A sensação de viver em um longo agora

Chegamos ao ano de 2016. Chega à maioridade neste ano quem nasceu em 1998. Chegava à maioridade em 1998 quem havia nascido em 1980. Não sei se a maioria das pessoas que estão lendo este texto concordará, mas penso que parece que 1998 foi ontem, enquanto que em 1998, o ano de 1980 parecia um passado razoavelmente distante. Para os milhões de chineses e indianos, que entraram no mercado de consumo de duráveis, talvez o período de 1998 a 2016 tenha sido o de maiores mudanças. Mas para o cotidiano de cidadãos de Primeiro Mundo e também da classe média/alta brasileira, parece que o período de 1998 a 2016 foi um longo agora.

Em 1980, a Internet era realidade quase que somente para universidades. Em 1998, muitos lares de Primeiro Mundo e da classe média/alta brasileira já tinham Internet. Era discada, fazia aquele barulhinho, mas já existiam muitos recursos que existem hoje. Não tinha Facebook, não tinha Twitter, não tinha Orkut, mas tinha chat, tinha fórum de discussão, tinha sites de jornais e revistas, tinha busca pelo Yahoo. O email do Yahoo tinha limite de armazenamento. Não tinha Youtube, mas era possível fazer download (lento) de (pequenos) vídeos. No site da Copa de 1998, era possível fazer download de vídeos de gols de copas passadas. O Windows 1998 e o Office 1997 não eram muito diferentes do Windows e do Office atuais (sinceramente, o Windows mudou para pior). Em 1980, a microinformática estava na Idade da Pedra. A maior modernidade era o computador Apple II, que pouca gente conhecia. Esta máquina usava fita cassete para armazenar dados. A máquina mais conhecida para enviar textos escritos em 1980 era o Telex.

Em 1998, o Netflix estava muito longe de existir. Mas a maior parte da classe média/alta brasileira já tinha televisão por assinatura. O passo da televisão aberta para a televisão por assinatura foi maior do que o passo da televisão por assinatura para o Netflix. Isto porque a televisão por assinatura já marca o fim da audiência de massa, e a criação de públicos segmentados. Em 1998, assim como em 2016, já havia um público jovem de classe média urbana que via seriados estrangeiros e não via novelas brasileiras. Admito que quanto aos aparelhos de televisão, o maior salto ocorreu nos 18 anos mais recentes. O mesmo não pode ser dito em relação às imagens. Comparem as imagens de futebol, por exemplo. Procurem no Youtube algum vídeo (há vários) da final do Campeonato Brasileiro de 1980 entre Flamengo e Atlético Mineiro. Verifica-se (além de um épico jogo), a imagem verde desbotado do campo, jogadores cabeludos de calções curtos e apertados. Depois, procurem algum vídeo da final do Campeonato Brasileiro de 1998 entre Corinthians e Cruzeiro. O verde da grama já é bem mais vivo, como atualmente, os uniformes são quase iguais aos atuais. Já havia recursos sofisticados para letreiros e vinhetas. Uma pequena ressalta: os campeonatos de 1980 e 1998 tiveram final, o de 2016 não terá. Se isso é bom ou não, fica para outro texto. Nos anos 1990 e nos anos 2010, os melhores jogadores brasileiros jogavam em clubes europeus. Fãs brasileiros de futebol acompanhavam campeonatos europeus. Até a metade da década de 1980, os principais jogadores brasileiros ainda jogavam em clubes brasileiros. Na Copa de 1982, Falcão era o único destaque da seleção brasileira que jogava em clube estrangeiro. Uma mudança no futebol brasileiro que ocorreu em período mais recente, na década de 2000, foi a extinção do cimentão e o estabelecimento de estádios 100% cadeira para receber jogos dos maiores clubes brasileiros. Mas a redução de capacidade dos estádios já havia ocorrido no início dos anos 1990.

No início da década de 1990, telefone celular era coisa de pleiba. Em 1998, o telefone celular ainda não era acessível aos pobres, nas famílias de classe média, ainda não havia um aparelho por pessoa, mas ainda assim, já era comum lares de classe média terem pelo menos um telefone celular. Era primitivo, só telefonava. De qualquer maneira, foi uma grande mudança. As câmeras digitais em 1998 ainda estavam nos primórdios. Tinham tamanho de um tijolo e tiravam foto que parecia 3X4. Ainda assim, já não era mais uma tecnologia desconhecida.

Quanto aos automóveis, a principal mudança de visual ocorreu em 1994, com a chegada do Gol segunda geração, do Corsa e do Pálio. Os carros populares atuais não têm design muito diferente. As “banheiras” saíram de moda. O ano de 1980 foi o do lançamento do Gol primeira geração. Tinha linhas retas, bem diferentes dos automóveis populares atuais. Banheiras de linhas retas, como o Corcel II, eram tidas como carro “chique” no final dos anos 70. Peguem uma foto de um engarrafamento de 1980, uma de 1998 e uma atual, e comparem.

Como tem tanta gente falando de Star Wars atualmente, não custa lembrar que 1980 foi o ano do Império Contra-ataca, tido pela maioria dos fãs da saga como o melhor dos sete filmes. Em 1999 foi lançado o “Episódio I: A Ameaça Fantasma”. Em 2015, “Episódio VII: O Despertar da Força”. Ambos criticados por ser videogame demais e não terem a magia do passado, embora o VII tenha tido recepção melhor do que o I.

Sobre a maneira de ouvir música, a comparação entre 1980, 1998 e 2016 é a mais curiosa: se ouve mais LP em 1980 e 2016 do que em 1998. Na década de 2010, houve um renascimento do LP. O ano 1998 foi o auge do CD. Nunca se vendeu tanto CD no Brasil, nem antes, nem depois. De 1999 a 2003, teve crise econômica. Depois disso, o MP3 já era bastante relevante.

Para os ouvintes de rock, parece que o tempo parou. A morte do Kurt Cobain em 1994 foi a morte do rock cabeludo. As bandas de cabeludo passaram a ser banda de integrantes envelhecidos. As bandas novas a partir de 1995 passaram a adotar o visual mauricinho, com cabelo curto, e muitas vezes com franjinha. E assim permaneceu. O rock dos cabelos longos, canções longas e solos longos de guitarra passou a ser o rock das bandas antigas. Em 1998, havia os bares de rock com bandas cover saudosistas, que tocavam Led Zeppelin, Deep Purple, Pink Floyd e Black Sabbath. Atualmente também. O show internacional que gerou mais público em 1998 no Brasil foi o do U2, banda surgida em 1980. O principal objetivo daquela turnê foi mostrar o álbum Pop, de 1997 (embora no Brasil, a fase dos anos 1980 esteve bem presente no set list, por se tratar da primeira visita da banda irlandesa ao nosso país). Em 2015, o Pearl Jam, banda de 1991, gerou bastante público em shows no Brasil. Os quatro álbuns relevantes do Pearl Jam são, respectivamente, de 1991, 1993, 1994 e 1998. Depois disso, só um ou outro sucesso avulso. O Rock in Rio de 2015 celebrou sucessos do passado, como Elton John e Rod Stewart.

Quanto à moda, não consigo me lembrar de grandes diferenças entre 1998 e 2016. Sinceramente, tenho a impressão de que moda não existe mais. Usou-se todos os tipos de peça, todos os tamanhos, todas as cores nestes anos todos. Só me lembro de que, geralmente, as camisetas masculinas dos anos 1990 eram um pouco mais largas (influência do grunge?). Seja em 1998, seja atualmente, observamos como os cortes de cabelos do final da década de 1970 eram cafonas para o nosso gosto. Não consigo perceber diferenças significantes entre cortes de cabelo do final da década de 1990, e cortes atuais.

Em 1980, a onda de shopping centers estava começando a pegar no Brasil. Naquele ano, foi inaugurado o Rio Sul, o primeiro shopping center do Rio de Janeiro; e o Iguatemi, o primeiro shopping center de Campinas. Só na cidade de São Paulo, os shopping centers já eram bem conhecidos. Ainda era possível ver blockbusters (tipo O Império Contra-Ataca) em cinemas de centro de cidade. Nos anos 1990, 2000 e 2010, passear no shopping center já era um hábito comum em grandes cidades brasileiras. Em quase todo shopping, um McDonald’s dentro. Em 1980, o único McDonald’s no Brasil era o localizado em Copacabana, inaugurado no ano anterior.

E a política? Em 1980 tinha Guerra Fria no mundo e ditadura militar no Brasil. Em 1998 e em 2016, tudo isso é passado. Inflação com média mensal superior a 1% também é passado há duas décadas no Brasil. A queda do muro de Berlim foi um acontecimento mais relevante do que os atentados ao World Trade Center e ao Pentágono. A grande novidade da década de 2000 foi a transformação da China em uma grande potência mundial, quando nos anos 1990, ainda falava-se da China como um país da zona de influencia do Japão. Ainda assim, a China já era vista como um grande país com futuro promissor na década de 1990. Uma diferença entre 1998 e 2016 é que em 1998 se falava muito em globalização e atualmente parece que esta palavra sumiu. A globalização continua existindo, mesmo que esta palavra quase não seja mais utilizada atualmente.

Em resumo: parece que o cotidiano de classe média mudou menos de 1998 para 2016 do que de 1980 para 1998. Por isso, existe a sensação do longo agora. Parece mais óbvio ainda que as mudanças de 1980 para 2016 foram mais suaves do que as ocorridas entre 1944 e 1980 (comparando dois intervalos de 36 anos). Afinal, em 1944, a Segunda Guerra Mundial ainda estava ocorrendo, e “classe média” fora dos Estados Unidos praticamente não existia. Por outro lado, é óbvio que um viajante no tempo que saísse da Europa de 1800 e chegasse em 2000 teria um choque muito maior do que um viajante no tempo que saísse da Europa de 1600 e chegasse em 1800.

Por um tempo, as mudanças foram cada vez mais rápidas. Mas a partir de um determinado momento, parece que as mudanças se tornaram mais lentas. Das três revoluções industriais, a segunda foi a mais importante para a vida das pessoas. Usar a Internet no telefone celular é legal, mas água e esgoto encanados, eletricidade, aquecedor, geladeira e veículos motorizados foram bem mais importantes (se não fosse a Terceira Revolução Industrial, você não estaria lendo este texto na tela do seu computador, mas poderia estar lendo em um jornalzinho impresso). Por isso, o período do surgimento da Segunda Revolução Industrial (1870-1914), das mudanças causadas pelas guerras mundiais (1914-1945) e o da difusão em massa dos benefícios da Segunda Revolução Industrial (1945-1973) foram os de maior transformação para a humanidade.

 

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