Museu do Amanhã, Ideias de Ontem

Domingo, 20 de dezembro de 2015, fui ao Museu do Amanhã no Rio de Janeiro.

Foto: Marconi Andrade
Foto: Marconi Andrade

Pra começar, queria dizer que acho que o Estado deve investir sim em museus, em bibliotecas, em escolas, em cultura, etc. O que não significa ter que investir menos em saúde/educação/transporte etc, as coisas não se excluem. Mas estamos numa cidade que tem museus sendo fechados e/ou largados às traças, então a coisa já começa incoerente por aí.

Tem a questão óbvia: aquilo foi feito pra gringo ver. É uma construção gigantesca, dentro tem um monte de nada, mas que vai dar aquela valorizada legal na zona portuária que as empreiteiras tanto queriam.

Havia coisas legais. Uma parte lá, chamada de “Laboratório de Atividades do Amanhã”, parecia uma feira de ciências… parecia a feira que meus alunos participavam no CEFET ou a JOTEC do antigo Colégio Graham Bell. Tinha gente mostrando pilha feita em fruta, impressora 3D e outras coisas do tipo.

Mas aí você tem um museu pra abordar ecologia e meio ambiente… projetado pela Fundação Roberto Marinho e patrocinado pelo Santander. Então é óbvio que a gente vê meio ambiente a partir do ponto de vista do capital.

O tempo todo a questão é jogada como se fosse culpa sua. O que você vai fazer? Como você vai consumir menos água? Como você vai diminuir seu gasto de energia elétrica? Tem muita gente no mundo! E aí depois fala: Olha, além de você reduzir seu consumo, é importante também fiscalizar os governos, porque energia é questão de políticas públicas.

Mas não se fala qual é a raiz desse consumo. Não se fala da obsolência programada. Não se fala do fetiche pelo consumo. Fala-se assim, de forma extremamente tangencial, dos nossos hábitos alimentares (vê lá se Fundação Roberto Marinho vai querer bater de frente com Monsanto ou com Friboi), não se fala da lógica cíclica do consumismo.

Cachorro bebendo água da privadaSe eu não tivesse estudado sobre nada disso, eu teria saído de lá achando que, ao desligar a luz da sala e tomar banho tcheco, estaria salvando o planeta. Não estou. Essa dissimulação é velha — é o meio ambiente visto pelo ponto de vista do capital: Olha, tá tudo ruim, mas a gente aqui não vai fazer nada pra mudar isso não. Tu se vira aê e passa a beber água da privada pra reaproveitar água.

E claro, tem toda a incoerência de você se dizer preocupado com ecologia e meio ambiente, falar para as pessoas economizarem recursos do planeta num lugar que custou uma grana gigantesca pra ficar pronto e gasta água e energia pra cacete, e ainda por cima terminar seu evento de inauguração assim:

Sujeira Abertura Museu do Amanhã
Foto: Marcio Almeida

Rafael Lima de Souza é pedagogo, professor de Informática e desenvolvedor de jogos.

Comentários