É seguidor do Reinaldo Azevedo? Quero distância!

Eu habitualmente sou tolerante com pessoas com opiniões diferentes das minhas. Não tenho qualquer problema em conviver bem com quem é liberal em economia, quem é contra o casamento gay, quem é contra a legalização do aborto, quem é contra a legalização da maconha, quem é contra as cotas, quem acha que religião faz bem para as pessoas. Porém, procuro manter distância de quem é fã do Reinaldo Azevedo. Uma coisa é a pessoa ser de esquerda, de centro ou de direita. Outra coisa é gostar de mau caratismo, que existe na esquerda, no centro e na direita. Há uns colunistas também na esquerda que eu gostaria que nem quem fosse de esquerda gostasse. Não pretendo fazer coisas ruins com quem idolatra o Reinaldo Azevedo. Apenas recuso qualquer intimidade. Dessa forma, não estou lesando essas pessoas porque certamente essas pessoas não teriam qualquer interesse em viver perto de mim. A vontade do afastamento seria recíproca. Se em alguma reunião eu escutasse alguém dizendo “você viu o mais recente texto do Reinaldo Azevedo? Ele é o cara”, eu não xingaria esse alguém de reaça, fascistóide ou coxinha. Eu simplesmente pensaria em silêncio “desse aí é pra ficar longe”. Em uma sociedade livre, as pessoas escrevem o que querem, leem o que querem, e também convivem com quem querem.

Em geral, quem gosta de ler os textos Reinaldo Azevedo diz que faz isso porque o colunista “mete o pau no PT”. Muito provavelmente o verdadeiro motivo não é este, uma vez que além do Reinaldo Azevedo, há outros 21.346 colunistas que metem o pau no PT, então, se a intenção é apenas ler textos de colunistas que metem o pau no PT, é possível escolher muitos outros. Se o propósito do Reinaldo Azevedo fosse apenas combater o PT, pode-se dizer que ele não é muito competente. Em 1989, 1994 e 1998, quando Reinaldo Azevedo era desconhecido, Lula perdeu. Em 2002, 2006, 2010 e 2014, quando Reinaldo Azevedo teve papel ativo na campanha anti-PT, Lula e Dilma ganharam.

Quem idolatra o Reinaldo Azevedo muito provavelmente faz isso por causa da outra atividade frequente do colunista, esta sim, praticada por poucos na grande imprensa: o uso do dog-whistle para fazer apelos a racistas, machistas, homofóbicos, transfóbicos, ateufóbicos, xenofóbicos, elitistas e apologistas do assassinato de moradores de favela. O significado literal de dog-whistle é um apito que emite ruídos que apenas cachorros escutam. No jargão político dos países de língua inglesa, este termo passou a ser utilizado para se referir a discursos que têm um significado para a grande audiência e outro significado para grupos específicos que são o público alvo de quem fez o discurso. É uma forma de comunicação em código. Em geral, estes grupos específicos são odiosos para parcela considerável da grande audiência. Disto vem a necessidade

Os pioneiros no uso do dog-whistle foram os ultraconservadores norte-americanos, defensores da ala mais à direita do Partido Republicano (ala à direita de um partido que já é bastante de direita). Eles não eram explicitamente racistas, mas usavam indiretas para fazer apelos aos brancos sulistas ressentidos com as políticas federais de integração racial. Isto contribuiu para que um grupo majoritariamente democrata se tornasse republicano. O exemplo mais notório desta prática foi Ronald Reagan, durante sua campanha presidencial, discursando no Mississippi defendendo os “direitos dos estados”. Um observador ingênuo pensaria que o candidato estava apenas defendendo que os estados tivessem mais autonomia perante ao governo federal. Mas a verdade é que ele estava falando para uma plateia ressentida com as leis federais de direitos civis que acabaram com o segregacionismo dos estados do sul dos Estados Unidos.

Reinaldo Azevedo tenta fazer algo parecido no Brasil. Ele não emite opiniões explicitamente racistas, machistas, homofóbicas, transfóbicas, ateufóbicas e xenofóbicas. Mas escreve textos que agradam quem é assim. Talvez por considerar que fazer apelos codificados para quem tem preconceitos enrustidos possa criar uma força de mobilização a favor da direita, pois isto poderia mobilizar até mesmo quem é indiferente em relação ao papel do Estado na economia, tema mais frequente no debate esquerda versus direita. Talvez por vontade de aparecer, de vender livros, de ter grande público em palestras, de explorar um nicho de mercado. Reinaldo Azevedo tem apelo aos grupos de ódio quando insulta com frequência os movimentos de minorias. Movimentos erram de vez em quando. Porque são compostos por seres humanos, e seres humanos erram. É possível fazer uma ou outra crítica a movimentos de minorias, até eu faço isso de vez em quando, mas prefiro fazer isso quando quem vai ler são pessoas que entendem que mesmo quando movimentos erram, a luta deles é importante. Não é o caso do público da Veja.

Uma das linhas de ataque aos movimentos de minorias é o uso de dinheiro público. Isto é olhar para o rabo dos outros sem olhar para o próprio. A Veja já teve publicidade estatal. A Primeira Leitura, finada revista de Reinaldo Azevedo, recebia patrocínio da Nossa Caixa, que era um banco público paulista. O colunista já apareceu duas vezes no Roda Viva, da TV Cultura. Seus amiguinhos aparecem com frequência no canal público paulista.

Reinaldo Azevedo também tem apelo junto aos odientos quando faz gracinhas que têm graça apenas para quem tem aversão a alguma minoria. Já chamou os índios pelo termo pejorativo “peles-vermelhas”. Já se referiu algumas vezes ao presidente dos Estados Unidos pelo seu nome completo Barack Hussein Obama. Como ninguém fala Franklin Delano Roosevelt, John Fitzgerald Kennedy e George Walker Bush, é óbvio que a intenção de pronunciar o Hussein por extenso é a de evidenciar a origem estrangeira da família do atual presidente, e desta forma, dar a entender que isto o torna uma pessoa pior. Esta prática foi iniciada pela parcela mais podre da ultradireita norte-americana, e até mesmo John McCain já repudiou um repórter que falou Hussein. O colunista da Veja também já tentou negar a existência da “cultura negra” (como se ele fosse grande entendedor do assunto). E mais de uma vez, esculachou a líder do Movimento Passe Livre porque ela é garçonete.

Quando teve aquela novela com o beijo gay no último capítulo, Reinaldo Azevedo não atacou diretamente o beijo, para não escancarar homofobia, mas atacou a novela e seu diretor. Não haveria problema algum em falar mal da novela, afinal, a novela poderia ter sido ruim mesmo, se não fosse o fato de que… Reinaldo Azevedo não é colunista de novela, não escreve habitualmente sobre novela, decidiu falar de uma novela bem no momento que teve beijo gay. Quem é que mais gostaria de ler um texto atacando uma novela que teve beijo gay? Resposta simples: homofóbicos. Além disso, uma das poucas novelas como beijo homossexual foi chamada pelo colunista de heterofóbica. Já pensou se todas as novelas com beijo heterossexual fossem chamadas de homofóbicas? O apelo a homofóbicos não termina por aqui. Já houve também ataques ao Haddad por causa do “kit gay”. E ataques à transexualidade de Laerte.

No blog de Reinaldo Azevedo é possível encontrar até mesmo defesa de Marco Feliciano, aquele que aplaudiu o assassinado de John Lennon. Não defesa explícita, mas um calhamaço de críticas aos críticos do deputado pastor. A desculpa é a de que “ele foi eleito democraticamente”. Dilma Rousseff e Jean Wyllys também foram eleitos democraticamente, nem por isso o colunista da Veja critica seus críticos, ele é um deles.

Não sei nem quero saber se Reinaldo Azevedo é ou não racista, machista, homofóbico, transfóbico, xenofóbico, ateufóbico, elitista. Talvez não. Ele até defendeu a campanha das bananas do Luciano Huck, defende o direito de adoção de crianças por casais homossexuais. Mas pelos exemplos mencionados, fica evidente que Reinaldo Azevedo faz dog-whistle para racistas, machistas, homofóbicos, transfóbicos, xenofóbicos, ateufóbicos e elitistas. Existe um apelo a este público em seus textos. Portanto, quem idolatra o Reinaldo Azevedo tem probabilidade muito alta de ser algumas ou muitas dessas coisas.

Reinaldo Azevedo pratica um vitimismo de quem não é vítima. Já escreveu que o brasileiro mais oprimido era o homem branco hétero cristão. Uma forma muito antiga de desqualificar quem luta por direitos de determinado grupo é alegar que quem não pertence a este grupo é vítima. Durante a República de Weimar, por exemplo, antissemitas diziam que o povo alemão era vítima dos judeus.

Sou homem branco hétero quase cristão (meu pai e minha mãe são cristãos, acredito em apenas um deus a menos do que os cristãos). Não me sinto oprimido. Homens ganham salários maiores do que mulheres. Brancos têm menos probabilidade de ser parados pela polícia do que negros. Heterossexuais têm probabilidade menor (ou nula) de sofrer crime de ódio heterofóbico do que homossexuais de sofrer crime de ódio homofóbico. Alunos de algumas escolas públicas são obrigados a rezar Pai Nosso, mas nenhum é obrigado a rezar Dawkins Nosso. Além de preconceito, fãs do Reinaldo Azevedo sofrem de outro mal: falta de generosidade. Isto é evidenciado em quem acha que seu grupinho é o mais oprimido de todos, mesmo que não seja.

Além do apelo aos grupos de ódio, existe também o apelo aos entusiastas das operações policiais que matam moradores de favela. Junto com o colega Felipe Moura Brasil, Reinaldo Azevedo já tentou desqualificar morador de favela vítima de assassinato cometido por policial militar. Não adianta dizer “o acontecimento deve ser investigado, não estou defendendo execução”. Quem gosta de execuções e lê informações negativas sobre vítimas de execuções sai espalhando essas informações às pessoas do seu círculo social, junto com o comentário “está vendo? Mereceu!”. Difundir informação negativa (algumas vezes de veracidade duvidosa) sobre vítimas de provável execução, mesmo não sendo diretamente uma apologia à execução, é fornecimento de munição (no sentido não literal) para quem deseja fazer apologia à execução.

Além de muito provavelmente gostar de racismo e similares, de ser vitimista em relação ao próprio grupinho, o fã de Reinaldo Azevedo parece que não se preocupa em ser levado a sério. Quem tem como mentor intelectual alguém que fala em “ciclofascismo”, “Estado Islâmico sobre duas rodas” se auto-esculhamba. Também não merece respeito quem vê grande erudição em alguém que “argumenta” contra a legalização da maconha relacionando a defesa desta bandeira com os consumidores ilegais. Quer argumentar contra a legalização da maconha, apresente argumentos.

É difícil até mesmo alegar combate aos corruptos como pretexto para ter Reinaldo Azevedo como referência intelectual. Sua indignação com corruptos é estranha. O colunista da Veja foi grande entusiasta de Eduardo Cunha no primeiro semestre de 2015. As contas na Suíça ainda não eram conhecidas, mas as histórias dos tempos de Telerj e Cehab sim. Quando Haddad e Lula divergiram sobre investigar ou não a era Kassab, Reinaldo Azevedo teve a oportunidade de atacar Lula mais uma vez, e teria razão, pois o ex-presidente queria poupar a administração do neo-aliado (e hoje ministro) Kassab. Mas entre Lula e Haddad, Reinaldo Azevedo preferiu descer o porrete no… Haddad (dica: o neo-aliado de Lula já foi aliado de Reinaldo Azevedo). Reinaldo Azevedo escreve para uma revista que considerava Demóstenes (o serviçal de Carlinhos Cachoeira) um paladino da ética, e que tentou desqualificar a CPI do Cachoeira considerando-a uma cortina de fumaça para a AP 470.

Reinaldo Azevedo não age sozinho. Tem o auxílio de uma direita “liberal” que não concorda com suas ideias conservadoras sobre sexo e religião, mas acha esse conservadorismo útil politicamente e útil economicamente (para vender periódicos). É triste constatar que entre os quatro periódicos escritos mais importantes do Brasil (os jornais O Globo, Folha de S. Paulo, Estado de São Paulo e a revista Veja), Reinaldo Azevedo já foi colunista de três deles e é atualmente de dois. Os colegas de imprensa de Reinaldo Azevedo que têm a mesma orientação partidária e não condenam publicamente sua retórica são cúmplices desta prática, mesmo quando não concordam 100% com o que Reinaldo Azevedo escreve. Da mesma forma que se espera de islâmicos que condenem abertamente o terrorismo feito em nome de Alá, espera-se que colegas de trabalho e de orientação partidária de Reinaldo Azevedo condenem a prática do dog-whistle.

Para concluir, não custa repetir: não quero fazer mal aos seguidores do Reinaldo Azevedo. Eles têm direito de gostar dele. Quero apenas distância desse tipo de gente. É meu direito. Tolerância com ideias diferentes faz bem. Porém, o outro lado também tem que aceitar isso.

 

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