O Último Quilômetro

ReferenciaAnos 90. Estou batendo papo com um amigo de longa data e um amigo de longa data desse amigo, conhecido recentemente. Aqueles papos bobos, aleatórios, terapêuticos e entupidos de referências pop, típicos de indivíduos do sexo masculino na casa dos 30. O assunto é alguma celebridade estrangeira (não lembro qual) que era membro de algum grupo que sofre preconceito (não lembro qual). Numa certa hora, o amigo do amigo delibera:

— Preconceito é só ignorância. Quando você passa a conhecer, o preconceito desaparece.

Ouvi aquilo e pensei, não estou 100% certo se concordo com isso. Achava que combater o preconceito era só questão de educar e cultivar a empatia. Depois vim a perceber que eu estava negligenciando o Último Quilômetro.

ModemEm telecomunicações, Último Quilômetro significa fazer efetivamente o sinal de Internet/TV/telefone chegar até você, na sua casa. Antes disso, a operadora tem que colocar milhares de quilômetros de infraestrutura, cabos, túneis, retransmissores, amplificadores, tudo sujeito a problemas e dificuldades. Mas os problemas e dificuldades do Último Quilômetro são diferentes. E piores. Calçadas esburacadas, fiações de prédios antigos, prédios construídos antes de existir o conceito de “fiação”, síndicos não cooperativos, interferências vindas não se sabe de onde… saber trazer o sinal por todos aqueles quilômetros anteriores não ajuda de nada no Último Quilômetro. Para este, é preciso uma ciência toda própria. Palavra de quem já trabalhou na área.

O mesmo acontece com o trabalho de combater o preconceito na sua mente. Tudo o que você pode (e precisa!) aprender, internalizar, empatizar — nada disso é o Último Quilômetro. O Último Quilômetro só pode ser transposto com a ajuda de alguém de carne e osso. Alguém com nome, sobrenome, endereço, olhos de cor X, cabelo do jeito Y e sotaque do lugar Z, que você precisa, como disse sabiamente o amigo do amigo, conhecer. E conviver. Nem que seja online.

“Online”, em meados dos anos 90, era algo diferente de hoje. Envolvia algo que não era a Internet, mas que em última análise funcionava de maneira similar, chamado BBS. A diferença é que eram vários pequenos guetos conectados digitalmente pela linha telefônica, e restritos cada um a uma cidade por conta das tarifas insanas de interurbano. Mas já havia algo que permanece, em essência, igual: grupos de discussão de entusiastas dos mais variados assuntos. De esportes a filmes a tecnologias a sacanagem a estilos musicais a piadas a receitas… o normal.

scully_mulderUm dos grupos que eu frequentava era o de fãs do seriado Arquivo X. Nerdice total e gloriosa. (Sim, os outros grupos que eu frequentava eram tão nerds quanto ou mais.) Para minha surpresa, entre as dúzias de pessoas (muito nerds) que conheci lá — e a maior parte são meus amigos até hoje — estavam dois cantores brasileiros famosos. Um deles é irrelevante. A outra era a Vange Leonel.

Os tópicos de conversa preferidos eram especulações desenfreadas sobre as motivações dos alienígenas, calendário de encontros de fãs, bate-bocas sobre a qualidade relativa dos roteiristas Fulano e Sicrano, e… a gatice do casal protagonista (de parar o trânsito, convenhamos) e se eles alguma hora iriam ou não às vias de fato. E nessa, ficou claro que ih, ora vejam vocês, a Vange gosta de mulher! Ela babava grosso pela Scully — assim como 80% do grupo, eu incluído.

Estava percorrido o Último Quilômetro. Ao me aperceber deste fato a respeito de alguém que, apesar da convivência restrita, eu podia ousar chamar de amiga, várias coisas estalaram instantaneamente na mente:

  1. Se eu fizesse certas piadinhas que, tempos atrás, eu fazia sem pensar, eu iria ferir esta pessoa;
  2. Este atributo que esta pessoa tem é perfeitamente normal, e tê-lo ou não tem tanta relevância para o valor dela como ser humano quanto ter operado o apêndice ou não. Eu achava que já estava 100% ciente disso há muito tempo, mas só parte de mim (a parte racional) estava;
  3. Se aparecer alguém falando o que não deve, vou entrar de voadora (felizmente, ninguém apareceu, o que é um grande mérito para uma comunidade online em 1995).

Nesse momento, e só nesse momento, o sinal chegou. Finalmente entendi o que o amigo do amigo quis dizer. E mesmo assim, quem foi criado num ambiente conservador das antigas (ou seja, a esmagadora maioria das pessoas, sim, mesmo que sua família seja toda “de esquerda”) vai perceber que de vez em quando pinta uma reação automática de fazer um trocadilho assim, um comentário assado, de considerar aquele camarada ali “estranho” ou “fora do padrão”. É como deixar de fumar: o esforço consciente que você tem que fazer para bloquear vai ficando menor ao longo do tempo. Mas nunca vai ser zero. Você tem que ficar alerta o resto de vida. A boa notícia é que esse “estar alerta” vai se tornando uma segunda natureza, cada vez mais fácil. E reitero: isso não se aplica só ao preconceito em particular descrito acima, mas a todos.

Para terminar, se você quiser conhecer alguém que se especializou em arrastar pessoas pelo Último Quilômetro de maneira particularmente brutal, recomendo assistir a este documentário sobre o workshop de racismo de Jane Elliott. Mas vou logo avisando: não é para os fracos.

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