Análise da primeira noite dos Desfiles das Escolas de Samba do RJ

Devidamente descansado, breves considerações sobre essa madrugada vindas deste humilde folião. Minhas opiniões são baseadas no que vi e ouvi a partir do setor 2, onde estava, e na cobertura da Rádio Tupi:

12719312_456476247894074_1515458424605446701_o

Estácio: Considero a melhor apresentação em alguns anos de uma escola que sobe para do Acesso para o Grupo Especial e tem a difícil missão de abrir a noite. Achei a entrada da escola bastante imponente, apesar da demora para o segundo carro entrar na pista. Porém, com um enredo sobre São Jorge, acho, no mínimo, curioso que o desfile tenha explorado pouco a devoção ao Santo Guerreiro no Brasil e o sincretismo com religiões de matriz africana. A meu ver isso, empobreceu o desfile.

União da Ilha: Sinceramente, não esperava muito da Ilha desde que se propôs, por iniciativa da própria diretoria, a ser a segunda escola a desfilar. Esperava menos ainda pela escolha original do enredo – as Olimpíadas de 2016, visando captar patrocínio da Prefeitura. Como o patrocínio não veio, a Ilha optou por uma alternativa mais carnavalizada e com a cara da agremiação, que foi idealizar um tour dos deuses do Olimpo no Rio de Janeiro. Gosto da proposta, mas, na minha concepção, foi mal realizada em termos plásticos. As fantasias, que representavam personagens e elementos típicos do universo carioca, poderiam ter sido de maior fácil leitura, mas infelizmente não foi o que vi. O samba já fraco foi, vergonhosamente, executado de forma aceleradíssima. Ponto positivo para a comissão de frente.

Beija-Flor: Esperar o que da Beija-Flor? A única escola da noite, do meu ponto de vista, que disputa o campeonato. O começo do desfile – o abre-alas dourado e riquíssimo e o mais deslumbrante casal de mestre-sala e porta-bandeira do carnaval, Selminha e Claudinho – foi a imagem mais marcante do carnaval, até o presente momento, para mim. A escola abriu seu carnaval como o rolo-compressor de sempre, dando uma aula aberta de Evolução e Harmonia. A comunidade nilopolitana cantando o samba – cuja letra é limitada e merece uma canetada dos jurados – a plenos pulmões. Porém, como já achava antes do carnaval, o enredo sobre o Marquês de Sapucaí – não a Avenida, mas o personagem histórico – não é o dos que mais me agrada. A meu ver, Marquês de Sapucaí não tem a relevância histórica para o Brasil como enunciada no carnaval da Beija-Flor. Além disso, a partir do quarto setor, ficou nítido que a falta de recursos, conseqüência também da ausência de patrocínio da cidade mineira de Nova Lima, comprometeu o acabamento das alegorias. Por fim, convém dizer: durante a Beija-Flor, eu ouvi feliz uma bateria de escola de samba tocando… SAMBA! Samba mesmo! Parece redundante, mas, lamentavelmente no carnaval de hoje, não é…

Grande Rio: O show de horrores da noite! Uma escola de samba que se deseja representar o carnaval do Grupo Especial, o “maior espetáculo da Terra”, não pode apresentar um equívoco audiovisual daqueles. A começar pelo samba sofrível e pessimamente executado pela bateria. A Grande Rio já mantém a infeliz tradição de trazer “enredos CEP” – sobre cidades, sempre tentando captar patrocínio da prefeitura local –, mas, dessa vez, o desenvolvimento da temática chegou ao intragável. A escola deixou de falar da história de Santos, a cidade homenageada, para falar sobre Neymar e Pelé. Uma alegoria abordava o ciclo cafeeiro, quando, abruptamente, colocam um tripé de bola de futebol com o pai do Neymar em cima. Depois, voltaram no tempo para homenagear o Pelé. Terminou o desfile fazendo referência ao cruzeiro do Roberto Carlos, já que, afinal, eles partem de Santos (oh, que genial!). Em suma, um bololô digno de canetadas pesadas do jurado. O pior desfile da noite!

Mocidade: Já imaginava que o enredo confuso – Dom Quixote veio para o Brasil lutar contra nossas mazelas históricas, incluindo a corrupção – estaria cotado para perder pontos antes mesmo do desfile. Mas confesso que, no começo, fiquei satisfeito com o canto da escola, visivelmente mais empolgada que em anos anteriores e interessada em reafirmar sua presença como agremiação grande do Grupo Especial. Infelizmente, uma série de problemas nos carros alegóricos comprometeu a apresentação, além da própria falta de acabamento. O último carro, com a escultura do Jorge Perlingeiro (!?!), estava com a parte traseira totalmente, e é óbvio que os jurados descontarão pontos. O atraso para a alegoria entrar na pista também dificultou a Evolução. Vi ainda as alas abrirem um buraco na frente da primeira cabine julgado. Jogaram o carnaval fora. Uma pena…

Unidos da Tijuca: Nenhuma escola de samba hoje no Grupo Especial tem um domínio tão amplo da técnica do desfile como a agremiação do Borel. Nenhuma escola sabe tão perfeitamente o que está fazendo na Avenida como a Unidos da Tijuca. Um espetáculo para os olhos e ouvidos assistir como a Tijuca flui no Sambódromo, o que é garantia das já costumeiras notas 10 em Evolução e Harmonia. Além disso, a escola tem a melhor bateria do Rio de Janeiro e, ao contrário de anos anteriores, contou com um sambaço, melodioso e de letra clara, o mais bonito da noite. O enredo, fruto de outro patrocínio que não veio – a cidade Sorriso, no Mato Grosso, a maior produtora de soja do país –, tentou deixar de lado, em parte, o triste foco no agronegócio para se ater romanticamente à vida do homem do campo. Considero as fantasias de fácil leitura da noite, representando as etapas do processo agrícola e todo universo cultural rural. A escola meteu os pés pelas mãos a partir do quarto setor nas alegorias, com acabamento bem duvidoso. Não curti em nada o desenho do quinto carro sobre plantação de milho. Também não consigo me emocionar vendo fantasias representando aviões pesticidas. A Kátia Abreu não desfilou?

 

 

Gabriel Deslandes é jornalista formado pela UFRJ.

Comentários