Sobre aquela história dos países que fizeram políticas conservadoras e “estão bem”

Quem lê cadernos de Economia e Negócios dos jornalões ou periódicos especializados certamente se deparou com aquelas histórias de países que implementaram políticas sugeridas por formadores de opinião de direita e que estão tendo elevadas taxas de crescimento do PIB. Essas histórias são contadas como fábulas moralistas, como a da cigarra e das formigas.

Entre as políticas de direita sugeridas estão a redução de impostos e a consequente redução do gasto público, incluindo o social, a “flexibilização” das leis trabalhistas, as privatizações, a independência da autoridade monetária e o investimento em educação voltado ao ensino técnico e às áreas tecnológicas, em detrimento das humanas, e o fim da gratuidade das universidades públicas.

O que se pode dizer deste tipo de texto? Bom, …

  1. Em algumas, há o cherry picking de resultados bons. Pega-se o caso de um país que teve políticas de direita, e selecionam-se apenas os resultados bons para mostrar. E às vezes, exageram-se os resultados. Um exemplo disso é o México. É um dos poucos países da América Latina que não entraram na onda populista, como dizem os detratores desta onda, ou na onda progressista, como dizem os defensores. O México, desde 1988, vem tendo ininterruptamente governos neoliberais, sejam do PRI, sejam do PAN. Por isso, essa mencionada imprensa tenta vender o México como um caso de sucesso. Mas nem no PIB isto aconteceu. De 1988 até hoje, o PIB per capita mexicano cresceu aproximadamente 1,5% ao ano. Não é ruim, mas está longe de ser um desempenho espetacular.
  2. Em algumas, há o cherry picking de políticas de direita. O Chile, país latino americano com os melhores indicadores econômicos e sociais, é apontado como um modelo de país que teria rejeitado o big government. É feito um cherry picking para ignorar que o Chile só começou a prosperar depois que as políticas radicais dos Chicago Boys aplicadas nos anos 1970 foram abandonadas nos anos 1980. Que o Chile foi pragmático suficiente a ponto de manter um controle de capitais. E que a carga tributária do Chile é apenas aparentemente baixa. Se forem considerados não apenas impostos, mas também a receita da atividade estatal de exploração de cobre, a carga tributária do Chile não é baixa.
  3. Muitas vezes, é verdade mesmo. As políticas sugeridas pelas organizações que representam o capital são mesmo responsáveis por taxas mais elevadas de crescimento do PIB e taxas mais baixas de desemprego.

Quer dizer que essas políticas devem ser feitas? Não! Em primeiro lugar, por causa do motivo que mais gente conhece: PIB não é tudo. Se o crescimento é feito de forma concentrada, poucas pessoas se beneficiam. E mesmo se o crescimento por difundido, permitindo todos consumirem mais, não há necessariamente aumento de qualidade de vida. As pessoas podem comprar mais carros, mas morar em cidades mais congestionadas e poluídas. O país pode ter desemprego baixo, mas um emprego muito precário, pior do que a vida com seguro desemprego em outros países.

Mas este texto destaca o segundo motivo pelo qual as políticas de direita não são recomendáveis: se um país implementar individualmente as políticas da direita, sua economia terá vantagem em comparação com a de outros países. Mas se todos os países implementarem as políticas de direita, o resultado não será melhor do que se nenhum implementar. Trata-se de um típico “dilema dos prisioneiros” (quem não está familiarizado com o termo, clique aqui para entender melhor), abordado pela Teoria dos Jogos.

A tabela a seguir mostra um exemplo com dois países, A e B. Cada um deles tem a opção de implementar ou não as políticas de direita. No lado esquerdo dos parênteses, está o ganho obtido pelo país A. No lado direito dos parênteses, está o ganho obtido pelo país B.

País A / País B Implementa Não implementa
Implementa (1,1) (3,0)
Não implementa (0,3) (2,2)

 

Ou seja, independentemente da decisão do outro país, implementar é vantajoso. Mas se os dois não implementarem, o resultado será melhor do que se implementarem. Esta situação pode até ser ilustrada por uma anedota em que havia dois caipiras andando na roça, quando um deles viu um cocô de vaca no chão e falou “aposta 100 reais que eu como um pouco da merda?”, o outro concordou. O caipira que propôs cumpriu a promessa e ganhou 100 reais. O outro, para não ficar no prejuízo, propôs a mesma aposta, cumpriu e ganhou os 100 reais de volta. Aí um deles concluiu “cê repareu que comemos merda de graça?”.

Como isto ocorre na prática?

Se um país cobra impostos muito elevados dos ricos, eles se mudam para outro país. Se um país deseja manter uma grande rede de proteção social, necessita de impostos. E se não pode cobrar impostos altos de renda e patrimônio pelo motivo anteriormente mencionado, tem que optar pelo imposto sobre circulação de mercadorias. Aí surge outro problema: encarece seus produtos em comparação com os estrangeiros. Se um país tem sindicatos fortes e uma legislação que protege muito os trabalhadores, as empresas procuram investir em outro país. Além disso, os custos mais altos do trabalho gerados também encarecem seus produtos em comparação com os estrangeiros. O mesmo ocorre se um país tem uma legislação ambiental muito rígida. E se um país oferece vagas gratuitas nas universidades, suas universidades serão mais pobres e não se posicionarão muito bem em rankings internacionais. Se um país investe dinheiro em ciências sociais e filosofia, fica tecnologicamente “para trás” em comparação com o país que investe mais em engenharias e em ensino técnico.

O que ocorreria se o mundo tivesse um único governo? Cobrar uma alíquota marginal de imposto de renda próxima de 100% para rendas muito elevadas continuaria sendo problemático porque desestimularia a geração de renda e a poupança. Mas uma alíquota marginal de 70% para rendas anuais superiores a um milhão de dólares seria perfeitamente possível. Os países desenvolvidos têm alíquota marginal máxima de imposto de renda por volta de 45%. Países são desestimulados a individualmente elevar a alíquota máxima de imposto de renda para mais de 50% não pelo risco desestimular o trabalho dos milionários, mas sim pelo risco de gerar êxodo de milionários. O progresso técnico, com o decorrente aumento de produtividade, permitiria diminuir a jornada de trabalho. Seria o lema “trabalhar menos para todos trabalharem”. Mas o que ocorre é que quando um país tenta individualmente reduzir a jornada para um patamar inferior ao de 40 horas semanais, o desemprego aumenta ao invés de diminuir, porque o custo do trabalho se torna maior. É difícil para um país individualmente utilizar políticas fiscal e monetária expansionistas para combater uma recessão, porque grande parte da demanda estimulada é direcionada para produtos importados. Quando líderes socialistas chegam ao poder, como ocorreu na França em 2012 e na Grécia em 2015, eles são obrigados a recuar, porque não têm margem para fazer políticas progressistas sozinhos. Há uma guerra fiscal internacional, uma race to the bottom. O “socialismo em um só país” é difícil de ser implementado não apenas em sua versão marxista-leninista, mas até mesmo em sua versão social democrata, como se pode ver na França, na Grécia e até mesmo no Brasil.

 

Se houvesse um único governo, não haveria a competição entre governos para precarizar seus mercados de trabalho nacionais, visando atrair empresas através do custo baixo do trabalho, e colocar mercadorias baratas no mercado mundial. O mesmo se aplica para legislação ambiental. Se não houvesse a competição internacional, o investimento em ensino superior poderia ser balanceado entre os objetivos de tornar a sociedade mais culta, aumentar a tecnologia, tornar o ensino acessível a quem estivesse mais interessado e dedicado, independente de origem social. O investimento poderia ser balanceado entre tecnologia, ciências naturais e ciências sociais. Com a competição internacional, os países preferem dar enfoque à tecnologia, ao conhecimento aplicado naquilo que pode virar novos produtos comercializáveis e novos processos produtivos, em detrimento da pesquisa básica em ciências naturais, e das ciências sociais. Progresso tecnológico é muito bom. Mas é questionável os governos alegarem que não podem investir muito em sociologia, antropologia, história e filosofia porque precisa aplicar os recursos escassos em áreas que permitam produzir telefones celulares e lap tops cada vez mais sofisticados. Não precisamos de toda essa sofisticação. O lap top que estou usando para escrever este texto não é de última geração, e mesmo se fosse mais antiquado do que realmente é, seria útil para esta tarefa do mesmo jeito. Mas nós não podemos ficar para trás em tecnologia…

A mistificação das políticas de direita ganhou força com a contra-revolução conservadora que ocorreu na década de 1980 no Reino Unido, com Margaret Thatcher, e nos Estados Unidos, com Ronald Reagan. Outros países desenvolvidos também tiveram governos de direita no período, mas as mudanças não foram impactantes. As duas potências anglo-saxãs tinham, no imediato pós-guerra (1945-1980), alíquotas superiores de imposto de renda maiores do que as dos países europeus continentais. A concentração de renda dos Estados Unidos e do Reino Unido era semelhante à da França e da República Federal da Alemanha. Depois da guinada da década de 1980, os Estados Unidos e o Reino Unido passaram a ter alíquota máxima de imposto de renda inferior à dos países europeus continentais, mesmo tendo a destes decrescido também. Os anglo-saxões também tiveram crescimento da concentração de renda, enquanto esta variável permaneceu razoavelmente estável na Europa Continental. O Reino Unido ainda fez um grande programa de privatizações. Os Estados Unidos já não tinham muito o que privatizar. Entre 1945 e 1980, os Estados Unidos e o Reino Unido tinham as mais baixas taxas de crescimento do PIB entre os países desenvolvidos. A partir de 1980, passaram a ter taxas de crescimento do PIB acima da média dos países desenvolvidos. A guinada conservadora foi vista por alguns como a responsável pela recuperação do mundo anglo-saxão.

Mas isto deve ser visto com cautela. Os Estados Unidos tiveram taxas de crescimento do PIB mais elevadas, mas também tiveram crescimento populacional mais elevado. Considerando o PIB per capita, os Estados Unidos tiveram entre 1980 e 2014 um crescimento anual médio de 1,7%. O Reino Unido, teve 1,9%. A França teve 1,3%, A Itália teve 0,9%. A Alemanha teve 1,5%. A Suécia teve 1,7%. A Finlândia teve 1,6%. Ou seja, a diferença de crescimento dos anglo-saxões com alguns europeus continentais nem tão grande assim foram. E parte do crescimento superior dos anglo-saxões foi causada por crescimento do número de horas trabalhadas, e não por crescimento de produtividade. Ou seja, a população aumenta o consumo, mas também aumenta o trabalho. Ganha qualidade de vida por um lado, mas perde em outro.

Mas ainda assim, continua sendo verdade a afirmação de que antes da contra-revolução conservadora, os Estados Unidos e o Reino Unido tinham taxas de crescimento do PIB per capita inferiores à da média dos países desenvolvidos, e depois passaram a ter taxas superiores. Porém, os dois anglo-saxões não tiveram taxas de crescimento superiores depois de 1980 do que antes dessa data. Foram os outros países desenvolvidos que tiveram declínio do crescimento.

Na América Latina, os good boys dos conservadores são o México, a Colômbia, o Peru e o Chile. Os problemas de mencionar o México e o Chile já foram mencionados no início do texto. As monarquias árabes são as favoritas dos conservadores. Na Europa da década de 2000, a Alemanha entrou na onda conservadora, primeiro com o social democrata Gehrard Schröder e depois com a democrata cristã Angela Merkel. Houve uma política de austeridade fiscal, mantida mesmo com inflação próxima de zero, e políticas deliberadas para reduzir salários. O resultado é que o desemprego caiu e o PIB, estagnado nos anos 1990, voltou a crescer. Isto ocorreu em detrimento de países do sul da Europa, que tiveram que passar por recessão muito grande para poder ter custos baixos de trabalho iguais aos da Alemanha. Mesmo para a Alemanha, é possível criticar estes “efeitos positivos”. O desemprego foi trocado por emprego pouco protegido para alguns trabalhadores. A concentração de renda na Alemanha, que já foi uma das mais baixas do mundo, vem aumentando.

Entre 1945 e 1980, os países desenvolvidos tiveram políticas que hoje seriam consideradas de esquerda, mas que naquele tempo em que o capitalismo precisava mostrar que poderia ser melhor para os trabalhadores do que o comunismo, tanto esquerda, quanto direita aceitavam. Entre estas políticas, se incluem a elevação do salário mínimo acompanhando a elevação da produtividade, a elevada taxa de sindicalização, o controle do fluxo de capitais, o uso de políticas anticíclicas de estabilização, e um elevado imposto de renda para os muito ricos. E foi o período em que os países desenvolvidos tiveram o maior crescimento do PIB per capita de sua história. Não é possível atribuir tudo à reconstrução do pós-guerra, porque este crescimento elevado prosseguiu para além do tempo da reconstrução. Só terminou em 1974, com o primeiro choque do petróleo. Foi possível conciliar crescimento acelerado com políticas não concentradoras de renda, porque todos os países fizeram isso junto.

Como resolver este problema e tornar possível ocorrer novamente no mundo o que ocorreu com os países desenvolvidos entre 1945 e 1973? Como parar de comer cocô de graça?

Um governo mundial seria uma ideia irrealista. Mas poderíamos pensar em uma coordenação internacional para implementar políticas progressistas. Se já existe coordenação para diminuir barreiras comerciais, via OMC e acordos regionais, poderia haver uma coordenação para ser criado um piso de imposto de renda. Poderia ser combinado, por exemplo, que nenhum país poderia ter alíquota marginal de imposto de renda menor do que 60% para rendas superiores a dois milhões de dólares por ano. Assim, seria impossível os milionários procurarem país que cobra imposto baixo. Poderia haver um piso de legislação trabalhista. Nenhum país poderia ter um mercado de trabalho mais “flexível” do que o permitido pelo piso. Assim, as empresas não poderiam mais procurar países com mercado de trabalho mais precário. O mesmo valeria para legislação ambiental. Em caso de desaceleração econômica mundial, poderiam ser feitas políticas expansionistas coordenadas, uma vez que políticas expansionistas individuais, como ocorreram no Brasil entre 2010 e 2014, são inócuas. Desde 2008, o mundo tem superprodução industrial e falta de demanda para o que é produzido.

 

Observação: mesmo eu tendo concordado que com uma economia global e com estados nacionais agindo sem coordenação, políticas conservadoras podem sim ser melhores para o crescimento, mais uma ressalva, além das apresentadas no texto, deve ser feita. O Brasil tem uma economia patinando há seis anos. É comum ver na grande mídia os pundits dizerem que isto ocorre porque o Brasil é um país social democrata demais. Isto é cherry picking. É verdade que o Brasil tem um gasto em educação, saúde, previdência e transferência de renda como proporção do PIB maior do que o de países com PIB per capita semelhante. Mas o Brasil também tem um sistema tributário composto em sua maior parte por impostos sobre consumo, que pesam mais no bolso do pobre, como os conservadores desejam. A alíquota marginal máxima de imposto de renda de pessoa física, de 27,5%, é uma das mais baixas do mundo, inferior não apenas à de países desenvolvidos, como inferior à do Chile também. O salário mínimo do Brasil é bem menor do que o salário médio, ou seja, há pouca regulação governamental sobre fixação de salários. O atual salário mínimo brasileiro equivale a aproximadamente um euro por hora. O atual salário mínimo francês é de onze euros por hora. E a França tem PIB per capita que é apenas três vezes o do Brasil. Uma parcela não desprezível dos brasileiros utiliza serviços privados de educação e saúde (o autor deste texto inclusive). O Imposto de Renda até incentiva. Em poucas palavras: o Brasil tem muitas coisas que conservadores gostam, e mesmo assim não tem economia bombando.

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Riad, capital da Arábia Saudita

O Atlas das Eleições Presidenciais no Brasil

Aproveito o espaço para divulgar um trabalho que iniciei em 2011 e obviamente atualizei no ano retrasado que é o “Atlas das Eleições Presidenciais no Brasil”.

Tem os resultados das eleições presidenciais brasileiras total e por estado de 1945, 1950, 1955, 1960, 1989, 1994, 1998, 2002, 2006, 2010 e 2014. Também tem os mapas pintados por estado. Sim, eu sei que estes mapas pintados são mais usados nos Estados Unidos, onde o uso faz mais sentido por causa do sistema deles, mas mesmo no Brasil, onde os resultados por estado não contam, estes mapas são úteis como visualizadores de distribuição geográfica de influência política.

A partir de 1989, também há resultados por município. E rankings de estados e municípios, do mais “vermelho” para o mais “azul”, baseados nos resultados de 1989 a 2014. E os resultados por zona nos municípios de São Paulo e Rio de Janeiro. Para as eleições de 1989, 2002 e 2006, ainda há um mapa pintado de microrregiões.

Para ver o “Atlas das Eleições Presidenciais no Brasil”, clique no link

https://sites.google.com/site/atlaseleicoespresidenciais/

mapacor2014

Semelhanças e diferenças entre o Sargento Pimenta e o Lu e Cru

blocos roqueiros

Este texto é off para o site. Não sou crítico profissional de música. Tudo que escreverei a partir de agora será palpite. É sobre música. Mais especificamente sobre música no carnaval. Como hoje foi o último dia de carnaval na prática (na teoria já terminou faz cinco dias), aproveito para falar dos blocos roqueiros do carnaval do Rio de Janeiro: o Sargento Pimenta e o Lu e Cru. Na verdade, não são blocos, são dois conjuntos. Blocos andam. Estes dois conjuntos tocam estáticos em praças públicas no Carnaval ou em casas noturnas, em outras épocas do ano.

O Sargento Pimenta é mais conhecido. Mistura as músicas dos Beatles com samba e outros ritmos brasileiros. Tem uma banda com instrumentos de rock, com integrantes vestindo camisetas que lembram os trajes da capa do álbum Sgt. Peppers, e uma bateria de escola de samba. Estreou no carnaval do Rio de Janeiro em 2011, em Botafogo. Por causa do grande público atraído, desde 2012, toca na segunda-feira de carnaval durante o dia no Aterro do Flamengo. A audiência provavelmente passa de dez mil pessoas. Toca em outras cidades brasileiras em fins de semana próximos ao carnaval. E tocou em Londres durante as Olimpíadas de 2012.

O Lu e Cru, mesmo sendo o primo pobre, é um pouco mais antigo, foi formado em 2008. Mistura clássicos do rock de diferentes bandas com samba e outros ritmos brasileiros. O repertório tem, entre outras, Enter Sandman, Fear of the Dark, Come as You Are, Seven Nation Army, Should I Stay or Should I Go, Hey Ho, Sweet Child o Mine e Creep. É composto pela vocalista Lu Baratz, por um trio de instrumentistas de rock (guitarra elétrica, baixo, bateria) e um trio de percussionistas de escola de samba. Até 2011, tocava em Botafogo. A rua apertada onde tocava atraia várias pessoas, que ficavam espremidas. Apesar de ser a cara de Botafogo, o grupo deixou o bairro para poder tocar em um local que tivesse espaço para público maior. Entre 2012 e 2014, tocou na Praça XV nas segundas-feiras de carnaval, à noite. Em 2015, não se apresentou no carnaval porque a vocalista estava tendo filho. No carnaval de 2016, não tocou em espaço aberto. Se apresentou no Teatro Odisseia, na Lapa. Muitas pessoas não conseguiram entrar, porque o espaço era pequeno.

Apesar da proposta parecida, há uma relevante diferença entre os dois conjuntos: o Sargento Pimenta é mais integrado ao carnaval. Talvez porque as músicas dos Beatles são mais camaleão. É possível fazer qualquer coisa com elas. Não é à toa que os roqueiros mais fanáticos não são muito simpatizantes dos Beatles. Se você digitar no Google “Beatles não é rock”, entre aspas, você encontrará 1.040 referências. Apesar do Sargento Pimenta ter os instrumentos musicais de rock, em vários trechos, escuta-se principalmente a voz, a batucada e alguns instrumentos de sopro. A guitarra elétrica aparece, mas nunca rouba o protagonismo. O colorido do palco e das roupas dos músicos mantém a cara de carnaval.

O Lu e Cru, por sua vez, está mais para uma pausa de duas horas do carnaval de cinco dias, do que para carnaval propriamente dito. Ou talvez, uma trollagem do carnaval. Lembro-me de que quando eu era adolescente, meus amigos e eu brincávamos dizendo “já pensou carnaval com Radiohead?”. Isto porque seria difícil achar algo mais anti-carnaval do que inglês depressivo. Aí dez anos depois, eu vi centenas de pessoas pulando carnaval ao som de Radiohead. Nem todos sabiam a letra inteira, mas ouvi inúmeras vozes cantando o refrão “but I’m a creep, I’m a wierdo, what the hell am I doing here” Foi inusitado. Isto ocorreu em 2011, quando eu descobri o “bloco” por acaso. A apresentação ainda ocorria em Botafogo. O Lu e Cru no carnaval é um grande espetáculo de humor involuntário. As versões das músicas são boas, os instrumentistas são talentosos, a Lu Baratz tem voz boa e uma ótima presença de palco, até porque a área de formação original dela é o teatro. Além disso, ela é muito bonita e, provavelmente, muito marmanjão de roupa preta queria casar com ela. Mas ainda assim, continua sendo um creep dentro do carnaval. Assim como o Sargento Pimenta, o Lu e Cru introduz bateria de samba no rock e também toca alguns ritmos brasileiros. Mas diferente do Sargento Pimenta, o Lu e Cru continua sendo uma banda de rock. Entre 2012 e 2014, quem estava se aproximando, ou se afastando, da Praça XV e ouvia o som sem nitidez, sentia nos ouvidos a guitarra elétrica dominando. Os músicos se vestem de preto. Quem quiser saber um pouco mais sobre a história do Lu e Cru, pode clicar aqui.

Considero que ver uma ou duas vezes o Lu e Cru no carnaval é o suficiente. Levar visitante de fora para conhecer também é recomendável. Mas fora isso, considero este conjunto melhor para ser ouvido fora do período de carnaval, em casas noturnas.

Além do Sargento Pimenta e do Lu e Cru, há outras atrações no carnaval do Rio de Janeiro fora dos ritmos musicais tradicionais do carnaval brasileiro. Tem o Toca Raul, que faz a mesma mistura com as músicas do Raul Seixas. E o festival de Jazz da Lavradio, que tem a cara do carnaval de New Orleans. Todas estas atrações são lotadas. As pessoas gostam do carnaval tradicional, mas se a festa vai de sexta à tarde até terça à noite, uma ou outra variação de vez em quando faz bem. Os puristas podem não gostar, assim como os puristas do rock criticam o excesso de não roqueiros no Rock in Rio. Mas grandes festividades são assim mesmo, diversificadas. Comer salada em churrascaria pode ser estranho. Mas se você, por uma semana seguida, tomar café da manhã, almoçar e jantar em uma churrascaria, muito provavelmente você vai querer comer salada uma vez ou outra.

 

 

Uma reflexão sobre a caixa de bombons do Clarion

Neste texto, eu vou refletir sobre a metáfora da caixa de bombons do Clarion. Eu faço reflexão, não faço problematização. Quem ainda não viu este vídeo do Clarion deve fazer isso antes de ler este texto (clique aqui para ver o vídeo). Só entenderá este texto quem já viu o video.

Peço mais uma vez. Ainda não viu o vídeo, clique e veja o vídeo, antes de continuar a ler este texto.

 

Bom, viu? Então vamos lá.

Clarion fez uma metáfora. Ele comparou caixas de bombons com ideologias políticas. A caixa da Garoto seria uma ideologia. A caixa da Nestlé seria outra ideologia. Os bombons dentro de cada caixa seriam os posicionamentos daquela ideologia sobre cada assunto. Ele quis dizer no vídeo que ninguém é obrigado a aceitar uma ideologia completa, ou seja, uma caixa de bombons fechada. Os indivíduos teriam que ter a possibilidade de fazer sua própria caixa com bombons escolhidos livremente, ou seja, ter o posicionamento de uma ideologia em um assunto, e ter o posicionamento de outra ideologia em outro assunto. Ele não utilizou este exemplo, mas vamos utilizá-lo para ficar mais fácil de entender. Imaginem que uma caixa de bombons seja a ideologia progressista. A outra seja a ideologia conservadora. Na caixa progressista, há um bombom que representa a posição favorável à adoção de crianças por casais homossexuais, um bombom que representa a posição favorável à legalização do aborto, um bombom que representa a posição favorável à legalização da maconha e um bombom que representa a posição favorável às cotas. Na caixa conservadora, há um bombom representando a posição contrária a cada uma dessas questões. Em geral, as pessoas são a favor dos quatro ou contra os quatro. Mas ninguém é obrigado a ser assim. Tem gente que pode ser a favor da adoção de crianças por casais homossexuais, a favor da legalização do aborto, a favor da legalização da maconha, mas contra as cotas. Neste caso, não pegaria nem a caixa progressista inteira, nem a caixa conservadora inteira, mas sim três bombons da caixa progressista e um bombom da caixa conservadora.

A metáfora é boa? Sim. Clarion está correto? Sim. Mas…

O raciocínio aplicado por Clarion na metáfora se aplica melhor para pessoas como ele. Clarion é um professor de ciências naturais que também tem opiniões sobre política e filosofia. Ele faz vídeos com o objetivo de melhorar o conhecimento das pessoas. Isto é bom. Mas ele não está envolvido em movimentos por grandes transformações sociais, políticas e econômicas. Por isso, é mais fácil ter carreira solo, e, dessa forma, montar a própria caixa de bombons.

Quem faz militância em partidos, sindicatos, ONGs e movimentos sociais visando grandes transformações não pode se dar ao luxo de lutar pela sua personal chocolate box. Explicação muito simples: militância se faz em grupo. Uma militância de uma pessoa só não teria muito efeito. Mesmo se essa uma pessoa for um líder, este líder precisaria de seguidores para ser líder.

Continuando a metáfora dos bombons, devemos lembrar que a caixa da Garoto tem 12 tipos diferentes de bombom. A da Nestlé também (não sei se é isso exatamente, mas vamos considerar que sim). Se eu não quiser ter apenas duas opções, Garoto ou Nestlé, mas quiser montar minha própria caixa de 12 bombons, podendo pegar tanto bombons Garoto, quanto Nestlé, eu poderia fazer 2.704.156 combinações diferentes. A conta é 24!/(12!*12!). Imaginem se existissem 2.704.156 movimentos diferentes. Cada movimento teria um ou mesmo zero militante. Portanto, para que movimentos sejam numerosos e tenham alguma influência, é preciso lutar pela caixa da Garoto, ou da Nestlé, ou da Lacta inteiras.

Nem todo militante precisa, por convicção pessoal, preferir todos os bombons de sua própria caixa. É perfeitamente possível preferir um ou outro bombom de outra caixa. E até mesmo expressar esta preferência. Não defendo o centralismo democrático. Exemplo mais recente de preferência por bombom de outra caixa foi a opinião de Jean Wyllys sobre Israel, que é diferente da opinião de seu partido. Ainda assim, quem se dedica à militância, mesmo preferindo um ou outro bombom de outra caixa, deve entender que para atingir um determinado objetivo, as preferências individuais por outros bombons são menos importantes do que a luta pela caixa.

Isto vale até para eu decidir o que escrever aqui neste site. O Trincheiras não foi criado para ser um vale tudo. Foi criado para ser um site de esquerda. Aqui se encontram críticas às visões de mundo difundidas pela mídia dos Marinhos, dos Civitas, dos Mesquitas e dos Frias. Eu não tenho opiniões de esquerda em todos os assuntos. Não considero que os Marinhos, os Civitas, os Mesquitas e os Frias estejam errados em 100% dos assuntos. Mas não vou escrever para este site as opiniões que eu tenho que não são de esquerda. Elas não são relevantes no momento. Quem tem essas opiniões já tem meios suficientemente fortes para difundi-las. Só de vez em quando eu expressarei aqui o que eu discordo da maior parte da esquerda, no momento em que eu considerar que faz mal para a esquerda ter determinada opinião. Fora isso, prefiro expressar as poucas opiniões minhas que não são de esquerda apenas oralmente, no Facebook pessoal, no Twitter pessoal, no Blog pessoal, e principalmente, quando for perguntado.

Embora eu admita que é perfeitamente possível um militante preferir um ou outro bombom de outra caixa, não fosso deixar de mencionar que alguns bombons de caixas diferentes são perigosos. Como expressei aqui mesmo neste site, estou preocupado porque há marxistas-leninistas sendo influenciados pela Quarta Teoria Política, próximos de falar “Aiatolá Khomeini era legal, pois peitou o imperialismo estadunidense”, e também porque há adeptos da Nova Esquerda sendo influenciados pelo libertarianismo, próximos de falar “Milton Friedman era legal, pois era a favor da legalização da maconha e contra o serviço militar obrigatório”. Referências intelectuais são importantes não para proibir bombons de outra caixa, mas para desestimular quando esses bombons são perigosos.

Por fim, uma autocrítica: como este texto foi escrito já nas proximidades da Páscoa, corro o risco de ter incentivado o consumo excessivo de calorias.

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Análise da primeira noite dos Desfiles das Escolas de Samba do RJ

Devidamente descansado, breves considerações sobre essa madrugada vindas deste humilde folião. Minhas opiniões são baseadas no que vi e ouvi a partir do setor 2, onde estava, e na cobertura da Rádio Tupi:

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Estácio: Considero a melhor apresentação em alguns anos de uma escola que sobe para do Acesso para o Grupo Especial e tem a difícil missão de abrir a noite. Achei a entrada da escola bastante imponente, apesar da demora para o segundo carro entrar na pista. Porém, com um enredo sobre São Jorge, acho, no mínimo, curioso que o desfile tenha explorado pouco a devoção ao Santo Guerreiro no Brasil e o sincretismo com religiões de matriz africana. A meu ver isso, empobreceu o desfile.

União da Ilha: Sinceramente, não esperava muito da Ilha desde que se propôs, por iniciativa da própria diretoria, a ser a segunda escola a desfilar. Esperava menos ainda pela escolha original do enredo – as Olimpíadas de 2016, visando captar patrocínio da Prefeitura. Como o patrocínio não veio, a Ilha optou por uma alternativa mais carnavalizada e com a cara da agremiação, que foi idealizar um tour dos deuses do Olimpo no Rio de Janeiro. Gosto da proposta, mas, na minha concepção, foi mal realizada em termos plásticos. As fantasias, que representavam personagens e elementos típicos do universo carioca, poderiam ter sido de maior fácil leitura, mas infelizmente não foi o que vi. O samba já fraco foi, vergonhosamente, executado de forma aceleradíssima. Ponto positivo para a comissão de frente.

Beija-Flor: Esperar o que da Beija-Flor? A única escola da noite, do meu ponto de vista, que disputa o campeonato. O começo do desfile – o abre-alas dourado e riquíssimo e o mais deslumbrante casal de mestre-sala e porta-bandeira do carnaval, Selminha e Claudinho – foi a imagem mais marcante do carnaval, até o presente momento, para mim. A escola abriu seu carnaval como o rolo-compressor de sempre, dando uma aula aberta de Evolução e Harmonia. A comunidade nilopolitana cantando o samba – cuja letra é limitada e merece uma canetada dos jurados – a plenos pulmões. Porém, como já achava antes do carnaval, o enredo sobre o Marquês de Sapucaí – não a Avenida, mas o personagem histórico – não é o dos que mais me agrada. A meu ver, Marquês de Sapucaí não tem a relevância histórica para o Brasil como enunciada no carnaval da Beija-Flor. Além disso, a partir do quarto setor, ficou nítido que a falta de recursos, conseqüência também da ausência de patrocínio da cidade mineira de Nova Lima, comprometeu o acabamento das alegorias. Por fim, convém dizer: durante a Beija-Flor, eu ouvi feliz uma bateria de escola de samba tocando… SAMBA! Samba mesmo! Parece redundante, mas, lamentavelmente no carnaval de hoje, não é…

Grande Rio: O show de horrores da noite! Uma escola de samba que se deseja representar o carnaval do Grupo Especial, o “maior espetáculo da Terra”, não pode apresentar um equívoco audiovisual daqueles. A começar pelo samba sofrível e pessimamente executado pela bateria. A Grande Rio já mantém a infeliz tradição de trazer “enredos CEP” – sobre cidades, sempre tentando captar patrocínio da prefeitura local –, mas, dessa vez, o desenvolvimento da temática chegou ao intragável. A escola deixou de falar da história de Santos, a cidade homenageada, para falar sobre Neymar e Pelé. Uma alegoria abordava o ciclo cafeeiro, quando, abruptamente, colocam um tripé de bola de futebol com o pai do Neymar em cima. Depois, voltaram no tempo para homenagear o Pelé. Terminou o desfile fazendo referência ao cruzeiro do Roberto Carlos, já que, afinal, eles partem de Santos (oh, que genial!). Em suma, um bololô digno de canetadas pesadas do jurado. O pior desfile da noite!

Mocidade: Já imaginava que o enredo confuso – Dom Quixote veio para o Brasil lutar contra nossas mazelas históricas, incluindo a corrupção – estaria cotado para perder pontos antes mesmo do desfile. Mas confesso que, no começo, fiquei satisfeito com o canto da escola, visivelmente mais empolgada que em anos anteriores e interessada em reafirmar sua presença como agremiação grande do Grupo Especial. Infelizmente, uma série de problemas nos carros alegóricos comprometeu a apresentação, além da própria falta de acabamento. O último carro, com a escultura do Jorge Perlingeiro (!?!), estava com a parte traseira totalmente, e é óbvio que os jurados descontarão pontos. O atraso para a alegoria entrar na pista também dificultou a Evolução. Vi ainda as alas abrirem um buraco na frente da primeira cabine julgado. Jogaram o carnaval fora. Uma pena…

Unidos da Tijuca: Nenhuma escola de samba hoje no Grupo Especial tem um domínio tão amplo da técnica do desfile como a agremiação do Borel. Nenhuma escola sabe tão perfeitamente o que está fazendo na Avenida como a Unidos da Tijuca. Um espetáculo para os olhos e ouvidos assistir como a Tijuca flui no Sambódromo, o que é garantia das já costumeiras notas 10 em Evolução e Harmonia. Além disso, a escola tem a melhor bateria do Rio de Janeiro e, ao contrário de anos anteriores, contou com um sambaço, melodioso e de letra clara, o mais bonito da noite. O enredo, fruto de outro patrocínio que não veio – a cidade Sorriso, no Mato Grosso, a maior produtora de soja do país –, tentou deixar de lado, em parte, o triste foco no agronegócio para se ater romanticamente à vida do homem do campo. Considero as fantasias de fácil leitura da noite, representando as etapas do processo agrícola e todo universo cultural rural. A escola meteu os pés pelas mãos a partir do quarto setor nas alegorias, com acabamento bem duvidoso. Não curti em nada o desenho do quinto carro sobre plantação de milho. Também não consigo me emocionar vendo fantasias representando aviões pesticidas. A Kátia Abreu não desfilou?

 

 

Gabriel Deslandes é jornalista formado pela UFRJ.

Sobre o complexo de rottweiler presente no Brasil

O complexo de rottweiler é o oposto do complexo de vira lata. É o sentimento de arrogância do brasileiro quando se compara com o resto do mundo. Este texto não pretende defender o complexo de vira lata, que também é ruim. Se faltassem textos criticando o complexo de vira lata, eu escreveria um. Mas como já há textos criticando o complexo de vira lata, preferi escrever um texto criticando o complexo de rottweiler, que é igualmente nefasto. Os complexos de vira lata e de rottweiler se alternam como um pêndulo.

Muitos brasileiros gostam de satirizar gringos que acham que nós hablamos espanhol, que nossa capital é o Rio de Janeiro ou até mesmo Buenos Aires, que a Floresta Amazônica ocupa todo o território brasileiro, que tem carnaval todo dia, que as mulheres brasileiras estão sempre usando biquíni e um cesto de frutas sobre a cabeça. Mas o que sabemos sobre a Ásia? O que sabemos sobre a África? O que sabemos sobre nossos vizinhos da América Latina? É comum ver brasileiros “cultos” falarem com naturalidade frases como “o risco do Brasil virar uma Argentina”, “o risco de mexicanização da economia brasileira” ou “vai pra Cuba”. Ora porra, que arrogância é essa? Qual motivo para ter sentimento de superioridade em relação à América Espanhola? A Argentina e o México têm PIB per capita, expectativa de vida e alfabetização maiores que os do Brasil. Cuba não tem PIB per capita maior, mas tem expectativa de vida e alfabetização maiores. O Brasil só é o país número um da América Latina porque tem população maior e PIB total maior, mas o PIB per capita do Brasil é aproximadamente igual ao da média da América Latina. A expectativa de vida e a alfabetização do Brasil são menores do que a média da América Latina. Muitos já sabem que Argentina, Uruguai, Chile, México e Cuba têm expectativa de vida maior que a do Brasil. Mas é preciso esclarecer que Colômbia, Equador, Venezuela, República Dominicana, Costa Rica e Panamá também têm. Grande parte do diferencial de qualidade de vida entre a Argentina e o Brasil é herança do passado. De fato, no início do século XX, não apenas o PIB per capita, mas até mesmo o PIB total da Argentina superava o do Brasil. Por muitos anos ao longo do século XX, o Brasil teve crescimento maior. Mas no século XXI, o PIB da Argentina voltou a crescer mais que o do Brasil.

O desconhecimento, o isolamento e a arrogância presente no Brasil em relação a seus vizinhos de língua espanhola pode ter a geografia como um importante incentivador. O Brasil tem uma fronteira terrestre de 16 mil quilômetros de extensão, mas mesmo assim parece uma ilha. As maiores regiões metropolitanas estão bem distantes da fronteira. As únicas aglomerações urbanas razoáveis localizadas perto de outros países são as regiões de Foz do Iguaçu, Uruguaiana e Corumbá. Fora isso, as proximidades das fronteiras são vazios demográficos. A maioria das viagens do Brasil para outros países da América do Sul é feita através do transporte aéreo.

E diferente do que monarquistas dizem, não há motivos para considerar que o Brasil teve um passado mais glorioso que os países americanos de língua espanhola por causa do Império. É verdade que o Império conseguiu manter o território brasileiro unido, diferente da América espanhola, partida em várias repúblicas. Mas foi já no período do Império que o Brasil começou a ficar para trás em desenvolvimento econômico em comparação com Argentina e México. É importante lembrar também que o Brasil foi ter sua primeira universidade já no período republicano, em 1920. O México e o Peru têm universidades desde o tempo colonial.

O fato do Brasil ser praticamente uma ilha serve de gancho para questionar outra afirmação do complexo da rottweiler. A do “Brasil terra da diversidade, Brasil que acolhe todo mundo de braços abertos, Brasil da tolerância”. Segundo o Censo de 2010, a população residente do Brasil é de 190.755.798, sendo 190.163.229 brasileiros natos, 161.250 brasileiros naturalizados e 431.319 estrangeiros. Ou seja, mesmo considerando estrangeiros os naturalizados, a participação dos estrangeiros na população residente do Brasil é de 0,3%. É um percentual muito pequeno comparável com outros países. Na França, 11,1% da população residente é estrangeira. Devemos fazer a ressalva de que a França tem território pequeno, tem muitos vizinhos, que podemos fazer analogia, em termos de território e população, da União Europeia com o Brasil e de cada país da União Europeia com um estado brasileiro. Mas estes 11,1% se divide em 3,3% de origem de outro país da União Europeia e 7,8% de fora da União Europeia. Ou seja, os estrangeiros com E maiúsculo na França (de fora da União Europeia) são 7,8%, bem acima do 0,3% do Brasil. A Alemanha tem população estrangeira correspondente a 12% da população total, sendo a população com origem fora da União Europeia também responsável por 7,8%. Isto não é prova de que o Brasil é mais fechado para estrangeiros, que os brasileiros são menos tolerantes. O percentual maior de estrangeiros na França e na Alemanha pode ser explicado pelo fato dos imigrantes procurarem países ricos. Mas fica difícil dizer que há provas de que todos os brasileiros são abertos e tolerantes, quando o país tem uma população estrangeira de apenas 0,3%. Este número não enfraquece tanto o argumento da tolerância, mas derruba o argumento da diversidade. O Brasil tem diversidade grande apenas de cores de pele. Há brasileiros índios, brasileiros descendentes de europeus, brasileiros descendentes de africanos e brasileiros descendentes de asiáticos. E há miscigenação. Mas há poucos tipos de diversidade além deste.

Metrópoles como Nova York, Londres, Paris e Berlim são muito mais diversificadas que São Paulo e Rio de Janeiro. As duas maiores cidades brasileiras têm maior participação de não brasileiros na população do que os 0,3% do Brasil como um todo. São Paulo tem 1,4%. O Rio de Janeiro tem 1,1%. Ainda assim, a diferença é muito grande com os 20% de não franceses em Paris, 25% de não alemães em Berlim, 35% de não britânicos em Londres e 35% de não estadunidenses em Nova York. Nas duas maiores cidades brasileiras, a participação de cristãos no total da população é de aproximadamente 80%, 60% católicos e 20% evangélicos, quase todos pentecostais. Nas quatro metrópoles de Primeiro Mundo mencionadas, os cristãos (de todas as ramificações somadas) não chegam a 60%. São Paulo e Rio de Janeiro têm pouca diversidade de nacionalidade e religião, mas tem grande diversidade de cor de pele. Porém, Nova York, Londres, Paris e Berlim também têm. Estas cidades têm moradores de origem europeia, africana e asiática. Não há julgamento de valor aqui. Não está sendo discutido aqui se é bom ou ruim as metrópoles brasileiras terem poucos estrangeiros e não cristãos, se é bom ou ruim ver muitos gringos budistas andando nas ruas. Estes números foram exibidos apenas para mostrar que o Brasil não é campeão mundial de diversidade, que está muito longe disso.

O que sem sombra de dúvida é negativo, neste caso é possível fazer julgamento de valor, é o que ocorreu em 1985 em São Paulo. Um candidato a prefeito foi alvo de intensa campanha negativa porque era supostamente ateu. Isto pode ter sido um dos determinantes de sua derrota. Esta situação seria inimaginável em Nova York, Londres, Paris ou Berlim.

Quanto à tolerância, sabemos que a Europa está infestada de grupos neonazistas que pregam e praticam ódio contra imigrantes, infestada de políticos de extrema-direita que disputam popularidade com o discurso anti imigrante. Mas no Brasil, essas merdas também já estão acontecendo. Jair Bolsonaro, o deputado mais votado do Rio de Janeiro, já fez discurso de ódio contra haitianos. Já houve assassinato de haitiano. Isto não quer dizer que o povo brasileiro seja xenófobo. O assassino é um. Os brasileiros são milhões. Mas como o crime não foi solucionado, isto é um sinal de que as instituições brasileiras não estão adaptadas para combater crimes de ódio. No mais recente Ano Novo, em Colônia na Alemanha, aproximadamente mil imigrantes do norte da África e do Oriente Médio abusaram sexualmente de mulheres. É perfeitamente aceitável discutir a relação dos valores culturais dos locais de origem dos imigrantes com os crimes cometidos, mas não é aceitável usar isso como pretexto para disseminar ódio contra todos os imigrantes. Isso seria uma exclusividade europeia? Como seria a reação da opinião pública brasileira e do meio político se no Ano Novo na Avenida Paulista, um grupo grande de haitianos ou bolivianos praticasse abuso sexual contra brasileiras?

Sobre o racismo, muito se discute se o pior é o do Brasil ou o dos Estados Unidos. No Brasil pós-escravidão, não houve racismo legalizado. No sul dos Estados Unidos, isto ocorreu. Mas nos últimos 50 anos, os Estados Unidos avançaram mais em integração do que o Brasil. Já na década de 1960, os Estados Unidos implementaram políticas de ação afirmativa. É certo que o Brasil teve um presidente pardo cem anos antes do Obama (Nilo Peçanha). Mas a política brasileira continua bem mais branca do que a política estadunidense, mesmo com os negros compondo 51% da população do Brasil (51% negros = 43,5% pardos + 7,5% pretos) e 13% da população dos Estados Unidos. Em geral, cidades nos Estados Unidos cuja população é composta majoritariamente por negros têm prefeito negro. Salvador e São Luís, que estão entre as cidades mais negras do Brasil, têm prefeitos brancos (não estou dizendo que habitantes negros têm necessariamente que votar em candidatos negros, e sim que há um indício de que negros não estão tendo oportunidade de ter carreira política). A Suprema Corte dos Estados Unidos tem um juiz negro, Clarence Thomas, indicado por George Bush Senior. Proporção é igual à da população do país. A Suprema Corte do Brasil teve um juiz negro, Joaquim Barbosa. A proporção (um em onze) é muito menor que a da população brasileira como um todo. Mais uma vez, não estou dizendo que o presidente da República deve nomear seis negros para ficar com proporção igual, e sim mostrando um exemplo de dificuldade de ascensão. A indústria de entretenimento dos Estados Unidos preocupou com a inclusão racial antes da indústria de entretenimento do Brasil. Mesmo sendo os negros 13% da população dos Estados Unidos e 51% da população do Brasil, é mais comum ver em filmes e seriados estadunidenses personagens negros em que a cor da pele é irrelevante para a descrição do personagem.

Por falar em comparação entre Brasil e Estados Unidos, também podemos falar da política dos dois países. Alguns brasileiros se orgulham do nosso pluripartidarismo. Ter apenas dois partidos grandes seria um defeito da democracia estadunidense. Mas na prática, o Brasil também é bipartidário. Partidos grandes, com plataforma ideológica definida só tem dois, o PT e o PSDB. O PCdoB é uma continuação do PT, e o DEM é uma continuação do PSDB. O PSOL, o PCB, o PSTU e o PCO têm plataforma ideológica definida, mas são muito pequenos. Os demais partidos são meros negociadores de apoio. Nos Estados Unidos, partidos com representação no Congresso e com chances de ganhar a presidência só são dois mesmo. Mas estes partidos têm várias correntes ideológicas dentro deles. E o sistema de primárias, para a definição dos candidatos, é bem mais aberto e democrático do que a definição de candidatos no Brasil, que ocorre em reuniões de portas fechadas. Um defeito compartilhado pelas duas democracias é o excesso de poder do dinheiro sobre a política.

No tempo em que se dizia que o Brasil estava na moda, entre 2007 e 2010, quando a economia ia bem, o Lula tinha altos índices de popularidade, quando a política externa foi mais ousada, quando o Brasil ganhou o direito de sediar Copa e Olimpíadas, tanto adoradores, quanto odiadores do Lula exageravam na importância que o Brasil tinha para o mundo. Odiadores do Lula diziam que o presidente matava o Brasil de vergonha no exterior quando culpava os banqueiros de olhos azuis pela crise. Em primeiro lugar, Lula nada disse de absurdo sobre os banqueiros de olhos azuis. Em segundo lugar, o resto do mundo não viu e nem ficou interessado em ver o que Lula disse sobre os banqueiros de olhos azuis. A maior parte do mundo está cagando para o que o presidente do Brasil diz. Os adoradores do Lula pensaram que o presidente brasileiro tinha virado um grande líder mundial. De fato, ele foi considerado a personalidade de 2009 pelo Le Monde, da França, e pelo El País, da Espanha. Ele foi mais conhecido pelo mundo do que outros presidentes brasileiros. Mas ainda assim, fora a minoria que acompanha política internacional, poucos fora do Brasil sabiam muito sobre o Lula. Assim como poucos brasileiros sabem quem é Xi Jinping, o presidente do maior PIB do mundo. Quando a mídia internacional fala alguma coisa sobre o Brasil, a mídia brasileira destaca, e por isso, cria-se a falsa impressão de que o Brasil é muito falado lá fora. Mas a verdade é que habitualmente a mídia internacional fala pouco do Brasil. São escassas as notícias sobre nosso país nos sites do New York Times, da CNN, da BBC e da Spiegel. A parte do mundo em desenvolvimento que gera mais interesse para a mídia de Primeiro Mundo continua sendo o Oriente Médio. A Economist fala mais sobre o Brasil. Mas não se trata de uma revista que é feita só para inglês ver. É uma revista que tenta atingir o público do mundo inteiro, inclusive o brasileiro. Atualmente, a mídia internacional vem falando de um assunto que tem a ver com o Brasil: o zika.

Sobre o que foi falado anteriormente, do Brasil ser praticamente uma ilha, há mais uma questão a acrescentar: o escasso turismo de estrangeiros no Brasil. Nós recebemos seis milhões de estrangeiros por ano. A Itália recebe cinquenta milhões, sendo quinze milhões de não europeus. O Brasil tem um potencial turístico muito grande não aproveitado. Alguns dos motivos do baixo número de turistas internacionais não são controláveis por nós: grande distância em relação aos maiores centros emissores de turistas, estações do ano invertidas. Mas ainda assim, criminalidade, serviços ruins e preços altos também afastam turistas.

Há mais outro motivo de isolamento do Brasil: existe uma dificuldade de intercâmbio acadêmico do Brasil com outros países porque o Brasil tem muito monoglota, mesmo entre quem tem curso superior completo. O predomínio do Inglês no mundo reflete o poder econômico dos Estados Unidos, mas ainda assim, é bom que o idioma número um seja o Inglês, uma vez que tem uma gramática simples. As universidades da Europa Continental estão cada vez mais falando Inglês, para ter sua produção acadêmica lida no mundo inteiro. Criticar o domínio do Inglês poderia ser um bom motivo para… aprender um segundo idioma estrangeiro, e não para ser monoglota.

Em suma: o Brasil tem a quinta maior população do mundo, o décimo maior PIB do mundo, mas ainda assim, é praticamente uma ilha isolada, pois o resto do mundo sabe pouco sobre o Brasil, o Brasil sabe pouco sobre o resto do mundo, os residentes estrangeiros são poucos, os visitantes estrangeiros são poucos, o intercâmbio acadêmico existe mas é pequeno, poucos brasileiros falam bem idiomas estrangeiros, e até mesmo o contato com países vizinhos é escasso. Os brasileiros deveriam pensar nessas coisas antes de ter complexo de grandeza.

E sobre o cinema brasileiro? É um tema quente na discussão entre nacionalistas e antinacionalistas. De fato, é complexo de vira lata usar a falta de Oscar como argumento para falar que cinema brasileiro é ruim. Nem sempre o cinema brasileiro foi ruim. Houve ótimos filmes brasileiros, alguns que ganharam outros prêmios. Mas atualmente, a maioria da produção cinematográfica brasileira deixa um pouco a desejar. Não é viralatismo constatar isso. Há muitos sitcom, que são televisão em tela grande, e não cinema (mesmo assim, há ótimos filmes atuais).

Até agora ainda não foi falado onde mais se manifesta o complexo de rottweiler do Brasil: os esportes. Isto merece parágrafos especiais.

Em primeiro lugar, o futebol. Muitos comentaristas e torcedores têm o hábito de achar que o Brasil tem alguma propensão natural a sempre ter o melhor futebol do mundo e que quem contesta isso teria complexo de vira lata ou seria da geração playstation. É lamentável ver até um comentarista tão culto quando o Juca Kfouri dizendo que se não fossem os dirigentes brasileiros, o Brasil teria sido campeão de todas as Copas. É verdade que os dirigentes estragam. Mas é um ufanismo muito grande achar que o Brasil tem sempre os melhores jogadores. Este ufanismo nos leva a pensar que é o Brasil que perde Copas, e não que os adversários ganham. Que os gols dos adversários acontecem sempre por falha da defesa brasileira, e não por brilhantismo das jogadas dos adversários. Muitos ainda acreditam que a vitória de três a zero da França sobre Brasil em 1998 foi comprada. Não aceitam que a França tinha uma seleção muito boa, que era melhor do que a do Brasil sem o Ronaldo em boa forma, e não se lembram que o Brasil perdeu para a Noruega na primeira fase, enquanto que a França ganhou os três jogos. Os mais ufanistas dizem que o futebol arte morreu quando a Itália derrotou o Brasil na Copa de 1982. E o que dizer de um time da cidade onde ocorreu aquele jogo, o Barcelona atual? Não é futebol arte? E tem brasileiro jogando, o Neymar. A Alemanha e a Argentina deram muito espetáculo recentemente, não apenas quando chegaram à final em 2014, mas também quando não ganharam em 2006 e 2010. Ainda existem aqueles brasileiros que desvalorizam os títulos de 1994 e 2002, porque o Brasil teria jogado com um esquema tático muito europeu. Como se isso fosse defeito, como se existisse uma pureza racial futebolística. Países trocam conhecimento até mesmo no futebol. Quando foram muitos brasileiros jogar na Europa, os europeus foram influenciados pelo jeito brasileiro de jogar. Não surpreende que brasileiros também tenham sido influenciados pelo jeito europeu de jogar. E mesmo com população grande, o Brasil não tem obrigação de ter sempre os melhores jogadores de futebol do mundo. População não necessariamente implica desempenho melhor. O tênis é popular nos Estados Unidos, mas mesmo com seus 300 milhões de habitantes, os Estados Unidos não têm os melhores tenistas do mundo atualmente. Eles estão na Suíça, na Espanha e na ex-Iugoslávia.

Há um ufanismo exacerbado também na Fórmula Um. Muitos brasileiros viam Fórmula Um não porque gostavam de ver carros correndo, e sim porque gostavam de ver um brasileiro cruzando a linha em primeiro, ouvir o Brasil-sil-sil e o tantantan tantantan. Até aí não tem problema, cada um tem seu gosto. Embora às vezes o gosto parece mesmo estragado. Eu lembro quando vi o Grande Prêmio do Brasil de 2001 em Interlagos. O ingresso custava o equivalente a cem dólares. Alguns sujeitos foram embora do autódromo na terceira volta, quando o Barrichello bateu no Ralf Schumacher e abandonou a corrida. Gostar de um esporte só por causa de compatriotas vencedores não é errado. O problema é quando o patriotismo gera visão distorcida. Podemos achar que Ayrton Senna foi o melhor de todos, podemos achar que foi o Michael Schumacher. O ruim são aqueles que mesmo não tendo escolhido nascer no país de Senna (ninguém escolhe seu país), pensam que têm obrigação de achar que o Senna foi o melhor só por causa da nacionalidade, aí utilizam argumentos muito fracos. Para os senistas mais fanáticos, o diferencial de carro só contava quando o carro do Senna não era o melhor. Para os senistas mais fanáticos, as 41 vitórias do Senna foram mais espetaculares do que as 91 vitórias do Schumacher, que teriam sido sem graça. Verdade que muitas das 91 vitórias do Schumacher foram sem graça, mas neste enorme número de vitórias, também houve as espetaculares, com chuva e ultrapassagens. Mesmo com Schumacher tendo 50 vitórias a mais e quatro títulos a mais, é possível encontrar argumentos para defender a tese de que Senna foi melhor. Mas neste caso, seria necessário admitir que pilotos com menos vitórias e títulos do que o Senna também teriam que entrar na comparação. E mais um lembrete: quando Schumacher foi campeão, primeiro Benetton e depois Ferrari tinham os melhores carros. Mas quando Schumacher entrou tanto na Benetton, quanto na Ferrari, esses construtores não tinham os melhores carros. O trabalho de longo prazo do qual Schumacher participou colocou estas equipes no topo. Este mérito, além da habilidade de pilotar, tem que ser reconhecido.

Por fim, o objetivo deste texto não foi ser anti-Brasil e sim anti-ufanismo. Não pretendo me misturar com o sentimento anti-Brasil de seguidores do Diogo Mainardi. Esses aí tem o estranho hábito de associar o subdesenvolvimento do Brasil com esquerda, como se o Brasil tivesse sido muito próspero antes de 2002. E muitos desses aí rejeitam o ufanismo pró-Brasil mas aceitam o ufanismo pró-São Paulo, defendendo ideias absurdas como a de que São Paulo é quase Primeiro Mundo.

rotweiler