É seguidor do Reinaldo Azevedo? Quero distância!

Eu habitualmente sou tolerante com pessoas com opiniões diferentes das minhas. Não tenho qualquer problema em conviver bem com quem é liberal em economia, quem é contra o casamento gay, quem é contra a legalização do aborto, quem é contra a legalização da maconha, quem é contra as cotas, quem acha que religião faz bem para as pessoas. Porém, procuro manter distância de quem é fã do Reinaldo Azevedo. Uma coisa é a pessoa ser de esquerda, de centro ou de direita. Outra coisa é gostar de mau caratismo, que existe na esquerda, no centro e na direita. Há uns colunistas também na esquerda que eu gostaria que nem quem fosse de esquerda gostasse. Não pretendo fazer coisas ruins com quem idolatra o Reinaldo Azevedo. Apenas recuso qualquer intimidade. Dessa forma, não estou lesando essas pessoas porque certamente essas pessoas não teriam qualquer interesse em viver perto de mim. A vontade do afastamento seria recíproca. Se em alguma reunião eu escutasse alguém dizendo “você viu o mais recente texto do Reinaldo Azevedo? Ele é o cara”, eu não xingaria esse alguém de reaça, fascistóide ou coxinha. Eu simplesmente pensaria em silêncio “desse aí é pra ficar longe”. Em uma sociedade livre, as pessoas escrevem o que querem, leem o que querem, e também convivem com quem querem.

Em geral, quem gosta de ler os textos Reinaldo Azevedo diz que faz isso porque o colunista “mete o pau no PT”. Muito provavelmente o verdadeiro motivo não é este, uma vez que além do Reinaldo Azevedo, há outros 21.346 colunistas que metem o pau no PT, então, se a intenção é apenas ler textos de colunistas que metem o pau no PT, é possível escolher muitos outros. Se o propósito do Reinaldo Azevedo fosse apenas combater o PT, pode-se dizer que ele não é muito competente. Em 1989, 1994 e 1998, quando Reinaldo Azevedo era desconhecido, Lula perdeu. Em 2002, 2006, 2010 e 2014, quando Reinaldo Azevedo teve papel ativo na campanha anti-PT, Lula e Dilma ganharam.

Quem idolatra o Reinaldo Azevedo muito provavelmente faz isso por causa da outra atividade frequente do colunista, esta sim, praticada por poucos na grande imprensa: o uso do dog-whistle para fazer apelos a racistas, machistas, homofóbicos, transfóbicos, ateufóbicos, xenofóbicos, elitistas e apologistas do assassinato de moradores de favela. O significado literal de dog-whistle é um apito que emite ruídos que apenas cachorros escutam. No jargão político dos países de língua inglesa, este termo passou a ser utilizado para se referir a discursos que têm um significado para a grande audiência e outro significado para grupos específicos que são o público alvo de quem fez o discurso. É uma forma de comunicação em código. Em geral, estes grupos específicos são odiosos para parcela considerável da grande audiência. Disto vem a necessidade

Os pioneiros no uso do dog-whistle foram os ultraconservadores norte-americanos, defensores da ala mais à direita do Partido Republicano (ala à direita de um partido que já é bastante de direita). Eles não eram explicitamente racistas, mas usavam indiretas para fazer apelos aos brancos sulistas ressentidos com as políticas federais de integração racial. Isto contribuiu para que um grupo majoritariamente democrata se tornasse republicano. O exemplo mais notório desta prática foi Ronald Reagan, durante sua campanha presidencial, discursando no Mississippi defendendo os “direitos dos estados”. Um observador ingênuo pensaria que o candidato estava apenas defendendo que os estados tivessem mais autonomia perante ao governo federal. Mas a verdade é que ele estava falando para uma plateia ressentida com as leis federais de direitos civis que acabaram com o segregacionismo dos estados do sul dos Estados Unidos.

Reinaldo Azevedo tenta fazer algo parecido no Brasil. Ele não emite opiniões explicitamente racistas, machistas, homofóbicas, transfóbicas, ateufóbicas e xenofóbicas. Mas escreve textos que agradam quem é assim. Talvez por considerar que fazer apelos codificados para quem tem preconceitos enrustidos possa criar uma força de mobilização a favor da direita, pois isto poderia mobilizar até mesmo quem é indiferente em relação ao papel do Estado na economia, tema mais frequente no debate esquerda versus direita. Talvez por vontade de aparecer, de vender livros, de ter grande público em palestras, de explorar um nicho de mercado. Reinaldo Azevedo tem apelo aos grupos de ódio quando insulta com frequência os movimentos de minorias. Movimentos erram de vez em quando. Porque são compostos por seres humanos, e seres humanos erram. É possível fazer uma ou outra crítica a movimentos de minorias, até eu faço isso de vez em quando, mas prefiro fazer isso quando quem vai ler são pessoas que entendem que mesmo quando movimentos erram, a luta deles é importante. Não é o caso do público da Veja.

Uma das linhas de ataque aos movimentos de minorias é o uso de dinheiro público. Isto é olhar para o rabo dos outros sem olhar para o próprio. A Veja já teve publicidade estatal. A Primeira Leitura, finada revista de Reinaldo Azevedo, recebia patrocínio da Nossa Caixa, que era um banco público paulista. O colunista já apareceu duas vezes no Roda Viva, da TV Cultura. Seus amiguinhos aparecem com frequência no canal público paulista.

Reinaldo Azevedo também tem apelo junto aos odientos quando faz gracinhas que têm graça apenas para quem tem aversão a alguma minoria. Já chamou os índios pelo termo pejorativo “peles-vermelhas”. Já se referiu algumas vezes ao presidente dos Estados Unidos pelo seu nome completo Barack Hussein Obama. Como ninguém fala Franklin Delano Roosevelt, John Fitzgerald Kennedy e George Walker Bush, é óbvio que a intenção de pronunciar o Hussein por extenso é a de evidenciar a origem estrangeira da família do atual presidente, e desta forma, dar a entender que isto o torna uma pessoa pior. Esta prática foi iniciada pela parcela mais podre da ultradireita norte-americana, e até mesmo John McCain já repudiou um repórter que falou Hussein. O colunista da Veja também já tentou negar a existência da “cultura negra” (como se ele fosse grande entendedor do assunto). E mais de uma vez, esculachou a líder do Movimento Passe Livre porque ela é garçonete.

Quando teve aquela novela com o beijo gay no último capítulo, Reinaldo Azevedo não atacou diretamente o beijo, para não escancarar homofobia, mas atacou a novela e seu diretor. Não haveria problema algum em falar mal da novela, afinal, a novela poderia ter sido ruim mesmo, se não fosse o fato de que… Reinaldo Azevedo não é colunista de novela, não escreve habitualmente sobre novela, decidiu falar de uma novela bem no momento que teve beijo gay. Quem é que mais gostaria de ler um texto atacando uma novela que teve beijo gay? Resposta simples: homofóbicos. Além disso, uma das poucas novelas como beijo homossexual foi chamada pelo colunista de heterofóbica. Já pensou se todas as novelas com beijo heterossexual fossem chamadas de homofóbicas? O apelo a homofóbicos não termina por aqui. Já houve também ataques ao Haddad por causa do “kit gay”. E ataques à transexualidade de Laerte.

No blog de Reinaldo Azevedo é possível encontrar até mesmo defesa de Marco Feliciano, aquele que aplaudiu o assassinado de John Lennon. Não defesa explícita, mas um calhamaço de críticas aos críticos do deputado pastor. A desculpa é a de que “ele foi eleito democraticamente”. Dilma Rousseff e Jean Wyllys também foram eleitos democraticamente, nem por isso o colunista da Veja critica seus críticos, ele é um deles.

Não sei nem quero saber se Reinaldo Azevedo é ou não racista, machista, homofóbico, transfóbico, xenofóbico, ateufóbico, elitista. Talvez não. Ele até defendeu a campanha das bananas do Luciano Huck, defende o direito de adoção de crianças por casais homossexuais. Mas pelos exemplos mencionados, fica evidente que Reinaldo Azevedo faz dog-whistle para racistas, machistas, homofóbicos, transfóbicos, xenofóbicos, ateufóbicos e elitistas. Existe um apelo a este público em seus textos. Portanto, quem idolatra o Reinaldo Azevedo tem probabilidade muito alta de ser algumas ou muitas dessas coisas.

Reinaldo Azevedo pratica um vitimismo de quem não é vítima. Já escreveu que o brasileiro mais oprimido era o homem branco hétero cristão. Uma forma muito antiga de desqualificar quem luta por direitos de determinado grupo é alegar que quem não pertence a este grupo é vítima. Durante a República de Weimar, por exemplo, antissemitas diziam que o povo alemão era vítima dos judeus.

Sou homem branco hétero quase cristão (meu pai e minha mãe são cristãos, acredito em apenas um deus a menos do que os cristãos). Não me sinto oprimido. Homens ganham salários maiores do que mulheres. Brancos têm menos probabilidade de ser parados pela polícia do que negros. Heterossexuais têm probabilidade menor (ou nula) de sofrer crime de ódio heterofóbico do que homossexuais de sofrer crime de ódio homofóbico. Alunos de algumas escolas públicas são obrigados a rezar Pai Nosso, mas nenhum é obrigado a rezar Dawkins Nosso. Além de preconceito, fãs do Reinaldo Azevedo sofrem de outro mal: falta de generosidade. Isto é evidenciado em quem acha que seu grupinho é o mais oprimido de todos, mesmo que não seja.

Além do apelo aos grupos de ódio, existe também o apelo aos entusiastas das operações policiais que matam moradores de favela. Junto com o colega Felipe Moura Brasil, Reinaldo Azevedo já tentou desqualificar morador de favela vítima de assassinato cometido por policial militar. Não adianta dizer “o acontecimento deve ser investigado, não estou defendendo execução”. Quem gosta de execuções e lê informações negativas sobre vítimas de execuções sai espalhando essas informações às pessoas do seu círculo social, junto com o comentário “está vendo? Mereceu!”. Difundir informação negativa (algumas vezes de veracidade duvidosa) sobre vítimas de provável execução, mesmo não sendo diretamente uma apologia à execução, é fornecimento de munição (no sentido não literal) para quem deseja fazer apologia à execução.

Além de muito provavelmente gostar de racismo e similares, de ser vitimista em relação ao próprio grupinho, o fã de Reinaldo Azevedo parece que não se preocupa em ser levado a sério. Quem tem como mentor intelectual alguém que fala em “ciclofascismo”, “Estado Islâmico sobre duas rodas” se auto-esculhamba. Também não merece respeito quem vê grande erudição em alguém que “argumenta” contra a legalização da maconha relacionando a defesa desta bandeira com os consumidores ilegais. Quer argumentar contra a legalização da maconha, apresente argumentos.

É difícil até mesmo alegar combate aos corruptos como pretexto para ter Reinaldo Azevedo como referência intelectual. Sua indignação com corruptos é estranha. O colunista da Veja foi grande entusiasta de Eduardo Cunha no primeiro semestre de 2015. As contas na Suíça ainda não eram conhecidas, mas as histórias dos tempos de Telerj e Cehab sim. Quando Haddad e Lula divergiram sobre investigar ou não a era Kassab, Reinaldo Azevedo teve a oportunidade de atacar Lula mais uma vez, e teria razão, pois o ex-presidente queria poupar a administração do neo-aliado (e hoje ministro) Kassab. Mas entre Lula e Haddad, Reinaldo Azevedo preferiu descer o porrete no… Haddad (dica: o neo-aliado de Lula já foi aliado de Reinaldo Azevedo). Reinaldo Azevedo escreve para uma revista que considerava Demóstenes (o serviçal de Carlinhos Cachoeira) um paladino da ética, e que tentou desqualificar a CPI do Cachoeira considerando-a uma cortina de fumaça para a AP 470.

Reinaldo Azevedo não age sozinho. Tem o auxílio de uma direita “liberal” que não concorda com suas ideias conservadoras sobre sexo e religião, mas acha esse conservadorismo útil politicamente e útil economicamente (para vender periódicos). É triste constatar que entre os quatro periódicos escritos mais importantes do Brasil (os jornais O Globo, Folha de S. Paulo, Estado de São Paulo e a revista Veja), Reinaldo Azevedo já foi colunista de três deles e é atualmente de dois. Os colegas de imprensa de Reinaldo Azevedo que têm a mesma orientação partidária e não condenam publicamente sua retórica são cúmplices desta prática, mesmo quando não concordam 100% com o que Reinaldo Azevedo escreve. Da mesma forma que se espera de islâmicos que condenem abertamente o terrorismo feito em nome de Alá, espera-se que colegas de trabalho e de orientação partidária de Reinaldo Azevedo condenem a prática do dog-whistle.

Para concluir, não custa repetir: não quero fazer mal aos seguidores do Reinaldo Azevedo. Eles têm direito de gostar dele. Quero apenas distância desse tipo de gente. É meu direito. Tolerância com ideias diferentes faz bem. Porém, o outro lado também tem que aceitar isso.

 

Simbioses

Quando eu era mais nova, achava que os neopentecostais (na época do auge do crescimento da Igreja Universal e da Igreja da Graça, além do surgimento da Renascer Em Cristo) eram todos uns palermas crédulos à mercê de inescrupulosos pastores estelionatários. Revoltava-me toda aquela manipulação da fraqueza das pessoas. À época eu já era ateísta, porém não sabia: julgava-me panteísta ou deísta, por falta de orientação e de denominações melhores.

(Hoje vejo que essa passagem gradativa do catolicismo por inércia — por mais que eu tentasse crer, acreditasse crer, participasse das missas — que durou quase 5 anos até eu me firmar como ateia foi a melhor coisa, pois houve maturação de todas as idéias na cabeça. Não houve mágoa, revolta, nada. Apenas o descobrimento.

Não que tenha mudado muita coisa nos dias de hoje: os fiéis continuam otários e os pastores continuam vigaristas; o que mudou foi minha visão dessa relação, a qual percebi não ser apenas de exploração, mas de mutualismo.

Veja só: a pessoa desesperada/preocupada chega a uma dessas suntuosas e modernas igrejas com cara de supermercado, ou mesmo naquelas igrejas de garagem com cadeiras de praia, querendo solução rápida para os problemas -– afinal, se fosse uma questão meramente espiritual, teria ido a uma igreja católica, já que no Brasil praticamente todo mundo é batizado no catolicismo –- e assim já mostra ser uma pessoa com tendência à credulidade, pois acredita que problemas concretos (sejam familiares, profissionais ou de saúde) possam ser resolvidos assim, de uma hora para a outra, sem esforço pessoal.

Minissérie Decadência Edson CelulariPois o pastor, bonitão, lustroso e bem vestido, lhe oferece, além de toda aquela lábia carinhosa e cheia de atenção, uma solução fácil: não é preciso sacrifício pessoal ou esforço espiritual/físico, pois é tudo questão de que há um encosto na vida dele: é só fazer uma aposta com Deus (“ser um gideão” na Renascer, “fazer um sacrifício” na Universal), colocando dinheiro no bozó e lançando os dados, pois Jeová irá pegar o dinheiro (pelas mãos do pastor) e recompensar sua fé com a realização plenas dos desejos (especialmente os materiais — teologia da prosperidade).

Observe que há uma troca aí: enquanto o pastor recebe a grana do otário (indivíduo ingênuo, de boa-fé, dizem os dicionários), dá a ele o conforto, a segurança: olha, não é você que é um bêbado (ou uma baranga chata), teu cônjuge te abandonou por causa dos encostos; você não está doente porque fuma muito e faz pouco exercício, nem perdeu o emprego porque seu chefe implicou com você ou porque é um incompetente mesmo; nem seu parente morreu porque ora, todo mundo morre um dia: é tudo culpa dos encostos. Mas Deus há de ser testado (!), pois você pagou e quer o serviço.

O problema é que fica difícil reclamar com o prestador de serviço quando a coisa falha (isto é, invariavelmente): o pastor, como um atendente de telemarketing de Deus, jamais passa a reclamação ao superior. Diz que faltou fé, que o fiel precisa ser mais fiel, orar mais e, especialmente, dar mais dinheiro.

Em troca, ele recebe um bode preto expiatório, o próprio Satanás, para livrá-lo de todas as culpas. O fiel sabe que está sendo enganado, inconscientemente, mas sabe, e como sartreana questiono, já disse, a impenetrabilidade do inconsciente — no fundo sempre sabemos, basta examinarmos nossa consciência com honestidade. Mas o fiel prefere continuar na má-fé, no auto-engano, pois é mais cômodo.

É mais reconfortante ter alguém dizendo que a culpa não é sua, que você pode ser rico e feliz aqui na Terra mesmo (tá certo que não entendo como você pode dar dinheiro e ficar com mais dinheiro, deve ser algum fundo divino de investimento), e se qualquer fiasco é falta de fé (grana), qualquer sucesso é automaticamente atribuído ao “esforço” de fé, não pessoal (tudo bem, pois o perfil de quem vai a essas igrejas não é exatamente o de pessoas esforçadas e/ou com grande auto-estima).

O que me leva a pensar que é bem razoável existirem essas auto-ajudas com palestras motivacionais disfarçadas de igreja (ver também: Amway, Herbalife): só há trambiqueiros porque há otários pedindo para serem enganados, para serem expiados de suas culpas, para se livrarem de responsabilidades, para não encararem a verdade. Enfim, ambos se merecem.

Texto de Lívia Daflon, publicado originalmente no Facebook.

Sobre os protestos amarelos de 2015 e os protestos pretos de 2013

Vamos falar um pouco sobre os protestos amarelos de 2015 e os protestos pretos de 2013 e sobre como os vermelhos abordam estes protestos.

 

Os de amarelo

Esta parte do texto trata da forma através da qual alguns políticos, militantes e colunistas de esquerda vem reagindo aos protestos anti-Dilma dos camisas amarelas. Estes protestos devem ser criticados, mas o uso de argumentos equivocados pode ser mais prejudicial para os críticos do que para os criticados. Percebemos pelo Facebook que alguns simpatizantes do PSOL estão competindo com simpatizantes do PT para ver quem xinga mais alto os amarelos de golpistas, coxinhas, fascistas. Tripudiar protestos sem fazer um mínimo esforço para entende-los, quando o governo tem 10% de aprovação, não parece ser uma atitude muito inteligente. Algumas sátiras a estes protestos são engraçadas sim. E obviamente estes protestos têm muita gente dodói, que carrega faixas dizendo “intervenção militar já”, “Olavo tem razão”, “chega de Paulo Freire”, “basta de comunismo, “fora Foro de São Paulo”, “deveriam ter matado todos em 1964”. Porém, carregar faixas com as palavras “Fora Dilma” não é ser golpista e antidemocrático, mesmo que não concordemos com isso. Sim, Dilma foi eleita em uma eleição sem fraudes (a história da urna eletrônica adulterada pertence aos dodóis), maioria apertada é maioria, e seu mandato termina em 1º de janeiro de 2019. Agora, desculpem o uso cafona das letras maiúsculas, mas trata-se de um questionamento importante: DESDE QUANDO A ESQUERDA CONSIDERA QUE A VONTADE POPULAR SÓ PODE SER EXPRESSA UMA VEZ A CADA QUATRO ANOS? Manifestantes de esquerda já gritaram Fora para Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique Cardoso e para muitos governadores e prefeitos de direita. Eduardo Cunha (esse sim, tem muito mais motivos para ir para fora) foi eleito deputado e depois foi eleito presidente da Câmara por deputados que também foram eleitos. A esquerda já comemorou a queda de presidentes eleitos da Argentina, do Equador e da Bolívia. Quando, entre 2001 e 2002, um presidente argentino caiu logo depois do outro, falou-se muito do “bravo povo argentino”. É importante lembrar que alguns dos presidentes da Argentina e do Equador que caíram, e tiveram a queda comemorada pela esquerda, eram considerados de esquerda quando foram eleitos. Dizer que pedir a interrupção de um governo democraticamente eleito é golpismo e ato hostil à democracia, ao invés de considerar tal atitude como parte da democracia, gera um precedente perigoso. E na hora em que aparecer um governo de direita com popularidade baixa? Os defensores deste governo provavelmente vão dizer “mas vocês diziam que gritar Fora Dilma era golpismo?”.

Os manifestantes amarelos pediam o impeachment. O que dizer do impeachment? A base legal do pedido é capenga. Cassar um mandato de presidente por causa de desrespeito à lei orçamentária é igual prender um adulto que deu cerveja para seu filho de 15 anos. A motivação para o início do processo de impeachment é a mais canalha possível. Muitos juristas conceituados consideram que as tais pedaladas não justificam o impeachment. Mas as pessoas que vão para as ruas não são obrigadas a ser juristas. E alguns juristas são favoráveis ao impeachment, inclusive os que fizeram o pedido, óbvio. E o “Fora Dilma” das manifestações também pode se referir à renúncia, não apenas a impeachment. As manifestações dos camisas amarelas que ocorreram em 15 de março, 12 de abril, 16 de agosto e 13 de dezembro de 2015 tiveram como mais nefasto os pedidos de intervenção militar. E não foram apenas um ou outro manifestante com este tipo de faixa. Na Avenida Paulista no dia 15 de março, havia dois caminhões de som que pregavam a intervenção militar. A agressividade de muitos manifestantes com jornalistas também deve ser repudiada. Mas simplesmente pedir impeachment ou renúncia, mesmo que não concordemos, não torna um manifestante golpista ou fascista.

É necessário entender que quando existe crise econômica, quando existe infraestrutura e serviços públicos precários, quando existem figuras importantes do partido do governo e de partidos (ex)-aliados envolvidas em escândalos de corrupção, vai existir protesto, não importando se o governo é de esquerda ou de direita, ou se os protestos são de esquerda ou de direita. As Diretas Já, o Fora Collor e o Fora FHC ocorreram quando o país estava em crise econômica.

Embora a insatisfação com o governo Dilma seja generalizada, na esquerda e na direita, nos pobres e nos ricos, em quem votou nela e em quem não votou nela, não é possível dizer que os manifestantes de amarelo são um retrato da sociedade brasileira indignada, ao contrário do que dizem os defensores mais entusiasmados destes protestos. Os manifestantes de amarelo são um segmento específico da sociedade brasileira: eram quase todos de média/alta renda, eleitores do Aécio. Nota-se também que os organizadores do protesto não focavam apenas nos problemas genéricos do país. Estes organizadores tinham assumidamente ideologia de direita. Ainda que os manifestantes sejam ricos, direitistas e favoráveis ao fim do governo Dilma, eles não são golpistas e fascistas só por causa disso. Os manifestantes de amarelo representam apenas um segmento da sociedade, mas um grande número de pessoas deste segmento foi para as ruas, diferente do que ocorria antes, porque alguns acontecimentos recentes, como a crise econômica e o escândalo da Petrobras, os incentivaram. Discordemos da ideologia dos amarelos, mas xingamentos são desnecessários. Deixemos os piores insultos para os dodóis que portaram as faixas mencionadas no primeiro parágrafo deste texto.

Da mesma forma que podemos reconhecer muitos dos manifestantes de amarelo como cidadãos exercendo o direito de manifestar indignação, mesmo que não concordemos com suas opiniões, esperamos que participantes e organizadores das marchas de amarelo reconheçam o mesmo das marchas de vermelho, ao invés de falar que são vagabundos, subornados com pão com mortadela e outras coisas mais. Infelizmente, não vimos isso até agora. A comparação manifestantes de fim de semana versus manifestantes de meio de semana é ridícula, até mesmo porque a maioria das manifestações de vermelho começam depois do final do expediente.

Os de preto

Os que generalizam os manifestantes de amarelo como coxinhas, golpistas e fascistas também costumam dividir os protestos de junho de 2013 em duas partes: a “primeira semana boa”, que teve o MPL lutando contra o aumento das passagens de transporte público, e a “segunda semana ruim”, que teria sido a das “marchas coxinhas”. Outra generalização equivocada. As grandes aglomerações da segunda semana, ocorridas em 17 de junho e 20 de junho, tiveram fascistas que agrediram fisicamente militantes de esquerda, tiveram faixas contra o Bolsa Família, tiveram faixas pedindo o “fim da exploração da classe média”, mas também tiveram os militantes de esquerda agredidos, e também tiveram muitos que portavam a insatisfação genérica e difusa, que reclamavam da corrupção e da má qualidade dos serviços públicos. Quem defende educação e saúde pública de qualidade não é exatamente um adepto dos ideais do Mises Institute. Os protestos de preto de 2013 foram diferentes dos protestos de amarelo de 2015, estes sim com ideologias de direita claramente definidas. O Datafolha pesquisou os manifestantes do 20 de junho de 2013 e mostrou que a grande maioria deles tinha intenção de votar na Marina Silva ou no Joaquim Barbosa, dois nomes que não são nem de esquerda nem de direita, mas que são referência para portadores da insatisfação genérica e difusa.

A esquerda precisa saber dialogar com os portadores da insatisfação genérica e difusa, antes que caiam todos no colo da direita, que vem fazendo isso com mais competência. Precisa entender que quando a economia não vai bem e quando grandes escândalos de corrupção são colocados em evidência, haverá críticas ao governo nas ruas, nos escritórios, nos encontros de familiares e amigos. Seria um erro achar que todas as críticas à Dilma/Lula/PT que não são aquelas que o PSOL, o PCB e o PSTU fazem são coisa de reaça coxinha. Algumas são, principalmente as relacionadas com o Bolsa Família, mas outras não. A oposição de esquerda fala dos juros altos, da não implantação do imposto sobre grandes fortunas, dos desastres humanos e ambientais causados pela construção de Belo Monte. Tudo isso é muito importante. Mas raramente fala de corrupção e de saúde pública ruim, que são críticas que ouvimos com muito mais frequência ao nosso redor. Para ter ouvidas por mais pessoas as opiniões sobre juros, imposto sobre grandes fortunas e Belo Monte, a esquerda talvez tenha a necessidade de conversar com o tiozinho que fala da corrupção e da saúde ruim. Querer saúde pública boa é coisa de reaça???

A esquerda não pode virar uma igrejinha que só prega para os já convertidos.

Museu do Amanhã, Ideias de Ontem

Domingo, 20 de dezembro de 2015, fui ao Museu do Amanhã no Rio de Janeiro.

Foto: Marconi Andrade
Foto: Marconi Andrade

Pra começar, queria dizer que acho que o Estado deve investir sim em museus, em bibliotecas, em escolas, em cultura, etc. O que não significa ter que investir menos em saúde/educação/transporte etc, as coisas não se excluem. Mas estamos numa cidade que tem museus sendo fechados e/ou largados às traças, então a coisa já começa incoerente por aí.

Tem a questão óbvia: aquilo foi feito pra gringo ver. É uma construção gigantesca, dentro tem um monte de nada, mas que vai dar aquela valorizada legal na zona portuária que as empreiteiras tanto queriam.

Havia coisas legais. Uma parte lá, chamada de “Laboratório de Atividades do Amanhã”, parecia uma feira de ciências… parecia a feira que meus alunos participavam no CEFET ou a JOTEC do antigo Colégio Graham Bell. Tinha gente mostrando pilha feita em fruta, impressora 3D e outras coisas do tipo.

Mas aí você tem um museu pra abordar ecologia e meio ambiente… projetado pela Fundação Roberto Marinho e patrocinado pelo Santander. Então é óbvio que a gente vê meio ambiente a partir do ponto de vista do capital.

O tempo todo a questão é jogada como se fosse culpa sua. O que você vai fazer? Como você vai consumir menos água? Como você vai diminuir seu gasto de energia elétrica? Tem muita gente no mundo! E aí depois fala: Olha, além de você reduzir seu consumo, é importante também fiscalizar os governos, porque energia é questão de políticas públicas.

Mas não se fala qual é a raiz desse consumo. Não se fala da obsolência programada. Não se fala do fetiche pelo consumo. Fala-se assim, de forma extremamente tangencial, dos nossos hábitos alimentares (vê lá se Fundação Roberto Marinho vai querer bater de frente com Monsanto ou com Friboi), não se fala da lógica cíclica do consumismo.

Cachorro bebendo água da privadaSe eu não tivesse estudado sobre nada disso, eu teria saído de lá achando que, ao desligar a luz da sala e tomar banho tcheco, estaria salvando o planeta. Não estou. Essa dissimulação é velha — é o meio ambiente visto pelo ponto de vista do capital: Olha, tá tudo ruim, mas a gente aqui não vai fazer nada pra mudar isso não. Tu se vira aê e passa a beber água da privada pra reaproveitar água.

E claro, tem toda a incoerência de você se dizer preocupado com ecologia e meio ambiente, falar para as pessoas economizarem recursos do planeta num lugar que custou uma grana gigantesca pra ficar pronto e gasta água e energia pra cacete, e ainda por cima terminar seu evento de inauguração assim:

Sujeira Abertura Museu do Amanhã
Foto: Marcio Almeida

Rafael Lima de Souza é pedagogo, professor de Informática e desenvolvedor de jogos.

O Último Quilômetro

ReferenciaAnos 90. Estou batendo papo com um amigo de longa data e um amigo de longa data desse amigo, conhecido recentemente. Aqueles papos bobos, aleatórios, terapêuticos e entupidos de referências pop, típicos de indivíduos do sexo masculino na casa dos 30. O assunto é alguma celebridade estrangeira (não lembro qual) que era membro de algum grupo que sofre preconceito (não lembro qual). Numa certa hora, o amigo do amigo delibera:

— Preconceito é só ignorância. Quando você passa a conhecer, o preconceito desaparece.

Ouvi aquilo e pensei, não estou 100% certo se concordo com isso. Achava que combater o preconceito era só questão de educar e cultivar a empatia. Depois vim a perceber que eu estava negligenciando o Último Quilômetro.

ModemEm telecomunicações, Último Quilômetro significa fazer efetivamente o sinal de Internet/TV/telefone chegar até você, na sua casa. Antes disso, a operadora tem que colocar milhares de quilômetros de infraestrutura, cabos, túneis, retransmissores, amplificadores, tudo sujeito a problemas e dificuldades. Mas os problemas e dificuldades do Último Quilômetro são diferentes. E piores. Calçadas esburacadas, fiações de prédios antigos, prédios construídos antes de existir o conceito de “fiação”, síndicos não cooperativos, interferências vindas não se sabe de onde… saber trazer o sinal por todos aqueles quilômetros anteriores não ajuda de nada no Último Quilômetro. Para este, é preciso uma ciência toda própria. Palavra de quem já trabalhou na área.

O mesmo acontece com o trabalho de combater o preconceito na sua mente. Tudo o que você pode (e precisa!) aprender, internalizar, empatizar — nada disso é o Último Quilômetro. O Último Quilômetro só pode ser transposto com a ajuda de alguém de carne e osso. Alguém com nome, sobrenome, endereço, olhos de cor X, cabelo do jeito Y e sotaque do lugar Z, que você precisa, como disse sabiamente o amigo do amigo, conhecer. E conviver. Nem que seja online.

“Online”, em meados dos anos 90, era algo diferente de hoje. Envolvia algo que não era a Internet, mas que em última análise funcionava de maneira similar, chamado BBS. A diferença é que eram vários pequenos guetos conectados digitalmente pela linha telefônica, e restritos cada um a uma cidade por conta das tarifas insanas de interurbano. Mas já havia algo que permanece, em essência, igual: grupos de discussão de entusiastas dos mais variados assuntos. De esportes a filmes a tecnologias a sacanagem a estilos musicais a piadas a receitas… o normal.

scully_mulderUm dos grupos que eu frequentava era o de fãs do seriado Arquivo X. Nerdice total e gloriosa. (Sim, os outros grupos que eu frequentava eram tão nerds quanto ou mais.) Para minha surpresa, entre as dúzias de pessoas (muito nerds) que conheci lá — e a maior parte são meus amigos até hoje — estavam dois cantores brasileiros famosos. Um deles é irrelevante. A outra era a Vange Leonel.

Os tópicos de conversa preferidos eram especulações desenfreadas sobre as motivações dos alienígenas, calendário de encontros de fãs, bate-bocas sobre a qualidade relativa dos roteiristas Fulano e Sicrano, e… a gatice do casal protagonista (de parar o trânsito, convenhamos) e se eles alguma hora iriam ou não às vias de fato. E nessa, ficou claro que ih, ora vejam vocês, a Vange gosta de mulher! Ela babava grosso pela Scully — assim como 80% do grupo, eu incluído.

Estava percorrido o Último Quilômetro. Ao me aperceber deste fato a respeito de alguém que, apesar da convivência restrita, eu podia ousar chamar de amiga, várias coisas estalaram instantaneamente na mente:

  1. Se eu fizesse certas piadinhas que, tempos atrás, eu fazia sem pensar, eu iria ferir esta pessoa;
  2. Este atributo que esta pessoa tem é perfeitamente normal, e tê-lo ou não tem tanta relevância para o valor dela como ser humano quanto ter operado o apêndice ou não. Eu achava que já estava 100% ciente disso há muito tempo, mas só parte de mim (a parte racional) estava;
  3. Se aparecer alguém falando o que não deve, vou entrar de voadora (felizmente, ninguém apareceu, o que é um grande mérito para uma comunidade online em 1995).

Nesse momento, e só nesse momento, o sinal chegou. Finalmente entendi o que o amigo do amigo quis dizer. E mesmo assim, quem foi criado num ambiente conservador das antigas (ou seja, a esmagadora maioria das pessoas, sim, mesmo que sua família seja toda “de esquerda”) vai perceber que de vez em quando pinta uma reação automática de fazer um trocadilho assim, um comentário assado, de considerar aquele camarada ali “estranho” ou “fora do padrão”. É como deixar de fumar: o esforço consciente que você tem que fazer para bloquear vai ficando menor ao longo do tempo. Mas nunca vai ser zero. Você tem que ficar alerta o resto de vida. A boa notícia é que esse “estar alerta” vai se tornando uma segunda natureza, cada vez mais fácil. E reitero: isso não se aplica só ao preconceito em particular descrito acima, mas a todos.

Para terminar, se você quiser conhecer alguém que se especializou em arrastar pessoas pelo Último Quilômetro de maneira particularmente brutal, recomendo assistir a este documentário sobre o workshop de racismo de Jane Elliott. Mas vou logo avisando: não é para os fracos.

Para dar sentido às ruas

A importância da participação da sociedade nos atos que acontecerão no dia 16/12, quarta-feira, fica demonstrada em diversos âmbitos. Passados 30 anos da abertura política, nossas democracias, adiadas tantas vezes, assim como o modelo de Brasil que vinha proposto durante os períodos de ruptura, encontra-se numa situação inédita, por ser o período democrático mais longo da nossa história, por termos hoje acesso a informação e a produção de informação por meio da internet, o que dificulta a manipulação das massas pelos oligopólios da comunicação e por hoje virmos resultados de pouco mais de uma década de governo popular, com a efetivação de direitos antes garantidos apenas virtualmente pela Constituição Cidadã de 88, como exemplo os programas sociais do governo federal que garantiram pela primeira vez a saída do Brasil da lista dos países assolados pela fome, reduziu a miséria e fomentou o acesso a direitos básicos e inerentes a vida, como comida, saúde e moradia.

Com a melhoria na qualidade de vida do brasileiro, aumentou-se a demanda por consumo, que diante uma crise econômica mundial coloca em cheque o recente salto econômico do nosso país e abala a implementação de investimentos em estruturas proteladas desde a monarquia, retomadas durante o período democrático pós Getúlio Vargas e cirurgicamente minadas com o golpe de estado civil e militar em 1964. Não obstante, aumentou-se também a demanda por direitos, ora, essa é a primeira década que grande parte dos brasileiros se viram efetivamente como detentores de direitos básicos já citados, também pela primeira vez se dirimiu as desigualdades econômicas e socais, no que diz respeito a distribuição de renda e mais acesso a oportunidades iguais, devido a maior participação do Estado.

Bom, talvez os mais pessimistas não tenham chegado ao segundo parágrafo, talvez incomodados por uma posição tão otimista. O Brasil, um jovem país de 513 anos, foi forjado em cima do sangue de trabalhadores, fossem eles indígenas, brutalmente dizimados logo no primeiro contato com o branco, pessoas escravizadas trazidas da África e imigrantes europeus escorraçados do velho continente em busca de uma melhor situação aqui no paraíso, onde teriam sua redenção em vida, diante das oportunidades. Ainda nos foi empurrado durante todos esses anos, e principalmente nas últimas décadas, uma unidade nacional decorativa e sufocante, que é assumida quando a manutenção do status quo de privilégios de determinada classe e objetivo modelo econômico encontram-se ameaçados.

Com pessimismo, vos digo, estamos longe de ameaçar privilégios tão imoralmente defendidos. Não é a toa a insatisfação de grande parte da sociedade que se posiciona como esquerda, não classificando aqui como oposição e situação. Com a política econômica que encheria de orgulho qualquer governo liberal, com o tortuoso ajuste fiscal e todas as concessões a base (des)aliada, como as indicações pecaminosas a ministérios fundamentais e a reforma ministerial, na conjuntura global de tensões internacionais e crise econômica, o cenário é um prato cheio pra oportunismos, internos e externos. Porém, esse pessimismo é a curto prazo, pois há dúvidas que minha geração sobreviverá pra ver os netos e bisnetos do país que podemos construir.

O terreno que o Brasil se encontra hoje é fértil, tanto pra mais uma batida ruptura democrática, trajando novas roupas, como pra uma afirmação social política como uma democracia participativa de esquerda. Estamos sem roteiro e devemos improvisar. A aderência maciça ao ato do dia 16/12 poderá ser a menarca de uma sociedade politicamente imatura, polarizada politicamente e que coloca em risco os direitos conquistados, e não concedidos, pelas gerações passadas. Quando expus que fomos um país forjado em cima do sangue do trabalhador, quis dizer que ele é o que tem mais direitos atacados quando o país está politicamente instável e vulnerável. Como exemplo disso, encontra-se em tramitação o PLS 627/2015, que pretende mudar o texto constitucional, permitindo o acordado passar por cima do legislado no que diz respeito a flexibilização da prestação de horas extras pelo trabalhador rural, além das oito horas diárias. É uma verdadeira institucionalização da escravidão. Esse, como outros atentados aos direitos conquistados as duras penas passam por trás das cortinas enquanto o espetáculo do impeachment é exaustivamente perpetrado pela oposição e romantizado pela imprensa interessada em manter seus patrocinadores e interesses exclusivos numa situação entreguista e de concentração, o que é desespero, pois a internet veio pra ficar e todas as plataformas que nela surgiram e surgirão enterrarão de vez o velho modelo de veiculação de informação, não apenas pra quem passa a mensagem, mas principalmente pra quem a recebe, que hoje a contrapõe sem maiores esforços.

Ademais, a própria cultura da manifestação popular foi manchada com o discurso das manifestações que não atrapalhem a produção e o consumo, tornando a classificação de povo, aquele de quem emana o poder, apenas conceitual. Ora, se não pararmos as produções, se não incomodarmos e não colocarmos o nosso protagonismo político como detentores diretos do poder, para quem serviria as manifestações? Não é preciso dar o recado apenas aos representantes do povo, é necessário dar recado ao mercado, é ele quem amarra as nossas rédeas. O trabalhador não dispõe de tempo para cuidar da saúde, por muitas vezes negligencia a qualidade de vida e a criação dos filhos para alcançar uma situação melhor para a família pois o mercado não concede, ele vende e pra comprar é preciso receber pelo que produz. Quando o Estado começa a sanar algumas dessas desigualdades, como o acesso a melhor qualidade de vida, o mercado se sente ameaçado e usa seus peões, aqueles que hoje fazem a maioria na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, para equilibrar a situação, retirando direitos das minorias sociais, que efetivamente ainda são poucos, e dos trabalhadores, para que o lucro daqueles financiadores aumentem. E muitos, mesmo parte da esquerda, endossa o coro de que os atos nos dias úteis não tem aderência pois não temos concessão para irmos as ruas reivindicar nossos direitos. Nas férias, vamos ao médico, resolvemos pendências e passeamos com os filhos, pois, a jornada de trabalho, contando com as horas extras e deslocamento, ultrapassa 10 horas diárias, ainda por cima devemos reservar aos finais de semana a luta política?

protest_march_12Ir ao ato do dia 16/12 é além de mais uma manifestação política partidária, é um exercício de participação política direta e estruturalmente popular, com apoio de frentes populares, movimentos sociais e trabalhistas. É se afirmar como uma esquerda democrática que devemos consolidar contra os interesses imperialistas que só nos afastaram da nossa capacidade continental em se colocar como potência mundial. Ainda, é nos afirmamos como comunidade latino-americana autônoma, e fortalecer a nossa soberania nacional. Não é distante também falar que seja um marco  o desenvolvimento democrático e na maturidade política da nossa sociedade, que poderá dar o recado de que não aceitaremos mais uma ruptura na ordem democrática que atenda a interesses de uma minoria que não conseguiu quórum nas ruas pra levar adiante o golpe que se pretende descaradamente, pois não há fundamentação jurídica para um eventual impeachment, traduzindo pro bom português, é golpe!

A mensagem que poderemos passar na próxima quarta-feira 16/12, é de que o Congresso Nacional não nos pautará, como também o mercado financeiro. Que as pautas agora virão dos que pela primeira vez tiveram acesso a direitos antes exclusivos de uma pequena parcela da sociedade. Que o Norte e o Nordeste, este em especial como sendo a região que mais cresce economicamente mesmo em meio a crise econômica, não ficará refém de mais um modelo xenófobo de governo, como os que vimos tantas vezes. É tempo de irmos as ruas mostrar que sociedade querermos ser, madura, plural, que respeita as diferenças e reconhece a legitimidade das instituições democráticas constituídas as duras penas. Brasileiros, uni-vos e faremos desse país uma potência, não só econômica, mas soberana e original. É hora não de só irmos as ruas, não como um carnaval fora de época, é tempo de darmos sentido a elas, é hora de irmos a luta.

Camila Nogueira Guimarães é bacharel em Direito, constitucionalista entusiasmada e militante pela democracia popular participativa.

Hitler não era socialista… Parem de dizer que ele era!

Por Tim Stanley

Tradução de Matheus Boni

Meu colega Dan Hannan afirma que Hitler era um socialista. É uma ideia popular entre ultraliberais, muitas vezes usada para envergonhar a oposição – afinal de contas, os nazistas chamavam a si mesmos Nacional Socialistas. Mas também Tony Blair uma vez se disse um socialista. Logo, os rótulos podem ser equivocados.

Que Hitler não era um socialista torna-se óbvio semanas após ele ter se tornado Chanceler da Alemanha, quando começou a prender socialistas e comunistas. Ele fez isso, dirá alguém, porque eles eram alas rivais do socialismo. Mas isso não explica porque Hitler definiu sua política tão absolutamente como guerra ao Bolchevismo – um lema com o qual ele ganhou o apoio das classes médias, industriais e muitos conservadores estrangeiros.

Dan afirma que Hitler era socialista com ressalvas, que:

“O erro de Marx, Hitler acreditava, era enfatizar a luta de classes ao invés da unidade nacional – para colocar operários contra industriais ao invés de coagir ambos os grupos em uma ordem corporatista.

Mas, por essa mesma definição, Hitler não era um socialista. Marxismo é definido pela luta de classes, e o socialismo é alcançado com a vitória completa do proletariado sobre a classe dominante. Ao contrário, Hitler oferecia uma aliança entre trabalho e capital na forma do corporatismo – com o expresso propósito de prevenir a luta de classes. O marxismo olhava isto como um dos estágios do desenvolvimento capitalista e poucos na época interpretaram legitimamente o Terceiro Reich como uma sociedade socialista. O radical George Bernard Shaw, por exemplo, certamente expressou simpatia por Hitler quando ele chegou ao poder, mas depois descreveu o “socialismo” do ditador como uma fraude – como uma forma de trapacear a revolução inevitável. Ele vestiu, na opinião de Shaw, a “última máscara do capitalismo”.

De fato, enquanto os nazistas continuaram a política de nacionalização da República de Weimar, eles também privatizaram não poucas coisas: algumas siderúrgicas, quatro maiores bancos e as ferrovias. O lucro gerou certa de 1,4% do orçamento estatal de 1934 a 1938. Industriais se deram bem no período nazista, ajudados pela política estatal de esmagamento dos sindicatos e ênfase do pleno emprego em detrimento do aumento dos salários. É verdade que a economia foi socializada no período final dos anos 1930, mas não com o propósito de construção do socialismo. Era um preparo para a guerra. No Estado Fascista a política vêm antes da economia, ao ponto de ser difícil conceber Hitler como um pensador econômico coerente. Ele teria feito qualquer coisa para conquistar a Europa Oriental, e uma economia de comando demonstrou ser melhor na construção de tanques do que o livre mercado. Dado que o ditador gozou do apoio da burguesia, que aceitou aqueles sacrifícios como necessários para defender seus lucros do socialismo, nós podemos definir o III Reich como capitalismo abraçando alguns elementos do socialismo econômico para defender os interesses dos capitalistas. Shaw estava correto.

Outro ponto no qual Hitler não era socialista era o seu racismo. Mais uma vez, o marxismo define a história como uma luta de classes. Hitler a via como um conflito racial – e o Bolchevismo como uma construção judaica. Como ele mesmo colocou:

No Bolchevismo Russo nós devemos ver uma tentativa empreendida pelos Judeus no século XX para conquistar a dominação mundial. Assim como em outras épocas eles se esforçaram para atingir o mesmo objetivo, por meio de outros, mas intimamente relacionados, processos. Seu esforço encontra-se profundamente enraizado em sua natureza essencial. Alemanha é hoje o próximo grande objetivo de guerra do Bolchevismo. Isso requer toda a força da jovem ideia missionária para levantar nosso povo novamente, para libertá-los das armadilhas desta serpente internacional, e para parar a contaminação interna do nosso sangue, para que as forças de nossa nação então livre possam salvaguardar nossa nacionalidade, e então prevenir uma repetição das catástrofes recentes no mais distante futuro.

Eu não deveria ter de explicar que isto nada tem a ver com socialismo, marxismo, trotskismo, materialismo dialético ou o Partido Verde. Os objetivos de Hitler eram, de fato, totalmente opostos ao igualitarismo socialista. A ironia é que ele às vezes estava preparado para usar o socialismo econômico para perseguir sua agenda. Mas, para repetir, isto ocorria porque a política tinha prioridade sobre a teoria econômica consistente. Por sinal, as fazendas alemãs não foram coletivizadas, como o marxismo reivindicava. Elas foram certamente protegidas contra a competição e o fazendeiro foi elevado a um Ideal Ariano. Mas até mesmo isso era para exibição: a agricultura perdeu importância quando a guerra se aproximava e a industrialização se tornou prioridade. A política econômica ia e vinha entre o que grosseiramente poderia ser chamado “esquerda para direita”. Mas derrotar o movimento comunista “judaico” era a única coisa que realmente importava.

Então como nós explicamos por que Hitler muitas vezes chamou a si mesmo de socialista? Era uma questão de moda: nos anos 1920 e 1930, o socialismo era a onda do futuro e tinha um efeito massivo sobre o discurso político. Muitas pessoas usaram a terminologia marxista sem necessariamente assinar embaixo ou mesmo entender. E vários governos falaram da necessidade de aumentar os níveis de vida, ajudar os pobres ou até gerenciar a economia – mas não devemos chamá-los de marxistas. Os Estados Unidos tinham o seu New Deal, a Suécia, a sua socialdemocracia. Os japoneses militarizaram seu país inteiro, mas o fizeram para expandir o domínio de um imperador que eles pensavam ser um deus vivo, o que dificilmente é um comportamento comunista clássico. Na Grã-Bretanha, o governo de Stanley Baldwin gastou milhões num programa de construção de casas e erigiu a empresa pública BBC. Mas Stanley não era Stálin.

Agora libertarianistas dizem que eles chamam Hitler de socialista em parte para contrariar esquerdistas chamando todos que eles não gostam de “fascistas”. É verdade que é muito irritante quando a Esquerda faz isso. Mas não é só porque é ofensivo igualar Iain Duncan Smith com Goebbels: é porque é um abuso dos fatos históricos. É quase impossível para o leitor informado achar alguma equivalência entre Hitler e a política moderna, mas pessoas demais o fazem com frequência. Por sinal, quando ateus insistem que ele era um exemplo de chauvinismo católico/cristão, eles esquecem seu intenso ódio do cristianismo.  E quando conservadores religiosos  tentam fazer dele um ateu, eles esquecem quão feliz ele estava ao tomar de empréstimo a linguagem cristã ou trabalhar com colaboradores clericais. Um exemplo clássico do mau uso da memória de Hitler é o debate sobre armamento civil. Ele não tomou as armas dos alemães, como dizem alguns libertarianistas. A política começou sob a República de Weimar e, se Hitler fez alguma coisa, foi rearmar a população armando os seus partidário, expandindo as Forças Armadas e invadindo a Polônia. Hitler gostava de armas. Ele realmente gostava de armas.

No entanto, a acusação de que aquele X ou Y é “igual a Hitler” continua a ser comum. E há alguns libertarianistas que asseveram que alguém só é direitista se abraça o liberalismo clássico; enquanto todo mundo que imagina um papel para o Estado na economia tem sido historicamente de esquerda. Mas o autoritarismo de direita certamente existe. Fascismo é o uso violento do Estado para alcançar objetivos de direita: ordem social, chauvinismo religioso, proteção do lucro privado, etc. A lição moral é que o poder corrompe a todos: esquerda, direita, homens, mulheres, gays, héteros, negros, brancos, religiosos, ateus. As melhores nações tem constituições que limitam o governo, protegem a esfera privada e em grande medida deixam os indivíduos cometerem seus próprios erros. Vote libertário!

Propaganda nazifascista antibolchevique
Propaganda nazifascista antibolchevique

Internet: o que gosto de ler

Em um texto anterior, eu sugeri alguns livros que recomendo para pessoas que querem debater e participar da política nos dias atuais. Agora, neste texto, eu sugiro alguns sites, blogs e perfis de pessoas conhecidas, no Twitter e no Facebook. Não apenas de política, como também de outros assuntos. A Internet tem muito lixo, muita difusão de boataria, mas também tem conteúdo muito bom, pode servir como um excelente meio de informação e opinião, mais democrático que as grandes redes de televisão e os grandes jornais e revistas. O que eu leio e sugiro é o que eu considero importante para entender a realidade em que vivemos.

Sobre Economia, eu gosto de ler o blog do Paul Krugman. Outro economista norte-americano que eu gosto de ler é o Joseph Stiglitz, que tem um perfil no Twitter, no qual ele dá link para alguns textos de sua autoria. Entre os brasileiros, eu gosto de ler o blog do José Luis Oreiro. Este economista também tem um perfil no Facebook. Eu também acompanho o perfil no Facebook do Luiz Carlos Bresser-Pereira. Ele tem boas postagens. Eu também estou no grupo de Facebook da Associação Keynesiana Brasileira.

Sobre Política, eu acompanho o Idelber Avelar no Twitter e no Facebook. Ele ficou muito comentado por causa do Episódio, sobre o qual não tenho opinião formada. Mas independente disso, ele tem boas postagens sobre política, direitos humanos e cultura. Também gosto de ler o Raphael Tsavkko. Sim, ele é meio exagerado. Mas quem não tem microfone muito poderoso precisa gritar para ser ouvido. Outros perfis públicos no Facebook (alguns também tem no Twitter) que eu gosto de ler são o do Maurício Santoro (já deu uma ótima entrevista aqui no Trincheiras), do Leonardo Sakamoto, do Moysés Pinto Neto, do Gunter Zibell, do Viveiros de Castro, da Cynthia Semíramis, do Renato Janine Ribeiro, do Kennedy Alencar, do Mattheus Pichonelli, do Pablo Ortellado, da Laura Capriglione e do Bob Fernandes. Também gosto da Flávia Penido, também conhecida no Facebook como Ladyrasta e no Twitter como dona ddivinas tretas. Eu gosto ainda de ler no Facebook a página do grupo Ação Crítica, que tem ótimas análises da política brasileira atual.

Sobre Cultura, eu gosto de ler o blog e o perfil no Facebook de André Forastieri. Sobre Esportes, eu leio o blog do Juca Kfouri (para o qual podemos ter acesso também a partir de seu perfil no Facebook) e também o Esporte Final.

Ciências Naturais, eu acompanho o Canal do Pirula. Ele tem ótimos vídeos, bem didáticos para leigos, sobre Ciências Naturais e tem boas abordagens até mesmo sobre Ciências Sociais, embora eu não concorde com todas as suas opiniões, assim como não concordo com todas as opiniões de todos os que mencionei aqui. Do Clarion eu não gosto tanto assim, embora um ou outro vídeo dele eu recomendo. O Canal Nerdologia eu acho bem interessante.

De notícias, além dos sites dos grandes jornais brasileiros , eu também acompanho as páginas no Facebook do El País Brasil e da BBC Brasil. Ambos têm algumas notícias sobre o Brasil que não são muito destacadas pelos nossos jornalões.

Eu ainda participo do Atlas Forum, que é um fórum internacional de discussão de política e assuntos similares, com gente de várias nacionalidades. Há discussões de alto nível.

E óbvio, sobre leituras na Internet, não perco os textos dos meus colegas aqui do Trincheiras.

Uma polícia preparada para errar

Em “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”, Karl Marx faz uma afirmação que se tornaria mundialmente famosa: “A história se repete duas vezes, a primeira como tragédia, a segunda como farsa”. Esse mesmo raciocínio pode ser usado para entender e desmascarar características do capitalismo, nos fazendo enxergar que muito dos “abusos” no sistema capitalista não são trágicos, imprevisíveis ou instáveis; mas sim uma forma do próprio sistema encontra de se reafirmar como dominante.

Dentro da sociedade capitalista, uma de suas ferramentas mais importantes são as suas forças de repressão. Um estado capitalista precisa de uma força capaz de coagir o trabalhador a seguir as leis, mesmo que essas leis sejam injustas, abusivas ou incoerentes. Essa força militarizada precisa, ao mesmo tempo, impor um estado coercivo gerando medo na população e, além disso, também ser considerada uma força legítima de manutenção da justiça. Em outras palavras: a polícia precisa ser violenta e imoral conta os trabalhadores – enquanto defende os interesses capitalistas – e passar a imagem que faz isso para proteger os próprios trabalhadores!

12321616_10208438815830812_5504756156189238979_nEntendendo o real significado da polícia na sociedade, a sua face trágica, seu papel de “mal necessário”, se torna frágil e assim podemos enxergar a sua farsa! A polícia não existe para proteger o povo, ela existe para proteger os exploradores de um povo que sofre tanto, que suas chances de se rebelar cresce a cada crise política ou econômica! A partir do momento em que enxergamos a polícia com o seu verdadeiro “papel social”, é incoerente dizer que temos uma polícia despreparada.

A Tragédia

Se a polícia militar é boa em algo, é em criar tragédias! Desde operações militares nas favelas, legitimadas pelo Estado, até os grupos de extermínio; a PM causa medo na população, pois a tragédia sempre acontece com o trabalhador, nunca com o patrão! “Não existe disparo acidental no Jardins”, como se diz em São Paulo.

12314562_10208438832751235_6541721428088108310_oBoa parte da sociedade enxerga esses abusos contra a população civil como tragédias. Ao ver o corpo de um jovem inocente assassinado por policias, o primeiro discurso levantado é: “a polícia é despreparada”. Essa ideia de que a PM é despreparada pode ser muito prejudicial para os que lutam pelo fim da instituição militarizada das polícias e pode servir de argumento para eximir psicopatas fardados de suas devidas responsabilidades legais. Quando dizemos que a polícia é despreparada, dizemos que ela precisa ser mais treinada, mais equipada e, consequentemente, mais eficiente! Mas a pergunta é: seria benéfico para a sociedade ter uma polícia mais eficiente sem alterar o modelo de ação dessa polícia atual? Uma polícia mais eficiente não significaria mais repressão ao povo?

A Farsa

Quando vemos a polícia isolar uma área, expulsando a imprensa, antes de descer bomba e cassetete em manifestantes, vemos uma polícia preparada para isolar um perímetro. Quando vemos um policial disparar 10 tiros em um suspeito, em menos de 1 minutos, vemos um policial que sabe usar sua arma de forma eficiente (e imoral)! Quando vemos uma polícia que é capaz de alterar uma cena de crime ou até mesmo barrar investigações contra a corporação, vemos uma polícia extremamente preparada para se preservar legalmente e cometer os seus abusos sem ser incomodada.

Quando o povo viu, em junho de 2013, uma polícia violenta, que fez com a classe média o que faz todos os dias com os moradores da favela, só que na frente das câmeras, o povo sentiu a tragédia! Quando a polícia espanca estudantes, jornalistas e até mesmo figuras políticas, a tragédia é anunciada! Agora, em 2015, vimos essa mesma polícia agir de forma violenta, imoral e com uma força desproporcional contra jovens estudantes secundaristas que lutavam para evitar o fechamento de suas escolas, devemos considerar isso uma tragédia? Já seria essa uma das faces da farsa que é o modelo de segurança pública?

E a história se repete…

Enquanto a sociedade enxergar o verdadeiro papel de social da polícia militar como uma “tragédia” ou uma sequência de “casos isolados”, a história irá se repetir! A polícia não é despreparada, vimos isso em junho de 2013, vimos isso com as prisões arbitrárias de jovens em suas próprias residências, vimos isso com a ocultação do cadáver de moradores das áreas dominadas pelas UPPs, vimos isso com os grupos de extermínio que não deixam rastros enquanto agem de forma coordenada para ataques simultâneos que terminam com mais de uma dezena de vítimas!

O papel da polícia é proteger as classes dominantes enquanto faz a manutenção do poder do Estado, e isso ela faz muito bem!

O dia em que a Folha foi Diário Oficial do governo de São Paulo

A Folha de S. Paulo, pertence ao trio dos jornais mais influentes do Brasil, junto com o Estado de São Paulo e O Globo. Assim, como o Estado e o Globo, a Folha tem posições conservadoras em Economia. Já nas questões sociais, como drogas, sexualidade e religião, a Folha tem posições progressistas, diferente do Estado e do Globo, que são neutros nestas questões. Mas a maior diferença da Folha com os outros dois jornalões, é que o jornal do Frias é mais plural, tem maior quantidade de colunistas que não defendem as opiniões do editorial do jornal. A Folha tem colunistas de direita como Luís Felipe Pondé, Reinaldo Azevedo, João Pereira Coutinho e Sérgio Malbergier, mas também tem colunistas de esquerda como Jânio de Freitas, Vladimir Safatle, Gregório Duvivier, Guilherme Boulos e Marcelo Freixo.

Assim como os outros grandes jornais brasileiros, a Folha apoiou o golpe civil militar de 1964. Mas nas décadas de 1980 e 1990, se diferenciou dos jornais mais conservadores, ao ter concedido mais espaço para opiniões de esquerda (embora nunca tivesse sido essa a linha dos editorais), ao ter concedido grande destaque para a Campanha das Diretas, e ao, bem depois, ter sido o único jornalão a ter uma postura um pouco mais crítica em relação ao governo de Fernando Henrique Cardoso. Na década seguinte, embarcou na onda ultraconservadora que contaminou toda a grande imprensa, culminando no uso da palavra ditabranda em um editorial. Na década de 2010, a Folha redescobriu sua vocação pluralista, voltando a aumentar o espaço para colunistas de esquerda.

Sem títuloNo dia 2 de dezembro de 2015, porém, a Folha teve um dia muito triste. Na noite anterior, estudantes que protestavam na Nove de Julho contra a “reorganização” escolar de Alckmin foram espancados pela Polícia Militar. A capa do jornal não deu qualquer destaque a este acontecimento. O que a capa mostrou sobre a polêmica da “reorganização” foi a foto, razoavelmente grande, de uma escola vandalizada. O texto não disse a mentira de que os estudantes que faziam a ocupação tinham sido os vândalos. Mas quem passa em frente à banca e vê foto, quem olha a capa e lê com pressa muito provavelmente acaba pensando que foram os estudantes da ocupação que fizeram aquilo. Não é possível que jornalistas profissionais não tenham consciência do efeito que a colocação de foto daquela maneira pode causar. Portanto, é perfeitamente possível acreditar que a confusão para fomentar a interpretação errônea foi propositalmente provocada. Além disso, naquele dia, um vídeo sobre as ocupações foi retirado do site da Folha.

Um jornal pode ter suas opiniões expressas em editorial, pode ser a favor da “reorganização”. Mas um jornal que pretende ter informação e opinião deve evitar ao máximo que a opinião contamine a informação. O que ocorreu na capa de 2 de dezembro de 2015 foi omissão de informação (a violência da PM contra estudantes) e indução do leitor desatento ao erro (a foto da escola vandalizada) em favor do governo do estado de São Paulo.

Estes “erros” favoráveis ao governador Geraldo Alckmin aconteceram logo depois dele ter visitado a Folha. Isso mesmo, uma capa chapa branca sucedeu uma visita. Dizia Millôr Fernandes que “imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”. Naquela semana, o jornal dos Frias foi um armazém de secos e molhados.

Os jornais não devem ser puxa saco do governo federal. Tem coisa ruim, tem que mostrar. Errado é não repetir esta mesma atitude crítica com governos estaduais. Mudar a forma de cobrir um acontecimento depois da visita da autoridade é uma evidente demonstração de subserviência.

Para não sermos injustos, temos que reconhecer que a Folha não é completamente acrítica em relação aos governos do PSDB do estado de São Paulo. De vez em quando, publica-se algo sobre o escândalo do metrô, sobre a crise de abastecimento de água. Ainda assim, resta um pouco de dúvida sobre a motivação deste tipo de cobertura. Por exemplo, no ano passado, a Folha publicou um editorial com críticas bem duras ao governo Alckmin no dia da eleição. O momento em que as críticas foram feitas deu a impressão de que o objetivo de “assinar a lista de presença” prevaleceu sobre o de “realmente aprender o conteúdo da aula”. Editorial em dia de eleição não influencia o eleitor, que muito provavelmente já foi para a cama na véspera com a decisão já tomada, e no dia vai votar antes de ler jornal. Por isso, foi transmitida a impressão de que a preocupação da Folha foi mais a de ganhar a carteirinha de isenta do que a de realmente divulgar críticas ao governo.

É injusto dizer que a grande mídia sempre se portou ao lado do governo do estado de São Paulo e contra o movimento de estudantes. Houve algumas reportagens na grande mídia com críticas à postura do governo, críticas à Polícia Militar e abordagem simpática ao movimento. A cobertura das versões brasileiras dos gringos El País e BBC foi muito boa. A própria Folha fez boas reportagens antes daquele dia. Mas não pode deixar de ser criticado o jornal que muda de cobertura quando recebe a visitinha.