Sobre os protestos amarelos de 2015 e os protestos pretos de 2013

Vamos falar um pouco sobre os protestos amarelos de 2015 e os protestos pretos de 2013 e sobre como os vermelhos abordam estes protestos.

 

Os de amarelo

Esta parte do texto trata da forma através da qual alguns políticos, militantes e colunistas de esquerda vem reagindo aos protestos anti-Dilma dos camisas amarelas. Estes protestos devem ser criticados, mas o uso de argumentos equivocados pode ser mais prejudicial para os críticos do que para os criticados. Percebemos pelo Facebook que alguns simpatizantes do PSOL estão competindo com simpatizantes do PT para ver quem xinga mais alto os amarelos de golpistas, coxinhas, fascistas. Tripudiar protestos sem fazer um mínimo esforço para entende-los, quando o governo tem 10% de aprovação, não parece ser uma atitude muito inteligente. Algumas sátiras a estes protestos são engraçadas sim. E obviamente estes protestos têm muita gente dodói, que carrega faixas dizendo “intervenção militar já”, “Olavo tem razão”, “chega de Paulo Freire”, “basta de comunismo, “fora Foro de São Paulo”, “deveriam ter matado todos em 1964”. Porém, carregar faixas com as palavras “Fora Dilma” não é ser golpista e antidemocrático, mesmo que não concordemos com isso. Sim, Dilma foi eleita em uma eleição sem fraudes (a história da urna eletrônica adulterada pertence aos dodóis), maioria apertada é maioria, e seu mandato termina em 1º de janeiro de 2019. Agora, desculpem o uso cafona das letras maiúsculas, mas trata-se de um questionamento importante: DESDE QUANDO A ESQUERDA CONSIDERA QUE A VONTADE POPULAR SÓ PODE SER EXPRESSA UMA VEZ A CADA QUATRO ANOS? Manifestantes de esquerda já gritaram Fora para Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique Cardoso e para muitos governadores e prefeitos de direita. Eduardo Cunha (esse sim, tem muito mais motivos para ir para fora) foi eleito deputado e depois foi eleito presidente da Câmara por deputados que também foram eleitos. A esquerda já comemorou a queda de presidentes eleitos da Argentina, do Equador e da Bolívia. Quando, entre 2001 e 2002, um presidente argentino caiu logo depois do outro, falou-se muito do “bravo povo argentino”. É importante lembrar que alguns dos presidentes da Argentina e do Equador que caíram, e tiveram a queda comemorada pela esquerda, eram considerados de esquerda quando foram eleitos. Dizer que pedir a interrupção de um governo democraticamente eleito é golpismo e ato hostil à democracia, ao invés de considerar tal atitude como parte da democracia, gera um precedente perigoso. E na hora em que aparecer um governo de direita com popularidade baixa? Os defensores deste governo provavelmente vão dizer “mas vocês diziam que gritar Fora Dilma era golpismo?”.

Os manifestantes amarelos pediam o impeachment. O que dizer do impeachment? A base legal do pedido é capenga. Cassar um mandato de presidente por causa de desrespeito à lei orçamentária é igual prender um adulto que deu cerveja para seu filho de 15 anos. A motivação para o início do processo de impeachment é a mais canalha possível. Muitos juristas conceituados consideram que as tais pedaladas não justificam o impeachment. Mas as pessoas que vão para as ruas não são obrigadas a ser juristas. E alguns juristas são favoráveis ao impeachment, inclusive os que fizeram o pedido, óbvio. E o “Fora Dilma” das manifestações também pode se referir à renúncia, não apenas a impeachment. As manifestações dos camisas amarelas que ocorreram em 15 de março, 12 de abril, 16 de agosto e 13 de dezembro de 2015 tiveram como mais nefasto os pedidos de intervenção militar. E não foram apenas um ou outro manifestante com este tipo de faixa. Na Avenida Paulista no dia 15 de março, havia dois caminhões de som que pregavam a intervenção militar. A agressividade de muitos manifestantes com jornalistas também deve ser repudiada. Mas simplesmente pedir impeachment ou renúncia, mesmo que não concordemos, não torna um manifestante golpista ou fascista.

É necessário entender que quando existe crise econômica, quando existe infraestrutura e serviços públicos precários, quando existem figuras importantes do partido do governo e de partidos (ex)-aliados envolvidas em escândalos de corrupção, vai existir protesto, não importando se o governo é de esquerda ou de direita, ou se os protestos são de esquerda ou de direita. As Diretas Já, o Fora Collor e o Fora FHC ocorreram quando o país estava em crise econômica.

Embora a insatisfação com o governo Dilma seja generalizada, na esquerda e na direita, nos pobres e nos ricos, em quem votou nela e em quem não votou nela, não é possível dizer que os manifestantes de amarelo são um retrato da sociedade brasileira indignada, ao contrário do que dizem os defensores mais entusiasmados destes protestos. Os manifestantes de amarelo são um segmento específico da sociedade brasileira: eram quase todos de média/alta renda, eleitores do Aécio. Nota-se também que os organizadores do protesto não focavam apenas nos problemas genéricos do país. Estes organizadores tinham assumidamente ideologia de direita. Ainda que os manifestantes sejam ricos, direitistas e favoráveis ao fim do governo Dilma, eles não são golpistas e fascistas só por causa disso. Os manifestantes de amarelo representam apenas um segmento da sociedade, mas um grande número de pessoas deste segmento foi para as ruas, diferente do que ocorria antes, porque alguns acontecimentos recentes, como a crise econômica e o escândalo da Petrobras, os incentivaram. Discordemos da ideologia dos amarelos, mas xingamentos são desnecessários. Deixemos os piores insultos para os dodóis que portaram as faixas mencionadas no primeiro parágrafo deste texto.

Da mesma forma que podemos reconhecer muitos dos manifestantes de amarelo como cidadãos exercendo o direito de manifestar indignação, mesmo que não concordemos com suas opiniões, esperamos que participantes e organizadores das marchas de amarelo reconheçam o mesmo das marchas de vermelho, ao invés de falar que são vagabundos, subornados com pão com mortadela e outras coisas mais. Infelizmente, não vimos isso até agora. A comparação manifestantes de fim de semana versus manifestantes de meio de semana é ridícula, até mesmo porque a maioria das manifestações de vermelho começam depois do final do expediente.

Os de preto

Os que generalizam os manifestantes de amarelo como coxinhas, golpistas e fascistas também costumam dividir os protestos de junho de 2013 em duas partes: a “primeira semana boa”, que teve o MPL lutando contra o aumento das passagens de transporte público, e a “segunda semana ruim”, que teria sido a das “marchas coxinhas”. Outra generalização equivocada. As grandes aglomerações da segunda semana, ocorridas em 17 de junho e 20 de junho, tiveram fascistas que agrediram fisicamente militantes de esquerda, tiveram faixas contra o Bolsa Família, tiveram faixas pedindo o “fim da exploração da classe média”, mas também tiveram os militantes de esquerda agredidos, e também tiveram muitos que portavam a insatisfação genérica e difusa, que reclamavam da corrupção e da má qualidade dos serviços públicos. Quem defende educação e saúde pública de qualidade não é exatamente um adepto dos ideais do Mises Institute. Os protestos de preto de 2013 foram diferentes dos protestos de amarelo de 2015, estes sim com ideologias de direita claramente definidas. O Datafolha pesquisou os manifestantes do 20 de junho de 2013 e mostrou que a grande maioria deles tinha intenção de votar na Marina Silva ou no Joaquim Barbosa, dois nomes que não são nem de esquerda nem de direita, mas que são referência para portadores da insatisfação genérica e difusa.

A esquerda precisa saber dialogar com os portadores da insatisfação genérica e difusa, antes que caiam todos no colo da direita, que vem fazendo isso com mais competência. Precisa entender que quando a economia não vai bem e quando grandes escândalos de corrupção são colocados em evidência, haverá críticas ao governo nas ruas, nos escritórios, nos encontros de familiares e amigos. Seria um erro achar que todas as críticas à Dilma/Lula/PT que não são aquelas que o PSOL, o PCB e o PSTU fazem são coisa de reaça coxinha. Algumas são, principalmente as relacionadas com o Bolsa Família, mas outras não. A oposição de esquerda fala dos juros altos, da não implantação do imposto sobre grandes fortunas, dos desastres humanos e ambientais causados pela construção de Belo Monte. Tudo isso é muito importante. Mas raramente fala de corrupção e de saúde pública ruim, que são críticas que ouvimos com muito mais frequência ao nosso redor. Para ter ouvidas por mais pessoas as opiniões sobre juros, imposto sobre grandes fortunas e Belo Monte, a esquerda talvez tenha a necessidade de conversar com o tiozinho que fala da corrupção e da saúde ruim. Querer saúde pública boa é coisa de reaça???

A esquerda não pode virar uma igrejinha que só prega para os já convertidos.

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