Breve análise sobre a geografia eleitoral dos EUA, e perspectivas para 2016

Ano bissexto e olímpico é ano de eleição para presidente dos Estados Unidos, evento que o mundo inteiro acompanha. Em textos seguintes, falo sobre os candidatos. Neste texto, faço uma análise sobre o mapa eleitoral.

Como a maioria dos leitores deste texto provavelmente sabe, nos Estados Unidos, a eleição presidencial não é direta. O presidente é eleito por um colégio eleitoral de 538 delegados, ou seja, é eleito quem consegue o voto de 270 delegados ou mais. Cada estado tem direito a um número de delegados equivalente à soma do número de deputados com o número de senadores que cada estado tem no Congresso (mas os delegados não são os deputados e senadores). O número de deputados que cada estado tem é proporcional a sua população. O número de senadores é dois por estado, independentemente da população. Ou seja, os estados menos populosos estão levemente mais representados no Colégio Eleitoral. A votação popular, realizada sempre na terça-feira que cai entre 2 e 8 de novembro de ano bissexto, escolhe os delegados de cada estado. O candidato que obtém a maioria do voto popular em um estado ganha a totalidade dos delegados, independentemente da margem do voto popular. Somente os estados de Maine e Nebraska têm critérios um pouco diferentes. Os delegados podem trolar e não votar de acordo com o voto popular do estado. Mas isto é um acontecimento muito raro.

Ainda não se sabe quem serão os candidatos dos dois partidos principais. Mas como o voto está cada vez mais partidário e cada vez menos pessoal, sabe-se que independentemente dos candidatos, o Partido Democrata tem vitória garantida em alguns estados, o Partido Republicano em outros, e a disputa ocorrerá em alguns estados-chave.

Desde 2000, o mapa eleitoral é razoavelmente estável. Na figura abaixo, se verifica que alguns estados deram seus votos para os democratas (Gore, Kerry e Obama) nas últimas quatro eleições (os marcados com azul escuro), outros deram seus votos para os republicanos (Bush, McCain e Romney) nas últimas quatro eleições (marcados com vermelho escuro), outros foram duas vezes para cada partido, votando as duas vezes no Bush e depois as duas vezes no Obama (marcados com cinza), e um número bem menor de estados votou três vezes em um partido e uma vez em outro (marcados com azul ou vermelho claro).

Últimas quatro eleições presidenciais

usa 2000 2012

Quem desejar ver um mapa com os nomes dos estados por extenso deve entrar em https://en.wikipedia.org/wiki/U.S._state#/media/File:Map_of_USA_States_with_names_white.svg

Para ser eleito, são necessários 270 votos no Colégio Eleitoral. Os estados em que os democratas venceram nas últimas quatro vezes, os chamados blue states, somam 242 votos. Os estados em que os republicanos venceram nas últimas quatro vezes, os chamados red states, somam 180 votos. Os estados em que os democratas venceram em pelo menos três das últimas quatro vezes somam 257 votos. Os estados em que os republicanos venceram em pelo menos três das últimas quatro vezes somam 206 votos. Os estados em que cada partido ganhou duas vezes, que são os mais importantes battleground states (Ohio, Virgínia, Colorado, Nevada e Flórida), somam 75 votos.

Em alguns blue states, os democratas ganharam com vantagem muito folgada nas últimas quatro eleições (notadamente Nova York, Massachusetts, Rhode Island, Vermont e Califórnia) e espera-se que continue assim, que estes estados sejam fáceis para os democratas mesmo se um republicano ganhar com folga a eleição nacional. Em alguns red states, os republicanos ganharam com vantagem muito folgada nas últimas quatro eleições (notadamente Texas, Alabama, Kansas, Utah, Idaho e Wyoming) e espera-se que continue assim, que estes estados sejam fáceis para os republicanos mesmo se um democrata ganhar com folga a eleição nacional.

Porém, algumas tendências vêm aparecendo nos últimos anos, e nem todo estado que um mesmo partido ganhou as últimas quatro vezes é garantido para 2016. Pensilvânia, Wisconsin, Minnesota e Michigan foram vencidos por democratas nas últimas quatro vezes, mas com diferença pequena. Estes estados têm um elevado percentual de brancos não hispânicos (conhecidos simplesmente como brancos) na população, grupo étnico que está se tornando cada vez mais republicano. Entre estes brancos não hispânicos nestes estados, muitos não têm curso superior (há mais republicanos entre os brancos sem do que com curso superior). Estes quatro estados ainda permaneceriam com os democratas até mesmo em caso de vitória nacional republicana apertada. Mas uma vitória nacional republicana mais folgada poderia colocar estes quatro estados na coluna republicana. O mapa a seguir mostra o melhor cenário possível para os republicanos. Neste cenário, eles têm 352 votos no colégio eleitoral. Os estados que ainda estão em azul são aqueles que os republicanos não ganharão nemfu, nem com vitória nacional folgada.

Melhor cenário republicano possível

vitória republicana forte

Por outro lado, Geórgia, Arizona e Missouri foram vencidos pelos republicanos nas últimas quatro eleições. Mas como é decrescente a participação dos brancos não hispânicos no eleitoral total destes estados, e como as minorias étnicas são um grupo majoritariamente democrata, estes três estados podem entrar na coluna democrata em caso de uma vitória democrata nacional muito folgada. O mapa a seguir mostra o melhor cenário possível para os democratas. Neste cenário, eles têm 395 votos no colégio eleitoral. Os estados que ainda estão em vermelho são aqueles que os democratas não ganharão nemfu, nem com vitória nacional folgada (pequena observação: é mais difícil os democratas ganharam Geórgia, Arizona e Missouri do que os republicanos ganharem Pensilvânia, Wisconsin, Minnesota e Michigan).

Melhor cenário democrata possível

vitória democrata forte

Apesar de razoavelmente estável desde 2000 (ou talvez desde 1988), a divisão dos Estados Unidos por preferências partidárias nem sempre foi assim. Da Guerra Civil até a Grande Depressão, o mapa eleitoral dos Estados Unidos era mais ou menos parecido com o atual, mas com os partidos trocados. O sul era democrata, pois se opunha ao partido do Lincoln, republicano. Na figura abaixo, é possível verificar que o mapa de 2004 foi quase o negativo do mapa de 1896.

Mapas de eleições presidenciais passadas nos EUA com vencedor por estado

mapas 1952 2012mapas 1888 1948

Fonte da figura: http://www.huffingtonpost.com/max-galka/the-results-of-every-pres_b_8199152.html

Quando começou a Era do New Deal, em 1932, os democratas passaram a contar com os votos dos trabalhadores do Norte. A chamada Coalizão do New Deal incluia trabalhadores, sulistas brancos, intelectuais, negros, hispânicos, católicos e judeus. Os sulistas, mesmo reacionários em algumas questões, faziam parte desta coalizão progressista porque eram mais pobres do que a média do país, e por isso, apoiavam governos que faziam redistribuição. Tudo mudou em 1964, quando o presidente democrata Lyndon Johnson sancionou a Lei dos Direitos Civis, que tirou a autonomia dos estados do sul para fazer segregação racial. Os sul virou republicano, o norte ficou mais democrata. Verifica-se que o mapa de 1964, da reeleição de Johnson, é quase o negativo do mapa de 1956, da reeleição de Eisenhower. Houve um breve revival democrata no sul com a eleição do georgiano Jimmy Carter em 1976. Este revival foi desfeito logo depois, e a partir de 1988, começou a se formar a divisão política atual dos Estados Unidos, que é um retorno à divisão da Guerra Civil, mas com os partidos trocados. Ouvimos falar muito “o Texas é republicano, a Califórnia é democrata”. É interessante notar que mesmo tendo a disputa democratas vs. Republicanos iniciado em 1856, a primeira vez que simultaneamente o Texas foi republicano e Califórnia foi democrata aconteceu apenas em 1992, quando Bill Clinton foi eleito. A partir daí, isto repetiu-se sempre, daí passou a ser visto como uma regra. Antes, os dois estados votavam no mesmo partido em eleições folgadas, e votavam de forma oposta à atual em eleições apertadas.

Apesar da virada ocorrida na década de 1960, nota-se que da década de 1930 até a década de 1980, a polarização era menor. Não havia tanta diferença entre os estados. Os vencedores em 1936 (Franklin Roosevelt), 1956 (Eisenhower), 1964 (Johnson), 1972 (Nixon) e 1984 (Reagan) tiveram aproximadamente 60% do voto popular e ganharam quase todos os estados. Quando havia um resultado no voto popular 60% vs 40% até a década de 1920 e se houver atualmente, o candidato perdedor ganhará alguns estados mesmo assim. Atualmente, isto é apenas um “se”. Com a polarização atual, não apenas é impossível um candidato ganhar quase todos os estados, mesmo passar dos 400 votos no Colégio Eleitoral, como também é muito difícil ultrapassar 55% dos votos populares. A última vez que isto ocorreu foi em 1984. Em 2008, tudo estava a favor dos democratas. Havia um cansaço com os oito anos de admistração republicana, a popularidade de George W. Bush estava muito baixa, havia a crise econômica. E mesmo assim, Obama derrotou McCain por uma margem de apenas 7,2 pontos percentuais no voto popular.

Além de mudanças na base geográfica dos partidos, vem ocorrendo nos últimos anos mudanças na sabe social, que têm impacto na base geográfica. A população de hispânicos e asiáticos vem crescendo, o que favorece os democratas. Os trabalhadores brancos sem curso superior, que já foram uma base democrata, estão se tornando cada vez mais republicanos. Os brancos escolarizados estão se tornando cada vez mais democratas. Um mapa por condado mostraria bem essas mudanças, mas aí o texto ficaria muito longo.

Por fim, os candidatos de 2016. O candidato republicano será Donald Trump, Ted Cruz ou Marco Rubio. Dificilmente outro vencerá as primárias. Todos defendem cortes de impostos para os muito ricos. Donald Trump tem opiniões machistas e xenofóbicas. Seu discurso a favor do protecionismo e contrário à imigração é atraente para trabalhadores brancos. Ted Cruz tem a opinião de direita em 100% dos assuntos, em questões econômicas, questões sociais e política externa. Marco Rubio é um pouquinho mais “moderado”. Dos três, é o que está pior nas pesquisas das primárias, mas pode crescer se os republicanos que não querem um candidato tão esquizofrênico se unirem em torno dele. Pelos democratas, disputam Hillary Clinton e Bernie Sanders. Hillary parece estar até mesmo um pouquinho mais à esquerda do que Obama em questões domésticas, mas está bem mais à direita em política externa. Bernie Sanders é o candidato mais esquerdista dos últimos tempos com possibilidade de ganhar primárias. É um velho New Dealer, simpatizante da social democracia escandinava. Defende um modelo público e universal de saúde. O Affordable Care Act do Obama, embora tenha sido um progresso em relação ao que havia antes, ainda é um remendo. Sanders também defende mais regulação do sistema bancário (proibindo múltiplas atividades), gratuidade nas universidades. Ele estaria “menos à esquerda” do que Hillary em duas questões: é menos rígido sobre controle de armas e mais rígido sobre imigração. Estas posições poderiam ser atraentes para trabalhadores brancos. Sanders quer que os democratas voltem a pensar mais em classes sociais, desfazendo a tendência democrata dos últimos 30 anos de se focar em minorias, meio ambiente e progressismo cultural (embora Sanders também não seja hostil a essas questões). Hillary é favorita para ganhar as primárias democratas, mas Sanders vem crescendo nas pesquisas. Lidera em New Hampshire, vizinho do seu estado Vermont. Mesmo se Sanders não ganhar, ele tem o poder de forçar Hillary a se mover um pouquinho mais para a esquerda.

Minha aposta para novembro? Hillary Clinton derrota Marco Rubio, fazendo 51% a 48% (e 1% para os nanicos) no voto popular, e com o mapa a seguir. Ela obteria 294 votos no Colégio Eleitoral.

previsão novembro 2 2016

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