentes em nossa sociedade. Uma educação que forme cidadãos, com direitos, voz e consciência. Que repudie com todas as forças qualquer resquício de autoritarismo, violência e opressão dentro das escolas.

Esse é nosso dever, futuros professores e professoras, o dever de levar uma educação inclusiva a todos! O dever de lutar por uma sociedade mais justa e consciente!

E terminando com mais uma citação:

“Se você falar com um homem numa linguagem que ele compreende, isso entra na cabeça dele. Se você falar com ele em sua própria linguagem, você atinge seu coração.” – Nelson Mandela

A Célula e o Organismo

Vou cometer uma crueldade inominável com vocês que estão lendo. Vou fazê-los lembrar um pouco da biologia do científico segundo grau ensino médio. Mas é pouquinho. Só dois parágrafos curtos. Só. Eu prometo.

Existem seres vivos que são só uma célula (amebas, bactérias etc) e seres vivos que são compostos de muitas células (árvores, estrelas-do-mar, humanos, ornitorrincos etc). Há uns três bilhões e fumaça de anos, só o primeiro tipo existia. “Ser vivo” significava “uma célula nadando livre, leve e solta por aí”. Sim, nadando, porque só havia vida nos oceanos. Aí algumas dessas células começaram a se juntar, isso de alguma maneira melhorou as chances de sobrevivência delas, e os “ajuntamentos” prosperaram. Em alguns deles passou a haver especialização: umas células faziam uma coisa, outras faziam outra, e isso ajudou o “ajuntamento” a ser mais eficiente ainda, e é por isso que existem seres multicelulares, inclusive (apontando de maneira dramática) você!

Cada célula dentro do seu corpo — uma fibra de um músculo, um glóbulo branco, um neurônio — tem como antepassado distante algo que era um ser vivo independente. Ela até continua mais ou menos sendo, mas agora passa a vida a serviço de uma estrutura maior da qual ela faz parte.

E quando há uma estrutura maior na qual os humanos fazem o papel de células?

No livro A Fundação, Isaac Asimov lança a seguinte ideia: se a população humana crescer a um certo ponto — no livro, são 500.000.000.000.000.000 pessoas ocupando a galáxia inteira, 500 vezes o número de células de uma baleia azul — a civilização como um todo passa a adquirir características de um ser independente e pode ser estudado como tal. A esse estudo Asimov deu o nome de Psico-história — uma mistura de sociologia, estatística, história, psicologia e algumas coisas mais. Aplicando essa ciência, o protagonista da história consegue demonstrar matematicamente que a civilização humana está prestes a entrar em colapso e começa a tomar as medidas necessárias para preservar o conhecimento antes que aconteça o mesmo que aconteceu com a Biblioteca de Alexandria.

Me pergunto se, no mundo real, é mesmo necessário que a população chegue aos quadrilhões para que uma estrutura coletiva possa ser encarada como um ser vivo independente. Burocracias estatais e grandes religiões às vezes parecem se comportar dessa maneira.

E grandes conglomerados privados, mais ainda.

Fonte: http://thepoliticalcarnival.net/2012/05/04/just-10-multinational-corporations-control-most-consumer-brands-which-are-on-newly-released-list-of-alec-members/
Fonte: thepoliticalcarnival.net

O que se vê é um grande organismo com um impulso animal de se alimentar, crescer, consumir tudo à sua volta e nenhum pensamento racional. Primitivo como uma água-viva. E tão tóxico e perigoso quanto uma água-viva do tamanho de um planeta. A vontade dos sócios não tem nada a ver com a vontade do organismo. Nem a do CEO, nem a de ninguém do Conselho de Administração, nem a de nenhum acionista individual. Eles são tão escravos da vontade do Organismo quanto o rapaz do café.

Pelo menos alguns estados e religiões têm, às vezes — às vezes — um fiapo de consciência. Esse outro tipo de ameba, a megacorporação, só tem o impulso de consumir e crescer, e é incapaz de perceber que o organismo hospedeiro corre o risco de morrer e levar todo mundo junto, inclusive a própria ameba. Com o desastre de Mariana, fica patente a necessidade de aplicar um antibiótico dos fortes. O organismo maior — a Biosfera, ou Gaia se preferir — corre risco de vida.

O Mito da mulher que não trabalha

Quantas vezes já ouvimos falar que a mulher “X” não trabalha? Quantas vezes ouvimos falar que as nossas mães e avós não trabalhavam? Pois se eu disser que elas trabalham e sempre trabalharam? É o que vou pretendo comprovar neste texto.

Bom, para começar vamos tentar definir o que é o trabalho. Poderia citar vários autores, mas simplificando: trabalho é um conjunto de atividades realizadas por indivíduo(s) para atingir uma meta. O trabalho pode ou não ser remunerado. O trabalho doméstico muitas vezes não é remunerado, aí você já vai pensar diferente sobre as suas mães, avós, bisavós que todos diziam que não trabalhavam. A minha avó materna, cortava lenha até pouco tempo antes de morrer, tinha uma horta que ela cuidava e as vezes criava bichos (porcos, galinhas e cavalos). Isso tudo no intervalo de cuidar da casa e de 12 filhos. Ela também tinha problemas sérios de coluna. Será que alguém nesse mundo concordaria que a minha avó não trabalhava? Será que alguém concordaria que camponesas ou escravas não trabalhavam?

Podemos falar de tipos diferentes de trabalho e de classe social, mas podemos afirmar que as mulheres sempre trabalharam. As mulheres mais pobres trabalhavam dentro e fora de casa. Normalmente o trabalho fora era doméstico, prestando serviços em casas, restaurantes e estabelecimentos de famílias mais abastadas, trabalhavam de cozinheiras, babás, costureiras, etc. Reparem que estou falando de trabalho, não de profissões específicas. E as mulheres mais ricas não trabalhavam? Sim, elas trabalhavam, elas que delegavam os afazeres domésticos, e se alguém não considerar que isso seja um trabalho, então desconsidere também o trabalho de seus maridos que delegavam serviços aos seus subordinados.

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Nilza Oliveira dos Santos, 75 anos, era enfermeira. Hoje, ela recebe a pensão pela morte do marido e faz bicos como costureira.

Também existe um mito das mulheres não serem capazes de trabalhar com serviços ditos ‘pesados’. Pois bem, esse mito acabou quando as mulheres assumiram os papéis dos homens quando eles foram para guerra. Qual guerra? Todas! As mulheres assumiram os trabalhos ditos pesados pois os maridos, pais, filhos e irmãos estavam no front. Nas fábricas/Indústrias que precisavam cumprir metas de produção as mulheres foram contratadas para os trabalhos que eram destinados aos homens durante a Segunda Guerra Mundial como a Ford por exemplo, principalmente nos EUA. Essa experiência de trabalho dito “masculino” na segunda guerra impulsionou a chamada Segunda Onda Feminista mais tarde, nos anos 60, onde dentre as reivindicações estavam a igualdade salarial entre homens e mulheres.

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Mulheres soviéticas do Quirguistão, na época ainda era Quirguízia, operando tratores na ausência dos homens que foram para guerra, ano de 1942.

As primeiras fábricas no Brasil, fábricas têxteis, tinham a sua grande maioria de funcionários mulheres e crianças. No ano de 1872, em São Paulo, as mulheres representavam cerca de 78% da força de trabalho das indústrias têxteis1[i].[ii]Eram longas jornadas de trabalho, salários baixos, trabalho de risco, sem proteção e sem leis trabalhistas. Além de trabalhar nas fábricas, as mulheres faziam serviços “por fora”, especialmente serviços domésticos para conseguir sobreviver, sustentar a casa e os filhos, pois somente o salário da fábrica não era suficiente.

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Companhia de Fiação e Tecidos Pelotense, Pelotas RS ano 1910

Durante o processo de industrialização brasileiro não se pode deixar de considerar o imenso êxodo rural, a grande massa de pessoas que abandonaram o campo e sobre carregavam as grandes metrópoles atrás de emprego. Nesse contingente, as mulheres representavam 48% do conjunto de 4.918.209 trabalhadores empregados na indústria de transformação, dessas mulheres, apenas 21% trabalhavam até 40 horas semanais e somente 14% recebiam o equivalente a um ou mais salário mínimo legal 2. [iii][iv]

Então, vamos desfazer alguns mitos: grande parte dessas mulheres urbanas, desde os séculos XVIII e XIX, eram mulheres q não tinham casamentos formais, trabalhavam e sustentavam seus filhos, muitas sozinhas.

“Mulheres brancas e sem dotes não se casavam nem se integravam nos padrões aristocráticos de organização familiar. Viviam segundo os usos costumeiros em uniões legítimas, porém instáveis, que se sucediam ao sabor dos ciclos vitais e acabavam por criar sozinhas os filhos. Abandonadas por maridos ausentes, juntavam-se com outros homens, com os quais tinham filhos ilegítimos (…) Multiplicavam-se mulheres pobres que o sistema social era incapaz de absorver e que apenas tangencialmente se inseriam na sociedade escravocrata. Num processo de pauperização foram ocupando as margens da miséria da urbanização incipiente.” Silva Dias citado em Anotações Sobre a Pobreza Feminina na Constituição De um Mercado de Trabalho Informal no Brasil

Se fomos fazer um recorte e gênero e raça, as mulheres negras eram as mais atingidas em todos os sentidos de trabalho precário, mas em especial no período pós escravidão, onde gerou uma massa de desempregadas.

Poderíamos falar das tribos indígenas do Brasil ou de qualquer lugar onde as mulheres sempre ocuparam seus lugares de trabalho, mas falando especificamente do Brasil, onde os índios foram expulsos de suas terras, trouxeram os negros para trabalhar, depois abandonaram os negros e trouxeram os imigrantes, ou seja, gerou-se uma mão de obra excedente, acumulando desempregados. O trabalho era normalmente informal e precário, formado principalmente por mulheres e negros, o trabalho doméstico, por exemplo, a pouco tempo foi reconhecido com direitos formais como outras categorias de trabalho.

Mas o que eu quero mostrar com esse texto não é uma espécie de mérito pelo trabalho que sempre coube a mulher as piores atividades, piores remunerações, até mesmo nas fabricas competia aos homens os melhores postos e melhores remunerações. A minha intenção é mostrar o quanto a sociedade passa uma imagem falsa de mulher. Estudando ou apenas prestando mais atenção a nossa volta, você vai perceber que a figura de mulher mais comum não é aquela de Diva, de mulher de batom e salto alto, mas uma maioria esmagadora de mulheres que trabalharam a vida toda para sobreviver e criar seus filhos, muitas sem ajuda de maridos. Não lembro da minha avó usando batom ou salto, lembro dela cortando lenha. A urbanização, a moda, fazem com que as mulheres se vejam como figuras fúteis, infantis ou figuras decorativas, embora tenham conquistado mais postos de trabalho e os salários continuem menores do que dos homens. Quero dizer que se formos ver na história, somos e sempre fomos importantes seja em qual tempo for, mas somos consideradas sempre as cidadãs de segunda classe, não temos salários iguais, não temos respeito, não temos direitos básicos como o do nosso próprio corpo. Somos exploradas sexualmente direta ou indiretamente. Nós, mulheres, precisamos nos reconhecer como seres políticos que temos uma hierarquia social que não nos beneficia, ao contrário, nos desfavorece enquanto sujeitos sociais, onde nossa ausência participativa é justificada irracionalmente pela nossa biologia.

“Os que fizeram e compilaram as leis, por serem homens, favoreceram seu próprio sexo, e os jurisconsultos transformaram as leis em princípios”, diz ainda Poulain de Ia Barre. Legisladores, sacerdotes, filósofos, escritores e sábios empenharam-se em demonstrar que a condição subordinada da mulher era desejada no céu e proveitosa à terra. As religiões forjadas pelos homens refletem essa vontade de domínio: buscaram argumentos nas lendas de Eva, de Pandora, puseram a filosofia e a teologia a serviço de seus desígnios.” Simone de Beauvoir in O Segundo Sexo vol. 1

Há um filme que considero muito bom sobre o assunto, Revolução em Dagenham (Made in Dagenham) que fala sobre a greve das mulheres na Ford em 1968, o filme é do ano de 2010.

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Made in Dagenham, filme. (2010)

Referências:

1 PENA,Maria Valéria Junho.Anotações Sobre a Pobreza Feminina na Constituição De um Mercado de Trabelho Informal no Brasil.Rio de Janeiro: UFRJ/Instituto de Economia Industrial, 1986. 26p. (Texto para Discussão; nº 95).

2 PEREIRA, Mello. Empregadas Domésticas: quantas são, suas metas e as relações com o Movimento Feminista. Departamento de Economia, Universidade Federal Fluminense, 1985.

Leituras para a formação política progressista

Não sei e nem quero saber o que é pior para a militância política: teoria sem prática ou prática sem teoria. Só sei que ambos são muito ruins. Por isso eu fiz uma lista de livros que acho importante que militantes leiam. Auxiliam a entender o motivo pelo qual a atividade política é fundamental para vivermos em uma sociedade mais justa, que uma sociedade mais justa não será gerada espontaneamente. São obras de leitura fácil, voltadas para o público não acadêmico. Bons para sugerir até mesmo para pessoas mais novas que estão iniciando na militância política de esquerda.

Listas são sempre polêmicas. Mas quem não concordar, não precisa chorar. Não quero dizer que estes são os melhores livros. São simplesmente os melhores entre os que eu conheço para a introdução à política. Não sei de todo o conhecimento produzido pela humanidade.

A ordem de apresentação está aleatória. Não está em ordem cronológica, nem em ordem de importância.

O Capital no Século XXI – Thomas Piketty (2013)

A obra do economista francês trata da evolução da desigualdade de renda e riqueza de 1800 até os dias de hoje. Seu trabalho enfoca os países do Primeiro Mundo, que dispõem de melhores e mais antigos dados dos impostos de renda e herança, que fornecem informações sobre renda e riqueza. Verifica-se que a desigualdade nos Estados Unidos e na Europa cresceu até 1913, caiu bruscamente com as duas guerras mundiais e voltou a crescer a partir de 1980. A herança, que havia se tornado irrelevante no imediato pós Segunda Guerra Mundial, voltou a ter grande importância, enfraquecendo a tentativa de resumir tudo ao mérito. Piketty argumenta que o principal motor da desigualdade é a diferença positiva entre o rendimento do capital e o crescimento da economia. Mas também mostra que a enorme diferenciação de salários ocorrida nas últimas três décadas, principalmente envolvendo os super executivos, é o principal responsável pelo aumento da desigualdade nos Estados Unidos. A obra contesta a visão econômica conservadora que relaciona variações da desigualdade com educação, tecnologia e disponibilidade de fatores de produção, e defende que processos políticos são muito relevantes na evolução da desigualdade. Piketty propõe um imposto internacional sobre riqueza, para evitar que milionários se desloquem para países com impostos mais baixos. Este livro, embora trate principalmente do Primeiro Mundo, chegou em bom momento ao Brasil, pois ajuda a aumentar o espaço do tema desigualdade no debate sobre economia. Aqui, o duelo entre os ortodoxos e os heterodoxos é paixão nacional igual novela, futebol e carnaval, e a desigualdade muitas vezes é um tema pouco abordado neste debate.

A consciência de um liberal – Paul Krugman (2007)

Assim como o livro de Piketty, este também trata da influência da política sobre a desigualdade. Mas aborda especificamente os Estados Unidos. O economista norte-americano mostra que a redução da desigualdade de renda nos Estados Unidos, que ocorreu com mais força de 1929 a 1950, e o aumento, que ocorre desde 1980, foram resultados principalmente de processos políticos, e não de influências do próprio sistema econômico, como educação, tecnologia e fatores. É muito importante que brasileiros leiam este livro, porque o leitor brasileiro pode perceber fortes paralelos entre a construção da frente conservadora na década de 1970 que possibilitou a vitória de Reagan em 1980 e o consequente início da política da desigualdade, e o que está acontecendo no Brasil atualmente. Importante lembrar que o “liberal” do título da obra está no sentido norte-americano, ou seja, quer dizer esquerda.

A Doutrina do Choque – Naomi Klein (2007)

Ativista canadense mostra como forças políticas de direita encontram viabilidade política para implementar agendas anti populares, ou seja, como conseguem aplicar um choque conservador em países. Segundo a obra, desmontes de estados de bem estar social não encontram viabilidade política em circunstâncias normais, porque a maioria da população, que seria prejudicada, não permite. A viabilidade aparece em circunstâncias extraordinárias, provocadas ou acidentais, que podem incluir golpes militares, guerras, hiperinflações, súbitas mudanças políticas, crises de mercados financeiros, terrorismo e até mesmo desastres naturais. A obra mostra a história destas circunstâncias extraordinárias e suas consequências políticas. Começa com os golpes militares do Terceiro Mundo nas décadas de 1960 e 1970 e vai até o tsunami e o Katrina na década de 2000. Apesar do livro ser de 2007, o leitor brasileiro pode sentir o cheiro destas circunstâncias extraordinárias para o choque de direita em 2015.

A Era da Incerteza – John Kenneth Galbraith (1977)

Livro bastante útil e didático para quem não é economista, mas gosta de entender as discussões sobre Economia. Apresenta um histórico das ideias sobre Economia, assim como o histórico de suas aplicações. Discute também alguns temas básicos de Economia, com uma abordagem keynesiana progressista. O livro é um resumo da versão televisiva. Galbraith já participou dos governos Roosevelt e Kennedy. Quando faleceu em 2006, era quase que a extrema esquerda nos Estados Unidos. Não porque ele se deslocou para a esquerda quando envelheceu. E sim porque ficou parado no mesmo ponto, enquanto o mundo foi para a direita.

23 coisas que não nos contaram sobre o capitalismo – Ha Joon Chang (2010)

O economista sul coreano Ha Joon Chang, em 23 capítulos, contesta mitos difundidos por liberais (no sentido não norte-americano), mitos aliás muito presentes em cadernos de Economia de jornalões. Chang argumenta entre outras coisas que não foi com políticas de livre mercado que os países atualmente ricos ficaram ricos, que deixar os habitantes muito ricos ainda mais ricos não vai necessariamente deixar os pobres menos pobres, que nem sempre o que é bom para empresas é bom para a sociedade, que igualdade perante à lei nem sempre é o suficiente… O 23 coisas… é mais esquerdista do que o Chutando a Escada, o outro livro famoso do Chang.

O mito do desenvolvimento econômico – Celso Furtado (1974)

Este pequeno livro de Celso Furtado contesta a visão de que o desenvolvimento econômico mundial significaria generalizar os padrões de consumo dos países do centro da economia capitalista mundial e de uma minoria da população da periferia para toda a população mundial. Isto esbarraria na limitação dos recursos naturais. Importante ler este livro até mesmo para contestar uma parcela da esquerda que se diz herdeira da tradição de Celso Furtado, mas defende o desenvolvimento a qualquer custo, tem visão negativa dos movimentos ambientalistas, e parece ignorar esta obra do pensador.

Introdução à Economia Solidária – Paul Singer (2002)

Não há muito o que descrever. Este pequeno livro trata de… Introdução à Economia Solidária. É importante ler para entender que existem opções de esquerda além do marxismo-leninismo ortodoxo e da social-democracia.

Nova Classe Média? O trabalho na base da pirâmide social brasileira – Marcio Pochmann (2012)

Resumo descritivo da evolução do mercado de trabalho no Brasil no período recente. Apesar de ser do partido do governo (e presidir a fundação do partido do governo), o economista critica o conceito de “nova classe média”, muito presente em propagandas governamentais. Os recém incluídos no mercado de trabalho fariam parte da classe trabalhadora, e não da classe média. O uso do termo classe média para este grupo de trabalhadores teria consequências ideológicas negativas, como o apelo a soluções privadas para serviços públicos.

Os Sentidos do Lulismo: reforma gradual e pacto conservador – André Singer (2012)

Cientista político explica o que é o lulismo: um pacto pela redução da miséria dentro da ordem, através da conciliação e não do conflito. Mostra como o lulismo, que é diferente de petismo, causou um realinhamento eleitoral no Brasil. O Lula e o PT, que tinham maior força eleitoral nas regiões metropolitanas e tinham apoio razoável da classe média, passaram a ter como apoiadores mais fortes os muito pobres que residem nas regiões rurais, que antes eram o grupo que mais rejeitavam o Lula e o PT. A polarização esquerda/direita teria sido substituída pela polarização pobres/ricos. Obra importante para entender a política brasileira no início do século XXI.

A esquerda que não teme dizer seu nome – Vladimir Safatle (2012)

Livro tão pequeno que pode ser resumido em poucas palavras: “mexa este traseiro gordo”. Essencial para militantes.

Sex and Social Justice – Martha Nussbaum (2000)

Destaco pelas importantes contribuições ao recorrente dilema progressista entre direitos humanos e tolerância à diferentes culturas. Infelizmente, não encontrei versão em Português.

Direita e esquerda – Norberto Bobbio (1994)

Básico do básico.

Considero também importante conhecer a obra do Antonio Gramsci. Talvez, os Cadernos do Cárcere sejam complexos demais. Algum livro explicativo do pensamento do Gramsci, escrito por outro ator, pode ser mais adequado.

Vamos falar sobre ateísmo?

Se você é ateu, provavelmente já foi interpelado por alguma das perguntas abaixo, certo?

Listei as respostas que costumo oferecer, vamos falar de ateísmo?

Por que você é ateu?

Sou ateu em relação a todas as divindades pelos mesmos motivos que cristãos também são ateus em relação às divindades egípcias, gregas, persas, indianas, germânicas, nórdicas, indígenas etc. Não somos tão diferentes assim. Não estou pedindo para que todos sejam ateus, mas gostaria que todos um dia parassem e refletissem “o mundo teve e tem muitas religiões, por que justamente aquela que meus vizinhos, meu pai e minha mãe seguem e me ensinaram é a que está certa? Por que eu sou tão sortudo?”. Embora ateísmo não seja religião, seria bom até que quem fosse ateu por influência de pais ateus também fizesse essa reflexão.

 

Os ateus não seriam tão crentes quanto os crentes quando dizem que Deus não existe? Como eles sabem? Eles não estariam crendo que Deus não existe?

Há os ateus convictos, que realmente creem na não existência de qualquer divindade, de qualquer coisa sobrenatural. Mas eu sou um ateu cético, eu apenas não creio na existência de Deus, mas não descarto completamente a possibilidade de que algo que possa ser descrito como Deus exista. Eu simplesmente não sei. Acreditar na não existência é diferente de simplesmente não acreditar na existência. Acreditar na não existência é bem mais forte do que não acreditar na existência.

 

Então você se define como agnóstico?

Sim, eu sou agnóstico e ateu ao mesmo tempo. Não são termos excludentes. Sou ateu porque não acredito, sou agnóstico porque não sei. É uma visão equivocada sobre o agnosticismo coloca-lo como um meio termo entre o ateísmo e o teísmo. Um agnóstico pode ser ateísta, como é o meu caso, mas também pode ser teísta. É possível não saber sobre a existência de Deus, mas acreditar por fé. O agnosticismo comporta diferentes definições. Desde aquela que diz que “não sabemos sobre a existência de Deus com o conhecimento que nós temos atualmente” até aquela que diz que “nunca poderemos saber sobre a existência de Deus”.

 

Pergunta que um ateu convicto faria: os agnósticos não estariam sendo crentes ao colocar a crença na existência de Deus em patamar superior às outras crenças? Agnósticos não têm dúvidas de que Chupacabra não existe, mas tem dúvidas sobre Deus. Sabem que Posseidon, o deus grego dos mares, não existe, mas tem dúvidas sobre o Deus judaico-cristão-islâmico só porque vivem em um mundo onde muitos acreditam nele.

Eu não considero meio a meio a probabilidade do Deus judaico-cristão-islâmico existir ou não. Penso que um cara invisível que existiu antes de tudo, criou o universo e o mundo em que vivemos, criou a vida, ouve preces e interfere nos acontecimentos muito provavelmente não existe. Esse Deus raciocina como um humano, acho difícil que algo assim possa ter existido antes de existir um cérebro. Se este Deus existe, ele é razoavelmente incompetente para ser aceito como um Deus universal, pois a soma de judeus, cristãos e islâmicos não passa de 56% da população mundial. Os povos do continente americano ficaram um tempão sem conhece-lo. Isto só ocorreu com a chegada de Cristóvão Colombo, Pedro Álvares Cabral. Além disso, se este Deus existe, ele é um pouco sacana. Basta ver o tanto de tragédias que ocorreram e ocorrem no mundo. Quando um avião cai, sempre tem aquele passageiro que não pegou o voo porque se atrasou, e atribui o atraso a Deus. Mas e os outros passageiros? Se Deus é onipotente, por que ele prefere fazer um passageiro chegar atrasado ao invés de evitar a queda do avião? O deus que considero que existe maior probabilidade de existir (não necessariamente 50%) seria o deus dos deístas, não o dos judeus, cristãos e islâmicos.

 

O que são teístas? O que são deístas?

Teístas são aqueles que acreditam em deus, mas não nas religiões. O deus dos teístas acaba sendo parecido com o Deus judaico-cristão-islâmico. Os deístas acreditam que pode ter existido uma força sobrenatural (que chamamos de deus) que criou as leis do universo, e depois foi descansar.

 

As religiões não podem fazer bem para as pessoas?

Podem sim. Mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Não é porque uma religião faz bem para as pessoas que seus dogmas são necessariamente verdadeiros, que suas divindades necessariamente existem.

 

Religião não incentiva fazer o bem?

Religião incentiva fazer o bem e fazer o mal. Religião gerou inquisição, perseguição, guerras, terrorismo. Mas religião também ajudou a desenvolver civilizações, estimulou a arte e a arquitetura, ajudou a criar universidades. Sempre houve e continua havendo muitos religiosos que dedicam suas vidas aos necessitados. Além disso, alguns católicos no Brasil participaram da oposição ao regime militar, defenderam perseguidos, apoiaram movimentos sociais pela reforma agrária. É preciso lembrar, porém, que ateus como Betinho, Angelina Jolie, Eddie Vedder também fizeram pelos pobres. Religiosos podem fazer o bem, religiosos podem fazer o mal, ateus podem fazer o bem, ateus podem fazer o mal. Mas a discussão mais importante não é esta. Voltando ao argumento da resposta anterior, mesmo se religiosos só fizessem o bem e ateus só fizessem o mal, não necessariamente os dogmas das religiões seriam verdadeiros e as divindades existiriam.

 

O que você pensa sobre vida após à morte?

Uma pessoa que leva muitas pancadas na cabeça fica lelé da cuca. Dessa forma, fica difícil pensar em uma consciência humana independente do cérebro.

 

Não é tenebroso pensar que de nós depois da morte só restarão as memórias? Não seria melhor se houvesse um Paraíso Eterno?

Não existirá um Paraíso Eterno só porque desejamos que exista. Além disso, não sei se é desejável um Paraíso Eterno. Tudo que dura muito cansa, mesmo as melhores coisas da vida. Lembro como eram alegres os churrascos com amigos no tempo da faculdade. Mas se começava a uma da tarde, lá pelas oito da noite já dava vontade de ir embora. Já pensou como seria monótona a eternidade? Pode ser um conforto pensar que poderemos um dia reencontrar pessoas queridas que partiram. Mas se pudermos rever estas pessoas, e ter a possibilidade de conviver com elas no Paraíso para a eternidade, não vai começar a enjoar a partir de determinado momento? Vamos imaginar a situação de um jovem casal, em que o homem é assassinado. A mulher fica muito triste, sente muito a falta do seu amado, mas anos depois casa-se novamente. Depois de muitos anos, quando eles falecerem também, com qual homem esta mulher ficará no Paraíso Eterno? Vai dividir? Será um caso de poliandria?

 

Se um ateu fica muito doente, a quem ele recorre?

Ao médico.

 

Não conseguimos enxergar a eletricidade, mas mesmo assim sabemos que existe. Não conseguimos enxergar Deus. Mas por que não saber que existe Deus assim como sabemos que existe eletricidade?

Eletricidade acende luz, faz aparelhos funcionar (inclusive o que eu estou utilizando para escrever este texto), dá choque. O dia em que eu levar um choque de Deus, eu mudo de opinião.

 

Ateísmo é de esquerda?

Não necessariamente. Nem todos os ateus são esquerdistas, nem todos os esquerdistas são ateus. Durante muito tempo, o ateísmo foi relacionado com o comunismo. Mas na década de 2000, era muito comum ver em redes sociais e fóruns online de discussão alguns ateus bem barulhentos que politicamente se alinhavam com a direita liberal. Alguns famosos escritores de direita muito presentes em colunas de jornal são ateus, embora estes aí venham escondendo seu ateísmo recentemente. Alguns movimentos sociais no Brasil tiveram influência da Igreja Católica. A Pastoral da Terra foi atuante. Ainda assim, é possível falar que existe uma leve correlação positiva entre ateísmo e esquerda. O termo esquerda/direita política surgiu na Revolução Francesa, e o secularismo era bandeira de quem sentava no lado esquerdo da Assembleia. Ser de direita é defender hierarquia, que combina muito bem com religião. Os casos mais notórios de uso de ateufobia em campanhas eleitorais no Brasil foram feitos por políticos à direita no espectro político: Jânio Quadros em 1985 e José Serra em 2010.

 

Nos países comunistas os cidadãos eram obrigados a serem ateus?

Normalmente não. Em Cuba, atualmente, é possível praticar religião. Há católicos, há seguidores de religiões africanas. Desde 1992, Cuba se define como um Estado laico, e não mais como um Estado ateu. O pai da atual chanceler da Alemanha Angela Merkel era um pastor alemão. Ele tinha o pastorado em uma igreja luterana na antiga República Democrática Alemã.

 

Os ateus odeiam os religiosos?

Os maiores casos atuais de intolerância contra religiões são praticados não por ateus, mas por pessoas de religiões diferentes. Onde mais existe cristofobia atualmente é nos países onde a população islâmica é predominante. Quem costuma atacar espaços de prática de religiões africanas no Brasil são evangélicos pentecostais.

 

Ateus gostam de mostrar com orgulho o fato de que países desenvolvidos têm maior percentual de ateus na população. Mas o que dizer dos Estados Unidos, que continuam um país bastante religioso?

O que puxa o número de pessoas muito religiosas para cima nos Estados Unidos é o Sul, que é a região com mais características de Terceiro Mundo se comparada não só com o restante dos Estados Unidos, mas com todo o Primeiro Mundo. É onde tem mais homicídios por 100 mil habitantes, menor expectativa de vida, qualidade mais baixa da educação, maior incidência de gravidez na adolescência. O Norte e o Oeste dos Estados Unidos são bem menos religiosos do que o Sul, ainda têm mais religiosos do que a Europa, mas têm muito mais não religiosos do que o Brasil. De qualquer maneira, seria errado falar que os países desenvolvidos são mais desenvolvidos porque têm menos religiosos. É muito mais plausível concordar com a afirmação de que esses países têm menos religiosos porque são mais desenvolvidos. A população é mais escolarizada, vive menos no desespero, e, por isso, precisa menos de um consolo, de alguma coisa para se apegar.

 

Quando se relaciona escolaridade com ausência de religião, está querendo se dizer que religiosos são burros, ignorantes?

Não. Religiosos não são necessariamente burros, ignorantes. Mas normalmente quem é ateu tem mais escolaridade porque quem mais tem propensão a sair do que é considerado padrão pela sociedade é quem estudou mais. E por enquanto, o que é considerado padrão pela sociedade ainda é ter alguma religião. Se vivêssemos em uma sociedade em que o padrão fosse ser ateu, talvez os religiosos fossem os mais escolarizados, só que ainda é necessário considerar outras variáveis. Estudar História Antiga facilita questionar a religião que aprendeu do pai e da mãe, pois saber que o mundo teve e tem muitas religiões provavelmente leva à pergunta “e por que a do meu pai e da minha mãe é a que está certa?”. Outro motivo da correlação entre escolaridade e ausência de religião é que quem é mais escolarizado normalmente é mais rico, e, portanto, vive menos no desespero e com menos necessidade de encontrar conforto em alguma coisa.

 

Os ateus serão um dia a maioria absoluta da população mundial?

Se as tendências atuais se mantiverem, isto não ocorrerá. A população sem religião está crescendo, mas nem todo este crescimento se direciona ao ateísmo. O que mais cresce é o número de pessoas sem religião, mas com crenças particulares. Provavelmente, o percentual de ateus na população mundial será maior em 2050 do que é atualmente, mas não será superior a 50%. A Geração Y, aquela dos nascidos depois de 1980, tem muito mais pessoas sem religião do que as gerações anteriores, mas não tem muito mais ateus do que as gerações anteriores. A fé individual é muito recorrente entre os Y.

 

O que você pensa sobre o Papai Noel?

É bom, por dois motivos. Primeiro porque ele, ao tomar parte do espaço de Jesus Cristo no Natal, torna a festa mais eclética. Papai Noel é São Nicolau com influências pagãs, ou seja, tem um pouco de tudo. Segundo porque prepara as crianças para duvidar. Primeiro, descobrem que o Papai Noel, que dá presentes no final do ano em caso de bom comportamento, não passa de ilusão. Já é um caminho para começar a pensar que o Papai do Céu, que deixa entrar no Céu em caso de bom comportamento, também pode não passar de ilusão. Mas muito cuidado, não espalhem. Vai que um fanático cristão resolva banir o Papai Noel por causa disso?

 

O que você pensa sobre o ateísmo militante?

É importante haver militância contra projetos de lei que ferem o Estado laico (há muitos desses projetos no Congresso brasileiro), contra situações em que estudantes são forçados a rezar e a assistir às aulas de religião em escola pública, contra o ensino de teorias pseudocientíficas como se fossem científicas, como é o caso do design inteligente. E também não sou contra quem não acredita em Deus divulgar de forma didática o porquê de pensar assim. É bom as pessoas conhecerem pontos de vista diferentes. O ateísmo militante só se transforma em chateísmo quando começa a falar que todos os religiosos são ignorantes, que não só o fanatismo religioso faz mal, como a simples religiosidade faz mal também. Não precisa ser antiteísta para ser ateísta.

 

E o Richard Dawkins?

Ele é um excelente zoólogo, teve uma longa carreira acadêmica. Seus melhores livros são aqueles em que ele divulga a Teoria da Evolução de forma didática para o público leigo, como o “Maior Espetáculo da Terra” e o “Relojoeiro Cego”. É preciso admitir, porém, que muitas pessoas só conhecem estes livros por causa do “Deus, um delírio”, que deu maior fama ao acadêmico. Quando fala de religião, Dawkins é polêmico, acerta em muitas coisas, até mesmo quando ele alfineta uma esquerda multiculturalista que pega pesado com o fundamentalismo cristão e pega leve com o fundamentalismo islâmico. Os “progressistas” que colocaram nas vítimas parte da culpa pelo atentado à Charlie Hebdo merecem ser esculachados mesmo. Porém, Dawkins foi infeliz em outras situações, por exemplo, nas besteiras que falou sobre o menino preso por causa do relógio e sobre o aborto de fetos com síndrome de Down. Outra atitude criticável de Dawkins ocorre quando ele, assim como os fundamentalistas evangélicos, relaciona a Teoria da Evolução com ateísmo. A única diferença é que Dawkins é a favor da Teoria da Evolução e do ateísmo, e os fundamentalistas são contra as duas coisas. Relacionar Teoria da Evolução com ateísmo dá munição aos apologistas do ensino de criacionismo em aula de ciências nas escolas.

 

Qual outro ateu tem opiniões interessantes?

O Pirula, professor de Paleontologia na USP, tem vídeos muito bons no Youtube. Óbvio que ele não teve a carreira acadêmica do tamanho da carreira do Dawkins, mas quanto as opiniões sobre religião e ateísmo, eu prefiro as do Pirula. São menos raivosas.

 

Onde estão os fósseis das espécies intermediárias entre os peixes e os sapos? Não é estranho pensar que somos resultado do acaso?

Não vou tirar dúvidas sobre a Teoria da Evolução, porque este texto é sobre ateísmo, e não gosto de relacionar Teoria da Evolução com ateísmo. Mas quem tiver interesse nestas questões pode ler os livros do Dawkins e ver os vídeos do Pirula no Youtube. Eles explicam estas e muitas outras questões para leigos sobre a Teoria da Evolução.

 

Quais são as violações mais graves ao Estado laico?

Como muitos já devem ter ouvido muitas vezes, Estado laico não é Estado ateu. É simplesmente um Estado imparcial sobre as religiões, que não favorecem umas religiões em detrimento das outras. Crucifixos e imagens de Nossa Senhora de Aparecida em repartições públicas não são violações do Estado laico se são colocadas por funcionários que trabalham no local, e não por ordem de autoridades superiores, e quando não é proibida a colocação de símbolos de outras religiões. Realização de missas regulares de funcionários de determinado órgão público não são violação do Estado laico se a presença não for obrigatória, e se não for proibido fazer sessão de macumba dos funcionários do órgão público. Enfeites de Natal em vias públicas patrocinados por prefeituras não são violação ao Estado laico, porque o Natal faz parte da cultura brasileira assim como o Carnaval e as Festas Juninas. Estes enfeites podem ser criticados por ser uso do dinheiro público em festas, mas não por violarem o Estado laico. O que são violações graves do Estado laico são a tentativa de introduzir criacionismo em aulas de ciências, a imposição de orações em escolas públicas e em órgãos públicos, a proibição do aborto com argumentos religiosos, a tentativa de não reconhecer casais homossexuais com crianças adotadas como família.

7 fatos que você precisa saber sobre estagiários

Qualquer pessoa que me conheça minimamente conhece também o fato de que sou estudante de Direito. Talvez essa divulgação se deva ao fato de que muito me orgulho de tal feito, vinda de família pobre e que não vislumbrava a possibilidade de que a empreitada fosse possível. Ocorre que, chegando à metade do curso, me deparo com a disciplina de Direito Trabalhista, que em pouco tempo envolveu-me e, caloura que sou, cá estou me atrevendo a escrever o artigo a seguir de forma um tanto descontraída, tratando da vivência dos estagiários desse Brasilzão. Este artigo em hipótese alguma almeja se comparar aos acadêmicos sérios e chatos que encontramos pelos caminhos da graduação.

As situações descritas abaixo são totalmente hipotéticas, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

7 fatos sobre estagiários:

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1. Estagiários não são técnicos de impressora.

A menos que estejam cursando algo que se chama Curso de Manutenção de Impressoras e que a grade curricular contenha carga horária de estágio interno ou externo. Não, estagiários de qualquer outro curso não precisam obrigatoriamente saber desobstruir o entalamento de papel, você mesmo, com as mãos que Odin lhe deu, pode fazê-lo. Muitas máquinas vêm com manual caso haja dificuldade.

2. Estagiários não são baristas.

Aqui outro equívoco, não é tarefa diária dos estagiários fazer cafezinho. Muito menos servir cafezinho.  A menos que esteja no curso de barista e novamente, que se exija estágio na grade curricular. Afinal, o grau de dificuldade dos desenhos na espuma é altíssimo, já tentei mil vezes e percebi que o resultado não teve a intenção de ser arte surrealista.

3. Estagiários não são especialistas em refrigeração e ar condicionado.

Afinal, o botão MODE sempre vem escrito em caixa alta e, caso não dê certo, desligar na parede e ligar novamente não me parece tarefa tão difícil.

4. Estagiários não são técnicos em informática.

O indivíduo que estuda enfermagem com certeza não tem essa disciplina no currículo, não acha? Quando bater aquela vontade de chamar seu estagiário pra criptografar aquele seu arquivo no WinZip, respire fundo, se não souber como fazer dê um Google, mas se ainda assim a tentação não tiver passado, vai pela máxima e reinicie a máquina.

5. Estagiários não são os responsáveis por tudo de errado que acontece.

Que feio fazer caquinha e colocar a culpa em outra pessoa, hein? Ainda mais quando a outra pessoa tem um “emprego” que remunera mal, sem estabilidade alguma e com uma carga enorme, certo? Meça suas ações parça!

6. Levanta a bunda da cadeira e pega.

A impressora tá ali pertinho. O ramal do estagiário não serve pra isso não, viu?

7. Se houverem pausas, estagiários não precisam trabalhar durante elas.

Nem ninguém né?

 

Estagiários estudam, o estágio serve para adquirir vivência, experiência, qualificação. É muitas vezes nessa hora que o estudante define se está na carreira certa, no caminho certo, e você tem papel importante nessa decisão. Sim, é nessa hora que ele erra, e é errando que aprende como diria minha avó. Se você é chefe, colega de trabalho, cliente externo/interno, saiba que estágio não é trabalho secundário. Estagiários não são “reles” secretárias, telefonistas e afins (já ouvi isso), até porque se o fossem (sem o reles), com certeza estariam ganhando muito mais. Não os deprecie, ninguém deve ser tratado como cidadão de segunda classe. Sobretudo lembre-se que ele será seu colega de profissão e, como diria também minha avó, o mundo dá voltas.

As favelas digitais e a boa vizinhança das publicações

Em um post publicado em seu blog em 30 de julho (Is Scielo a publication favela?), o bibliotecário estadunidense Jeffrey Beall comparou o portal brasileiro Scielo a uma favela, usando o próprio termo “favela” em português e publicando a imagem que acompanha este texto. Indo mais além, o autor afirmava que todos os portais “open access” (de acesso livre) seriam equivalentes a uma favela, porque suas publicações seriam “efetivamente escondidas” e quase ninguém as leria. O post produziu uma reação forte da comunidade acadêmica brasileira, com várias entidades que têm seu conteúdo publicado no Scielo repudiando o autor e mostrando erros em seu texto. Mesmo isto tendo acontecido há alguns meses, escolhi retomar o texto de Beall aqui para tentar mostrar quais são seus interesses na questão e como, a partir disso, podemos discutir outras questões relacionadas, como o acesso livre e o mercado de publicações acadêmicas.

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O Scielo (cujo nome em extenso, aliás, está em inglês, indicando o desejo de ser aceito pela comunidade anglófona, a mais influente dos meios acadêmicos contemporâneos: Scientific Electronic Library Online) é o que se chama de um portal agregador: ele reúne conteúdos de várias publicações acadêmicas brasileiras e, mais recentemente, também livros de editoras acadêmicas. Fundado em 1997, é financiado em parte pela FAPESP, fundação de apoio à pesquisa do estado de São Paulo, e pelo Cnpq, do governo federal. Todo o conteúdo que está no Scielo é gratuito, não requerendo qualquer cadastro e podendo ser acessado e baixado por qualquer computador com acesso à Internet. O argumento de Beall é que a produção do Scielo não tem visibilidade, e, portanto, muitos não chegam a ter acesso ao portal. Para comprovar o que fala, ele diz que muitos acadêmicos norte-americanos nunca ouviram falar do Scielo ou das revistas que ele agrega, o que tornaria o portal equivalente a “uma vizinhança remota e não familiar”.

Deixando de lado aqui o preconceito evidente na visão de favela do autor, é importante mostrar que seus argumentos, mesmo do ponto de vista acadêmico, não fazem muito sentido. Para me concentrar apenas em uma publicação que eu conheço mais de perto, o Scielo tem a coleção completa da revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos, que está atualmente no 25º. ano de sua publicação. Na comunidade brasileira, a revista é uma das referências mais importantes de sua área: na classificação de periódicos feita pela Capes, ela é A1, o grau mais alto possível. Mas ela não tem projeção apenas entre os pesquisadores brasileiros ou mesmo latino-americanos: como se pode comprovar folheando-se os índices de algumas edições, seu conselho editorial é composto por vários pesquisadores de EUA, Canadá e França, entre outros; todos seus artigos, mesmo os escritos originalmente em português, apresentam uma versão para o inglês no site; e muitos artigos de pesquisadores de língua inglesa são publicados nela. Portanto, me parece que se há uma característica que a Manguinhos, e por extensão, o Scielo, não apresentam é estarem escondidos do público especializado de língua inglesa. E Manguinhos é apenas um exemplo: muitos outros periódicos especializados do Scielo são bastante relevantes em sua área.

O que leva à seguinte questão: se Beall critica tanto o modelo de acesso livre, qual o modelo que ele defende? O dos provedores pagos, ou, como ele diz, comerciais, dos quais existem muitos exemplos em língua inglesa, como várias editoras universitárias e grandes “publishing houses”, como WileyBlackwell, Elsevier, Thompson Reuters (que publica a maior parte dos índices de citações hoje considerados a melhor maneira de avaliar o impacto de uma publicação). Neste caso, existem duas formas de se acessar o conteúdo: assinando diretamente o periódico no qual se está interessado ou comprando individualmente o artigo de interesse (em geral, as taxas para o último caso são proporcionalmente maiores do que para o primeiro); ou pagando um valor para provedores agregadores, como o JSTOR, que fazem um serviço semelhante ao Scielo, só que pago. No caso do JSTOR, essa taxa é geralmente paga por bibliotecas e associações universitárias, de maneira que muitos estudantes ou que tenham vínculos com as maiores universidades brasileiras podem acessar o conteúdo. Mas e o restante da população? E quem mora na favela lembrada por Beall? Não pode ter acesso a este conteúdo por duas razões: primeiro, porque dificilmente vai ter condições econômicas de pagar por ele; e, em segundo lugar, porque, segundo o bibliotecário, não interessa a quem publica para esses provedores pagos disponibilizar sua “ciência” em lugares de “vizinhança ruim”.

Como fica claro, os interesses de Beall são econômicos e ele usa comparações elitistas para defender os provedores pagos. Defender que os provedores comerciais pagos fazem um melhor trabalho de divulgação e visibilidade do seu conteúdo não se justifica, pois o fato do site ser fechado para quem não paga por ele torna, na verdade, seu conteúdo menos disponível e podendo ser acessado por um número menor de pessoas. É claro que precisamos pensar nas editoras e nos autores dos livros, que devem ser remunerados pela sua produção. No entanto, seria ingênuo pensar que editoras do porte e da tradição das citadas no parágrafo anterior dependam apenas do faturamento obtido com a venda de assinaturas de seus produtos, e que na era da Internet ainda não tenham encontrado outros modelos lucrativos que disponibilizem uma maior parte de conteúdo online. Isso para não entrarmos em uma outra questão, bem mais complexa e que poderá ser tema de um futuro artigo, que é a discussão sobre direitos autorais, cuja existência é bem mais recente do que muitos imaginam. Concluindo, o bibliotecário estadunidense, que se identifica em seu site como um humilde bibliotecário acadêmico há mais de 20 anos, está defendendo os interesses de grupos muito maiores e mais poderosos, mas que talvez não queiram “sujar suas mãos” se referindo diretamente a outros provedores como “favelas” e “locais de má vizinhança”.

Ocupação E.E. Padre Sabóia de Medeiros

O dia começou diferente na Escola Estadual Padre Sabóia de Medeiros, localizada na R. Américo Brasiliense, 1297, Zona Sul –SP. Durante a manhã, ao invés de uma aula comum, os alunos deram uma aula de resistência e combatividade com uma assembleia do grêmio decidindo pela ocupação da escola por tempo indeterminado, até que suas demandas contra a “reorganização escolar” do governo Alckmin sejam atendidas.

Demandas

Os alunos exigem que sua escola não feche. Com o plano de “reorganização” a escola perderá o primeiro ano do ensino médio em 2016, e o segundo em 2017. Não precisamos de nenhuma análise profunda para enxergar o plano do governo de fechar a escola aos poucos: um fim agonizante para uma escola com 70 anos de história.
Não são de hoje as agressões do governo estadual contra esta escola, neste ano, foi uma das únicas escolas que não recebeu material para pintura e reformas, uma docente que leciona na escola há 18 anos diz que as tentativas do governo de fechar a escola ocorrem há quase uma década.

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Justificativa do governo

O governo do estado, comandado por Geraldo Alckmin, justifica a “redução gradual” de matrícula se dá pela baixa demanda de alunos. Esse informação é questionável já que as turmas iniciam o período letivo com cerca de 70 alunos  por sala. Além disso, as matrículas já foram canceladas há algumas semanas e os alunos que não atualizarem seus dados terão sua transferência automática para o colégio Plínio Negrão, localizada a mais de 2 km da região.

Estudantes e professores

Os professores e a até mesmo a direção da escola são favoráveis ao movimento, mas estão com medo de participar ativamente pois no passado professores que expressam seu alinhamento político foram prejudicados na carreira.
A maior parte dos estudantes é residente do Real Parque e a realocação para outras escolas irá dificultar a vida dos alunos, alguns não poderão concluir os estudos a tempo. Neste cenário, fica evidente também uma questão social. A região está se valorizando rapidamente, de um bairro operário para conjunto de condomínios de alto padrão. Já conhecemos as políticas sociais para tirar a população pobre das regiões valorizadas visando favorecer a especulação imobiliária.

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A luta dos estudantes

A ocupação está firme e forte! Já se iniciaram os trabalhos para as atividades culturais que irão manter a ocupação organizada. Toda a ajuda é bem vinda!

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Direto da ocupação, por: Leonardo Nascimento para o Trincheiras.

Cuidado com duas pragas ideológicas: a Quarta Teoria Política e o Libertarianismo

A Quarta Teoria Política e o libertarianismo são os extremos opostos do Political Compass. O primeiro é o máximo do socialismo no eixo econômico e o máximo de autoritarismo no eixo social. O segundo é o máximo de liberalismo no eixo econômico e liberalismo no eixo social. O que estas duas ideologias têm em comum? A primeira característica em comum é o fato delas não serem de esquerda. A Quarta Teoria Política, segundo seus defensores, seria a superação da dicotomia esquerda/direita. O libertarianismo, segundo alguns de seus simpatizantes, seria um tipo específico de direita, e segundo outros seria nem de esquerda nem de direita. A segunda característica em comum é o fato de serem atraentes para simpatizantes desavisados de algumas correntes de esquerda. A Quarta Teoria Política por causa de seu posicionamento no eixo econômico. O libertarianismo por causa de seu posicionamento no eixo social. Simpatizantes do marxismo-leninismo correm o risco de involuntariamente começar a defender a Quarta Teoria Política. Simpatizantes da Nova Esquerda (termo original em Inglês: New Left) correm o risco de involuntariamente começar a defender o libertarianismo.

A Quarta Teoria Política atraindo marxistas-leninistas

A Quarta Teoria Política, com suas variantes chamadas de Terceira Posição*, nacional bolchevismo e pan-eurasianismo, defende a superação da dicotomia esquerda-direita e a união de todas as forças antiliberais (entendendo liberal em todos os sentidos) e anti mundo anglo-saxão, não importando se essas forças são de esquerda ou de direita. Nestas forças se incluem o stalinismo, as muitas variantes do fascismo, o fundamentalismo islâmico, o tradicionalismo católico e os muitos nacionalismos étnicos (quando o nacionalismo étnico não está aliado ao imperialismo anglo-saxão). Se me perguntassem no elevador o que é a Quarta Teoria Política, e eu tivesse que responder em poucas palavras, eu responderia que é uma invenção de uns malucos que juntam o pior da esquerda com o pior da direita. O grande guru desta ideologia é o russo Aleksandr Dugin. No caso deste pensador, suas ideias são específicas para seu país: para ele, a Rússia deve rejeitar influências da América do Norte e da Europa Ocidental, e buscar inspiração no seu passado stalinista e czarista, e encontrar um híbrido de ambos. A influência do período soviético não seria por causa do internacionalismo proletário, mas por causa da Rússia forte. Estas ideias influenciam o governo de Vladimir Putin. Na Rússia, os nacional bolcheviques são oposição porque consideram Putin liberal demais em todos os sentidos para os padrões russos. Mas fora da Rússia, adeptos desta ideologia têm visão favorável ao presidente russo.

As raízes da Quarta Teoria Política podem ser encontradas já durante o período da Guerra Civil Russa (1918-1921), em que alguns czaristas, sob influência de Stálin, passaram do lado dos brancos para o lado dos vermelhos, ao perceberem que as tradições da Rússia seriam preservadas com mais vigor em um governo bolchevique do que em um governo liberal influenciável pelo Ocidente. Apesar da origem russa, a Quarta Teoria Política (ou suas variantes com outros nomes) é aplicável no mundo inteiro. Na América Latina, adeptos desta teoria admiram Fidel Castro, Che Guevara, Hugo Chávez e Evo Morales. Mas também admiram Plínio Salgado, Juan Perón e Ernesto Geisel. Os “quartateóricos” gostam dos governos atuais da Rússia, China, Irã, Síria, Coreia do Norte, Cuba e Venezuela. Apoiam o Hamas e o Hezbollah. Odeiam o Estado Islâmico menos por motivos humanitários e mais pelo fato desta gangue ser útil a Israel e à Arábia Saudita e se opor à Rússia. Na verdade, as raízes da Quarta Teoria Política podem ser até mais antigas que a Guerra Civil Russa e terem existido na Europa inteira. Desde quando existe capitalismo, existe vertente reacionária do anticapitalismo. Marx e Engels já apontaram isso no Manifesto de 1848.

Se perguntarmos para um auto declarado comunista se ele apoia a Quarta Teoria Política, ele provavelmente vai responder que não. Mas é comum ver muitos autodeclarados comunistas em blogs e em redes sociais repetindo involuntariamente o palavrório “quartateórico”. Falam do super-herói Vladimir Putin como se a Guerra Fria não tivesse terminado. Putin está sendo mais sensato que Obama na Guerra Civil Síria, isto é verdade. Mas nem por isso ele é aliado da causa esquerdista. Ele é aliado de líderes como Raul Castro, Nicolas Maduro e Alexis Tsipras mais por causa de geopolítica do que por causa de ideologia. Putin também é bastante amigo de partidos de extrema-direita da Áustria, da Hungria, da França. Seu governo é bastante influenciado por ideias conservadoras da Igreja Católica Ortodoxa. Nem mesmo na economia Putin é de esquerda. A Rússia é um dos poucos países do mundo que não tem imposto de renda progressivo. Há uma alíquota de 13% para qualquer renda.

Também já foi possível ver quem se considera “comunista” mostrar entusiasmo com o regime dos aiatolás no Irã. É bastante justo defender que o Brasil tenha boas relações comerciais com o Irã assim como tem com Israel, defender uma solução pacífica para o programa nuclear, criticar a hipocrisia do Ocidente, que é aliado da Arábia Saudita, que tem um regime ainda mais repressor. Uma coisa é levantar estas questões. A outra é defender um regime indefensável. E não faz sentido dizer “você está sendo etnocêntrico, não faz parte da cultura local ter um governo secular, a única forma de derrubar o regime do xá Reza Pahlevi, lacaio do imperialismo ocidental, era a teocracia”. Na verdade, havia sim no Irã aqueles que queriam substituir o regime tirânico do xá por um governo laico, mas estes foram exterminados nos primeiros dias do recém criado regime do aiatolá Khomeini. E foi somente nos anos 1970 que os aiatolás brigaram com o xá. O clero xiita apoiou o golpe de Pahlevi contra Mossadegh em 1953, junto com os Estados Unidos e o Reino Unido.

Outro erro bastante frequente é considerar o regime da Coreia do Norte como socialista. Os regimes da antiga União Soviética, de seus satélites e o ainda remanescente regime de Cuba têm muitos defeitos, mas ainda assim são socialistas (o fato de ser socialista não quer dizer que seja perfeito). Já o da Coreia do Norte tem muito mais nacionalismo, culto a líder e defesa da pureza étnica do que socialismo. Está muito mais para nacional bolchevique do que para bolchevique.

Defender regimes nacionalistas reacionários como frente contra o domínio anglo saxão no mundo não fez parte da história do comunismo. Um regime nacionalista reacionário opositor também dos Estados Unidos e do Reino Unido foi responsável pela morte de mais de dez milhões de soviéticos, se somar os militares com os civis.

Alguns comunistas de Internet demonstram grande entusiasmo também com a China, fazendo companhia para as revistas de business, que exaltam sua economia capitalista.

A própria postura de alguns “marxistas-leninistas” de atacar os movimentos negro, feminista e LGBTT podem ser influência indireta da pregação da Quarta Teoria Política. É conhecido que o marxismo leninismo ortodoxo foi historicamente conservador nas questões sociais. Mas isto porque em 1917 estas questões ainda não eram pauta da esquerda. Estas questões tornaram-se pauta de esquerda mais fortemente a partir de 1968. Além disso, o marxismo- leninismo assumiu características russas, típicas de um país tradicionalmente conservador. O marxismo-leninismo não precisa ser eternamente conservador nas questões sociais. Mesmo Cuba vem se modernizando nestas questões. Parece que a insistência no conservadorismo social está mais vinculada com o nacional bolchevismo do que com o bolchevismo propriamente dito. Alguns “bolcheviques” estão tão nacionais que fazem até campanha anti-Halloween.

Eu vi pela primeira vez a divulgação da Quarta Teoria Política na Internet na comunidade “Olavo de Carvalho nos Odeia” nos tempos de Orkut, por volta de 2005. Quem começou fazendo isso foi uma única pessoa, dotada de invejável erudição, capacidade de persuasão e estilo na escrita. Ele era assumidamente favorável à Quarta Teoria Política, dizia ser nem de esquerda nem de direita. Porém, havia uns marxistas-leninistas, menos eruditos, que viraram padawans (utilizando a linguagem Star Wars) dele. Embora continuassem a se definir como marxistas-leninistas, passaram a repetir o palavrório do “quartateórico”. Nos tempos de Orkut, havia a “Olavo de Carvalho nos Odeia”, composta em grande maioria por esquerdistas (óbvio), a comunidade oficial do Olavo de Carvalho, composta por direitistas (óbvio) e chamada pejorativamente de paraoficial pelos integrantes da “Olavo de Carvalho nos Odeia”, e também havia a “Olavo de Carvalho do B”, onde alguns membros da “Olavo de Carvalho nos Odeia” e da “Olavo de Carvalho oficial” se encontravam. A “do B” era repleta de defensores (voluntários e involuntários) da Quarta Teoria Política, tendo alguns que chegaram nela pela esquerda (na Olavo de Carvalho nos Odeia) e alguns pela direita (Olavo de Carvalho oficial).

O libertarianismo atraindo simpatizantes da Nova Esquerda

Conforme mencionado no início deste texto, a Quarta Teoria Política não é a única ideologia não esquerdista que tem potencial de fisgar seguidores de correntes de esquerda. Assim como existe o risco de marxistas-leninistas passarem a defender voluntariamente ou involuntariamente a Quarta Teoria Política, existe o risco de adeptos da Nova Esquerda passarem a defender voluntariamente ou involuntariamente o libertarianismo.

A Nova Esquerda surgiu nos países desenvolvidos na década de 1960. Seus adeptos são social democratas em questões de economia, ou seja, rejeitam a economia centralmente planificada, mas defendem um sistema tributário progressivo e um grande Estado de Bem Estar Social (a recíproca não é verdadeira, nem todo social democrata é da Nova Esquerda). Além disso, a Nova Esquerda considera tão importantes quanto questões de classe as questões de minorias étnicas, defende o ambientalismo, o feminismo, o movimento LGBTT e as liberdades individuais, e, desta forma, rejeita o proibicionismo de drogas, o serviço militar obrigatório, a vigilância do Estado aos cidadãos e a violência policial. Os libertários, cujo maior guru foi o economista Milton Friedman, defendem os mercados livres, um Estado mínimo e as liberdades individuais. Os libertários mais radicais são chamados às vezes de anarco-capitalistas.

Apesar da diferença de opiniões sobre o papel do Estado na economia, alguns adeptos da Nova Esquerda, por causa da coincidência de posicionamento sobre liberdades individuais, acham os libertários legalzinhos, potenciais aliados, menos piores do que a direita tradicional. Estas opiniões são possíveis de serem observadas em blogs, Twitter e Facebook. Mas a verdade é que os libertários não são legalzinhos (podem até ser na vida privada, mas o posicionamento político deles não é), não são potenciais aliados da Nova Esquerda e podem até ser menos piores do que a direita tradicional, assim como Chitãozinho e Xororó são menos piores do que Zezé di Camargo e Luciano. Libertários defendem um Estado tão pequeno que consideram que suas mínimas despesas devam ser financiadas com impostos sobre consumo, aqueles que pesam mais no bolso dos pobres. Defendem ou a abolição do Imposto de Renda, ou pelo menos a versão baixa e plana, aquela implementada pelo Putin (olha ele aparecendo neste texto de novo). Mesmo as opiniões sobre gays e sobre aborto dos libertários não devem ser incorporadas por quem se considera de esquerda. Libertários defendem simplesmente que o Estado não reprima gays, que não atue nem a favor nem contra eles. Mas isto basta. Independentemente do que o Estado faça ou não faça, ódio contra gays em alguns setores da sociedade existe, e por isso o Estado deve atuar por meio da educação para a tolerância e por meio do combate aos crimes de ódio. Quanto ao aborto, os libertários defendem que seja legalizado, mas não que seja gratuito. Desta forma, o problema dos abortos clandestinos precários realizados por mulheres pobres continuaria a existir. E convenhamos: uma pessoa que defende que o filho do pobre e o filho do rico, que tiveram infâncias completamente diferentes, devam competir “livremente” e defende também a legalização da maconha não é tão menos ruim do que outra que defende que o filho do pobre e o filho do rico devam competir “livremente” e não defende a legalização da maconha. E mais: é mais fácil encontrar na direita tradicional quem defenda alguma forma de rede de proteção social do que na direita libertária.

Em um post em seu blog, o economista Paul Krugman explicou muito bem porque a polarização política é basicamente unidimensional, ou seja quem defende um Estado Social é progressista em questões sociais, e quem não defende um Estado Social é conservador em questões sociais, e porque são tão poucos os libertários, aqueles que não defendem um Estado Social e progressismo em questões sociais. Para ele, tudo é uma questão de posicionamento sobre hierarquia tradicional e autoridade. Um Estado Social ajuda a diminuir a autoridade de patrões sobre seus empregados, de patriarcas sobre suas famílias. Por isso, quem é contra o Estado Social é quem defende autoridade, hierarquia, e, portanto, será conservador em questões sociais. O que o post não menciona é que apesar se serem poucos e os poucos dificilmente serem libertários de verdade, os poucos libertários se tornaram um grupo razoavelmente barulhento.

Mas como ainda não são um grupo muito grande, e a polarização maior é entre os pró-Estado Social/progressistas sociais e os anti-Estado Social/conservadores sociais, se os libertários têm que escolher entre um dos dois grandes grupos, escolher entre deixar de lado a rejeição ao Estado Social ou o progressismo social, eles não têm qualquer dúvida. Fecham com os anti-Estado Social/conservadores sociais, escondem ou jogam fora seu suposto progressismo social. Defendem a “liberdade” econômica e as liberdades individuais. Mas se são obrigados a escolher entre um ou outro, ficam com a “liberdade” econômica. Alguém viu fãs de Hayek e Von Mises criticando as execuções praticadas por agentes do Estado em favelas? Alguém viu o Instituto Millenium e o Partido Novo protestando contra o fato de agentes do Estado terem impedido a livre circulação de cidadãos pobres até as praias no Rio de Janeiro?

A discussão sobre a aproximação entre a Nova Esquerda e os libertários existe desde a década de 1960, bem antes do uso doméstico da Internet. Interessante notar que Ayn Rand, inspiradora de muitos libertários, já dizia que os adeptos da New Left eram inimigos. Podemos odiar o libertarianismo, mas temos que considerar que ela estava certa quando dizia que libertários e New Left não poderiam ser aliados políticos.

Tentando entender este fenômeno

Até aqui, foi demonstrado como está havendo, em espaços virtuais de debate político, atrações perigosas entre defensores de ideias incompatíveis, como a atração de simpatizantes do marxismo-leninismo pela Quarta Teoria Política, e a atração de simpatizantes da Nova Esquerda pelo libertarianismo. Também foi demonstrado porque estas ideias são incompatíveis. Agora cabe discutir: por que isto está acontecendo? Como não foi feita uma pesquisa acadêmica a respeito, vamos apenas às especulações.

Em primeiro lugar, pode estar havendo um problema de falta de lideranças no marxismo leninismo e na Nova Esquerda para orientar os recém interessados em atividade política. Sem pessoas de referência para explicar ideias de forma facilmente compreensível, um espaço vazio é criado. E este espaço pode estar sendo ocupado por “quartateóricos” e por libertários. Se estão sendo hábeis em divulgar suas ideias de forma fácil, parabéns para eles.

Em segundo lugar a atração dos marxistas-leninistas pela Quarta Teoria Política e dos novos esquerdistas pelos libertários podem ser fenômenos que se retroalimentam. Simpatizantes do marxismo leninismo ortodoxo podem ter ficado ressentidos com o fato de personalidades mais visíveis da esquerda no Brasil na década de 2010 como Jean Wyllys, Marcelo Freixo, Leonardo Sakamoto, Gregório Duvivier e Idelber Avelar falarem muito mais de questões sociais do que de questões econômicas (embora os citados não corram o risco de serem sugados pelo libertarianismo), aí passaram a buscar crítica ao capitalismo e ao imperialismo fora da esquerda, uma vez que não conseguiam enxergar estas críticas dentro da esquerda. Enquanto isso, ao ver quem se identifica como marxista leninista defendendo os governos da Rússia, do Irã e da Coreia do Norte e se desiludir com parte da esquerda por causa disso, alguns novos esquerdistas podem ter começado a se simpatizar com os libertários.

Se estas explicações foram pertinentes, a lição que fica é: vamos trabalhar a formação.

Por fim, um breve comentário sobre os que não são os influenciáveis, mas os defensores assumidos e os pregadores da Quarta Teoria Política ou do libertarianismo. Para alguns, uma das motivações em defender estas ideologias pode ser o desejo de se destacar no grupo, de parecer o inteligentão. É muito agradável dizer “pessoal, descobri uma nova ideologia bem bacana, que não se enquadra nessa polarização simples de esquerda e direita, sou sofisticado”.

*Por que Quarta Teoria Política e Terceira Posição? O que explica esta diferença de numerais se o que se trata é da mesma coisa? Quando foi escrita a “Quarta Teoria Política”, foi considerado que o liberalismo era a primeira, o socialismo era a segunda e o fascismo era a terceira. Quando foi inventado o termo “Terceira Posição”, a intenção era dizer que se tratava de uma posição que ia além de esquerda e direita.