A democracia do sofá

A depender das Polícias Militares e governadores e parlamentares direitistas, o que sobrará no Brasil será apenas a democracia do sofá. Nela, cada cidadão tem o pleno direito de manifestação e expressão sentado confortavelmente em seu sofá.

Sair do sofá provoca transtornos coletivos. Atrapalha o trânsito. Trás “baderna” e atrai “minorias de vândalos” ou “organizações terroristas” imaginárias dedicadas a coisas terríveis, como quebrar vidracinhas de bancos multibilionários.

Essas organizações terroristas podem ser imaginárias, mas quem duvida que aparecerão milhares de testemunhas, assim que virarem pauta do Jornal (Anti)Nacional?

Por isso, o cidadão de bem, cooperando com as autoridades instituídas, se reserva ao sofá. No máximo, faz um protesto no domingo, com camisa da CBF, gritando por pautas genéricas, cujo atendimento fique à critério das autoridades governamentais e/ou parlamentares.

Assim não atrapalham o trânsito, não prejudicam os lucros do patronato e rendem matérias para o lirismo jornalístico-conservador, sem falar de memes engraçadíssimos. Ao invés de vidraças, podem quebrar ossos de algum sem-teto ou algum incauto que ouse usar peças de roupas vermelhas.

Cumpre lembrar que só o cidadão de bem, já bem posicionamento na estratificação socioeconômica, pode fazer protestos. Se se comportar direitinho, tem direito até a uma selfie com um esquadrão da morte oficial.

Obviamente pessoas de baixa estirpe não podem ser permitidas. Isso atrapalharia a sua ascensão social meritocrática. Essas pessoas devem se dedicar a trabalhar o máximo de horas por dia, ganhando o mínimo de salários e benefícios. Se quiserem algo melhor, basta se esforçarem bastante para vencer a fome, a violência, o preconceito, a desigualdade de oportunidades educacionais, para alcançarem a classe média-alta.

É claro que nem todos podem fazer isso, senão quem vai varrer as ruas, lavrar a terra e construir casas? Então tem que ser muito difícil, com escolas caindo aos pedaços. De preferência mais difícil, cortando o Bolsa-Família para essa meninada mais nova descobrir o que é fome epidêmica de verdade.

Os filhos da classe média-alta não devem ter essas preocupações. Podem estudar em segurança e bem nutridos em seus colégios particulares caríssimos. Afinal, um dia vão legislar e administrar as organizações públicas e privadas. Não devemos atrapalhá-los.

Mas sempre haverá o sofá, que está disponível para ouvir o cidadão sobre todas as suas mazelas, insatisfações e delírios utópicos. Os governantes estão ocupados demais para fazê-lo, garantindo o bom ambiente de negócios, os elogios das organizações financeiras supranacionais e o “superávite primário”.

A quem não compreender a plenitude da democracia do sofá, restam as maravilhosas polícias militarizadas, que gozam de tanta confiança e estima do povo, e tão belamente comandadas pelos seus geniais altos escalões e autoridades governamentais. Não se fazem omeletes sem quebrar ovos, dentes, ossos, olhos e outras partes do corpo humano.

 

 

 

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