Uma polícia preparada para errar

Em “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”, Karl Marx faz uma afirmação que se tornaria mundialmente famosa: “A história se repete duas vezes, a primeira como tragédia, a segunda como farsa”. Esse mesmo raciocínio pode ser usado para entender e desmascarar características do capitalismo, nos fazendo enxergar que muito dos “abusos” no sistema capitalista não são trágicos, imprevisíveis ou instáveis; mas sim uma forma do próprio sistema encontra de se reafirmar como dominante.

Dentro da sociedade capitalista, uma de suas ferramentas mais importantes são as suas forças de repressão. Um estado capitalista precisa de uma força capaz de coagir o trabalhador a seguir as leis, mesmo que essas leis sejam injustas, abusivas ou incoerentes. Essa força militarizada precisa, ao mesmo tempo, impor um estado coercivo gerando medo na população e, além disso, também ser considerada uma força legítima de manutenção da justiça. Em outras palavras: a polícia precisa ser violenta e imoral conta os trabalhadores – enquanto defende os interesses capitalistas – e passar a imagem que faz isso para proteger os próprios trabalhadores!

12321616_10208438815830812_5504756156189238979_nEntendendo o real significado da polícia na sociedade, a sua face trágica, seu papel de “mal necessário”, se torna frágil e assim podemos enxergar a sua farsa! A polícia não existe para proteger o povo, ela existe para proteger os exploradores de um povo que sofre tanto, que suas chances de se rebelar cresce a cada crise política ou econômica! A partir do momento em que enxergamos a polícia com o seu verdadeiro “papel social”, é incoerente dizer que temos uma polícia despreparada.

A Tragédia

Se a polícia militar é boa em algo, é em criar tragédias! Desde operações militares nas favelas, legitimadas pelo Estado, até os grupos de extermínio; a PM causa medo na população, pois a tragédia sempre acontece com o trabalhador, nunca com o patrão! “Não existe disparo acidental no Jardins”, como se diz em São Paulo.

12314562_10208438832751235_6541721428088108310_oBoa parte da sociedade enxerga esses abusos contra a população civil como tragédias. Ao ver o corpo de um jovem inocente assassinado por policias, o primeiro discurso levantado é: “a polícia é despreparada”. Essa ideia de que a PM é despreparada pode ser muito prejudicial para os que lutam pelo fim da instituição militarizada das polícias e pode servir de argumento para eximir psicopatas fardados de suas devidas responsabilidades legais. Quando dizemos que a polícia é despreparada, dizemos que ela precisa ser mais treinada, mais equipada e, consequentemente, mais eficiente! Mas a pergunta é: seria benéfico para a sociedade ter uma polícia mais eficiente sem alterar o modelo de ação dessa polícia atual? Uma polícia mais eficiente não significaria mais repressão ao povo?

A Farsa

Quando vemos a polícia isolar uma área, expulsando a imprensa, antes de descer bomba e cassetete em manifestantes, vemos uma polícia preparada para isolar um perímetro. Quando vemos um policial disparar 10 tiros em um suspeito, em menos de 1 minutos, vemos um policial que sabe usar sua arma de forma eficiente (e imoral)! Quando vemos uma polícia que é capaz de alterar uma cena de crime ou até mesmo barrar investigações contra a corporação, vemos uma polícia extremamente preparada para se preservar legalmente e cometer os seus abusos sem ser incomodada.

Quando o povo viu, em junho de 2013, uma polícia violenta, que fez com a classe média o que faz todos os dias com os moradores da favela, só que na frente das câmeras, o povo sentiu a tragédia! Quando a polícia espanca estudantes, jornalistas e até mesmo figuras políticas, a tragédia é anunciada! Agora, em 2015, vimos essa mesma polícia agir de forma violenta, imoral e com uma força desproporcional contra jovens estudantes secundaristas que lutavam para evitar o fechamento de suas escolas, devemos considerar isso uma tragédia? Já seria essa uma das faces da farsa que é o modelo de segurança pública?

E a história se repete…

Enquanto a sociedade enxergar o verdadeiro papel de social da polícia militar como uma “tragédia” ou uma sequência de “casos isolados”, a história irá se repetir! A polícia não é despreparada, vimos isso em junho de 2013, vimos isso com as prisões arbitrárias de jovens em suas próprias residências, vimos isso com a ocultação do cadáver de moradores das áreas dominadas pelas UPPs, vimos isso com os grupos de extermínio que não deixam rastros enquanto agem de forma coordenada para ataques simultâneos que terminam com mais de uma dezena de vítimas!

O papel da polícia é proteger as classes dominantes enquanto faz a manutenção do poder do Estado, e isso ela faz muito bem!

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