A Célula e o Organismo

Vou cometer uma crueldade inominável com vocês que estão lendo. Vou fazê-los lembrar um pouco da biologia do científico segundo grau ensino médio. Mas é pouquinho. Só dois parágrafos curtos. Só. Eu prometo.

Existem seres vivos que são só uma célula (amebas, bactérias etc) e seres vivos que são compostos de muitas células (árvores, estrelas-do-mar, humanos, ornitorrincos etc). Há uns três bilhões e fumaça de anos, só o primeiro tipo existia. “Ser vivo” significava “uma célula nadando livre, leve e solta por aí”. Sim, nadando, porque só havia vida nos oceanos. Aí algumas dessas células começaram a se juntar, isso de alguma maneira melhorou as chances de sobrevivência delas, e os “ajuntamentos” prosperaram. Em alguns deles passou a haver especialização: umas células faziam uma coisa, outras faziam outra, e isso ajudou o “ajuntamento” a ser mais eficiente ainda, e é por isso que existem seres multicelulares, inclusive (apontando de maneira dramática) você!

Cada célula dentro do seu corpo — uma fibra de um músculo, um glóbulo branco, um neurônio — tem como antepassado distante algo que era um ser vivo independente. Ela até continua mais ou menos sendo, mas agora passa a vida a serviço de uma estrutura maior da qual ela faz parte.

E quando há uma estrutura maior na qual os humanos fazem o papel de células?

No livro A Fundação, Isaac Asimov lança a seguinte ideia: se a população humana crescer a um certo ponto — no livro, são 500.000.000.000.000.000 pessoas ocupando a galáxia inteira, 500 vezes o número de células de uma baleia azul — a civilização como um todo passa a adquirir características de um ser independente e pode ser estudado como tal. A esse estudo Asimov deu o nome de Psico-história — uma mistura de sociologia, estatística, história, psicologia e algumas coisas mais. Aplicando essa ciência, o protagonista da história consegue demonstrar matematicamente que a civilização humana está prestes a entrar em colapso e começa a tomar as medidas necessárias para preservar o conhecimento antes que aconteça o mesmo que aconteceu com a Biblioteca de Alexandria.

Me pergunto se, no mundo real, é mesmo necessário que a população chegue aos quadrilhões para que uma estrutura coletiva possa ser encarada como um ser vivo independente. Burocracias estatais e grandes religiões às vezes parecem se comportar dessa maneira.

E grandes conglomerados privados, mais ainda.

Fonte: http://thepoliticalcarnival.net/2012/05/04/just-10-multinational-corporations-control-most-consumer-brands-which-are-on-newly-released-list-of-alec-members/
Fonte: thepoliticalcarnival.net

O que se vê é um grande organismo com um impulso animal de se alimentar, crescer, consumir tudo à sua volta e nenhum pensamento racional. Primitivo como uma água-viva. E tão tóxico e perigoso quanto uma água-viva do tamanho de um planeta. A vontade dos sócios não tem nada a ver com a vontade do organismo. Nem a do CEO, nem a de ninguém do Conselho de Administração, nem a de nenhum acionista individual. Eles são tão escravos da vontade do Organismo quanto o rapaz do café.

Pelo menos alguns estados e religiões têm, às vezes — às vezes — um fiapo de consciência. Esse outro tipo de ameba, a megacorporação, só tem o impulso de consumir e crescer, e é incapaz de perceber que o organismo hospedeiro corre o risco de morrer e levar todo mundo junto, inclusive a própria ameba. Com o desastre de Mariana, fica patente a necessidade de aplicar um antibiótico dos fortes. O organismo maior — a Biosfera, ou Gaia se preferir — corre risco de vida.

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