Arábia Saudita e EUA: A desculpa conveniente

O ocidente tende a ter uma visão bem parcial sobre o que ocorre no Oriente, principalmente quando se trata de islamismo. O preconceito ocidental trata o Oriente Médio como uma região violenta, um grande barril de pólvora que tem o Islã como combustível. É comum ver muitos atos preconceituosos contra o Islã, um dia desses ouvi de um amigo que os cristãos são perseguidos pelo Hezbollah e que os árabes vivem em guerra porque o deus deles assim o manda. Acreditem, essa foi das leves, já ouvi coisas muito piores!

Nosso retrato do oriente chega a ser tão bizarro quanto as fantasias que idealizavam sobre o “Novo Mundo” durante o século XVI. As fábulas de monstros marinhos e povos com poderes sobrenaturais que viviam sem moral, bestializados e incapazes de evoluir para os valores da chamada “civilização”. O discurso é diferente, mas o objetivo é o mesmo, tirar a humanidade dessas pessoas para que fique mais fácil julgar seus valores e intervir, levando a “civilidade” (ou “democracia”, adotando o discurso dos EUA) até essas terras, custe o que custar.

Iraque, Líbia e Síria: Ameaça religiosa ou política?

Esses três países possuem algumas similaridades: são países de maioria islâmica, possuem relação conflituosa com os EUA, Arábia Saudita e Israel, abordaram ou adotaram as ideias do socialismo árabe em determinado ponto de sua evolução como nação e tiveram alguma intervenção militar dos Estados Unidos nos últimos anos (no caso do Iraque e da Líbia, seu líder político foi deposto e assassinado com auxílio dos EUA).

Fica claro que o alinhamento político e econômico desses países era conflitante com os interesses dos EUA para a região, eram governos relativamente estáveis, mas que lutaram contra insurreições lideradas por interesses econômicos de minorias abastadas com influência política local e em muitos casos usando a religião como garantia de seu direito de governar ou de impor sua ideologia contra outros povos. Observando do ponto de vista político, foram governos progressistas que amorteceram os impactos da religião nas políticas de estado e garantiram mais direitos ao povo como um todo, indiferente de alinhamento religioso.

Arábia Saudita: Um aliado lutando pelo inimigo

A relação entre EUA e Arábia Saudita é no mínimo questionável, desde o início da chamada “Guerra ao Terror” de George W. Bush os EUA usaram como slogan “levar a democracia” até os países árabes que segundo a visão do EUA estavam “dominados por grupos terroristas islâmicos que pretendem atentar contra a liberdade e desestabilizar a democracia estabelecida nas nações”, e aí entra a parte contraditória dessa aliança. A Arábia Saudita é uma monarquia absolutista islâmica wahhabista, a classificação pode parecer complicada então vamos dissecar o termo para termos uma visão mais clara.

Sem título

Por ser uma monarquia absolutista, o povo não tem poder como sociedade civil, o país é governado por um rei que tem autoridade para comandar todo o país, contando apenas com um conselho escolhido pelo próprio rei. A Arábia Saudita é o único país árabe onde nunca houve eleições em toda a sua história.

Sendo uma teocracia, todas as leis são baseadas na Sharia e no Alcorão, ou seja, o país não possui uma constituição própria. Todas as leis e políticas judiciárias são reproduzidas dos textos religiosos do Islã, a Arábia Saudita vem ano após ano batendo seus recordes de execuções, em 2014 executou 90 pessoas, e até 28 de maio de 2015 já havia executado esse mesmo tanto e até a data de hoje foram executadas 142 pessoas. As punições mais comuns são: decapitação, apedrejamento e crucificação, todas as sentenças são aplicadas em locais públicos e os corpos dos crucificados ficam expostos por semanas para “dar o exemplo”.

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E agora chegamos ao ponto mais crítico, a ideologia wahhabista, vertente do Islã que é considerada a mais conservadora de todas, entusiastas de um califado islâmico sonham como o domínio de um só líder islâmico em toda a região árabe através de um governo rigidamente alinhado com as escrituras antigas do Islamismo sunita e repudiam qualquer reformismo ou desvio de interpretação do islamismo ortodoxo e ultraconservador. Dentre os grupos políticos mais conhecidos que seguem o Wahhabismo podemos citar a Al-Qaeda, a Al-Nursa e o Estado Islâmico.

A “democracia” ocidental e o alinhamento econômico com os EUA

Agora vamos estudar os fatos apresentados aqui: os EUA defendem que devem intervir nessas regiões para garantir a paz e o avanço da democracia, ao mesmo tempo são aliados de um país completamente antidemocrático e com alinhamento ideológico nocivo aos interesses dos povos da região. O que a Arábia Saudita pode oferecer então? A resposta é simples: petróleo! E isso se torna ainda mais assustador quando a Rússia encontra poços de petróleo funcionado na Síria sob o controle do Estado Islâmico, a pergunta é: para quem o grupo terrorista estaria vendendo esse petróleo?

Enquanto os EUA avançam contra governos legítimos que procuram defender a autodeterminação de seu povo e garantir a soberania sobre seus recursos, financiam também grupos com interesses particulares na região, grupos assumidamente extremistas e que lutam para manter o poder na mão de poucos, uma aristocracia árabe necessária para a criação de um califado. Os EUA armam e apoiam terroristas! Financiam guerras em países que não entregam seus recursos de bandeja a seus interesses! Agem de maneira sórdida e corrupta sacrificando vidas inocentes para desestabilizar e sabotar anos de conquistas sociais. A “democracia” ocidental não passa de uma desculpa conveniente.

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