O PSDB pode começar a perder apoio da parcela mais culta da classe média

Nos próximos anos, pode ocorrer uma mudança na base eleitoral do PSDB igual àquela que ocorreu na base eleitoral do Partido Republicano dos Estados Unidos nas décadas de 1990 e 2000. Os republicanos, quando eram identificados apenas como o partido mais favorável ao business, tinham apoio maciço da classe média alta branca que morava nos subúrbios, em todo o país. Quando os republicanos passaram a ser conhecidos como o partido relacionado com o fundamentalismo evangélico, hostil à ciência, a ponto de muitos de seus líderes negarem a teoria da evolução e o aquecimento global, e propenso a fazer política através da boataria, a parcela mais instruída do eleitorado republicano passou a votar nos democratas. Atualmente, os republicanos perdem de lavada entre os eleitores com graduate school (equivalente à nossa pós). Sua maior força está entre os que têm apenas o college (equivalente à nossa graduação). Por um lado, os republicanos herdaram muitos votos da classe trabalhadora branca, que antes votava nos democratas, mas ficou insatisfeita com o posicionamento muito progressista dos democratas em questões de etnia, imigração, religião, armas e sexualidade. Por outro, conforme mencionado, muitos integrantes da classe média alta instruída residentes em subúrbios da Costa Oeste e do Nordeste (regiões de maior escolaridade) migraram dos republicanos para os democratas. Como resultado disso, desde 1992, os republicanos nunca mais ganharam estados da Costa Oeste e do Nordeste em eleições presidenciais (a única exceção foi a apertada vitória de Bush em New Hampshire em 2000).

O PSDB está ficando cada vez mais parecido com o atual Partido Republicano. Há algum tempo já vem defendendo a pauta da bancada fundamentalista religiosa (também conhecida como evangélica, termo que rejeito porque nem todo evangélico é fundamentalista e porque também há católicos e espíritas na bancada). No início de 2010, ajudou a bombardear o III Plano Nacional de Direitos Humanos, do Paulo Vannuchi, plano que defendia bandeiras para um Estado laico de verdade. A campanha de José Serra em 2010 explorou a ateufobia contra a Dilma. Atualmente, a bancada do PSDB na Câmara dos Deputados apoiou o Estatuto da Família que exclui da definição de família qualquer arranjo que não seja o casal com seus filhos biológicos. Apoiou também o PL 5069/2013, que dificulta o atendimento para vítimas de estupro. Ajudou a derrubar o projeto de lei que complicava a vida dos sonegadores. É do PSDB o deputado autor de um projeto de lei que pretende estabelecer prisão para professores como consequência de opiniões sobre política emitidas em sala de aula. Este PL é apoiado pelo ultradireitista movimento Escola Sem Partido (é sem partido mesmo?), movimento que pretende censurar a atividade docente no Brasil. O PSDB foi responsável também por modificar o texto da “lei antiterrorismo”, para facilitar ainda mais a perseguição a movimentos sociais. E a aliança com Eduardo Cunha, além de mostrar a adesão às bandeiras fundamentalistas religiosas, enfraquece o já fraco discurso anti-corrupção do PSDB.

Importante lembrar que o PT já teve aliados evangélicos. Marcelo Crivella foi aliado do PT por muito tempo. Sites petistas já comemoraram quando a Record superava a Globo em audiência. Para não perder apoio de parte da bancada evangélica, a Dilma já fez agrados como ficar indiferente à tramitação do 5069 e barrar o material didático anti homofobia que o MEC queria distribuir no tempo do Haddad. Porém, o PT se limitou à indiferença para fazer aliança com grupos religiosos conservadores. O PSDB apoia o avanço da pauta destes grupos.

Outra semelhança com os republicanos é que o PSDB se beneficia cada vez mais do uso da boataria como método de ação política. Quando o Eduardo Campos sofreu o acidente fatal durante a campanha de 2014, uma candidata a deputada estadual em São Paulo pelo PSDB postou em seu status no Facebook uma mensagem que vinculava o governo federal ao acidente. Depois da derrota de Aécio, o PSDB solicitou auditoria ao TSE e depois disso afirmou que não era suficiente, tudo isso com a intenção de alimentar teorias de Internet de que as urnas adulteradas deram a vitória à Dilma. Durante a campanha eleitoral de 2010, espalharam-se na Internet boatos sobre o auxílio-reclusão (benefício existente desde 1991). Esta boataria não foi praticada pela campanha oficial de Serra, mais muitos militantes virtuais a favor do candidato espalharam.

O PSDB foi fundado em 1988, por dissidentes do PMDB como Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas, José Serra, Franco Montoro e Magalhães Teixeira. Eles tinham sido políticos do MDB, opositores do regime militar. Fizeram a dissidência em 1988 por terem considerado que o PMDB durante o governo Sarney tinha virado muito fisiológico. Pensaram em imitar um partido social democrata europeu. A diferença é que os partidos social democratas europeus nasceram marxistas e só depois aderiram ao capitalismo (assim como o PT) e têm a militância de trabalhadores sindicalizados (assim como o PT). Portanto, o PSDB nunca foi social democrata, nem no nascimento. Nasceu como um partido de parlamentares, sem apoio de organizações da sociedade civil (diferente do PT). Posteriormente, as organizações da sociedade civil que passaram a ser a base do PSDB foram as associações empresariais (nada social democrata). O PSDB só não foi diferente dos social democratas europeus quando se converteu ao neoliberalismo na década de 1990. Porque isto os social democratas europeus também fizeram, como o Felipe Gonzáles, o Tony Blair e o Gerhard Schröder. O governo de Fernando Henrique Cardoso foi neoliberal na economia, mas teve posturas progressistas em Estado laico e direitos humanos. Foi a partir de 2003, quando foi para a oposição, que o PSDB se diferenciou de vez dos social democratas originais e passou a abandonar até mesmo o que tinha de progressista em Estado laico e direitos humanos. Atualmente, conforme mencionado, apoia a pauta da bancada fundamentalista. E indica Coronel Telhada para a comissão de direitos humanos de Assembleia Legislativa de São Paulo. Por falar em São Paulo, também é importante lembrar que a atual administração foi pioneira em transformar a TV Cultura em uma Fox News tupiniquim.

Uma menção especial deve ser feita ao Reinaldo Azevedo, colunista da Veja que defende os fundamentalistas religiosos e hostiliza os militantes pelos direitos de minorias e promove o vitimismo do “homem branco hétero” (algo que eu sou, sem praticar vitimismo). Está equivocado quem pensa que Reinaldo Azevedo é simplesmente um ultraconservador que só apoia o PSDB por este ser o partido conservador com maior probabilidade de ganhar eleições majoritárias. Na verdade, Reinaldo Azevedo é PSDB e PSDB é Reinaldo Azevedo. Ele começou a ganhar fama na revista República, criada pelo Luiz Carlos Mendonça de Barros em 1996, para ser o veículo de comunicação paraoficial do PSDB. Naquele tempo, Reinaldo Azevedo não era o que poderia ser chamado de “neocon” porque o PSDB não era assim. O jornalista simplesmente defendia o centrismo do PSDB. Em 2002, a revista passou a se chamar Primeira Leitura e foi naquele ano um meio de comunicação paraoficial da campanha de José Serra. Reinaldo Azevedo naquele tempo ainda não defendia uma ideologia claramente de direita. Ele tentava vender Serra como o “mais preparado”. Só depois que Lula foi eleito e tomou posse que Reinaldo Azevedo passou a defender uma pauta ultraconservadora. E continuou a receber apoio do PSDB, uma vez que o partido foi se aproximando cada vez mais desta pauta. A Nossa Caixa, no tempo em que era “banco público” do estado de São Paulo, governado pelo PSDB, patrocinava a revista Primeira Leitura, falecida em 2006.

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Atualmente, os eleitores do PSDB podem ser resumidos em quatro grupos.

  1. Aqueles que votam no PSDB desde quando o partido foi fundado, acreditam nas ideias do partido dos anos 1980 e 1990, não se identificam com o deslocamento para a direita a partir da década de 2000, mas não encontram outras opções que consideram melhores
  2. Aqueles que votam no PSDB desde quando o partido foi fundado, acreditavam nas ideias centristas do partido nos anos 1980 e 1990 e passaram a defender ideias mais à direita junto com o partido a partir da década de 2000
  3. Aqueles que nas décadas de 1980 e 1990 votavam na direita (em São Paulo, notadamente no Maluf), em 1994 e 1998 por falta de opção votaram no PSDB só para presidente (FHC) e não para outros cargos, e passaram a votar no PSDB para todos os cargos a partir da década de 2000, quando o PSDB se deslocou para a direita
  4. Aqueles que votavam no PT até 2004, e abandonaram este partido por causa dos escândalos de corrupção, mas estes também abandonaram ideias de esquerda (principalmente quando envelheceram), e por isso mudaram para o PSDB e não para o PSOL, e embora fiquem insatisfeitos com o posicionamento muito conservador do PSDB principalmente sobre direitos humanos e religião, não enxergam outras opções por enquanto

Com este atual posicionamento do PSDB, seu eleitorado cativo será apenas o dos grupos 2 e 3. Pode até ganhar novos eleitores oriundos da classe C, que antes faziam parte da base lulista por causa da ascensão social durante o governo Lula, mas com a crise econômica, a crise do PT e também por identificação com valores conservadores em questões sociais, podem aderir ao PSDB. Por outro lado, eleitores dos grupos 1 e 4, que compõem a parcela mais culta dos eleitores do PSDB, podem abandonar este partido e buscar refúgio em outras opções, como a Rede, o PV, o PSB, e, para o legislativo, até mesmo em nomes da ala moderada do PSOL, notadamente no Rio de Janeiro. Podem também simplesmente votar nulo. Ou mesmo continuar apertando 45, mas sem praticar qualquer envolvimento na campanha eleitoral.

Aliás, há indícios de que isto já esteja ocorrendo. Isto pode ser verificado comparando a votação do primeiro turno de Geraldo Alckmin em 2006 nas zonas eleitorais de mais alta renda do município de São Paulo com a votação do primeiro turno de Aécio Neves em 2014 nestas mesmas zonas. Na Zona 2, correspondente a Perdizes, Alckmin 2006 teve 71,2% dos votos válidos e Aécio 2014 teve 63,0%. Na Zona 5, correspondente ao Jardim Paulista, Alckmin 2006 teve 79,5% e Aécio 2014 teve 75,0%. Na Zona 6, correspondente à Vila Mariana, Alckmin 2006 teve 74,2% e Aécio 2014 teve 66,9%. Na Zona 251, correspondente a Pinheiros, Alckmin 2006 teve 74,7% e Aécio 2014 teve 66,6%. Alguns eleitores que antes votavam no PSDB nos dois turnos podem ter encontrado em Marina Silva e Eduardo Jorge opções melhores para a hora do voto, que é o primeiro turno. A opção destes eleitores pelo Aécio só foi feita no segundo turno, que é a hora do veto, no caso específico, veto à Dilma. A base de Marina Silva é bem heterogênea. Evangélica, tem apoio dos pobres conservadores em questões sociais, mas também tem apoio de parcela instruída da classe média que se identifica com o PSDB em alguns assuntos, mas valoriza o meio ambiente e rejeita o atual conservadorismo nas questões sociais.

Alguns podem perguntar: tudo que foi discutido neste texto não seria wishful thinking? Não tenho qualquer problema em responder que em parte é sim. Cientistas sociais não apenas observam a realidade, como tentam modifica-la também. Por isso, o fenômeno descrito por este texto poderia ocorrer mesmo se o autor não existisse, mas nada impede que o autor se esforce para acelerar as coisas.

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