As favelas digitais e a boa vizinhança das publicações

Em um post publicado em seu blog em 30 de julho (Is Scielo a publication favela?), o bibliotecário estadunidense Jeffrey Beall comparou o portal brasileiro Scielo a uma favela, usando o próprio termo “favela” em português e publicando a imagem que acompanha este texto. Indo mais além, o autor afirmava que todos os portais “open access” (de acesso livre) seriam equivalentes a uma favela, porque suas publicações seriam “efetivamente escondidas” e quase ninguém as leria. O post produziu uma reação forte da comunidade acadêmica brasileira, com várias entidades que têm seu conteúdo publicado no Scielo repudiando o autor e mostrando erros em seu texto. Mesmo isto tendo acontecido há alguns meses, escolhi retomar o texto de Beall aqui para tentar mostrar quais são seus interesses na questão e como, a partir disso, podemos discutir outras questões relacionadas, como o acesso livre e o mercado de publicações acadêmicas.

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O Scielo (cujo nome em extenso, aliás, está em inglês, indicando o desejo de ser aceito pela comunidade anglófona, a mais influente dos meios acadêmicos contemporâneos: Scientific Electronic Library Online) é o que se chama de um portal agregador: ele reúne conteúdos de várias publicações acadêmicas brasileiras e, mais recentemente, também livros de editoras acadêmicas. Fundado em 1997, é financiado em parte pela FAPESP, fundação de apoio à pesquisa do estado de São Paulo, e pelo Cnpq, do governo federal. Todo o conteúdo que está no Scielo é gratuito, não requerendo qualquer cadastro e podendo ser acessado e baixado por qualquer computador com acesso à Internet. O argumento de Beall é que a produção do Scielo não tem visibilidade, e, portanto, muitos não chegam a ter acesso ao portal. Para comprovar o que fala, ele diz que muitos acadêmicos norte-americanos nunca ouviram falar do Scielo ou das revistas que ele agrega, o que tornaria o portal equivalente a “uma vizinhança remota e não familiar”.

Deixando de lado aqui o preconceito evidente na visão de favela do autor, é importante mostrar que seus argumentos, mesmo do ponto de vista acadêmico, não fazem muito sentido. Para me concentrar apenas em uma publicação que eu conheço mais de perto, o Scielo tem a coleção completa da revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos, que está atualmente no 25º. ano de sua publicação. Na comunidade brasileira, a revista é uma das referências mais importantes de sua área: na classificação de periódicos feita pela Capes, ela é A1, o grau mais alto possível. Mas ela não tem projeção apenas entre os pesquisadores brasileiros ou mesmo latino-americanos: como se pode comprovar folheando-se os índices de algumas edições, seu conselho editorial é composto por vários pesquisadores de EUA, Canadá e França, entre outros; todos seus artigos, mesmo os escritos originalmente em português, apresentam uma versão para o inglês no site; e muitos artigos de pesquisadores de língua inglesa são publicados nela. Portanto, me parece que se há uma característica que a Manguinhos, e por extensão, o Scielo, não apresentam é estarem escondidos do público especializado de língua inglesa. E Manguinhos é apenas um exemplo: muitos outros periódicos especializados do Scielo são bastante relevantes em sua área.

O que leva à seguinte questão: se Beall critica tanto o modelo de acesso livre, qual o modelo que ele defende? O dos provedores pagos, ou, como ele diz, comerciais, dos quais existem muitos exemplos em língua inglesa, como várias editoras universitárias e grandes “publishing houses”, como WileyBlackwell, Elsevier, Thompson Reuters (que publica a maior parte dos índices de citações hoje considerados a melhor maneira de avaliar o impacto de uma publicação). Neste caso, existem duas formas de se acessar o conteúdo: assinando diretamente o periódico no qual se está interessado ou comprando individualmente o artigo de interesse (em geral, as taxas para o último caso são proporcionalmente maiores do que para o primeiro); ou pagando um valor para provedores agregadores, como o JSTOR, que fazem um serviço semelhante ao Scielo, só que pago. No caso do JSTOR, essa taxa é geralmente paga por bibliotecas e associações universitárias, de maneira que muitos estudantes ou que tenham vínculos com as maiores universidades brasileiras podem acessar o conteúdo. Mas e o restante da população? E quem mora na favela lembrada por Beall? Não pode ter acesso a este conteúdo por duas razões: primeiro, porque dificilmente vai ter condições econômicas de pagar por ele; e, em segundo lugar, porque, segundo o bibliotecário, não interessa a quem publica para esses provedores pagos disponibilizar sua “ciência” em lugares de “vizinhança ruim”.

Como fica claro, os interesses de Beall são econômicos e ele usa comparações elitistas para defender os provedores pagos. Defender que os provedores comerciais pagos fazem um melhor trabalho de divulgação e visibilidade do seu conteúdo não se justifica, pois o fato do site ser fechado para quem não paga por ele torna, na verdade, seu conteúdo menos disponível e podendo ser acessado por um número menor de pessoas. É claro que precisamos pensar nas editoras e nos autores dos livros, que devem ser remunerados pela sua produção. No entanto, seria ingênuo pensar que editoras do porte e da tradição das citadas no parágrafo anterior dependam apenas do faturamento obtido com a venda de assinaturas de seus produtos, e que na era da Internet ainda não tenham encontrado outros modelos lucrativos que disponibilizem uma maior parte de conteúdo online. Isso para não entrarmos em uma outra questão, bem mais complexa e que poderá ser tema de um futuro artigo, que é a discussão sobre direitos autorais, cuja existência é bem mais recente do que muitos imaginam. Concluindo, o bibliotecário estadunidense, que se identifica em seu site como um humilde bibliotecário acadêmico há mais de 20 anos, está defendendo os interesses de grupos muito maiores e mais poderosos, mas que talvez não queiram “sujar suas mãos” se referindo diretamente a outros provedores como “favelas” e “locais de má vizinhança”.

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