Hitler não era socialista… Parem de dizer que ele era!

Por Tim Stanley

Tradução de Matheus Boni

Meu colega Dan Hannan afirma que Hitler era um socialista. É uma ideia popular entre ultraliberais, muitas vezes usada para envergonhar a oposição – afinal de contas, os nazistas chamavam a si mesmos Nacional Socialistas. Mas também Tony Blair uma vez se disse um socialista. Logo, os rótulos podem ser equivocados.

Que Hitler não era um socialista torna-se óbvio semanas após ele ter se tornado Chanceler da Alemanha, quando começou a prender socialistas e comunistas. Ele fez isso, dirá alguém, porque eles eram alas rivais do socialismo. Mas isso não explica porque Hitler definiu sua política tão absolutamente como guerra ao Bolchevismo – um lema com o qual ele ganhou o apoio das classes médias, industriais e muitos conservadores estrangeiros.

Dan afirma que Hitler era socialista com ressalvas, que:

“O erro de Marx, Hitler acreditava, era enfatizar a luta de classes ao invés da unidade nacional – para colocar operários contra industriais ao invés de coagir ambos os grupos em uma ordem corporatista.

Mas, por essa mesma definição, Hitler não era um socialista. Marxismo é definido pela luta de classes, e o socialismo é alcançado com a vitória completa do proletariado sobre a classe dominante. Ao contrário, Hitler oferecia uma aliança entre trabalho e capital na forma do corporatismo – com o expresso propósito de prevenir a luta de classes. O marxismo olhava isto como um dos estágios do desenvolvimento capitalista e poucos na época interpretaram legitimamente o Terceiro Reich como uma sociedade socialista. O radical George Bernard Shaw, por exemplo, certamente expressou simpatia por Hitler quando ele chegou ao poder, mas depois descreveu o “socialismo” do ditador como uma fraude – como uma forma de trapacear a revolução inevitável. Ele vestiu, na opinião de Shaw, a “última máscara do capitalismo”.

De fato, enquanto os nazistas continuaram a política de nacionalização da República de Weimar, eles também privatizaram não poucas coisas: algumas siderúrgicas, quatro maiores bancos e as ferrovias. O lucro gerou certa de 1,4% do orçamento estatal de 1934 a 1938. Industriais se deram bem no período nazista, ajudados pela política estatal de esmagamento dos sindicatos e ênfase do pleno emprego em detrimento do aumento dos salários. É verdade que a economia foi socializada no período final dos anos 1930, mas não com o propósito de construção do socialismo. Era um preparo para a guerra. No Estado Fascista a política vêm antes da economia, ao ponto de ser difícil conceber Hitler como um pensador econômico coerente. Ele teria feito qualquer coisa para conquistar a Europa Oriental, e uma economia de comando demonstrou ser melhor na construção de tanques do que o livre mercado. Dado que o ditador gozou do apoio da burguesia, que aceitou aqueles sacrifícios como necessários para defender seus lucros do socialismo, nós podemos definir o III Reich como capitalismo abraçando alguns elementos do socialismo econômico para defender os interesses dos capitalistas. Shaw estava correto.

Outro ponto no qual Hitler não era socialista era o seu racismo. Mais uma vez, o marxismo define a história como uma luta de classes. Hitler a via como um conflito racial – e o Bolchevismo como uma construção judaica. Como ele mesmo colocou:

No Bolchevismo Russo nós devemos ver uma tentativa empreendida pelos Judeus no século XX para conquistar a dominação mundial. Assim como em outras épocas eles se esforçaram para atingir o mesmo objetivo, por meio de outros, mas intimamente relacionados, processos. Seu esforço encontra-se profundamente enraizado em sua natureza essencial. Alemanha é hoje o próximo grande objetivo de guerra do Bolchevismo. Isso requer toda a força da jovem ideia missionária para levantar nosso povo novamente, para libertá-los das armadilhas desta serpente internacional, e para parar a contaminação interna do nosso sangue, para que as forças de nossa nação então livre possam salvaguardar nossa nacionalidade, e então prevenir uma repetição das catástrofes recentes no mais distante futuro.

Eu não deveria ter de explicar que isto nada tem a ver com socialismo, marxismo, trotskismo, materialismo dialético ou o Partido Verde. Os objetivos de Hitler eram, de fato, totalmente opostos ao igualitarismo socialista. A ironia é que ele às vezes estava preparado para usar o socialismo econômico para perseguir sua agenda. Mas, para repetir, isto ocorria porque a política tinha prioridade sobre a teoria econômica consistente. Por sinal, as fazendas alemãs não foram coletivizadas, como o marxismo reivindicava. Elas foram certamente protegidas contra a competição e o fazendeiro foi elevado a um Ideal Ariano. Mas até mesmo isso era para exibição: a agricultura perdeu importância quando a guerra se aproximava e a industrialização se tornou prioridade. A política econômica ia e vinha entre o que grosseiramente poderia ser chamado “esquerda para direita”. Mas derrotar o movimento comunista “judaico” era a única coisa que realmente importava.

Então como nós explicamos por que Hitler muitas vezes chamou a si mesmo de socialista? Era uma questão de moda: nos anos 1920 e 1930, o socialismo era a onda do futuro e tinha um efeito massivo sobre o discurso político. Muitas pessoas usaram a terminologia marxista sem necessariamente assinar embaixo ou mesmo entender. E vários governos falaram da necessidade de aumentar os níveis de vida, ajudar os pobres ou até gerenciar a economia – mas não devemos chamá-los de marxistas. Os Estados Unidos tinham o seu New Deal, a Suécia, a sua socialdemocracia. Os japoneses militarizaram seu país inteiro, mas o fizeram para expandir o domínio de um imperador que eles pensavam ser um deus vivo, o que dificilmente é um comportamento comunista clássico. Na Grã-Bretanha, o governo de Stanley Baldwin gastou milhões num programa de construção de casas e erigiu a empresa pública BBC. Mas Stanley não era Stálin.

Agora libertarianistas dizem que eles chamam Hitler de socialista em parte para contrariar esquerdistas chamando todos que eles não gostam de “fascistas”. É verdade que é muito irritante quando a Esquerda faz isso. Mas não é só porque é ofensivo igualar Iain Duncan Smith com Goebbels: é porque é um abuso dos fatos históricos. É quase impossível para o leitor informado achar alguma equivalência entre Hitler e a política moderna, mas pessoas demais o fazem com frequência. Por sinal, quando ateus insistem que ele era um exemplo de chauvinismo católico/cristão, eles esquecem seu intenso ódio do cristianismo.  E quando conservadores religiosos  tentam fazer dele um ateu, eles esquecem quão feliz ele estava ao tomar de empréstimo a linguagem cristã ou trabalhar com colaboradores clericais. Um exemplo clássico do mau uso da memória de Hitler é o debate sobre armamento civil. Ele não tomou as armas dos alemães, como dizem alguns libertarianistas. A política começou sob a República de Weimar e, se Hitler fez alguma coisa, foi rearmar a população armando os seus partidário, expandindo as Forças Armadas e invadindo a Polônia. Hitler gostava de armas. Ele realmente gostava de armas.

No entanto, a acusação de que aquele X ou Y é “igual a Hitler” continua a ser comum. E há alguns libertarianistas que asseveram que alguém só é direitista se abraça o liberalismo clássico; enquanto todo mundo que imagina um papel para o Estado na economia tem sido historicamente de esquerda. Mas o autoritarismo de direita certamente existe. Fascismo é o uso violento do Estado para alcançar objetivos de direita: ordem social, chauvinismo religioso, proteção do lucro privado, etc. A lição moral é que o poder corrompe a todos: esquerda, direita, homens, mulheres, gays, héteros, negros, brancos, religiosos, ateus. As melhores nações tem constituições que limitam o governo, protegem a esfera privada e em grande medida deixam os indivíduos cometerem seus próprios erros. Vote libertário!

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