O Mito da mulher que não trabalha

Quantas vezes já ouvimos falar que a mulher “X” não trabalha? Quantas vezes ouvimos falar que as nossas mães e avós não trabalhavam? Pois se eu disser que elas trabalham e sempre trabalharam? É o que vou pretendo comprovar neste texto.

Bom, para começar vamos tentar definir o que é o trabalho. Poderia citar vários autores, mas simplificando: trabalho é um conjunto de atividades realizadas por indivíduo(s) para atingir uma meta. O trabalho pode ou não ser remunerado. O trabalho doméstico muitas vezes não é remunerado, aí você já vai pensar diferente sobre as suas mães, avós, bisavós que todos diziam que não trabalhavam. A minha avó materna, cortava lenha até pouco tempo antes de morrer, tinha uma horta que ela cuidava e as vezes criava bichos (porcos, galinhas e cavalos). Isso tudo no intervalo de cuidar da casa e de 12 filhos. Ela também tinha problemas sérios de coluna. Será que alguém nesse mundo concordaria que a minha avó não trabalhava? Será que alguém concordaria que camponesas ou escravas não trabalhavam?

Podemos falar de tipos diferentes de trabalho e de classe social, mas podemos afirmar que as mulheres sempre trabalharam. As mulheres mais pobres trabalhavam dentro e fora de casa. Normalmente o trabalho fora era doméstico, prestando serviços em casas, restaurantes e estabelecimentos de famílias mais abastadas, trabalhavam de cozinheiras, babás, costureiras, etc. Reparem que estou falando de trabalho, não de profissões específicas. E as mulheres mais ricas não trabalhavam? Sim, elas trabalhavam, elas que delegavam os afazeres domésticos, e se alguém não considerar que isso seja um trabalho, então desconsidere também o trabalho de seus maridos que delegavam serviços aos seus subordinados.

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Nilza Oliveira dos Santos, 75 anos, era enfermeira. Hoje, ela recebe a pensão pela morte do marido e faz bicos como costureira.

Também existe um mito das mulheres não serem capazes de trabalhar com serviços ditos ‘pesados’. Pois bem, esse mito acabou quando as mulheres assumiram os papéis dos homens quando eles foram para guerra. Qual guerra? Todas! As mulheres assumiram os trabalhos ditos pesados pois os maridos, pais, filhos e irmãos estavam no front. Nas fábricas/Indústrias que precisavam cumprir metas de produção as mulheres foram contratadas para os trabalhos que eram destinados aos homens durante a Segunda Guerra Mundial como a Ford por exemplo, principalmente nos EUA. Essa experiência de trabalho dito “masculino” na segunda guerra impulsionou a chamada Segunda Onda Feminista mais tarde, nos anos 60, onde dentre as reivindicações estavam a igualdade salarial entre homens e mulheres.

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Mulheres soviéticas do Quirguistão, na época ainda era Quirguízia, operando tratores na ausência dos homens que foram para guerra, ano de 1942.

As primeiras fábricas no Brasil, fábricas têxteis, tinham a sua grande maioria de funcionários mulheres e crianças. No ano de 1872, em São Paulo, as mulheres representavam cerca de 78% da força de trabalho das indústrias têxteis1[i].[ii]Eram longas jornadas de trabalho, salários baixos, trabalho de risco, sem proteção e sem leis trabalhistas. Além de trabalhar nas fábricas, as mulheres faziam serviços “por fora”, especialmente serviços domésticos para conseguir sobreviver, sustentar a casa e os filhos, pois somente o salário da fábrica não era suficiente.

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Companhia de Fiação e Tecidos Pelotense, Pelotas RS ano 1910

Durante o processo de industrialização brasileiro não se pode deixar de considerar o imenso êxodo rural, a grande massa de pessoas que abandonaram o campo e sobre carregavam as grandes metrópoles atrás de emprego. Nesse contingente, as mulheres representavam 48% do conjunto de 4.918.209 trabalhadores empregados na indústria de transformação, dessas mulheres, apenas 21% trabalhavam até 40 horas semanais e somente 14% recebiam o equivalente a um ou mais salário mínimo legal 2. [iii][iv]

Então, vamos desfazer alguns mitos: grande parte dessas mulheres urbanas, desde os séculos XVIII e XIX, eram mulheres q não tinham casamentos formais, trabalhavam e sustentavam seus filhos, muitas sozinhas.

“Mulheres brancas e sem dotes não se casavam nem se integravam nos padrões aristocráticos de organização familiar. Viviam segundo os usos costumeiros em uniões legítimas, porém instáveis, que se sucediam ao sabor dos ciclos vitais e acabavam por criar sozinhas os filhos. Abandonadas por maridos ausentes, juntavam-se com outros homens, com os quais tinham filhos ilegítimos (…) Multiplicavam-se mulheres pobres que o sistema social era incapaz de absorver e que apenas tangencialmente se inseriam na sociedade escravocrata. Num processo de pauperização foram ocupando as margens da miséria da urbanização incipiente.” Silva Dias citado em Anotações Sobre a Pobreza Feminina na Constituição De um Mercado de Trabalho Informal no Brasil

Se fomos fazer um recorte e gênero e raça, as mulheres negras eram as mais atingidas em todos os sentidos de trabalho precário, mas em especial no período pós escravidão, onde gerou uma massa de desempregadas.

Poderíamos falar das tribos indígenas do Brasil ou de qualquer lugar onde as mulheres sempre ocuparam seus lugares de trabalho, mas falando especificamente do Brasil, onde os índios foram expulsos de suas terras, trouxeram os negros para trabalhar, depois abandonaram os negros e trouxeram os imigrantes, ou seja, gerou-se uma mão de obra excedente, acumulando desempregados. O trabalho era normalmente informal e precário, formado principalmente por mulheres e negros, o trabalho doméstico, por exemplo, a pouco tempo foi reconhecido com direitos formais como outras categorias de trabalho.

Mas o que eu quero mostrar com esse texto não é uma espécie de mérito pelo trabalho que sempre coube a mulher as piores atividades, piores remunerações, até mesmo nas fabricas competia aos homens os melhores postos e melhores remunerações. A minha intenção é mostrar o quanto a sociedade passa uma imagem falsa de mulher. Estudando ou apenas prestando mais atenção a nossa volta, você vai perceber que a figura de mulher mais comum não é aquela de Diva, de mulher de batom e salto alto, mas uma maioria esmagadora de mulheres que trabalharam a vida toda para sobreviver e criar seus filhos, muitas sem ajuda de maridos. Não lembro da minha avó usando batom ou salto, lembro dela cortando lenha. A urbanização, a moda, fazem com que as mulheres se vejam como figuras fúteis, infantis ou figuras decorativas, embora tenham conquistado mais postos de trabalho e os salários continuem menores do que dos homens. Quero dizer que se formos ver na história, somos e sempre fomos importantes seja em qual tempo for, mas somos consideradas sempre as cidadãs de segunda classe, não temos salários iguais, não temos respeito, não temos direitos básicos como o do nosso próprio corpo. Somos exploradas sexualmente direta ou indiretamente. Nós, mulheres, precisamos nos reconhecer como seres políticos que temos uma hierarquia social que não nos beneficia, ao contrário, nos desfavorece enquanto sujeitos sociais, onde nossa ausência participativa é justificada irracionalmente pela nossa biologia.

“Os que fizeram e compilaram as leis, por serem homens, favoreceram seu próprio sexo, e os jurisconsultos transformaram as leis em princípios”, diz ainda Poulain de Ia Barre. Legisladores, sacerdotes, filósofos, escritores e sábios empenharam-se em demonstrar que a condição subordinada da mulher era desejada no céu e proveitosa à terra. As religiões forjadas pelos homens refletem essa vontade de domínio: buscaram argumentos nas lendas de Eva, de Pandora, puseram a filosofia e a teologia a serviço de seus desígnios.” Simone de Beauvoir in O Segundo Sexo vol. 1

Há um filme que considero muito bom sobre o assunto, Revolução em Dagenham (Made in Dagenham) que fala sobre a greve das mulheres na Ford em 1968, o filme é do ano de 2010.

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Made in Dagenham, filme. (2010)

Referências:

1 PENA,Maria Valéria Junho.Anotações Sobre a Pobreza Feminina na Constituição De um Mercado de Trabelho Informal no Brasil.Rio de Janeiro: UFRJ/Instituto de Economia Industrial, 1986. 26p. (Texto para Discussão; nº 95).

2 PEREIRA, Mello. Empregadas Domésticas: quantas são, suas metas e as relações com o Movimento Feminista. Departamento de Economia, Universidade Federal Fluminense, 1985.

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