Carta aos Futuros Educadores

* Esse texto foi originalmente publicado no dia 21 de Setembro de 2013 em meu blog pessoal, foram feitas edições mínimas para corrigir alguns erros de publicação.

“Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor” – Paulo Freire

Essa frase do grande pensador e educador Paulo Freire sintetiza com uma precisão perturbadora a atual condição do sistema educacional brasileiro. Um sistema que não oferece perspectivas aos estudantes pobres e excluídos socialmente, um sistema unilateral que não admite a participação dos alunos dentro do programa de aprendizado, que cria um desinteresse generalizado entre os estudantes que não reconhecem na escola um ambiente de desenvolvimento, mas sim de repressão e hostilidade.

Os sintomas desse problema são claros a qualquer um que reflita sobre como anda a educação – principalmente a pública – em nosso país, não é necessário nenhum estudo aprofundado ou uma análise complexa para compreender que a escola, em geral, não é atraente para os jovens, principalmente entre os jovens pobres. Mas a questão que fica é: como atrair o jovem para que possa ter uma formação cidadã e que participe ativamente da formação de nossa sociedade?

Essa pergunta parece ser direta e simples, porém, as respostas podem se demostrar antagônicas de acordo com os discursos adotados, e cabe a nós, professores e futuros professores compreender a realidade do ensino no Brasil e trabalhar com todas as nossas forças para mudar esse quadro vergonhoso que está presente em nossa sociedade.

Os setores mais reacionários culpam os próprios alunos pela sua suposta “incompetência” em adquirir e reproduzir conhecimento – levando em conta que esse discurso não trata o aluno como capaz de produzir nada – argumentando que o aluno não sabe se portar na sala de aula e não possui interesse nenhum em seu próprio desenvolvimento. Esse discurso é tão elitista que se torna até triste ter que contra argumentar, e mais triste ainda ver que professores formados compactuam com essa ideia.

Tratar os alunos como incompetentes é um argumento comum das classes dominantes que, embebidas nos valores individualistas do liberalismo, apelam para uma discurso que invoca a meritocracia e a moral burguesa, com sua defesa de que “todos têm as mesmas oportunidades, basta correr atrás” acusam os excluídos socialmente de não terem a capacidade ou o interesse de se integrar a sociedade sob as regras dos que os exploram e repudiam, em suma, cobrar uma espécie de “cidadania” daqueles que sempre foram tratados como “cidadãos de segunda classe”.

Infelizmente, esse modelo ainda é o que vemos hoje. A escola segue a ideia de que o aluno está lá para “aprender”, não para questionar ou produzir, apenas para acumular e reproduzir – característica marcante dos vestibulares e processos seletivos – para que assim possa se integrar à sociedade, ou seja, após abandonar todos os seus valores, ideias, experiências e negar a sua realidade, o estudante está pronto para ser “aceito” na sociedade.

Diante dessa realidade – que aumenta a evasão escolar, a desvalorização dos professores, o visão da educação como mercadoria e outras formas de segregação como o discurso de autoridade e a criminalização da pobreza – fica como nosso dever, o dever dos professores de uma nova geração, procurar uma solução e aplicá-la dentro da realidade das escolas brasileiras e que atendam às necessidades e expectativas dos estudantes, que antes de estudantes, devem ser considerados cidadãos, e antes disso, como pessoas livres, independentes e capazes!

Após todas essas acusações e críticas, que demostram uma realidade desmotivadora e quase sem esperanças, fica a pergunta “o que fazer?”. Não existe uma solução pronta, intransigente, absoluta ou sagrada, mas sim uma série de mudanças que os professores e professoras podem levar adiante para lutar por uma sociedade mais justa!

O aluno, assim como qualquer outro ser humano, quer ter voz, quer ser ouvido, quer mostrar que também tem poder, que também pensa, que também tem ideias e opiniões! Por esses motivos, é cada vez mais necessário que os professores abram mão da educação como via unilateral, que larguem o discurso de autoridade, que trabalhem com respeito e não com demonstrações de poder e intimidação. Um professor que defende sua posição de “autoridade” com chantagens, ameaças de notas baixas e opressão de qualquer espécie, não merece o título de educador, na verdade, é uma grande vergonha a todos os educadores que uma criatura desse tipo tenha um diploma em Licenciatura.

Precisamos lutar por uma educação inclusiva, que respeite o aluno, sua cultura, sua realidade e suas necessidades! Por um sistema de educação que seja maleável, dinâmico e coerente com as diversas realidades e contradições existentes em nossa sociedade. Uma educação que forme cidadãos, com direitos, voz e consciência. Que repudie com todas as forças qualquer resquício de autoritarismo, violência e opressão dentro das escolas.

Esse é nosso dever, futuros professores e professoras, o dever de levar uma educação inclusiva a todos! O dever de lutar por uma sociedade mais justa e consciente!

E terminando com mais uma citação:

“Se você falar com um homem numa linguagem que ele compreende, isso entra na cabeça dele. Se você falar com ele em sua própria linguagem, você atinge seu coração.” – Nelson Mandela

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