É pela minha vida e de todas as mulheres

Nas ultimas semanas temos assistido diversos protestos contra a chamada PL 5069  (de autoria de Eduardo Cunha do PMDB e outros) que retrocede em conquistas do direito ao aborto em casos já permitidos por lei. Esse texto tem a intenção (tentativa) de dialogar com esse tema, mas também de falar de uma forma mais humanista sobre a questão do aborto.

É inadmissível que em um país onde ocorrem mais de 50 mil estupros por ano, onde a cada 2 dias uma mulher morre em decorrência de complicações por abortos clandestinos e onde uma mulher é violentada a cada 12 segundos e assassinada a cada 2 horas estejamos criando leis para dificultar ainda mais a vida dessas mulheres, é inadmissível que em um governo dito de esquerda como nosso as mulheres tenham que lutar por uma questão básica de saúde e contra a violência. É inadmissível que em épocas de “#primeiroassedio” em que tudo é tão explicito nessa luta estejamos regredindo nas questões ligadas a mulher.

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Estima-se que no Brasil 1 milhão de abortos clandestinos aconteçam por ano.  Sendo que maior parte desses abortos são feitos em casa ou no que muitas mulheres chamam de açougue. Explico. Muitos abortos são provocados em casa com uso de medicamentos, ou até com perfurações do próprio corpo, outros são feitos em “clinicas” clandestinas sem um médico especializado, enfermeiro, condições de higiene. São desses abortos que temos os maiores indicies de complicações e que acabam matando uma mulher a cada dois dias. Outra forma de realizar tal procedimento é pagando caro. Algumas clinicas com médicos que realizam esse procedimento chegam a cobrar de 2 até 7 mil reais para faze-lo. Os riscos físicos nesses locais são muito menores. Podemos colocar aí então que o problema vai além de saúde publica que já sabemos, é um problema social, mulheres de diferentes classes abortam , mas só as pobres morrem, e além de tudo podem ser presas.

Como?

Como já dito antes, em muitos os casos, mulheres que fazem abortos caseiros, ou em locais não apropriados acabam tendo complicações, como infecções e hemorragias, essas mulheres se veem obrigadas a procurar emergências de hospitais e por muitas vezes são denunciadas a justiça por ir contra a lei do país que o proíbe e realizarem um aborto. E sim, mesmo descumprindo o código de ética médica, a maioria dessas mulheres ainda são denunciadas pelos médicos que as atendem e por administrações dos hospitais.

É nessa parte que quero (tentar) entrar com um pouco mais de sensibilidade. Uma mulher que realiza um aborto, tem muitos motivos para realiza-lo, desde a baixa idade, momento de vida e principalmente falta de condições financeiras para isso, e independente desses motivos, é um momento de extrema fragilidade para a mulher. Somos criadas em uma sociedade em que a mulher tem que ser mãe para “ser completa”, somos doutrinadas dentro da religião que condena basicamente tudo e coloca a mulher como uma procriadora, romper com tudo isso é difícil até para uma feminista em um momento como esse.  E tudo é feito para piorar. Além de abaladas pelos estigmas sociais, muitas mulheres ainda tem que procurar clinicas que podem pagar, realizar esses procedimentos caseiros, gastar o pouco que tem, muitas vezes sozinha, sem apoio familiar, sem apoio do homem que a engravidou, com MUITOS julgamentos de familiares e amigos e além de tudo, no meio desse turbilhão de emoções, com muito medo, de morrer ou ainda de ser presa.

É inacreditável que em um momento tão difícil da vida de uma mulher ainda tenham que passar por tudo isso e é mais inacreditável que estamos retrocedendo sobre o tema em nosso país. É inadmissível que nossos corpos recebam ordens de bancadas religiosas enquanto milhares de mulheres morrem e sofrem pelo aborto. Não podemos assistir outros países legalizando o aborto e melhorando a saúde pública enquanto as nossas mulheres morrem. Não podemos aceitar em silencio que mulheres pobres morram sangrando sozinhas.

Protesto pelos direitos da mulher na tarde desta quarta-feira (28), em frente à Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), no centro do Rio de Janeiro

Em momento de lutas feministas em redes sociais, nas ruas, nosso grito tem que ser um só. PELO ABORTO LEGAL SEGURO E GRATUITO. Pelo total direito aos nossos corpos. Pelo fim do assedio, por nenhuma mulher a menos por decidir pelo seu futuro, pelo direito pleno a maternidade, por educação sexual efetiva nas escolas, por contraceptivos efetivos para cada organismo, por tratamento humano para essas mulheres, com apoio psicológico. Lutemos com uma perspectiva revolucionária mostrando que somente acabando com esta sociedade de opressão e exploração é que teremos a verdadeira emancipação das mulheres.

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