Leituras para a formação política progressista

Não sei e nem quero saber o que é pior para a militância política: teoria sem prática ou prática sem teoria. Só sei que ambos são muito ruins. Por isso eu fiz uma lista de livros que acho importante que militantes leiam. Auxiliam a entender o motivo pelo qual a atividade política é fundamental para vivermos em uma sociedade mais justa, que uma sociedade mais justa não será gerada espontaneamente. São obras de leitura fácil, voltadas para o público não acadêmico. Bons para sugerir até mesmo para pessoas mais novas que estão iniciando na militância política de esquerda.

Listas são sempre polêmicas. Mas quem não concordar, não precisa chorar. Não quero dizer que estes são os melhores livros. São simplesmente os melhores entre os que eu conheço para a introdução à política. Não sei de todo o conhecimento produzido pela humanidade.

A ordem de apresentação está aleatória. Não está em ordem cronológica, nem em ordem de importância.

O Capital no Século XXI – Thomas Piketty (2013)

A obra do economista francês trata da evolução da desigualdade de renda e riqueza de 1800 até os dias de hoje. Seu trabalho enfoca os países do Primeiro Mundo, que dispõem de melhores e mais antigos dados dos impostos de renda e herança, que fornecem informações sobre renda e riqueza. Verifica-se que a desigualdade nos Estados Unidos e na Europa cresceu até 1913, caiu bruscamente com as duas guerras mundiais e voltou a crescer a partir de 1980. A herança, que havia se tornado irrelevante no imediato pós Segunda Guerra Mundial, voltou a ter grande importância, enfraquecendo a tentativa de resumir tudo ao mérito. Piketty argumenta que o principal motor da desigualdade é a diferença positiva entre o rendimento do capital e o crescimento da economia. Mas também mostra que a enorme diferenciação de salários ocorrida nas últimas três décadas, principalmente envolvendo os super executivos, é o principal responsável pelo aumento da desigualdade nos Estados Unidos. A obra contesta a visão econômica conservadora que relaciona variações da desigualdade com educação, tecnologia e disponibilidade de fatores de produção, e defende que processos políticos são muito relevantes na evolução da desigualdade. Piketty propõe um imposto internacional sobre riqueza, para evitar que milionários se desloquem para países com impostos mais baixos. Este livro, embora trate principalmente do Primeiro Mundo, chegou em bom momento ao Brasil, pois ajuda a aumentar o espaço do tema desigualdade no debate sobre economia. Aqui, o duelo entre os ortodoxos e os heterodoxos é paixão nacional igual novela, futebol e carnaval, e a desigualdade muitas vezes é um tema pouco abordado neste debate.

A consciência de um liberal – Paul Krugman (2007)

Assim como o livro de Piketty, este também trata da influência da política sobre a desigualdade. Mas aborda especificamente os Estados Unidos. O economista norte-americano mostra que a redução da desigualdade de renda nos Estados Unidos, que ocorreu com mais força de 1929 a 1950, e o aumento, que ocorre desde 1980, foram resultados principalmente de processos políticos, e não de influências do próprio sistema econômico, como educação, tecnologia e fatores. É muito importante que brasileiros leiam este livro, porque o leitor brasileiro pode perceber fortes paralelos entre a construção da frente conservadora na década de 1970 que possibilitou a vitória de Reagan em 1980 e o consequente início da política da desigualdade, e o que está acontecendo no Brasil atualmente. Importante lembrar que o “liberal” do título da obra está no sentido norte-americano, ou seja, quer dizer esquerda.

A Doutrina do Choque – Naomi Klein (2007)

Ativista canadense mostra como forças políticas de direita encontram viabilidade política para implementar agendas anti populares, ou seja, como conseguem aplicar um choque conservador em países. Segundo a obra, desmontes de estados de bem estar social não encontram viabilidade política em circunstâncias normais, porque a maioria da população, que seria prejudicada, não permite. A viabilidade aparece em circunstâncias extraordinárias, provocadas ou acidentais, que podem incluir golpes militares, guerras, hiperinflações, súbitas mudanças políticas, crises de mercados financeiros, terrorismo e até mesmo desastres naturais. A obra mostra a história destas circunstâncias extraordinárias e suas consequências políticas. Começa com os golpes militares do Terceiro Mundo nas décadas de 1960 e 1970 e vai até o tsunami e o Katrina na década de 2000. Apesar do livro ser de 2007, o leitor brasileiro pode sentir o cheiro destas circunstâncias extraordinárias para o choque de direita em 2015.

A Era da Incerteza – John Kenneth Galbraith (1977)

Livro bastante útil e didático para quem não é economista, mas gosta de entender as discussões sobre Economia. Apresenta um histórico das ideias sobre Economia, assim como o histórico de suas aplicações. Discute também alguns temas básicos de Economia, com uma abordagem keynesiana progressista. O livro é um resumo da versão televisiva. Galbraith já participou dos governos Roosevelt e Kennedy. Quando faleceu em 2006, era quase que a extrema esquerda nos Estados Unidos. Não porque ele se deslocou para a esquerda quando envelheceu. E sim porque ficou parado no mesmo ponto, enquanto o mundo foi para a direita.

23 coisas que não nos contaram sobre o capitalismo – Ha Joon Chang (2010)

O economista sul coreano Ha Joon Chang, em 23 capítulos, contesta mitos difundidos por liberais (no sentido não norte-americano), mitos aliás muito presentes em cadernos de Economia de jornalões. Chang argumenta entre outras coisas que não foi com políticas de livre mercado que os países atualmente ricos ficaram ricos, que deixar os habitantes muito ricos ainda mais ricos não vai necessariamente deixar os pobres menos pobres, que nem sempre o que é bom para empresas é bom para a sociedade, que igualdade perante à lei nem sempre é o suficiente… O 23 coisas… é mais esquerdista do que o Chutando a Escada, o outro livro famoso do Chang.

O mito do desenvolvimento econômico – Celso Furtado (1974)

Este pequeno livro de Celso Furtado contesta a visão de que o desenvolvimento econômico mundial significaria generalizar os padrões de consumo dos países do centro da economia capitalista mundial e de uma minoria da população da periferia para toda a população mundial. Isto esbarraria na limitação dos recursos naturais. Importante ler este livro até mesmo para contestar uma parcela da esquerda que se diz herdeira da tradição de Celso Furtado, mas defende o desenvolvimento a qualquer custo, tem visão negativa dos movimentos ambientalistas, e parece ignorar esta obra do pensador.

Introdução à Economia Solidária – Paul Singer (2002)

Não há muito o que descrever. Este pequeno livro trata de… Introdução à Economia Solidária. É importante ler para entender que existem opções de esquerda além do marxismo-leninismo ortodoxo e da social-democracia.

Nova Classe Média? O trabalho na base da pirâmide social brasileira – Marcio Pochmann (2012)

Resumo descritivo da evolução do mercado de trabalho no Brasil no período recente. Apesar de ser do partido do governo (e presidir a fundação do partido do governo), o economista critica o conceito de “nova classe média”, muito presente em propagandas governamentais. Os recém incluídos no mercado de trabalho fariam parte da classe trabalhadora, e não da classe média. O uso do termo classe média para este grupo de trabalhadores teria consequências ideológicas negativas, como o apelo a soluções privadas para serviços públicos.

Os Sentidos do Lulismo: reforma gradual e pacto conservador – André Singer (2012)

Cientista político explica o que é o lulismo: um pacto pela redução da miséria dentro da ordem, através da conciliação e não do conflito. Mostra como o lulismo, que é diferente de petismo, causou um realinhamento eleitoral no Brasil. O Lula e o PT, que tinham maior força eleitoral nas regiões metropolitanas e tinham apoio razoável da classe média, passaram a ter como apoiadores mais fortes os muito pobres que residem nas regiões rurais, que antes eram o grupo que mais rejeitavam o Lula e o PT. A polarização esquerda/direita teria sido substituída pela polarização pobres/ricos. Obra importante para entender a política brasileira no início do século XXI.

A esquerda que não teme dizer seu nome – Vladimir Safatle (2012)

Livro tão pequeno que pode ser resumido em poucas palavras: “mexa este traseiro gordo”. Essencial para militantes.

Sex and Social Justice – Martha Nussbaum (2000)

Destaco pelas importantes contribuições ao recorrente dilema progressista entre direitos humanos e tolerância à diferentes culturas. Infelizmente, não encontrei versão em Português.

Direita e esquerda – Norberto Bobbio (1994)

Básico do básico.

Considero também importante conhecer a obra do Antonio Gramsci. Talvez, os Cadernos do Cárcere sejam complexos demais. Algum livro explicativo do pensamento do Gramsci, escrito por outro ator, pode ser mais adequado.

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