Semelhanças e diferenças entre o Sargento Pimenta e o Lu e Cru

blocos roqueiros

Este texto é off para o site. Não sou crítico profissional de música. Tudo que escreverei a partir de agora será palpite. É sobre música. Mais especificamente sobre música no carnaval. Como hoje foi o último dia de carnaval na prática (na teoria já terminou faz cinco dias), aproveito para falar dos blocos roqueiros do carnaval do Rio de Janeiro: o Sargento Pimenta e o Lu e Cru. Na verdade, não são blocos, são dois conjuntos. Blocos andam. Estes dois conjuntos tocam estáticos em praças públicas no Carnaval ou em casas noturnas, em outras épocas do ano.

O Sargento Pimenta é mais conhecido. Mistura as músicas dos Beatles com samba e outros ritmos brasileiros. Tem uma banda com instrumentos de rock, com integrantes vestindo camisetas que lembram os trajes da capa do álbum Sgt. Peppers, e uma bateria de escola de samba. Estreou no carnaval do Rio de Janeiro em 2011, em Botafogo. Por causa do grande público atraído, desde 2012, toca na segunda-feira de carnaval durante o dia no Aterro do Flamengo. A audiência provavelmente passa de dez mil pessoas. Toca em outras cidades brasileiras em fins de semana próximos ao carnaval. E tocou em Londres durante as Olimpíadas de 2012.

O Lu e Cru, mesmo sendo o primo pobre, é um pouco mais antigo, foi formado em 2008. Mistura clássicos do rock de diferentes bandas com samba e outros ritmos brasileiros. O repertório tem, entre outras, Enter Sandman, Fear of the Dark, Come as You Are, Seven Nation Army, Should I Stay or Should I Go, Hey Ho, Sweet Child o Mine e Creep. É composto pela vocalista Lu Baratz, por um trio de instrumentistas de rock (guitarra elétrica, baixo, bateria) e um trio de percussionistas de escola de samba. Até 2011, tocava em Botafogo. A rua apertada onde tocava atraia várias pessoas, que ficavam espremidas. Apesar de ser a cara de Botafogo, o grupo deixou o bairro para poder tocar em um local que tivesse espaço para público maior. Entre 2012 e 2014, tocou na Praça XV nas segundas-feiras de carnaval, à noite. Em 2015, não se apresentou no carnaval porque a vocalista estava tendo filho. No carnaval de 2016, não tocou em espaço aberto. Se apresentou no Teatro Odisseia, na Lapa. Muitas pessoas não conseguiram entrar, porque o espaço era pequeno.

Apesar da proposta parecida, há uma relevante diferença entre os dois conjuntos: o Sargento Pimenta é mais integrado ao carnaval. Talvez porque as músicas dos Beatles são mais camaleão. É possível fazer qualquer coisa com elas. Não é à toa que os roqueiros mais fanáticos não são muito simpatizantes dos Beatles. Se você digitar no Google “Beatles não é rock”, entre aspas, você encontrará 1.040 referências. Apesar do Sargento Pimenta ter os instrumentos musicais de rock, em vários trechos, escuta-se principalmente a voz, a batucada e alguns instrumentos de sopro. A guitarra elétrica aparece, mas nunca rouba o protagonismo. O colorido do palco e das roupas dos músicos mantém a cara de carnaval.

O Lu e Cru, por sua vez, está mais para uma pausa de duas horas do carnaval de cinco dias, do que para carnaval propriamente dito. Ou talvez, uma trollagem do carnaval. Lembro-me de que quando eu era adolescente, meus amigos e eu brincávamos dizendo “já pensou carnaval com Radiohead?”. Isto porque seria difícil achar algo mais anti-carnaval do que inglês depressivo. Aí dez anos depois, eu vi centenas de pessoas pulando carnaval ao som de Radiohead. Nem todos sabiam a letra inteira, mas ouvi inúmeras vozes cantando o refrão “but I’m a creep, I’m a wierdo, what the hell am I doing here” Foi inusitado. Isto ocorreu em 2011, quando eu descobri o “bloco” por acaso. A apresentação ainda ocorria em Botafogo. O Lu e Cru no carnaval é um grande espetáculo de humor involuntário. As versões das músicas são boas, os instrumentistas são talentosos, a Lu Baratz tem voz boa e uma ótima presença de palco, até porque a área de formação original dela é o teatro. Além disso, ela é muito bonita e, provavelmente, muito marmanjão de roupa preta queria casar com ela. Mas ainda assim, continua sendo um creep dentro do carnaval. Assim como o Sargento Pimenta, o Lu e Cru introduz bateria de samba no rock e também toca alguns ritmos brasileiros. Mas diferente do Sargento Pimenta, o Lu e Cru continua sendo uma banda de rock. Entre 2012 e 2014, quem estava se aproximando, ou se afastando, da Praça XV e ouvia o som sem nitidez, sentia nos ouvidos a guitarra elétrica dominando. Os músicos se vestem de preto. Quem quiser saber um pouco mais sobre a história do Lu e Cru, pode clicar aqui.

Considero que ver uma ou duas vezes o Lu e Cru no carnaval é o suficiente. Levar visitante de fora para conhecer também é recomendável. Mas fora isso, considero este conjunto melhor para ser ouvido fora do período de carnaval, em casas noturnas.

Além do Sargento Pimenta e do Lu e Cru, há outras atrações no carnaval do Rio de Janeiro fora dos ritmos musicais tradicionais do carnaval brasileiro. Tem o Toca Raul, que faz a mesma mistura com as músicas do Raul Seixas. E o festival de Jazz da Lavradio, que tem a cara do carnaval de New Orleans. Todas estas atrações são lotadas. As pessoas gostam do carnaval tradicional, mas se a festa vai de sexta à tarde até terça à noite, uma ou outra variação de vez em quando faz bem. Os puristas podem não gostar, assim como os puristas do rock criticam o excesso de não roqueiros no Rock in Rio. Mas grandes festividades são assim mesmo, diversificadas. Comer salada em churrascaria pode ser estranho. Mas se você, por uma semana seguida, tomar café da manhã, almoçar e jantar em uma churrascaria, muito provavelmente você vai querer comer salada uma vez ou outra.

 

 

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