O dia em que a Folha foi Diário Oficial do governo de São Paulo

A Folha de S. Paulo, pertence ao trio dos jornais mais influentes do Brasil, junto com o Estado de São Paulo e O Globo. Assim, como o Estado e o Globo, a Folha tem posições conservadoras em Economia. Já nas questões sociais, como drogas, sexualidade e religião, a Folha tem posições progressistas, diferente do Estado e do Globo, que são neutros nestas questões. Mas a maior diferença da Folha com os outros dois jornalões, é que o jornal do Frias é mais plural, tem maior quantidade de colunistas que não defendem as opiniões do editorial do jornal. A Folha tem colunistas de direita como Luís Felipe Pondé, Reinaldo Azevedo, João Pereira Coutinho e Sérgio Malbergier, mas também tem colunistas de esquerda como Jânio de Freitas, Vladimir Safatle, Gregório Duvivier, Guilherme Boulos e Marcelo Freixo.

Assim como os outros grandes jornais brasileiros, a Folha apoiou o golpe civil militar de 1964. Mas nas décadas de 1980 e 1990, se diferenciou dos jornais mais conservadores, ao ter concedido mais espaço para opiniões de esquerda (embora nunca tivesse sido essa a linha dos editorais), ao ter concedido grande destaque para a Campanha das Diretas, e ao, bem depois, ter sido o único jornalão a ter uma postura um pouco mais crítica em relação ao governo de Fernando Henrique Cardoso. Na década seguinte, embarcou na onda ultraconservadora que contaminou toda a grande imprensa, culminando no uso da palavra ditabranda em um editorial. Na década de 2010, a Folha redescobriu sua vocação pluralista, voltando a aumentar o espaço para colunistas de esquerda.

Sem títuloNo dia 2 de dezembro de 2015, porém, a Folha teve um dia muito triste. Na noite anterior, estudantes que protestavam na Nove de Julho contra a “reorganização” escolar de Alckmin foram espancados pela Polícia Militar. A capa do jornal não deu qualquer destaque a este acontecimento. O que a capa mostrou sobre a polêmica da “reorganização” foi a foto, razoavelmente grande, de uma escola vandalizada. O texto não disse a mentira de que os estudantes que faziam a ocupação tinham sido os vândalos. Mas quem passa em frente à banca e vê foto, quem olha a capa e lê com pressa muito provavelmente acaba pensando que foram os estudantes da ocupação que fizeram aquilo. Não é possível que jornalistas profissionais não tenham consciência do efeito que a colocação de foto daquela maneira pode causar. Portanto, é perfeitamente possível acreditar que a confusão para fomentar a interpretação errônea foi propositalmente provocada. Além disso, naquele dia, um vídeo sobre as ocupações foi retirado do site da Folha.

Um jornal pode ter suas opiniões expressas em editorial, pode ser a favor da “reorganização”. Mas um jornal que pretende ter informação e opinião deve evitar ao máximo que a opinião contamine a informação. O que ocorreu na capa de 2 de dezembro de 2015 foi omissão de informação (a violência da PM contra estudantes) e indução do leitor desatento ao erro (a foto da escola vandalizada) em favor do governo do estado de São Paulo.

Estes “erros” favoráveis ao governador Geraldo Alckmin aconteceram logo depois dele ter visitado a Folha. Isso mesmo, uma capa chapa branca sucedeu uma visita. Dizia Millôr Fernandes que “imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”. Naquela semana, o jornal dos Frias foi um armazém de secos e molhados.

Os jornais não devem ser puxa saco do governo federal. Tem coisa ruim, tem que mostrar. Errado é não repetir esta mesma atitude crítica com governos estaduais. Mudar a forma de cobrir um acontecimento depois da visita da autoridade é uma evidente demonstração de subserviência.

Para não sermos injustos, temos que reconhecer que a Folha não é completamente acrítica em relação aos governos do PSDB do estado de São Paulo. De vez em quando, publica-se algo sobre o escândalo do metrô, sobre a crise de abastecimento de água. Ainda assim, resta um pouco de dúvida sobre a motivação deste tipo de cobertura. Por exemplo, no ano passado, a Folha publicou um editorial com críticas bem duras ao governo Alckmin no dia da eleição. O momento em que as críticas foram feitas deu a impressão de que o objetivo de “assinar a lista de presença” prevaleceu sobre o de “realmente aprender o conteúdo da aula”. Editorial em dia de eleição não influencia o eleitor, que muito provavelmente já foi para a cama na véspera com a decisão já tomada, e no dia vai votar antes de ler jornal. Por isso, foi transmitida a impressão de que a preocupação da Folha foi mais a de ganhar a carteirinha de isenta do que a de realmente divulgar críticas ao governo.

É injusto dizer que a grande mídia sempre se portou ao lado do governo do estado de São Paulo e contra o movimento de estudantes. Houve algumas reportagens na grande mídia com críticas à postura do governo, críticas à Polícia Militar e abordagem simpática ao movimento. A cobertura das versões brasileiras dos gringos El País e BBC foi muito boa. A própria Folha fez boas reportagens antes daquele dia. Mas não pode deixar de ser criticado o jornal que muda de cobertura quando recebe a visitinha.

 

 

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