A esquerda e a disciplina revolucionária

Uma vez ouvi de um grande camarada que cresceu durante a repressão da ditadura a seguinte frase: “Todo revolucionário tem que saber nadar, dirigir, atirar e dançar”. Na hora essa frase me causou risos, esse camarada é músico e colocou o “dançar” para dar uma descontraída na conversa, mas o assunto era sério, falávamos da disciplina revolucionária!

Como marxista-leninista, vejo a falta de três características importantes na atual militância da esquerda brasileira: disciplina, centralismo democrático e autocrítica. Vejo que a militância jovem se preocupa mais em realizar “místicas” ou atividades lúdicas ao invés de combater efetivamente o poder do capital, vejo que os princípios da combatividade e da resistência armada foram esquecidos e que atualmente jogamos rosas aos nossos opressores que respondem com bombas e balas; em suma, uma esquerda exageradamente idealista e que abandona a prática revolucionária ignorando os princípios do materialismo e da dialética.

A falta de disciplina nas organizações de esquerda-moderada está relacionada em boa parte pelo reformismo e a falta de centralismo democrático. Quando qualquer militante que discorde do posicionamento do comitê central da organização prefere expor sua insatisfação criando uma fração do partido ao invés de uma tese para defender seus pontos, fica evidente a falta de disciplina com o partido. Não vamos levar a disciplina como obediência (quem obedece sem questionar não pode ser chamado de revolucionário) e sim como o compromisso com a luta.

Além disso, uma pessoa sem disciplina dificilmente conseguirá fazer uma autocrítica, pois se o fizesse, acredito que a indisciplina seria reconhecida e eliminada.

A falta de disciplina destrói todo o potencial revolucionário, torna inviável qualquer resistência contra as forças do capital. Um dos motivos pelo quais não participo de algumas manifestações de rua é saber que na hora que o CHOQUE começar a atirar bombas o caos será generalizado! A maioria dos movimentos populares atuais não possuem a disciplina e a organização necessárias para resistir a qualquer situação de conflito, e pior, muitos desses movimentos repudiam atos de resistência!

A revolução não é feita de poemas e rosas! Se o EZLN (Exército Zapatista de Libertação Nacional) não pegasse em armas, os povos indígenas do Sul do México não existiriam mais! Se não fosse pela combatividade armada das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), os esquadrões da morte pagos pela direita continuariam assassinando líderes campesinos e trabalhares em greve! Sem contar outros grupos de resistência como as repúblicas democráticas de Lugansk e Donetsk, que resistiram ao golpe na Ucrânia que vendeu o país aos interesses da União Europeia (golpe que alguns partidos reformistas consideram legítimo!), ou o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) que atualmente luta nas fronteiras da Turquia e mantêm alguns territórios autônomos enquanto enfrentam até mesmo o Estado Islâmico, uma das maiores ameaças da região.

Cabe a todo revolucionário ser disciplinado, não somente com o seu partido, mas também com sua vida. Expanda seu conhecimento teórico, entenda a sua luta, aprenda sobre resistência armada, estude sobre técnicas de combate, cuide da sua saúde e de seu condicionamento físico, aprenda sobre sobrevivência em extremos, vá ao campo e conheça a realidade rural, aprenda a acampar! Prepare-se fisicamente e psicologicamente.

Sinceramente, não consigo me imaginar lutando ao lado de um revolucionário que não saiba preparar seu alimento, montar uma barraca ou ao menos usar uma faca. Chega de idealismo! Mesmo nas transições populares democráticas as forças imperialistas trataram de criar guerra nos países, além do mais, conhecemos a violência com que o Estado burguês trata nosso povo e o nível de repressão que só aumenta, inclusive, com a aprovação da lei “antiterrorismo”. A revolução não será pacífica, a luta não é brincadeira.

“Considerando que os senhores nos ameaçam; com fuzis e canhões; Nós decidimos, de agora em diante; temeremos mais a miséria do que a morte.” Bertold Brecht, Os dias da Comuna de Paris.

Comentários