Há uma onda reacionária na opinião pública brasileira?

Há uma onda reacionária na opinião pública falante brasileira nos dias atuais? Este tema vem sendo bastante discutido em colunas na imprensa e em postagens nas redes sociais. Há mais ou menos um mês, Vladimir Safatle escreveu uma boa coluna sobre o tema. Ele é dos que consideram que existe mais ou menos. Outros consideram que existe mais, outros consideram que existe menos.

Dizer que há um tsunami reacionário na opinião pública falante brasileira é um exagero. Isto interessa ao PT por dois motivos. Primeiro porque ajuda a confundir o que é justo na rejeição ao partido com reacionarismo. Segundo porque incentiva a engolir tudo que vem do governo Dilma com base na ideia do “mal menor”. Ainda assim, é possível dizer que há maior presença atualmente de ideias de direita nas conversas das pessoas que a gente conhece e também no ônibus, no metrô e na mesa do nosso lado do que havia há dez anos. Talvez seja possível dizer que há mais do que uma marolinha, que há uma onda. Mas dizer tsunami seria exagero.

Desde quando a definição esquerda e direita foi inventada na França em 1789, existe direita no Brasil e no mundo. É errado dizer que “a direita saiu do armário no Brasil” porque a direita nunca esteve dentro dele. A soma dos votos nas eleições legislativas nos partidos que compunham a Arena (hoje chamados de PP, DEM e PSD) é muito menor atualmente do que era nas décadas de 1980 e 1990, quando estes partidos eram chamados de PDS (que ainda se chamou PPR e PPB antes de virar PP) e PFL. Sim, o PT se descolou da extrema-esquerda para a centro-esquerda (nunca acreditei no extrema tracinho do PT, mas enfim, os cientistas políticos falam isso…), o PSDB se deslocou da centro-esquerda (nunca acreditei no tracinho esquerda do PSDB, mas enfim, os cientistas políticos falam isso…) para a centro-direita. Mas antes da direitização do PSDB, Paulo Maluf e Antônio Carlos Magalhães eram nomes muito fortes na política nacional. Interessante observar o vídeo do debate do segundo turno para governador de São Paulo em 1998, entre Paulo Maluf e Mário Covas, em que ambos os candidatos tentam se apresentar como o melhor candidato conservador. Na década de 1990, não havia colunas políticas do Diogo Mainardi e do Reinaldo Azevedo na grande imprensa, mas havia colunas do Paulo Francis e do Roberto Campos. O programa do Ratinho era sucesso na década de 1990. Há muito tempo, existia no imaginário de algumas pessoas a associação entre defender direitos humanos e defender bandido. Quando Brizola era governador do Rio de Janeiro, falar mal dele na Zona Sul era um esporte praticado com frequência. Os programas de televisão na década de 1980 passavam com muita naturalidade coisas que atualmente são interpretadas como racismo, machismo e homofobia.

Uma pesquisa Datafolha realizada em dezembro de 2015 sobre intenção de voto para 2018 mostrou Aécio Neves com 26%, Lula com 20%, Marina Silva com 19%, Ciro Gomes com 6%, Jair Bolsonaro com 4%, Luciana Genro com 2%, Eduardo Paes com 1%, Eduardo Jorge com 1%, e nenhum/não sabe com 19%. O 4% do Bolsonaro é assustadoramente alto. Mesmo se fosse 0,4%, já seria muito. Mas ainda assim, se verifica que a direita de verdade (Aécio Neves + Jair Bolsonaro) não soma mais do que 30%. A soma de Marina Silva, Ciro Gomes, Eduardo Jorge e Eduardo Paes é 27%. Ou seja, há aproximadamente um quarto do eleitorado brasileiro que não quer mais nem PT nem PSDB, mas também não quer mais nem extrema esquerda (Genro) nem extrema direita (Bolsonaro).

Feitas as ressalvas, é possível notar ainda assim que a direita está mais falante. Embora os Marinhos, os Civitas, os Mesquitas e os Frias sempre tenham sido de direita, havia mais jornalistas que não concordavam com eles (ou seja, que eram de esquerda) escrevendo em seus periódicos nas décadas de 1980 e 1990. Lembrem-se de que Wanderley Guilherme dos Santos e Maria Rita Kehl já foram colunistas da Época. Ao longo da década de 2000, o espaço da esquerda nessa imprensa diminuiu, o espaço da extrema-direita, que sempre existiu, aumentou. Apareceu a safra dos colunistas influenciados pela “obra” do “filósofo” Olavo de Carvalho. Não apenas a imprensa influencia a opinião de seus leitores, mas a opinião de seus leitores também influencia a imprensa. A maior presença de opinião de direita na imprensa pode ser resultado dos jornais e revistas publicarem o que seus assinantes e compradores querem ler. Podemos perceber o aumento do direitismo na opinião pública brasileira até mesmo pelas conversas que ouvimos ao nosso redor.

Este texto foi escrito para discutir possíveis causas dessa onda. Como este texto não é científico, não pretende dar respostas definitivas. Pretende apenas levantar pontos de discussão. As possíveis causas são enumeradas a seguir:

 

  1. Geralmente, oposição grita mais alto do que situação. Existe o desgaste natural de quem está há muito tempo no governo, no caso, do PT. Não adianta falar que o governo Dilma não é de esquerda porque tem a Kátia Abreu, o Gilberto Kassab, o Marcelo Castro e uma base de apoio de partidos não esquerdistas no Congresso, uma vez que Dilma, assim como Lula, foi eleita com o apoio de forças políticas identificadas com a esquerda, como sindicatos e movimentos sociais. Da mesma forma que não adianta falar que o governo Fernando Henrique Cardoso não era de direita, uma vez que foi eleito com o apoio de forças políticas identificadas com a direita, como associações empresariais e grande mídia. Até quem diz que o governo Dilma não é de esquerda apertou o 13 crítico no segundo turno. Principalmente em períodos de crise política e econômica, oposição faz mais barulho do que situação. Por isso, os momentos em que a opinião mais falante no Brasil foi a de direita ocorreram durante os governos de João Goulart, e agora durante o governo de Dilma Rousseff. Os momentos em que a opinião mais falante no Brasil foi a de esquerda ocorreram durante os governos de João Batista Figueiredo e o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso.
  2. Além do desgaste natural por causa do tempo em que ficou no governo, o PT ficou queimado por causa dos escândalos de corrupção. Como no esquema da Petrobras, segundo os delatores dizem, o PT não apenas repassou dinheiro ao PMDB e ao PP (o que já é muito ruim), mas também ficou com uma parte, foi derrubada a desculpa da governabilidade, aquela que diz que é inevitável utilizar práticas pouco ortodoxas para formar uma base de apoio no Congresso. O tempo de permanência do PT no governo também impede a continuidade do argumento do “sempre foi assim, todo mundo fez, é que agora está sendo mais investigado”. Outros partidos também têm seus esquemas de corrupção, mas o PT, nos muitos anos que antecederam à chegada de Lula à presidência, tinha uma fama de partido honesto, fama na qual até quem não gostava do partido por outros motivos acreditava. Aí quando se viu que não era bem assim, a raiva ficou ainda maior. A postura do PT em relação à investigação e julgamento de seus quadros envolvidos em escândalos ajudou a queimar ainda mais o partido.
  3. Apesar da miséria e da desigualdade terem reduzido e o emprego formal ter aumentado desde 2002, a educação, a saúde e a segurança pública continuam horríveis. Não adianta falar que a responsabilidade por esses serviços é de governos estaduais e municipais. Se esses serviços são ruins em todos os estados e municípios, é sinal de que o governo federal também está falhando na sua parte. Um fator adicional de desgaste foi a política econômica do primeiro mandato da Dilma. A política econômica do primeiro mandato do Lula, liderada pelo Ministro da Fazenda Antônio Palocci, por seu Secretário do Tesouro Joaquim Levy e pelo presidente do Banco Central Henrique Meirelles era mais elogiada pela oposição de direita do que pelo próprio PT. Aí havia uma apólice de seguro para o PT: se não desse certo, era só falar que “não é comigo”. A Dilma, por sua vez, fez no primeiro mandato aquilo que importantes vozes de esquerda lamentavam que Lula não tinha feito: políticas fiscal e monetária expansionistas, tolerância com inflação maior e uso de instrumentos de mão visível, como controle de preços de energia e de combustíveis, para não permitir aumento ainda maior da inflação. O resultado não saiu conforme o desejado. Esta política do primeiro mandato da Dilma não é de esquerda, é uma política que já foi praticada no Brasil por governos do passado, como Figueiredo e Sarney. Mas como foi sugerida por vozes de esquerda, o desgaste é inevitável.
  4. Mesmo com a crise do PT, o crescimento da oposição de esquerda, composta por PSOL, PCB e PSTU, foi modesto. A oposição de esquerda não vem conseguindo fazer um discurso compreensível para a parcela não muito politizada da população. A oposição de direita é mais pragmática, e por isso consegue virar maior referência para os insatisfeitos com o PT, incluindo aqueles que não são ricos.
  5. Criminalidade muito alta assusta a população e favorece o discurso pró linha dura. Para piorar, algumas vozes de esquerda fazem um discurso muito ruim sobre o problema. Exemplo mais notável é o texto do Férrez sobre o assalto ao Luciano Huck em 2007. Observar os determinantes sociais da criminalidade não pode ser confundido com tolerar a criminalidade, que assusta não apenas a classe média (e mesmo se assim fosse…), mas a população como um todo. Exemplo disso é o entorno da Central do Brasil, repleto de delinquentes, local onde se situa “apenas” a Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro. Quem mais circula por aquele local e está sujeito a ser vítima de assaltos não é burguês. Ter a vida ameaçada é uma experiência traumatizante, e qualquer discurso que passa pano em quem ameaçou tirar uma vida gera repulsa. Não é toda a esquerda que endossa esse discurso passa pano, mas algumas vozes barulhentas fazem isso, e quem cala consente. Tal discurso confunde e atrapalha a defesa de pautas importantes, como o combate à tortura e às execuções, a humanização de presídios e a desmilitarização da polícia.

Provavelmente, os motivos enumerados de 1 a 5 são os mais importantes, mas ainda há outros a ser considerados.

  1. Na década de 2000, houve o fenômeno da nova classe média (eita nome ruim). Pessoas que antes eram invisíveis, passaram a ser visíveis. E essa nova classe média (mais uma vez, eita nome ruim) é, em geral, mais conservadora do que a antiga classe média em questões de religião, sexo e segurança pública. Ainda assim, dentro desta nova classe média, há mais gente que vota no PT do que dentro da antiga classe média. Isto porque não são questões de religião, sexo e segurança pública as que mais polarizam eleições. Essa nova classe média votou majoritariamente no Lula em 2006 (mas não tanto quando os muito pobres), ficou dividida em 2010 e compôs o grande contingente de eleitores da Marina no primeiro turno e Aécio no segundo turno em 2014, mas ainda assim não foi tão aecista quanto a antiga classe média.
  2. Um item razoavelmente ligado ao item anterior: a expansão do ensino superior privado para fins lucrativos ajudou a difundir ideias conservadoras no Brasil. Antes, grande parte das famílias com poder aquisitivo razoável, potencialmente conservadoras por causa disso, tinha pelo menos um membro formado em universidade pública, o que poderia neutralizar um pouco este potencial conservador. Um chefe de família de classe média alta, formado em Engenharia na Poli-USP, passou cinco anos da vida dele não muito distante fisicamente da FFLCH. Muito provavelmente não incorporou as ideias da maioria dos estudantes dazumanas, mas uma coisa ou outra pode ter acabado entrando no cérebro sem querer. A expansão do ensino superior privado ajudou a criar uma classe de consumidores que nunca viveu perto de polo irradiador de cultura bicho grilo.
  3. A rápida evidência alcançada por movimentos de grupos oprimidos, introduzindo termos até então desconhecidos como vivência, protagonismo, privilégio do homem cis hétero branco, lugar de fala e apropriação cultural, encontrou os não oprimidos despreparados para a discussão de algumas questões. Houve estranhamento não apenas por parte do homem cis hétero branco. Também há mulher branca hétero que não entende os movimentos negro e LGBTT, homem negro hétero que não entende os movimentos feminista e LGBTT, e homem branco gay que não entende os movimentos feminista e negro. A incompreensão desses movimentos gera terreno fértil para o vitimismo das “maiorias”, a choradeira sobre a “patrulha do politicamente correto”, e o surgimento do “politicamente incorreto” que embora pelo nome pareça rebeldia e contestação, na prática não passa de defesa das ideias do tempo dos nossos bisavós. Há exageros nestes movimentos, assim como há em qualquer outro movimento, e também há alguns problemas levantados por esses movimentos que parecem exagero para quem não pertence ao grupo oprimido porque quem não sente na pele tem mais dificuldade de perceber o problema . Muitos fenômenos que ocorrem na sociedade podem ser explicados pela analogia do pêndulo. Quando uma bola fica presa em um dos lados do pêndulo e finalmente é solta, a tendência não é parar imediatamente na posição de repouso, e sim continuar sua trajetória até o outro lado. Podemos desejar que a bola pare na posição de repouso, que não vá para o outro lado. Mas isto não pode ser pretexto para desejar que a bola fique para sempre presa no lado original. Alguns oportunistas utilizam o medo da bola ir para o outro lado não para defender a posição de repouso, e sim para que ela fique presa no lado original sempre. O politicamente incorreto de Danilo Gentili, Reinaldo Azevedo e afins não era tão forte no passado, não porque a sociedade no passado era mais progressista, e sim porque os movimentos de oprimidos, pejorativamente conhecidos como politicamente corretos, não tinham qualquer evidência. Vale a pena ver o vídeo do Pirula sobre o tema (escrevi sobre ele na minha coluna anterior)
  4. Depois que Lula chegou ao poder, a esquerda brasileira descuidou da guerra cultural. Enquanto a esquerda governista se focou apenas em defender o governo, a esquerda oposicionista se focou em defender demandas corporativistas, que podem ser justas, mas sem outras formas de militância, quem não faz parte dos grupos defendidos não vai entender porque as demandas são justas. Enquanto isso, a direita foi ganhando a batalha pela hegemonia cultural, publicando livros de fácil leitura sobre papel do Estado na economia, sobre História, sobre raça, sobre religião. Não houve escritor de esquerda que escreveu livros fáceis para rebater Ali Kamel, Leandro Narloch, Luís Felipe Pondé, Paulo Rabello de Castro. Os melhores livros progressistas de fácil leitura são estrangeiros: o 23 coisas que não nos contaram sobre o capitalismo, do Chang, o A Consciência de um Liberal, do Paul Krugman, o Doutrina do Choque, de Naomi Klein. Muitos sites brasileiros de esquerda pregam apenas para os já convertidos. O momento em que a esquerda brasileira melhor soube fazer a guerra cultural ocorreu nos períodos mais abertos da ditadura militar, que foram entre os anos de 1964 e 1968, e entre os anos de 1979 a 1985. Parece que por volta de 2014, a esquerda brasileira percebeu esta falha. Uma nova geração de colunistas, como Leonardo Sakamoto, Gregório Duvivier, Matheus Pichonelli, Laura Capriglione e o não tão novo Vladimir Safatle estão se esforçando para compensar o atraso. Meu propósito de escrever neste site é entrar nesta disputa.

placa direita

A lição que Pirula aprendeu

Olá pessoas, este é mais um texto meu aqui …

Escrevo hoje sobre o Pirula. Provavelmente os leitores já sabem quem ele é. Pirula é um professor de Paleontologia na USP, que ficou conhecido por fazer vídeos no Youtube sobre ciências naturais voltados para o público leigo. Embora trate de todas as ciências naturais, sua principal especialidade é a Teoria da Evolução. Como é de se esperar, odeia e é odiado por fundamentalistas religiosos. Não precisa ser ateu para odiar e ser odiado por fundamentalistas religiosos, mas Pirula é. E também faz vídeos sobre ateísmo. Mas ao contrário de Dawkins, não considera que existe uma relação inevitável entre Teoria da Evolução e ateísmo. E não considera as religiões um mal, apenas o fundamentalismo. Ele também já criticou exageros cometidos por ateus militantes.

Depois do grande público gerado pelos vídeos de ciências naturais e de ateísmo, Pirula passou a fazer vídeos sobre outros temas, ligados às ciências sociais. Como é de se esperar de um ateu que leciona em uma universidade, defende a possibilidade de adoção de crianças por casais homossexuais, a legalização do aborto. Como é de se esperar de um biólogo, defende bandeiras ambientalistas, critica a construção de Belo Monte, critica os negacionistas do aquecimento global, defende as reservas indígenas. Mas nem por isso pode ser considerado um esquerdista. Raramente fala sobre economia, mas cita muito o Daniel Fraga, que defende ideias bem anti-intervencionistas. Pirula já expressou discordância com o Daniel Fraga, mas em uma questão específica: educação. Os vídeos do Pirula sobre movimentos de minorias e sobre a Rachel Sheherazade são um pouco diferentes do que a maioria das pessoas de esquerda dizem (embora também não sejam conservadores), mas vale a pena esquerdistas dazumanas verem, pois quem ouve apenas opiniões de pessoas parecidas pode ter dificuldade de conversar com quem pensa diferente sobre um assunto. Diferente da maioria da esquerda, Pirula é contra as cotas, mas seus argumentos são interessantes, bem melhores do que “racismo reverso”, “tadinho os brancos”. A esquerda no Brasil se divide entre petistas e ex-petistas (o autor deste texto é do segundo tipo). Pirula nunca foi petista, nem mesmo antes do Lula ser presidente. Mesmo não sendo do tipo PSOL/PCB/PSTU, seu vídeo com críticas ao PT é bom, inclui críticas progressistas ao partido. Ideologicamente, Pirula poderia ser definido como um positivista.

Mesmo não sendo um esquerdista, apenas um progressista de questões sociais, Pirula virou alvo de ódio dos ultraconservadores do rebanho do Olavo de Carvalho. O fato de ser ateu e progressista de questões sociais já é motivo para ser odiado por olavetes. Mas o principal motivo para ser alvo de difamações foi ter feito um vídeo explicando as “groselhas” que Olavo de Carvalho falou sobre os fetos abortados da Pepsi. O rebanho do Olavo tem dois tipos de ovelha:

 

  1. Aquelas que acham que Olavo de Carvalho é o maior sábio da história da humanidade, e que tudo que ele diz é verdade absoluta, mesmo quando o próprio entra em contradição
  2. Aquelas que sabem que quando se mete a falar de assuntos relacionados às ciências naturais, como por exemplo quando fala de combustíveis fósseis, de cultura de células e das Leis de Newton, Olavo diz muitas patacoadas, mas como a cruzada anti-esquerdista do Olavo é sacrossanta, ninguém poderia criticar as patacoadas de Olavo sobre ciências naturais, para não enfraquece-lo no debate público.

As ovelhas do tipo 1 acreditam com convicção que todo mundo que fala mal do Olavo de Carvalho é esquerdista, comunista e petista (e pensam que tudo é a mesma coisa). As ovelhas do tipo 2 não acreditam com convicção própria que todo mundo que fala mal do Olavo de Carvalho é esquerdista, comunista e petista, mas consideram isso uma retórica útil. Sendo do tipo 1 ou do tipo 2, ovelhas do rebanho do Olavo de Carvalho falam que Pirula é esquerdista, comunista e petista porque ele ousou falar mal do Mestre.

Pirula aprendeu recentemente, portanto, como esses militantes ultraconservadores são desonestos. Se são desonestos para falar sobre um professor ateu, progressista em questões sociais e crítico do Olavo de Carvalho, não há motivos para crer que eles não seriam desonestos também quando falam sobre sindicatos, movimentos sociais e movimentos de minorias. Ou seja, que são desonestos quando falam sobre qualquer coisa. Pirula não tem militância favorável a sindicatos, movimentos sociais e movimentos de minorias. Não tem obrigação de ter. Mas provavelmente aprendeu por experiência própria que afirmações emitidas por esses ultraconservadores sobre sindicatos, movimentos sociais e movimentos de minorias têm grande possibilidade de ser mentirosas.

O aprendizado feito através da água batendo na própria bunda é o que funciona melhor.

pirula jpeg

Breve análise sobre a geografia eleitoral dos EUA, e perspectivas para 2016

Ano bissexto e olímpico é ano de eleição para presidente dos Estados Unidos, evento que o mundo inteiro acompanha. Em textos seguintes, falo sobre os candidatos. Neste texto, faço uma análise sobre o mapa eleitoral.

Como a maioria dos leitores deste texto provavelmente sabe, nos Estados Unidos, a eleição presidencial não é direta. O presidente é eleito por um colégio eleitoral de 538 delegados, ou seja, é eleito quem consegue o voto de 270 delegados ou mais. Cada estado tem direito a um número de delegados equivalente à soma do número de deputados com o número de senadores que cada estado tem no Congresso (mas os delegados não são os deputados e senadores). O número de deputados que cada estado tem é proporcional a sua população. O número de senadores é dois por estado, independentemente da população. Ou seja, os estados menos populosos estão levemente mais representados no Colégio Eleitoral. A votação popular, realizada sempre na terça-feira que cai entre 2 e 8 de novembro de ano bissexto, escolhe os delegados de cada estado. O candidato que obtém a maioria do voto popular em um estado ganha a totalidade dos delegados, independentemente da margem do voto popular. Somente os estados de Maine e Nebraska têm critérios um pouco diferentes. Os delegados podem trolar e não votar de acordo com o voto popular do estado. Mas isto é um acontecimento muito raro.

Ainda não se sabe quem serão os candidatos dos dois partidos principais. Mas como o voto está cada vez mais partidário e cada vez menos pessoal, sabe-se que independentemente dos candidatos, o Partido Democrata tem vitória garantida em alguns estados, o Partido Republicano em outros, e a disputa ocorrerá em alguns estados-chave.

Desde 2000, o mapa eleitoral é razoavelmente estável. Na figura abaixo, se verifica que alguns estados deram seus votos para os democratas (Gore, Kerry e Obama) nas últimas quatro eleições (os marcados com azul escuro), outros deram seus votos para os republicanos (Bush, McCain e Romney) nas últimas quatro eleições (marcados com vermelho escuro), outros foram duas vezes para cada partido, votando as duas vezes no Bush e depois as duas vezes no Obama (marcados com cinza), e um número bem menor de estados votou três vezes em um partido e uma vez em outro (marcados com azul ou vermelho claro).

Últimas quatro eleições presidenciais

usa 2000 2012

Quem desejar ver um mapa com os nomes dos estados por extenso deve entrar em https://en.wikipedia.org/wiki/U.S._state#/media/File:Map_of_USA_States_with_names_white.svg

Para ser eleito, são necessários 270 votos no Colégio Eleitoral. Os estados em que os democratas venceram nas últimas quatro vezes, os chamados blue states, somam 242 votos. Os estados em que os republicanos venceram nas últimas quatro vezes, os chamados red states, somam 180 votos. Os estados em que os democratas venceram em pelo menos três das últimas quatro vezes somam 257 votos. Os estados em que os republicanos venceram em pelo menos três das últimas quatro vezes somam 206 votos. Os estados em que cada partido ganhou duas vezes, que são os mais importantes battleground states (Ohio, Virgínia, Colorado, Nevada e Flórida), somam 75 votos.

Em alguns blue states, os democratas ganharam com vantagem muito folgada nas últimas quatro eleições (notadamente Nova York, Massachusetts, Rhode Island, Vermont e Califórnia) e espera-se que continue assim, que estes estados sejam fáceis para os democratas mesmo se um republicano ganhar com folga a eleição nacional. Em alguns red states, os republicanos ganharam com vantagem muito folgada nas últimas quatro eleições (notadamente Texas, Alabama, Kansas, Utah, Idaho e Wyoming) e espera-se que continue assim, que estes estados sejam fáceis para os republicanos mesmo se um democrata ganhar com folga a eleição nacional.

Porém, algumas tendências vêm aparecendo nos últimos anos, e nem todo estado que um mesmo partido ganhou as últimas quatro vezes é garantido para 2016. Pensilvânia, Wisconsin, Minnesota e Michigan foram vencidos por democratas nas últimas quatro vezes, mas com diferença pequena. Estes estados têm um elevado percentual de brancos não hispânicos (conhecidos simplesmente como brancos) na população, grupo étnico que está se tornando cada vez mais republicano. Entre estes brancos não hispânicos nestes estados, muitos não têm curso superior (há mais republicanos entre os brancos sem do que com curso superior). Estes quatro estados ainda permaneceriam com os democratas até mesmo em caso de vitória nacional republicana apertada. Mas uma vitória nacional republicana mais folgada poderia colocar estes quatro estados na coluna republicana. O mapa a seguir mostra o melhor cenário possível para os republicanos. Neste cenário, eles têm 352 votos no colégio eleitoral. Os estados que ainda estão em azul são aqueles que os republicanos não ganharão nemfu, nem com vitória nacional folgada.

Melhor cenário republicano possível

vitória republicana forte

Por outro lado, Geórgia, Arizona e Missouri foram vencidos pelos republicanos nas últimas quatro eleições. Mas como é decrescente a participação dos brancos não hispânicos no eleitoral total destes estados, e como as minorias étnicas são um grupo majoritariamente democrata, estes três estados podem entrar na coluna democrata em caso de uma vitória democrata nacional muito folgada. O mapa a seguir mostra o melhor cenário possível para os democratas. Neste cenário, eles têm 395 votos no colégio eleitoral. Os estados que ainda estão em vermelho são aqueles que os democratas não ganharão nemfu, nem com vitória nacional folgada (pequena observação: é mais difícil os democratas ganharam Geórgia, Arizona e Missouri do que os republicanos ganharem Pensilvânia, Wisconsin, Minnesota e Michigan).

Melhor cenário democrata possível

vitória democrata forte

Apesar de razoavelmente estável desde 2000 (ou talvez desde 1988), a divisão dos Estados Unidos por preferências partidárias nem sempre foi assim. Da Guerra Civil até a Grande Depressão, o mapa eleitoral dos Estados Unidos era mais ou menos parecido com o atual, mas com os partidos trocados. O sul era democrata, pois se opunha ao partido do Lincoln, republicano. Na figura abaixo, é possível verificar que o mapa de 2004 foi quase o negativo do mapa de 1896.

Mapas de eleições presidenciais passadas nos EUA com vencedor por estado

mapas 1952 2012mapas 1888 1948

Fonte da figura: http://www.huffingtonpost.com/max-galka/the-results-of-every-pres_b_8199152.html

Quando começou a Era do New Deal, em 1932, os democratas passaram a contar com os votos dos trabalhadores do Norte. A chamada Coalizão do New Deal incluia trabalhadores, sulistas brancos, intelectuais, negros, hispânicos, católicos e judeus. Os sulistas, mesmo reacionários em algumas questões, faziam parte desta coalizão progressista porque eram mais pobres do que a média do país, e por isso, apoiavam governos que faziam redistribuição. Tudo mudou em 1964, quando o presidente democrata Lyndon Johnson sancionou a Lei dos Direitos Civis, que tirou a autonomia dos estados do sul para fazer segregação racial. Os sul virou republicano, o norte ficou mais democrata. Verifica-se que o mapa de 1964, da reeleição de Johnson, é quase o negativo do mapa de 1956, da reeleição de Eisenhower. Houve um breve revival democrata no sul com a eleição do georgiano Jimmy Carter em 1976. Este revival foi desfeito logo depois, e a partir de 1988, começou a se formar a divisão política atual dos Estados Unidos, que é um retorno à divisão da Guerra Civil, mas com os partidos trocados. Ouvimos falar muito “o Texas é republicano, a Califórnia é democrata”. É interessante notar que mesmo tendo a disputa democratas vs. Republicanos iniciado em 1856, a primeira vez que simultaneamente o Texas foi republicano e Califórnia foi democrata aconteceu apenas em 1992, quando Bill Clinton foi eleito. A partir daí, isto repetiu-se sempre, daí passou a ser visto como uma regra. Antes, os dois estados votavam no mesmo partido em eleições folgadas, e votavam de forma oposta à atual em eleições apertadas.

Apesar da virada ocorrida na década de 1960, nota-se que da década de 1930 até a década de 1980, a polarização era menor. Não havia tanta diferença entre os estados. Os vencedores em 1936 (Franklin Roosevelt), 1956 (Eisenhower), 1964 (Johnson), 1972 (Nixon) e 1984 (Reagan) tiveram aproximadamente 60% do voto popular e ganharam quase todos os estados. Quando havia um resultado no voto popular 60% vs 40% até a década de 1920 e se houver atualmente, o candidato perdedor ganhará alguns estados mesmo assim. Atualmente, isto é apenas um “se”. Com a polarização atual, não apenas é impossível um candidato ganhar quase todos os estados, mesmo passar dos 400 votos no Colégio Eleitoral, como também é muito difícil ultrapassar 55% dos votos populares. A última vez que isto ocorreu foi em 1984. Em 2008, tudo estava a favor dos democratas. Havia um cansaço com os oito anos de admistração republicana, a popularidade de George W. Bush estava muito baixa, havia a crise econômica. E mesmo assim, Obama derrotou McCain por uma margem de apenas 7,2 pontos percentuais no voto popular.

Além de mudanças na base geográfica dos partidos, vem ocorrendo nos últimos anos mudanças na sabe social, que têm impacto na base geográfica. A população de hispânicos e asiáticos vem crescendo, o que favorece os democratas. Os trabalhadores brancos sem curso superior, que já foram uma base democrata, estão se tornando cada vez mais republicanos. Os brancos escolarizados estão se tornando cada vez mais democratas. Um mapa por condado mostraria bem essas mudanças, mas aí o texto ficaria muito longo.

Por fim, os candidatos de 2016. O candidato republicano será Donald Trump, Ted Cruz ou Marco Rubio. Dificilmente outro vencerá as primárias. Todos defendem cortes de impostos para os muito ricos. Donald Trump tem opiniões machistas e xenofóbicas. Seu discurso a favor do protecionismo e contrário à imigração é atraente para trabalhadores brancos. Ted Cruz tem a opinião de direita em 100% dos assuntos, em questões econômicas, questões sociais e política externa. Marco Rubio é um pouquinho mais “moderado”. Dos três, é o que está pior nas pesquisas das primárias, mas pode crescer se os republicanos que não querem um candidato tão esquizofrênico se unirem em torno dele. Pelos democratas, disputam Hillary Clinton e Bernie Sanders. Hillary parece estar até mesmo um pouquinho mais à esquerda do que Obama em questões domésticas, mas está bem mais à direita em política externa. Bernie Sanders é o candidato mais esquerdista dos últimos tempos com possibilidade de ganhar primárias. É um velho New Dealer, simpatizante da social democracia escandinava. Defende um modelo público e universal de saúde. O Affordable Care Act do Obama, embora tenha sido um progresso em relação ao que havia antes, ainda é um remendo. Sanders também defende mais regulação do sistema bancário (proibindo múltiplas atividades), gratuidade nas universidades. Ele estaria “menos à esquerda” do que Hillary em duas questões: é menos rígido sobre controle de armas e mais rígido sobre imigração. Estas posições poderiam ser atraentes para trabalhadores brancos. Sanders quer que os democratas voltem a pensar mais em classes sociais, desfazendo a tendência democrata dos últimos 30 anos de se focar em minorias, meio ambiente e progressismo cultural (embora Sanders também não seja hostil a essas questões). Hillary é favorita para ganhar as primárias democratas, mas Sanders vem crescendo nas pesquisas. Lidera em New Hampshire, vizinho do seu estado Vermont. Mesmo se Sanders não ganhar, ele tem o poder de forçar Hillary a se mover um pouquinho mais para a esquerda.

Minha aposta para novembro? Hillary Clinton derrota Marco Rubio, fazendo 51% a 48% (e 1% para os nanicos) no voto popular, e com o mapa a seguir. Ela obteria 294 votos no Colégio Eleitoral.

previsão novembro 2 2016

Ascensão e Decadência da Nova República

Quando a ditadura chegou ao seu fim nos anos oitenta, um novo modelo politico foi forjado; era um presidencialismo de inspiração parlamentarista e acomodaria as forças politicas hegemônicas tanto novas quanto velhas; do passado teríamos setores sociais responsáveis pelo pacto da modernização conservadora, que deu alma a ditadura militar, isto é, a grande burguesia agrária e industrial, setores do exército, da classe média e da igreja católica; do presente vieram os setores sociais alijados a partir de 1964: os movimentos sociais, a esquerda das universidades e outros setores progressistas brasileiros.

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Assim, um novo pacto, levando em conta o processo de oposição e aliança entre todas essas forças, foi criado. Ele foi chamado de Nova República e a sua marca maior foi a Constituição de 1988, a chamada Constituição Cidadã. Nossa Carta Magna foi o resultado da junção destas forças politicas e teve como característica principal o liberalismo e o conservadorismo à brasileira, que dá ênfase na conciliação de interesses. Não obstante, o chamado governo de coalizão é uma marca desse período politico, governos que possuem como aliados partidos muitas vezes contrários ou mesmo sem nenhum programa de governo. Assim, para governar, seria necessário conciliar diversos interesses, resultando na matização do programa original.

Mas a Nova República não surgiu a toa, sua função era conceder sobre vida às instituições politicas brasileiras e assegurar a estruturação de um novo modelo social, herdeiro dos vinte anos de ditadura, sem que fosse necessário mudanças bruscas de caráter revolucionário.

Esse modelo teve o seu auge nos oito anos da Era Lula, quando o pacto politico instituído com as elites e parte dos movimentos sociais propiciou um crescimento econômico acelerado, aliado a politicas keynesianas de distribuição de renda, e uma estabilidade politica sem precedentes. Pessoalmente, acredito que a conciliação permanente de Lula, detentor de uma virtú sem precedentes, mostrou o máximo que a tradicional politica brasileira do equilíbrio de antagonismos poderia trazer.

Mas todo sistema carrega em si o germe da sua destruição, que cresce, cresce e cresce, até que a contradição seja insuportável e seu colapso inexorável.

Baseada no sistema representativo liberal, onde o poder econômico exerce uma pressão cada vez maior sobre ele, deixando grande parte do povo sem capacidade de representação, e amparada pela própria concepção do equilíbrio de antagonismos, ideologia cara ao conservantismo nacional, a Nova República é incapaz de promover reformas muito profundas e de resolver o problema da desigualdade e lida com esses problemas, próprios do capitalismo, como uma questão de negociação entre as partes, quando, na verdade, deveria ser uma questão de enfrentamento e imposição.

Outra coisa é o próprio limite do sistema liberal e da democracia representativa. Quando se estabelecem, as instituições democráticas passam a não trabalhar mais pelo povo, mas apenas em prol de si mesmas. Nossos políticos, deste modo, ao invés de se concentrarem em discutir os reais problemas nacionais, muitas vezes limitam-se a aprovar emendas cuja única finalidade é se manterem no poder. As instituições se tornam um fim em si mesmas.

Ela também não consegue equacionar o problema da influência do poder econômico na representação politica. Isso significa que nossos políticos se tornam verdadeiros lobistas cujo objetivo é pagar aqueles que lhes financiaram as campanhas, através da aprovação de emendas para favorecer seus patrocinadores. Na democracia liberal, o politico, em algum momento, se torna um lobista e, o lobista, logo pode se tornar um político. A politica se torna um lobby, uma troca de favor, um mercado onde se compram projetos de leis por financiamentos de campanhas.

Essas contradições acabam por criar um distanciamento entre instituições e sociedade. Oliveira Vianna, em Instituições Politicas Brasileiras, procura compreender aquilo que para ele é o grande problema brasileiro, a distância entre o Brasil Real e o Brasil Legal. O primeiro, para ele, era o Brasil do povo, dos costumes, da cultura e das relações, enquanto o segundo era o país das instituições, das leis, da racionalidade e da legalidade. A grande questão, segundo o autor, era que as duas esferas estavam dissociadas. O Brasil legal, com suas leis, dispositivos e racionalidade não conseguia alcançar o Brasil real, regido por uma lógica completamente diferente. Disso resulta no distanciamento do povo das instituições, da politica e do Estado; nossa população se tornava refém do arbítrio e opressão dos senhores locais.

Vianna

O sociólogo brasileiro Oliveira Vianna (1983-1951).

Se atentarmos para o nosso contexto, veremos que o grande problema posto por Vianna ainda permanece atual. Nossas instituições sempre foram distanciadas da população, não possuem transparência e o acesso a elas é extremamente penoso, quando não humilhante. Isso resulta no nível de corrupção que envolve todos os partidos políticos, serviços públicos extremamente ruins e em políticos que absolutamente não conhecem a realidade brasileira, pois não estão lá para modificá-la…

Um sistema politico como este, que não surgiu de um processo de ruptura, mas de negociações e conciliações, acabou herdando todos os vícios de períodos anteriores. Ele se torna incapaz de reformar a si mesmo, e mesmo sua dimensão reformista é limitada, pois segundo sua lógica, tudo que muda deve permanecer como está…

Quanto mais a população procura se aproximar do Poder, lutando para aumentar sua transparência, mas ele se fecha em si mesmo, como se todas as questões sociais fossem apenas um problema transitório de conciliar interesses — na marcha impiedosa da história, um período histórico nunca pode ver além do que a sua própria natureza lhe permite.

Não a toa que as manifestações de 2013 e a descrença da população cada vez maior em nossas instituições é um sintoma de uma ressaca do nosso arranjo politico. Os problemas políticos e sociais que enfrentamos hoje estão além da sua capacidade de resolvê-los.

A única solução é instituir um novo pacto social, não de um ponto de vista conciliatório e conservador, como tivemos em toda a nossa história, mas um novo arranjo nascido das necessidades e condições dos trabalhadores brasileiros. Estamos caminhando para o momento em que a única saída será o enfrentamento e os trabalhadores e as forças progressistas deverão estar preparadas para fazer frente aos grupos e classes que possuem uma resistência patológica a mudança. Em outras palavras, as forças populares precisam deixar as diferenças de lado e se concentrar no único problema real que aflige o Brasil, a desigualdade e a possibilidade de mudança. Isso se a esquerda quiser fazer-se vitoriosa e não mais uma derrotada no bonde da história.

A decadência da Nova República apresenta uma oportunidade única para isso.

Teste: o quanto você é Geração Y

Geração Y é o nome dado ao grupo que nasceu entre 1980 e 1995 (não há consenso sobre as datas exatas). Quem nasceu antes pertence à Geração X, e quem nasceu depois pertence à Geração Z. Os norte-americanos chamam os integrantes da Geração Y de Millennials.

Membros da Geração Y nos países desenvolvidos e também na classe média dos países em desenvolvimento têm muitas características em comum.

Quem nasceu entre 1980 e 1995, faça o teste. Quanto mais respostas afirmativas, mais típico Geração Y é.

 

  1. Completou 30 anos sem nunca ter tido filho (ou já sabe que não terá tido filho quando completar 30)
  2. Completou 30 anos sem nunca ter se casado (ou já sabe que não terá se casado quando completar 30)
  3. Completou 30 anos morando em um imóvel que não é próprio (ou mora com pai/mãe/similar ou mora em imóvel alugado, ou sabe que vai ser assim quando completar 30)
  4. Quando completou 25 anos, ainda dependia totalmente ou parcialmente do dinheiro do pai/mãe/similar
  5. Não parou de estudar depois da graduação, tem pelo menos uma especialização/mestrado/doutorado
  6. Já trabalhou em locais diferentes
  7. Nunca ficou mais de três anos no mesmo emprego
  8. Nunca comprou um automóvel
  9. Já passou algum tempo no exterior fazendo outra coisa além de turismo
  10. Consumiu um ou mais destes produtos na infância: danoninho, toddynho, leite de pera, mocochoc
  11. Jogou Mario
  12. Viu muito mais horas de seriados da Sony, da Fox e da Warner do que de novelas da Globo
  13. Usa Internet em casa desde a adolescência
  14. Não segue uma religião
  15. Não é ateu
  16. É a favor da possibilidade de adoção de crianças por casais homossexuais
  17. É a favor da legalização do aborto
  18. É a favor da legalização da maconha
  19. Tem visão mais positiva do Greenpeace e da Anistia Internacional do que de partidos políticos, seja de esquerda, seja de direita
  20. Não é marxista leninista ortodoxo
  21. Votou no Lula em 2002
  22. Votou na Marina Silva em 2010
  23. Lê jornais e revistas estrangeiros (na Internet e/ou no papel) e está por dentro de todos os assuntos quentes da política internacional
  24. Tem dificuldade de lembrar o nome de pelo menos três vereadores da cidade onde mora
  25. Nunca viu ao vivo um animal sendo abatido para consumo
  26. Prefere ter poucos parceiros(as) sexuais a ter parceiros(as) sexuais feios(as), peludos(as) e fedidos(as)
  27. Gosta de comida japonesa
  28. Gosta do Pearl Jam
  29. Usa o Facebook para mostrar uma imagem positiva de si
  30. Não conversa por muito tempo com pessoas com quem não tem assuntos em comum

Y

Entendendo como a carga tributária no Brasil pesa mais no bolso do pobre, e rico paga pouco imposto

A carga tributária no Brasil, comparada internacionalmente, pesa muito mais no bolso do pobre do que no bolso do rico porque o peso dos impostos sobre consumo é grande e o peso dos impostos sobre renda e propriedade é pequeno. Os impostos sobre renda e propriedade atingem mais os contribuintes de alta renda. Os impostos sobre consumo atingem mais os contribuintes de baixa renda. Como os pobres poupam menos do que os ricos, o percentual da renda do pobre utilizado para pagar impostos sobre consumo é maior do que o percentual da renda do rico.

A carga tributária do Brasil em 2012 era de 35,9%, próxima da média dos países da OCDE, que era de 35,5%. Porém, a distribuição da carga tributária, ou seja, a distribuição do ônus entre as diferentes classes sociais, era bastante diferente. Os tributos sobre renda correspondiam a 12,2% do PIB na média da OCDE, ultrapassando a marca de 15% nos países escandinavos, enquanto que no Brasil, esses tributos correspondiam a 6,4%. Os tributos sobre propriedade correspondiam a 1,9% do PIB na média da OCDE e 1,4% no Brasil. Por outro lado, os tributos sobre consumo correspondiam a 18,8% do PIB no Brasil e 11,6% na média da OCDE. Nenhum país da OCDE tinha carga de tributos sobre consumo maior que a do Brasil.

http://idg.receita.fazenda.gov.br/dados/receitadata/estudos-e-tributarios-e-aduaneiros/estudos-e-estatisticas/carga-tributaria-no-brasil/carga-tributaria-2013.pdf

O Brasil tem uma das alíquotas marginais máximas de Imposto de Renda de Pessoa Física mais baixas do mundo, de 27,5%. A Suécia tem uma alíquota marginal máxima de 59,7%, a Espanha de 49%, a Alemanha de 47,5%, o Reino Unido de 45% e os Estados Unidos de 39,6% (somando com o estadual da Califórnia, o mais alto dos estados, chega a 52%). Mesmo países da América Latina, como Argentina, Chile e México, têm alíquota marginal máxima superior à do Brasil, entre 30% e 40%. No Brasil, há diferenciação de alíquota efetiva, mas não de alíquota marginal entre a classe média e os milionários. A alíquota marginal de 27,5% passa a incidir a partir de uma renda de aproximadamente 15 mil dólares por ano. Em países desenvolvidos, a alíquota marginal máxima incide para rendas a partir de 200 mil ou até 400 mil dólares por ano. Para aumentar a alíquota marginal máxima de Imposto de Renda de Pessoa Física para rendas muito elevadas, será necessário acabar com algumas isenções de Imposto de Renda de Pessoa Jurídica. Caso contrário, haverá incentivo para pessoas físicas se transformarem em pessoas jurídicas.

O Brasil já teve alíquota marginal máxima de Imposto de Renda de Pessoa Física de 50% até o final da década de 1980. Foi uma tendência mundial entre 1980 e 2008 reduzir as alíquotas marginais máximas, que já foram de 90% no Reino Unido e nos Estados Unidos. Porém, esta tendência se inverteu a partir da crise de 2008. Para melhorar a situação das contas públicas colocando o ônus nos mais ricos, alguns países aumentaram a alíquota marginal máxima. Os Estados Unidos passaram de 35% para 39,6%, a Alemanha passou de 45% para 47,5%. Esta tendência não chegou ao Brasil, que manteve intacto os 27,5%, mesmo com governo “trabalhista”. A redistribuição feita pelos governos Lula e Dilma foi apenas pelo lado da despesa.

O imposto de herança no Brasil é irrisório. O imposto sobre grandes fortunas, previsto pela Constituição de 1988, nunca foi regulamentado por lei (e nem parece que será em breve). O IPTU em muitos municípios tem como base de cálculo um valor defasado dos imóveis.

Os impostos sobre consumo, como dito no início, são os que pesam mais no bolso da população de baixa renda. Mas isto pode ser compensado por alíquotas diferenciadas de acordo com a essencialidade do produto. O IPI tem alíquotas diferenciadas. Mas nem sempre os produtos mais consumidos por famílias de alta renda têm maior tributação do que produtos mais consumidos por famílias de baixa renda. Os impostos representam 55,6% do preço da cerveja e 54,7% do preço do vinho. Representam 80,4% do preço do cigarro e 61,9% do preço do charuto.

Para corrigir o imposto de renda no Brasil, tornando-o mais progressivo, seria conveniente criar uma alíquota entre 30% e 35% para rendas mensais acima de 50 mil reais e 40% para rendas mensais acima de 100 mil reais. Não é conveniente mudar o limite de isenção de 1,9 mil reais para 3,3 mil. Basta corrigir regularmente pela inflação. Mesmo com o limite de isenção de 1,9 mil reais, mais da metade dos adultos brasileiros não paga imposto de renda. E mesmo entre os que pagam, muitos deles têm renda entre 1,9 mil e 3,3 mil reais. Mudar esse limite implicaria uma perda muito grande de receita. Que teria que ser compensada por aumento de impostos sobre consumo, pagos também por quem ganha menos de 1,9 mil. Ou seja, o efeito da mudança do limite de isenção sobre a distribuição da renda seria perverso. Alguns poderiam contra argumentar “mas desde 1996, a tabela é corrigida abaixo da inflação, naquele ano, o limite de isenção era 900 reais, o que equivale a mais de 3000 atualmente, se corrigir o valor pela inflação”. Bom, em 1996 estava errado!

Importante lembrar: alíquotas altas de imposto de renda para rendas muito elevadas, imposto sobre herança e imposto sobre grandes fortunas contribuem para aumentar a receita do Estado, mas não muito. São poucas pessoas que pagam esses impostos. Os países escandinavos, que têm generosos Estados de Bem Estar Social, têm grande tributação sobre a renda, mas não abrem mão de grande tributação sobre o consumo também. Tributar muito os muito ricos não é apenas uma questão de aumentar a receita do Estado. É uma questão de justiça social também. É positivo para a sociedade que existam ricos, pois a riqueza pode ser um prêmio para quem se esforçou para se tornar um profissional altamente qualificado, para quem introduziu no mercado um produto que muitas pessoas gostam de comprar. Mas tem limites. Quando uma sociedade estabelece elevada tributação para rendas muito elevadas, para grandes fortunas e para heranças, a sociedade estabelece um limite para o qual a desigualdade é benéfica para todos. Rendas a partir de determinado patamar, deixam de ser benéficas para a sociedade. Como é difícil mensurar produtividade marginal de superexecutivos, a decisão sobre a remuneração destes acaba sendo mais política do que econômica. Os supersalários dos executivos dos bancos dos EUA estimularam práticas insensatas que acabaram desembocando na crise de 2008. O Messi e o Neymar ganham muito mais no Barcelona atualmente do que o Pelé ganhava no Santos na década de 1960. Mas nem por isso o Messi e o Neymar são melhores do que o Pelé. A busca por rendas elevadas pode estimular o estudo, o trabalho, o investimento. A busca por rendas extremamente elevadas pode estimular práticas pouco escrupulosas. Além disso, mesmo aceitando que um empreendedor muito esforçado e competente deve desfrutar de riqueza, não há como aceitar que seu bisneto deve desfrutar de toda esta riqueza sem trabalhar (onde estaria a meritocracia?). Outro prejuízo para a sociedade que a existência de multimilionários pode causar ocorre quando eles compram muitos terrenos, casas e apartamentos por motivos especulativos, encarecendo o custo de moradia para quem não é multimilionário. A renda muito elevada de hoje é a riqueza muito elevada de amanhã. Quando pouquíssimas pessoas concentram uma parcela muito grande da riqueza de um país, há prejuízo até mesmo para a democracia.

Imposto de renda elevado para rendas muito elevadas, imposto sobre herança elevado, não atrapalham o funcionamento da economia. Entre 1945 e 1973, os países desenvolvidos tinham todos estes impostos muito elevados, e mesmo assim tiveram elevadas taxas de crescimento do PIB. Mesmo depois de já concluída a reconstrução.

 

Leituras adicionais (vale a pena)

Texto sobre a persistência da concentração de renda no Brasil e sobre como o sistema tributário não contribui para a redução: http://www.cartacapital.com.br/economia/brasil-um-dos-paises-mais-desiguais-do-mundo

Texto comparando o sistema tributário brasileiro com o de outros países: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/03/140313_impostos_ricos_ms

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A democracia do sofá

A depender das Polícias Militares e governadores e parlamentares direitistas, o que sobrará no Brasil será apenas a democracia do sofá. Nela, cada cidadão tem o pleno direito de manifestação e expressão sentado confortavelmente em seu sofá.

Sair do sofá provoca transtornos coletivos. Atrapalha o trânsito. Trás “baderna” e atrai “minorias de vândalos” ou “organizações terroristas” imaginárias dedicadas a coisas terríveis, como quebrar vidracinhas de bancos multibilionários.

Essas organizações terroristas podem ser imaginárias, mas quem duvida que aparecerão milhares de testemunhas, assim que virarem pauta do Jornal (Anti)Nacional?

Por isso, o cidadão de bem, cooperando com as autoridades instituídas, se reserva ao sofá. No máximo, faz um protesto no domingo, com camisa da CBF, gritando por pautas genéricas, cujo atendimento fique à critério das autoridades governamentais e/ou parlamentares.

Assim não atrapalham o trânsito, não prejudicam os lucros do patronato e rendem matérias para o lirismo jornalístico-conservador, sem falar de memes engraçadíssimos. Ao invés de vidraças, podem quebrar ossos de algum sem-teto ou algum incauto que ouse usar peças de roupas vermelhas.

Cumpre lembrar que só o cidadão de bem, já bem posicionamento na estratificação socioeconômica, pode fazer protestos. Se se comportar direitinho, tem direito até a uma selfie com um esquadrão da morte oficial.

Obviamente pessoas de baixa estirpe não podem ser permitidas. Isso atrapalharia a sua ascensão social meritocrática. Essas pessoas devem se dedicar a trabalhar o máximo de horas por dia, ganhando o mínimo de salários e benefícios. Se quiserem algo melhor, basta se esforçarem bastante para vencer a fome, a violência, o preconceito, a desigualdade de oportunidades educacionais, para alcançarem a classe média-alta.

É claro que nem todos podem fazer isso, senão quem vai varrer as ruas, lavrar a terra e construir casas? Então tem que ser muito difícil, com escolas caindo aos pedaços. De preferência mais difícil, cortando o Bolsa-Família para essa meninada mais nova descobrir o que é fome epidêmica de verdade.

Os filhos da classe média-alta não devem ter essas preocupações. Podem estudar em segurança e bem nutridos em seus colégios particulares caríssimos. Afinal, um dia vão legislar e administrar as organizações públicas e privadas. Não devemos atrapalhá-los.

Mas sempre haverá o sofá, que está disponível para ouvir o cidadão sobre todas as suas mazelas, insatisfações e delírios utópicos. Os governantes estão ocupados demais para fazê-lo, garantindo o bom ambiente de negócios, os elogios das organizações financeiras supranacionais e o “superávite primário”.

A quem não compreender a plenitude da democracia do sofá, restam as maravilhosas polícias militarizadas, que gozam de tanta confiança e estima do povo, e tão belamente comandadas pelos seus geniais altos escalões e autoridades governamentais. Não se fazem omeletes sem quebrar ovos, dentes, ossos, olhos e outras partes do corpo humano.

 

 

 

Bauman e o Mundo Moderno

Confesso que entre os grandes autores da sociologia, aquele que foi de fato o meu herói durante os tempos de graduação e durante boa parte do mestrado foi o sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Uma das coisas que mais me fascinava na sua obra é a capacidade de analisar, a partir de uma perspectiva extremamente humanista e ao mesmo tempo crítica, a constituição, os potenciais, as contradições e dilemas do mundo moderno.

Um das primeiras obras que li foi Confiança e Medo na Cidade, em que o autor analisa como, na nova configuração das cidades no século XXI, prevalece a lógica da exclusão dos mais pobres em guetos e o encastelamento dos mais ricos em ilhas de riqueza.

Li também Modernidade e Ambivalência, uma obra extremamente densa, diga-se de passagem, onde, tomando como ponto de partida as reflexões da Escola de Frankfurt sobre o início da modernidade, propõe que a destruição dos judeus e de outras minorias por governos totalitários não era um fenômeno fora da curva do projeto moderno, mas algo inerente a ele, pois ao homogeneizar tudo e todos ao seu processo de reprodução e expansão contínua, aqueles que não pudessem se integrar seriam sumariamente eliminados.

bauman

Outra obra de destaque é Em busca da Política, um livro em que o autor discute o lugar das relações de poder na contemporaneidade, e alerta: o lugar da politica foi deslocado do estado para os grandes fluxos de capital, assim ela se distancia cada vez mais dos cidadãos, por isso está mais difícil a população influenciar ou mudar as trajetórias das politicas públicas. Como solução Bauman afirma ser necessário trazer a politica para o palco da Àgora (sociedade civil) e transformar problemas que a primeira vista parecem questões meramente pessoais em problemas sociais. Só assim poderemos recuperar a solidariedade perdida. Cabe mencionar uma critica pertinente que Bauman faz ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e sua suposta adesão a terceira via.

Por fim, Modernidade Liquida, uma obra onde ele condensa os principais problemas e temas de sua reflexão enquanto escritor e professor, apresenta um panorama geral da nova modernidade, iniciada no final do século XX, e a modernidade sólida, que durou até o fim da década de oitenta do mesmo século.

Zygmunt Bauman é um verdadeiro mestre, um pensador que reflete de maneira sensata e ponderada sobre os dilemas do mundo e que não precisa da polêmica para estar em evidência, pois sua genialidade como sociólogo e intelectual bastam para mostrar sua relevância.

Em tempos onde pseudo-economistas, músicos decadentes, jornalistas medíocres, atores pornôs e astrólogos posam de intelectuais e conseguem com isso um bom rebanho de incautos apoiadores, ler Bauman é quase um alento nesses tempos de ignorância coletiva.

Um pequeno guia das tribos do pensamento econômico

Como eu sei que muitos leitores deste site são das Humanas com H maiúsculo, e Economia é uma humana com h minúsculo, alguns podem fazer confusões sobre as correntes de pensamento econômico. Já vi textos de pessoas das Humanas com H maiúsculo fazendo algumas confusões. Por isso, resolvi fazer esse guia fácil de correntes do pensamento econômico. Enfoquei a Macroeconomia, porque é o ramo onde tem os debates mais quentes. Então vamos lá.

 

Paleo Keynesiana (ou Keynesiana da Síntese Neoclássica)

Principais proposições: No longo prazo, a economia tem tendência de se equilibrar no nível de pleno emprego, mas no curto prazo, pode haver equilíbrio com desemprego involuntário, por causa de falta de confiança dos empresários e por causa de rigidez de preços e salários. Como chegar ao longo prazo é doloroso, os governos podem encurtar este caminho, fazendo políticas fiscal e monetária expansionistas para atingir mais rápido o pleno emprego. O modelo IS-LM (que concurseiros conhecem bem) descreve o funcionamento dessas políticas. Os Paleo Keynesianos aceitam as proposições da economia neoclássica para a análise microeconômica e para a análise de crescimento de longo prazo e as proposições do Keynes para a análise macroeconômica de curto prazo. Por isso eles fizeram a “síntese”.

Data: Surgiu no final da década de 1940, nos Estados Unidos. Foi mainstream e depois declinou a partir do início da década de 1970.

Descrição: Ortodoxa

Uso de linguagem matemática: Médio

Principais proponentes mortos: Paul Samuelson, Robert Sollow, James Tobin, Franco Modigliani

Principais proponentes vivos: Poucos, uma vez que esta corrente declinou. O principal atualmente é o Paul Krugman

O que seus proponentes amam: O modelo IS-LM

O que seus proponentes odeiam: Nada, uma vez que eles pretenderam fazer uma síntese

Onde é forte: Em lugar nenhum, uma vez que sofreu declínio

Principais críticas: Incompatibilidade entre a análise microeconômica e a macroeconômica, dificuldade de explicar a existência simultânea de inflação e estagnação, conhecida popularmente como estagflação

 

Monetarista

Principais proposições: O nível de preços é determinado pela quantidade de moeda. No curto prazo, uma variação da quantidade de moeda pode ter impacto no PIB, mas no longo prazo, a variação da quantidade de moeda tem impacto apenas no nível de preços. Políticas fiscal e monetárias ativistas mais atrapalham do que ajudam. A única política monetária deve ser a de crescer a quantidade de moeda conforme cresce o PIB.

Data: Surgiu no final de década de 1960 nos Estados Unidos. Deixou de ser muito importante a partir da década de 1980.

Descrição: Ortodoxa

Uso de linguagem matemática: Médio

Principais proponentes mortos: Milton Friedman, Anna Schwarts, Phillip Cagan

Principais proponentes vivos: Difícil encontrar. Esta corrente ficou démodé.

O que seus proponentes amam: A teoria quantitativa da moeda

O que seus proponentes odeiam: Política fiscal ativista

Onde é forte: Em lugar nenhum, uma vez que sofreu declínio

Principais críticas: No mundo atual, com taxas reais de juros próximas de zero nos países desenvolvidos, é possível perceber que políticas fiscais ativistas têm efeito sobre o produto, ao contrário do que os monetaristas pregavam. Isto pode ser visto principalmente a partir das crises de 2001 e 2008.

 

Novo Clássica

Principais proposições: Os agentes econômicos têm expectativas racionais, e os preços têm poder de se ajustar rapidamente para equilibrar oferta e demanda. Portanto, uma variação de quantidade de moeda ou de gastos públicos tem efeito nulo sobre o produto no longo e até mesmo no curto prazo. As flutuações do PIB podem ser explicadas pelo “ciclo real de negócios”, causados principalmente por variações de tecnologia e decisões dos agentes econômicos sobre quando poupar ou quando gastar. Tentativas do governo de interferir nestes ciclos mais atrapalham do que ajudam. Os novos clássicos consideram que a análise macroeconômica não pode ser separada da análise microeconômica, e os modelos matemáticos novo clássicos sobre Macroeconomia são muito semelhantes aos modelos de Microeconomia.

Data: Surgiu em meados da década de 1970 nos Estados Unidos. É muito relevante até hoje.

Descrição: Ortodoxa

Uso de linguagem matemática: Alto

Principais proponentes mortos: Como é uma corrente razoavelmente recente, seus fundadores estão vivos, bem velhinhos

Principais proponentes vivos: Robert Lucas, Thomas Sargent, Robert Barro, Edward Prescott, Finn Kydland

O que seus proponentes amam: Modelos matemáticos de equilíbrio geral com matemática bem complexa

O que seus proponentes odeiam: Tudo que tem a ver com impacto da demanda sobre o produto, notadamente o modelo IS-LM

Onde é forte: Em universidades interioranas nos Estados Unidos, notadamente Chicago e Minnesota. Por isso, seus proponentes são chamados de “economistas de água doce”. No Brasil, tem grande influência na PUC-RJ e na FGV-RJ.

Principais críticas: A desinflação dos Estados Unidos na primeira metade dos anos 1980, feita com políticas monetárias restritivas, causou elevação do desemprego, ao contrário do que os novos clássicos, que influenciaram esta política, previram. As evidências empíricas dos modelos de “ciclos reais de negócios” são muito frágeis. Estes modelos têm dificuldade de explicar a Grande Depressão dos anos 1930.

 

Novo Keynesiana

Principais proposições: As mesmas que as dos Novos Clássicos, com uma pequena diferença: os Novos Keynesianos consideram que os preços e salários são rígidos no curto prazo, e que por isso, pode haver equilíbrio com desemprego involuntário no curto prazo, e que, portanto, poderiam ser feitas políticas fiscais e monetárias ativas para a estabilização. Os Novos Keynesianos utilizam a Microeconomia para explicar a rigidez de curto prazo de preços e salários: custos de elaborar um novo menu, oligopólios, salários de eficiência (empresas pagando salários acima do equilíbrio de mercado para incentivar trabalhadores a se esforçarem mais). Os Novos Keynesianos negligenciam a questão da demanda efetiva, abordada por Keynes. Como não há muitas diferenças com os Novos Clássicos, e como os Novos Keynesianos não são tão keynesianos assim, seria perfeitamente possível chamar os Novos Clássicos de “Novos Clássicos Dogmáticos” e os Novos Keynesianos de “Novos Clássicos Pragmáticos”. Os Novos Keynesianos também poderiam ser chamados de “Novos Monetaristas”, uma vez que também consideram que as políticas monetárias não são neutras no curto prazo, mas são neutras no longo prazo.

Data: Surgiu no início dos anos 1980 nos Estados Unidos. É a corrente mais mainstream até os dias atuais. Os principais livro-textos de Macroeconomia utilizados em graduação e pós-graduação foram escritos por novos keynesianos.

Descrição: Ortodoxa

Uso de linguagem matemática: Alto

Principais proponentes mortos: Como é uma corrente razoavelmente recente, seus fundadores estão vivos

Principais proponentes vivos: No braço politicamente conservador, Greg Mankiw, David Romer e Stanley Fischer. No braço politicamente progressista, Joseph Stiglitz, George Akerlof, Brad DeLong e Paul Krugman jovem (quando este envelheceu, ficou mais progressista ainda e virou Paleo Keynesiano). No braço politicamente mais ou menos, Olivier Blanchard e Larry Summers

O que seus proponentes amam: Um pouco da contribuição de cada corrente anterior

O que seus proponentes odeiam: A ideia de que existem correntes rivais de pensamento econômico. Eles acham que a ciência econômica, mais do que um conflito entre diferentes visões, é um constante acúmulo de conhecimento, e que eles seriam o resultado mais bem acabado deste acúmulo.

Onde é forte: Nas universidades das costas leste e oeste dos Estados Unidos: Harvard, MIT, Yale, Princeton, Columbia, Berkley. Por isso, seus proponentes são chamados de “economistas de água salgada”. Muitos dos principais economistas do Fed, do FMI e do Banco Mundial podem ser chamados de Novos Keynesianos.

Principais Críticas: Os keynesianos mais keynesianos do que os novos (os paleo e os pós) consideram que os Novos Keynesianos são quase nada keynesianos. Não abordam o problema da demanda efetiva como resultado de entesouramento de moeda. As crises ocorridas depois dos crashes de 1929, 2001 e 2008 não poderiam ser explicadas apenas por causa de rigidez de preços. A sofisticação matemática excessiva e a ênfase na fundamentação na Microeconomia, incorporadas dos Novos Clássicos, seriam desnecessárias.

 

Austríaca

Principais proposições: A economia tem diversos estágios da produção. O estágio final da produção é aquele que produz bens finais que satisfazem preferências individuais de consumidores. Os estágios iniciais são aqueles que produzem insumos e bens de capital. Aumento da taxa de poupança faria os investimentos se deslocarem do estágio final da produção para os estágios iniciais, diminuindo a produção do estágio final no curto prazo, mas aumentando no longo prazo. Flutuações do produto seriam resultado de mudança de alocação de capital e trabalho de um estágio de produção para o outro. Tentativas do governo de interferir neste processo seriam prejudiciais.

Data: Surgiu por volta de 1870, na Áustria (dããã). Teve importância na década de 1930, através de economistas nascidos na Áustria e residentes na Inglaterra.

Descrição: Em geral, heterodoxa, embora o grupo do Hayek tenha se aproximado da ortodoxia

Uso de linguagem matemática: Médio

Principais proponentes mortos: Carl Menger, Böhn von Bawerk, Ludwig Von Mises, Friedrich Hayek

Principais proponentes vivos: Israel Kirzner, Bryan Caplan

O que seus proponentes amam: o livre mercado

O que seus proponentes odeiam: a intervenção estatal. Alguns preferem ditaduras de direita com pouca intervenção estatal a democracia com muita intervenção estatal.

Onde é forte: embora o mainstream do pensamento econômico possa ser considerado mais conservador do que a média das outras ciências sociais, a Escola Austríaca não é mainstream. Está à direita do mainstream. Tem um ou outro expoente espalhado em diferentes universidades, mas não domina departamentos inteiros de Economia. Tem mais influência em think-thanks de direita, como o Cato e o Heritage, do que em universidades.

Principais críticas: A Escola Austríaca é criticada tanto por inconsistências internas de seus modelos, quando pela adequação deles à realidade. Sobre a inconsistência interna dos modelos, nota-se que se o aumento do desemprego fosse causado pela realocação de trabalho entre os diferentes estágios da produção, como dizem os austríacos, ele ocorreria em recessões e expansões, e não apenas em recessões, como realmente ocorre. Até mesmo economistas conservadores de escolas mais mainstream, como a monetarista e a novo keynesiana, criticam os austríacos, alegando que a falta de matemática cria buraco nas teorias. Sobre o problema da adequação da teoria à realidade, nota-se que os países desenvolvidos tiveram elevadas taxas de crescimento do PIB entre 1950 e 1973, mesmo com bastante presença do Estado na economia.

 

Pós Keynesiana

Principais proposições: A economia pode (e na maioria das vezes isto acontece) se equilibrar com desemprego involuntário por insuficiência de demanda efetiva porque não há qualquer mecanismo automático no mercado que faça com que a poupança dos agentes econômicos seja utilizada para o investimento. A poupança pode não se transformar em investimento porque agentes econômicos poderiam preferir reter dinheiro ao invés de emprestá-lo, mesmo se a taxa real de juros for positiva, porque a liquidez oferecida pelo dinheiro ofereceria mais segurança em um mundo incerto. O equilíbrio com desemprego involuntário é possível até mesmo com perfeita flexibilidade de preços e salários. Nem mesmo no longo prazo a economia teria mecanismos automáticos de retorno ao pleno emprego. Por isso, o Estado teria papel importante em realizar políticas fiscais e monetárias ativas para evitar o desemprego, o subconsumo e o subinvestimento. A Escola Pós Keynesiana não é unificada. Há pós keynesianos que preferem retomar a obra original de Keynes. Há pós keynesianos que preferem conciliar a obra de Keynes com a de pensadores não neoclássicos. De qualquer maneira, os pós keynesianos são aqueles que se consideram os verdadeiros keynesianos.

Data: Surgiu no final da década de 1970 nos dois lados do Atlântico

Descrição: Heterodoxa

Uso de linguagem matemática: Baixo

Principais proponentes mortos: Michal Kalecki (morreu em 1970, seria um pré pós keynesiano), Joan Robinson, Hyman Minsky

Principais proponentes vivos: Paul Davidson, Philip Arestis, Victoria Chick, Fernando Cardim de Carvalho, Davi Dequech

O que seus proponentes amam: A Teoria Geral do Emprego, dos Juros e da Moeda

O que seus proponentes odeiam: Modelos neoclássicos, até mesmo os incorporados ao Paleo Keynesianismo e ao Novo Keynesianismo

Onde é forte: Não é uma escola mainstream. No Primeiro Mundo, os pós keynesianos têm importância em Camdbridge, Inglaterra. Em outros países, há um ou outro em diferentes universidades, mas não chegam a dominar um departamento de economia. No Brasil, os pós keynesianos têm bastante presença nos Institutos de Economia da Unicamp e da UFRJ. Muitos professores destes dois institutos fazem parte da Associação Keynesiana Brasileira. As principais publicações dos pós keynesianos estão presentes no Journal of Post Keynesian Economics.

Principais críticas: Críticos dizem que buscar compreender o que um pensador escreveu em 1936 é de interesse somente para a história do pensamento econômico, e não para a análise econômica. Também é criticada a falta de atenção às mudanças tecnológicas e ao crescimento de longo prazo, temas que não eram de interesse de Keynes durante a Depressão dos anos 1930. A falta de formalização em modelos matemáticos é outro motivo de crítica.

 

Estruturalista

Principais proposições: Os preços de commodities naturais têm tendência de queda em comparação com os preços de produtos manufaturados. Por isso, os países periféricos precisam de industrializar para escapar do subdesenvolvimento. Como isto ocorre em um período em que a industrialização já apresenta grandes economias de escala e requer grande quantidade de capital, a industrialização não pode ocorrer sem apoio do Estado. Isto mudaria as estruturas produtivas do país, disto vem o nome. O aumento da renda da população pobre auxilia a industrialização, pois cria um mercado para indústrias com grandes economias de escala. A industrialização de países periféricos não poderia ser analisada apenas como um fenômeno econômico, daí a necessidade de interação com outras ciências sociais.

Data: Surgiu com a CEPAL, no final da década de 1940. Declinou a partir da década de 1960. As ideias que surgiram na Unicamp na década de 1970 podem ser consideradas uma continuação do estruturalismo.

Descrição: Heterodoxa

Uso de linguagem matemática: Baixo

Principais proponentes mortos: Raul Prebisch e Celso Furtado

Principais proponentes vivos: Carlos Lessa, Maria da Conceição Tavares, Bresser Pereira, Luiz Gonzaga Belluzzo (embora este também possa ser um pós keynesiano e também um marxista)

O que seus proponentes amam: todas as ciências humanas

O que seus proponentes odeiam: teorias completamente abstratas, a-históricas, muito matematizadas e focadas no indivíduo representativo

Onde é forte: Por ser uma teoria que teve declínio de importância nos últimos 50 anos, não é fácil de ser encontrada. Está um pouco mais presente nos Institutos de Economia da Unicamp e da UFRJ

Principais críticas: A falta de formalização em linguagem matemática dificulta a aceitação no Primeiro Mundo. A relação prevista entre melhoria da distribuição de renda e industrialização nos países em desenvolvimento acabou não acontecendo. Os países em desenvolvimento que mais se industrializaram foram os que conseguiram colocar mercadorias mais baratas no mercado mundial, ou seja, os que fizeram industrialização com baixos salários.

 

Marxista

Principais proposições: O lucro do capitalista é resultado da parcela do trabalho não remunerada do trabalhador, a mais-valia. Os salários sempre estarão no nível de subsistência porque sempre haverá trabalhadores desempregados, o exército de reserva. Os capitalistas sempre introduzirão novos métodos capazes de aumentar a produção por trabalhador. Mas com o salário sempre estagnado no nível de subsistência, a taxa de mais-valia aumentará. Isto levará à superacumulação de capital, pois a mais-valia será utilizada para introduzir mais máquinas na produção. Com maior composição do capital (capital constante) em relação ao trabalho (capital variável), a taxa de lucro declinará. A única forma de resolver este problema é destruir capital constante em crises econômicas. Em poucas palavras, o sistema capitalista é propenso à superexploração dos trabalhadores e às crises frequentes. Nem todos os economistas marxistas são favoráveis à revolução comunista. Alguns utilizam o marxismo apenas para entender como a economia funciona, mas defendem soluções social-democratas. Estes são, às vezes, chamados de marxianos.

Data: Surgiu por volta de 1860, quando Marx, morando na Inglaterra, passou a enfocar a Economia Política. Sempre a atenção aumenta quando tem alguma grande crise da economia capitalista mundial.

Descrição: Heterodoxa

Uso de linguagem matemática: Baixo

Principais proponentes mortos: Karl Marx (dããã), Friedrich Engels, Rosa Luxemburgo, Rudolf Hilferding, Paul Sweezy

Principais proponentes vivos: Yanis Varoufakis, Marcio Pochmann, Paul Singer

O que seus proponentes amam: O proletariado

O que seus proponentes odeiam: A burguesia

Onde é forte: Os marxistas são um ou outro gato pingado em diferentes universidades. Alguns, embora tratem de temas econômicos, não lecionam/pesquisam em departamentos de economia, e sim de outras ciências sociais

Principais críticas: Além das críticas relacionadas às experiências socialistas do século XX, pode se dizer que as previsões sobre estagnação dos salários em economias capitalistas foram catastróficas demais. Alguns críticos apontam ainda inconsistências matemáticas na mais-valia.

 

Feminista

Principais proposições: A teoria econômica ortodoxa tem viés masculino, e por isso precisa ser modificada para ser mais inclusiva. Para isso, precisa dar mais atenção a questões como a contabilização do trabalho não remunerado, conflitos entre diferentes agentes dentro do mesmo domicílio (não enxergando mais o domicílio como unidade de análise da teoria do consumidor), possibilidade de outros comportamentos além de racionalidade/maximização/competição, discriminação por gênero e etnia no mercado de trabalho.

Data: Primeiras discussões surgiram por volta da década de 1960, consolidação na década de 1980

Descrição: Heterodoxa

Uso de linguagem matemática: Médio

Principais proponentes mortos: Ester Boserup

Principais proponentes vivos: Marilyn Waring, Julie Nelson

Onde é forte: Há alguns departamentos de Economia, principalmente nos Estados Unidos, que oferecem disciplinas sobre o tema. Existe a International Association for Feminist Economics.

 

Na Microeconomia, também existem divergências de pensamento entre diferentes correntes, embora estas divergências sejam menos quentes. A corrente neoclássica/ortodoxa/mainstream considera a existência de empresas maximizadoras de lucro que se defrontam com curvas de custo médio em formato de U (primeiro o custo de produção de cada unidade cai à medida em que a quantidade produzida aumenta, mas a partir de um determinado patamar de produção, o custo passa a subir). Abordagens alternativas/heterodoxas consideram a existência de curvas de custo que na verdade são retas (custo por unidade constante, independente da quantidade produzida) e de empresas que seguem rotinas ou tentam crescer, ao invés de tentar maximizar o lucro.

 

Fiz este texto com auxílio de

Snowdon & Vane (2005) Modern Macroeconomics: its origins, development and current state

Algumas consultas à Wikipedia

http://www.pragcap.com/a-cheat-sheet-for-understanding-the-different-schools-of-economics/

tribos pensamento econômico

A sensação de viver em um longo agora

Chegamos ao ano de 2016. Chega à maioridade neste ano quem nasceu em 1998. Chegava à maioridade em 1998 quem havia nascido em 1980. Não sei se a maioria das pessoas que estão lendo este texto concordará, mas penso que parece que 1998 foi ontem, enquanto que em 1998, o ano de 1980 parecia um passado razoavelmente distante. Para os milhões de chineses e indianos, que entraram no mercado de consumo de duráveis, talvez o período de 1998 a 2016 tenha sido o de maiores mudanças. Mas para o cotidiano de cidadãos de Primeiro Mundo e também da classe média/alta brasileira, parece que o período de 1998 a 2016 foi um longo agora.

Em 1980, a Internet era realidade quase que somente para universidades. Em 1998, muitos lares de Primeiro Mundo e da classe média/alta brasileira já tinham Internet. Era discada, fazia aquele barulhinho, mas já existiam muitos recursos que existem hoje. Não tinha Facebook, não tinha Twitter, não tinha Orkut, mas tinha chat, tinha fórum de discussão, tinha sites de jornais e revistas, tinha busca pelo Yahoo. O email do Yahoo tinha limite de armazenamento. Não tinha Youtube, mas era possível fazer download (lento) de (pequenos) vídeos. No site da Copa de 1998, era possível fazer download de vídeos de gols de copas passadas. O Windows 1998 e o Office 1997 não eram muito diferentes do Windows e do Office atuais (sinceramente, o Windows mudou para pior). Em 1980, a microinformática estava na Idade da Pedra. A maior modernidade era o computador Apple II, que pouca gente conhecia. Esta máquina usava fita cassete para armazenar dados. A máquina mais conhecida para enviar textos escritos em 1980 era o Telex.

Em 1998, o Netflix estava muito longe de existir. Mas a maior parte da classe média/alta brasileira já tinha televisão por assinatura. O passo da televisão aberta para a televisão por assinatura foi maior do que o passo da televisão por assinatura para o Netflix. Isto porque a televisão por assinatura já marca o fim da audiência de massa, e a criação de públicos segmentados. Em 1998, assim como em 2016, já havia um público jovem de classe média urbana que via seriados estrangeiros e não via novelas brasileiras. Admito que quanto aos aparelhos de televisão, o maior salto ocorreu nos 18 anos mais recentes. O mesmo não pode ser dito em relação às imagens. Comparem as imagens de futebol, por exemplo. Procurem no Youtube algum vídeo (há vários) da final do Campeonato Brasileiro de 1980 entre Flamengo e Atlético Mineiro. Verifica-se (além de um épico jogo), a imagem verde desbotado do campo, jogadores cabeludos de calções curtos e apertados. Depois, procurem algum vídeo da final do Campeonato Brasileiro de 1998 entre Corinthians e Cruzeiro. O verde da grama já é bem mais vivo, como atualmente, os uniformes são quase iguais aos atuais. Já havia recursos sofisticados para letreiros e vinhetas. Uma pequena ressalta: os campeonatos de 1980 e 1998 tiveram final, o de 2016 não terá. Se isso é bom ou não, fica para outro texto. Nos anos 1990 e nos anos 2010, os melhores jogadores brasileiros jogavam em clubes europeus. Fãs brasileiros de futebol acompanhavam campeonatos europeus. Até a metade da década de 1980, os principais jogadores brasileiros ainda jogavam em clubes brasileiros. Na Copa de 1982, Falcão era o único destaque da seleção brasileira que jogava em clube estrangeiro. Uma mudança no futebol brasileiro que ocorreu em período mais recente, na década de 2000, foi a extinção do cimentão e o estabelecimento de estádios 100% cadeira para receber jogos dos maiores clubes brasileiros. Mas a redução de capacidade dos estádios já havia ocorrido no início dos anos 1990.

No início da década de 1990, telefone celular era coisa de pleiba. Em 1998, o telefone celular ainda não era acessível aos pobres, nas famílias de classe média, ainda não havia um aparelho por pessoa, mas ainda assim, já era comum lares de classe média terem pelo menos um telefone celular. Era primitivo, só telefonava. De qualquer maneira, foi uma grande mudança. As câmeras digitais em 1998 ainda estavam nos primórdios. Tinham tamanho de um tijolo e tiravam foto que parecia 3X4. Ainda assim, já não era mais uma tecnologia desconhecida.

Quanto aos automóveis, a principal mudança de visual ocorreu em 1994, com a chegada do Gol segunda geração, do Corsa e do Pálio. Os carros populares atuais não têm design muito diferente. As “banheiras” saíram de moda. O ano de 1980 foi o do lançamento do Gol primeira geração. Tinha linhas retas, bem diferentes dos automóveis populares atuais. Banheiras de linhas retas, como o Corcel II, eram tidas como carro “chique” no final dos anos 70. Peguem uma foto de um engarrafamento de 1980, uma de 1998 e uma atual, e comparem.

Como tem tanta gente falando de Star Wars atualmente, não custa lembrar que 1980 foi o ano do Império Contra-ataca, tido pela maioria dos fãs da saga como o melhor dos sete filmes. Em 1999 foi lançado o “Episódio I: A Ameaça Fantasma”. Em 2015, “Episódio VII: O Despertar da Força”. Ambos criticados por ser videogame demais e não terem a magia do passado, embora o VII tenha tido recepção melhor do que o I.

Sobre a maneira de ouvir música, a comparação entre 1980, 1998 e 2016 é a mais curiosa: se ouve mais LP em 1980 e 2016 do que em 1998. Na década de 2010, houve um renascimento do LP. O ano 1998 foi o auge do CD. Nunca se vendeu tanto CD no Brasil, nem antes, nem depois. De 1999 a 2003, teve crise econômica. Depois disso, o MP3 já era bastante relevante.

Para os ouvintes de rock, parece que o tempo parou. A morte do Kurt Cobain em 1994 foi a morte do rock cabeludo. As bandas de cabeludo passaram a ser banda de integrantes envelhecidos. As bandas novas a partir de 1995 passaram a adotar o visual mauricinho, com cabelo curto, e muitas vezes com franjinha. E assim permaneceu. O rock dos cabelos longos, canções longas e solos longos de guitarra passou a ser o rock das bandas antigas. Em 1998, havia os bares de rock com bandas cover saudosistas, que tocavam Led Zeppelin, Deep Purple, Pink Floyd e Black Sabbath. Atualmente também. O show internacional que gerou mais público em 1998 no Brasil foi o do U2, banda surgida em 1980. O principal objetivo daquela turnê foi mostrar o álbum Pop, de 1997 (embora no Brasil, a fase dos anos 1980 esteve bem presente no set list, por se tratar da primeira visita da banda irlandesa ao nosso país). Em 2015, o Pearl Jam, banda de 1991, gerou bastante público em shows no Brasil. Os quatro álbuns relevantes do Pearl Jam são, respectivamente, de 1991, 1993, 1994 e 1998. Depois disso, só um ou outro sucesso avulso. O Rock in Rio de 2015 celebrou sucessos do passado, como Elton John e Rod Stewart.

Quanto à moda, não consigo me lembrar de grandes diferenças entre 1998 e 2016. Sinceramente, tenho a impressão de que moda não existe mais. Usou-se todos os tipos de peça, todos os tamanhos, todas as cores nestes anos todos. Só me lembro de que, geralmente, as camisetas masculinas dos anos 1990 eram um pouco mais largas (influência do grunge?). Seja em 1998, seja atualmente, observamos como os cortes de cabelos do final da década de 1970 eram cafonas para o nosso gosto. Não consigo perceber diferenças significantes entre cortes de cabelo do final da década de 1990, e cortes atuais.

Em 1980, a onda de shopping centers estava começando a pegar no Brasil. Naquele ano, foi inaugurado o Rio Sul, o primeiro shopping center do Rio de Janeiro; e o Iguatemi, o primeiro shopping center de Campinas. Só na cidade de São Paulo, os shopping centers já eram bem conhecidos. Ainda era possível ver blockbusters (tipo O Império Contra-Ataca) em cinemas de centro de cidade. Nos anos 1990, 2000 e 2010, passear no shopping center já era um hábito comum em grandes cidades brasileiras. Em quase todo shopping, um McDonald’s dentro. Em 1980, o único McDonald’s no Brasil era o localizado em Copacabana, inaugurado no ano anterior.

E a política? Em 1980 tinha Guerra Fria no mundo e ditadura militar no Brasil. Em 1998 e em 2016, tudo isso é passado. Inflação com média mensal superior a 1% também é passado há duas décadas no Brasil. A queda do muro de Berlim foi um acontecimento mais relevante do que os atentados ao World Trade Center e ao Pentágono. A grande novidade da década de 2000 foi a transformação da China em uma grande potência mundial, quando nos anos 1990, ainda falava-se da China como um país da zona de influencia do Japão. Ainda assim, a China já era vista como um grande país com futuro promissor na década de 1990. Uma diferença entre 1998 e 2016 é que em 1998 se falava muito em globalização e atualmente parece que esta palavra sumiu. A globalização continua existindo, mesmo que esta palavra quase não seja mais utilizada atualmente.

Em resumo: parece que o cotidiano de classe média mudou menos de 1998 para 2016 do que de 1980 para 1998. Por isso, existe a sensação do longo agora. Parece mais óbvio ainda que as mudanças de 1980 para 2016 foram mais suaves do que as ocorridas entre 1944 e 1980 (comparando dois intervalos de 36 anos). Afinal, em 1944, a Segunda Guerra Mundial ainda estava ocorrendo, e “classe média” fora dos Estados Unidos praticamente não existia. Por outro lado, é óbvio que um viajante no tempo que saísse da Europa de 1800 e chegasse em 2000 teria um choque muito maior do que um viajante no tempo que saísse da Europa de 1600 e chegasse em 1800.

Por um tempo, as mudanças foram cada vez mais rápidas. Mas a partir de um determinado momento, parece que as mudanças se tornaram mais lentas. Das três revoluções industriais, a segunda foi a mais importante para a vida das pessoas. Usar a Internet no telefone celular é legal, mas água e esgoto encanados, eletricidade, aquecedor, geladeira e veículos motorizados foram bem mais importantes (se não fosse a Terceira Revolução Industrial, você não estaria lendo este texto na tela do seu computador, mas poderia estar lendo em um jornalzinho impresso). Por isso, o período do surgimento da Segunda Revolução Industrial (1870-1914), das mudanças causadas pelas guerras mundiais (1914-1945) e o da difusão em massa dos benefícios da Segunda Revolução Industrial (1945-1973) foram os de maior transformação para a humanidade.