Sobre o complexo de rottweiler presente no Brasil

O complexo de rottweiler é o oposto do complexo de vira lata. É o sentimento de arrogância do brasileiro quando se compara com o resto do mundo. Este texto não pretende defender o complexo de vira lata, que também é ruim. Se faltassem textos criticando o complexo de vira lata, eu escreveria um. Mas como já há textos criticando o complexo de vira lata, preferi escrever um texto criticando o complexo de rottweiler, que é igualmente nefasto. Os complexos de vira lata e de rottweiler se alternam como um pêndulo.

Muitos brasileiros gostam de satirizar gringos que acham que nós hablamos espanhol, que nossa capital é o Rio de Janeiro ou até mesmo Buenos Aires, que a Floresta Amazônica ocupa todo o território brasileiro, que tem carnaval todo dia, que as mulheres brasileiras estão sempre usando biquíni e um cesto de frutas sobre a cabeça. Mas o que sabemos sobre a Ásia? O que sabemos sobre a África? O que sabemos sobre nossos vizinhos da América Latina? É comum ver brasileiros “cultos” falarem com naturalidade frases como “o risco do Brasil virar uma Argentina”, “o risco de mexicanização da economia brasileira” ou “vai pra Cuba”. Ora porra, que arrogância é essa? Qual motivo para ter sentimento de superioridade em relação à América Espanhola? A Argentina e o México têm PIB per capita, expectativa de vida e alfabetização maiores que os do Brasil. Cuba não tem PIB per capita maior, mas tem expectativa de vida e alfabetização maiores. O Brasil só é o país número um da América Latina porque tem população maior e PIB total maior, mas o PIB per capita do Brasil é aproximadamente igual ao da média da América Latina. A expectativa de vida e a alfabetização do Brasil são menores do que a média da América Latina. Muitos já sabem que Argentina, Uruguai, Chile, México e Cuba têm expectativa de vida maior que a do Brasil. Mas é preciso esclarecer que Colômbia, Equador, Venezuela, República Dominicana, Costa Rica e Panamá também têm. Grande parte do diferencial de qualidade de vida entre a Argentina e o Brasil é herança do passado. De fato, no início do século XX, não apenas o PIB per capita, mas até mesmo o PIB total da Argentina superava o do Brasil. Por muitos anos ao longo do século XX, o Brasil teve crescimento maior. Mas no século XXI, o PIB da Argentina voltou a crescer mais que o do Brasil.

O desconhecimento, o isolamento e a arrogância presente no Brasil em relação a seus vizinhos de língua espanhola pode ter a geografia como um importante incentivador. O Brasil tem uma fronteira terrestre de 16 mil quilômetros de extensão, mas mesmo assim parece uma ilha. As maiores regiões metropolitanas estão bem distantes da fronteira. As únicas aglomerações urbanas razoáveis localizadas perto de outros países são as regiões de Foz do Iguaçu, Uruguaiana e Corumbá. Fora isso, as proximidades das fronteiras são vazios demográficos. A maioria das viagens do Brasil para outros países da América do Sul é feita através do transporte aéreo.

E diferente do que monarquistas dizem, não há motivos para considerar que o Brasil teve um passado mais glorioso que os países americanos de língua espanhola por causa do Império. É verdade que o Império conseguiu manter o território brasileiro unido, diferente da América espanhola, partida em várias repúblicas. Mas foi já no período do Império que o Brasil começou a ficar para trás em desenvolvimento econômico em comparação com Argentina e México. É importante lembrar também que o Brasil foi ter sua primeira universidade já no período republicano, em 1920. O México e o Peru têm universidades desde o tempo colonial.

O fato do Brasil ser praticamente uma ilha serve de gancho para questionar outra afirmação do complexo da rottweiler. A do “Brasil terra da diversidade, Brasil que acolhe todo mundo de braços abertos, Brasil da tolerância”. Segundo o Censo de 2010, a população residente do Brasil é de 190.755.798, sendo 190.163.229 brasileiros natos, 161.250 brasileiros naturalizados e 431.319 estrangeiros. Ou seja, mesmo considerando estrangeiros os naturalizados, a participação dos estrangeiros na população residente do Brasil é de 0,3%. É um percentual muito pequeno comparável com outros países. Na França, 11,1% da população residente é estrangeira. Devemos fazer a ressalva de que a França tem território pequeno, tem muitos vizinhos, que podemos fazer analogia, em termos de território e população, da União Europeia com o Brasil e de cada país da União Europeia com um estado brasileiro. Mas estes 11,1% se divide em 3,3% de origem de outro país da União Europeia e 7,8% de fora da União Europeia. Ou seja, os estrangeiros com E maiúsculo na França (de fora da União Europeia) são 7,8%, bem acima do 0,3% do Brasil. A Alemanha tem população estrangeira correspondente a 12% da população total, sendo a população com origem fora da União Europeia também responsável por 7,8%. Isto não é prova de que o Brasil é mais fechado para estrangeiros, que os brasileiros são menos tolerantes. O percentual maior de estrangeiros na França e na Alemanha pode ser explicado pelo fato dos imigrantes procurarem países ricos. Mas fica difícil dizer que há provas de que todos os brasileiros são abertos e tolerantes, quando o país tem uma população estrangeira de apenas 0,3%. Este número não enfraquece tanto o argumento da tolerância, mas derruba o argumento da diversidade. O Brasil tem diversidade grande apenas de cores de pele. Há brasileiros índios, brasileiros descendentes de europeus, brasileiros descendentes de africanos e brasileiros descendentes de asiáticos. E há miscigenação. Mas há poucos tipos de diversidade além deste.

Metrópoles como Nova York, Londres, Paris e Berlim são muito mais diversificadas que São Paulo e Rio de Janeiro. As duas maiores cidades brasileiras têm maior participação de não brasileiros na população do que os 0,3% do Brasil como um todo. São Paulo tem 1,4%. O Rio de Janeiro tem 1,1%. Ainda assim, a diferença é muito grande com os 20% de não franceses em Paris, 25% de não alemães em Berlim, 35% de não britânicos em Londres e 35% de não estadunidenses em Nova York. Nas duas maiores cidades brasileiras, a participação de cristãos no total da população é de aproximadamente 80%, 60% católicos e 20% evangélicos, quase todos pentecostais. Nas quatro metrópoles de Primeiro Mundo mencionadas, os cristãos (de todas as ramificações somadas) não chegam a 60%. São Paulo e Rio de Janeiro têm pouca diversidade de nacionalidade e religião, mas tem grande diversidade de cor de pele. Porém, Nova York, Londres, Paris e Berlim também têm. Estas cidades têm moradores de origem europeia, africana e asiática. Não há julgamento de valor aqui. Não está sendo discutido aqui se é bom ou ruim as metrópoles brasileiras terem poucos estrangeiros e não cristãos, se é bom ou ruim ver muitos gringos budistas andando nas ruas. Estes números foram exibidos apenas para mostrar que o Brasil não é campeão mundial de diversidade, que está muito longe disso.

O que sem sombra de dúvida é negativo, neste caso é possível fazer julgamento de valor, é o que ocorreu em 1985 em São Paulo. Um candidato a prefeito foi alvo de intensa campanha negativa porque era supostamente ateu. Isto pode ter sido um dos determinantes de sua derrota. Esta situação seria inimaginável em Nova York, Londres, Paris ou Berlim.

Quanto à tolerância, sabemos que a Europa está infestada de grupos neonazistas que pregam e praticam ódio contra imigrantes, infestada de políticos de extrema-direita que disputam popularidade com o discurso anti imigrante. Mas no Brasil, essas merdas também já estão acontecendo. Jair Bolsonaro, o deputado mais votado do Rio de Janeiro, já fez discurso de ódio contra haitianos. Já houve assassinato de haitiano. Isto não quer dizer que o povo brasileiro seja xenófobo. O assassino é um. Os brasileiros são milhões. Mas como o crime não foi solucionado, isto é um sinal de que as instituições brasileiras não estão adaptadas para combater crimes de ódio. No mais recente Ano Novo, em Colônia na Alemanha, aproximadamente mil imigrantes do norte da África e do Oriente Médio abusaram sexualmente de mulheres. É perfeitamente aceitável discutir a relação dos valores culturais dos locais de origem dos imigrantes com os crimes cometidos, mas não é aceitável usar isso como pretexto para disseminar ódio contra todos os imigrantes. Isso seria uma exclusividade europeia? Como seria a reação da opinião pública brasileira e do meio político se no Ano Novo na Avenida Paulista, um grupo grande de haitianos ou bolivianos praticasse abuso sexual contra brasileiras?

Sobre o racismo, muito se discute se o pior é o do Brasil ou o dos Estados Unidos. No Brasil pós-escravidão, não houve racismo legalizado. No sul dos Estados Unidos, isto ocorreu. Mas nos últimos 50 anos, os Estados Unidos avançaram mais em integração do que o Brasil. Já na década de 1960, os Estados Unidos implementaram políticas de ação afirmativa. É certo que o Brasil teve um presidente pardo cem anos antes do Obama (Nilo Peçanha). Mas a política brasileira continua bem mais branca do que a política estadunidense, mesmo com os negros compondo 51% da população do Brasil (51% negros = 43,5% pardos + 7,5% pretos) e 13% da população dos Estados Unidos. Em geral, cidades nos Estados Unidos cuja população é composta majoritariamente por negros têm prefeito negro. Salvador e São Luís, que estão entre as cidades mais negras do Brasil, têm prefeitos brancos (não estou dizendo que habitantes negros têm necessariamente que votar em candidatos negros, e sim que há um indício de que negros não estão tendo oportunidade de ter carreira política). A Suprema Corte dos Estados Unidos tem um juiz negro, Clarence Thomas, indicado por George Bush Senior. Proporção é igual à da população do país. A Suprema Corte do Brasil teve um juiz negro, Joaquim Barbosa. A proporção (um em onze) é muito menor que a da população brasileira como um todo. Mais uma vez, não estou dizendo que o presidente da República deve nomear seis negros para ficar com proporção igual, e sim mostrando um exemplo de dificuldade de ascensão. A indústria de entretenimento dos Estados Unidos preocupou com a inclusão racial antes da indústria de entretenimento do Brasil. Mesmo sendo os negros 13% da população dos Estados Unidos e 51% da população do Brasil, é mais comum ver em filmes e seriados estadunidenses personagens negros em que a cor da pele é irrelevante para a descrição do personagem.

Por falar em comparação entre Brasil e Estados Unidos, também podemos falar da política dos dois países. Alguns brasileiros se orgulham do nosso pluripartidarismo. Ter apenas dois partidos grandes seria um defeito da democracia estadunidense. Mas na prática, o Brasil também é bipartidário. Partidos grandes, com plataforma ideológica definida só tem dois, o PT e o PSDB. O PCdoB é uma continuação do PT, e o DEM é uma continuação do PSDB. O PSOL, o PCB, o PSTU e o PCO têm plataforma ideológica definida, mas são muito pequenos. Os demais partidos são meros negociadores de apoio. Nos Estados Unidos, partidos com representação no Congresso e com chances de ganhar a presidência só são dois mesmo. Mas estes partidos têm várias correntes ideológicas dentro deles. E o sistema de primárias, para a definição dos candidatos, é bem mais aberto e democrático do que a definição de candidatos no Brasil, que ocorre em reuniões de portas fechadas. Um defeito compartilhado pelas duas democracias é o excesso de poder do dinheiro sobre a política.

No tempo em que se dizia que o Brasil estava na moda, entre 2007 e 2010, quando a economia ia bem, o Lula tinha altos índices de popularidade, quando a política externa foi mais ousada, quando o Brasil ganhou o direito de sediar Copa e Olimpíadas, tanto adoradores, quanto odiadores do Lula exageravam na importância que o Brasil tinha para o mundo. Odiadores do Lula diziam que o presidente matava o Brasil de vergonha no exterior quando culpava os banqueiros de olhos azuis pela crise. Em primeiro lugar, Lula nada disse de absurdo sobre os banqueiros de olhos azuis. Em segundo lugar, o resto do mundo não viu e nem ficou interessado em ver o que Lula disse sobre os banqueiros de olhos azuis. A maior parte do mundo está cagando para o que o presidente do Brasil diz. Os adoradores do Lula pensaram que o presidente brasileiro tinha virado um grande líder mundial. De fato, ele foi considerado a personalidade de 2009 pelo Le Monde, da França, e pelo El País, da Espanha. Ele foi mais conhecido pelo mundo do que outros presidentes brasileiros. Mas ainda assim, fora a minoria que acompanha política internacional, poucos fora do Brasil sabiam muito sobre o Lula. Assim como poucos brasileiros sabem quem é Xi Jinping, o presidente do maior PIB do mundo. Quando a mídia internacional fala alguma coisa sobre o Brasil, a mídia brasileira destaca, e por isso, cria-se a falsa impressão de que o Brasil é muito falado lá fora. Mas a verdade é que habitualmente a mídia internacional fala pouco do Brasil. São escassas as notícias sobre nosso país nos sites do New York Times, da CNN, da BBC e da Spiegel. A parte do mundo em desenvolvimento que gera mais interesse para a mídia de Primeiro Mundo continua sendo o Oriente Médio. A Economist fala mais sobre o Brasil. Mas não se trata de uma revista que é feita só para inglês ver. É uma revista que tenta atingir o público do mundo inteiro, inclusive o brasileiro. Atualmente, a mídia internacional vem falando de um assunto que tem a ver com o Brasil: o zika.

Sobre o que foi falado anteriormente, do Brasil ser praticamente uma ilha, há mais uma questão a acrescentar: o escasso turismo de estrangeiros no Brasil. Nós recebemos seis milhões de estrangeiros por ano. A Itália recebe cinquenta milhões, sendo quinze milhões de não europeus. O Brasil tem um potencial turístico muito grande não aproveitado. Alguns dos motivos do baixo número de turistas internacionais não são controláveis por nós: grande distância em relação aos maiores centros emissores de turistas, estações do ano invertidas. Mas ainda assim, criminalidade, serviços ruins e preços altos também afastam turistas.

Há mais outro motivo de isolamento do Brasil: existe uma dificuldade de intercâmbio acadêmico do Brasil com outros países porque o Brasil tem muito monoglota, mesmo entre quem tem curso superior completo. O predomínio do Inglês no mundo reflete o poder econômico dos Estados Unidos, mas ainda assim, é bom que o idioma número um seja o Inglês, uma vez que tem uma gramática simples. As universidades da Europa Continental estão cada vez mais falando Inglês, para ter sua produção acadêmica lida no mundo inteiro. Criticar o domínio do Inglês poderia ser um bom motivo para… aprender um segundo idioma estrangeiro, e não para ser monoglota.

Em suma: o Brasil tem a quinta maior população do mundo, o décimo maior PIB do mundo, mas ainda assim, é praticamente uma ilha isolada, pois o resto do mundo sabe pouco sobre o Brasil, o Brasil sabe pouco sobre o resto do mundo, os residentes estrangeiros são poucos, os visitantes estrangeiros são poucos, o intercâmbio acadêmico existe mas é pequeno, poucos brasileiros falam bem idiomas estrangeiros, e até mesmo o contato com países vizinhos é escasso. Os brasileiros deveriam pensar nessas coisas antes de ter complexo de grandeza.

E sobre o cinema brasileiro? É um tema quente na discussão entre nacionalistas e antinacionalistas. De fato, é complexo de vira lata usar a falta de Oscar como argumento para falar que cinema brasileiro é ruim. Nem sempre o cinema brasileiro foi ruim. Houve ótimos filmes brasileiros, alguns que ganharam outros prêmios. Mas atualmente, a maioria da produção cinematográfica brasileira deixa um pouco a desejar. Não é viralatismo constatar isso. Há muitos sitcom, que são televisão em tela grande, e não cinema (mesmo assim, há ótimos filmes atuais).

Até agora ainda não foi falado onde mais se manifesta o complexo de rottweiler do Brasil: os esportes. Isto merece parágrafos especiais.

Em primeiro lugar, o futebol. Muitos comentaristas e torcedores têm o hábito de achar que o Brasil tem alguma propensão natural a sempre ter o melhor futebol do mundo e que quem contesta isso teria complexo de vira lata ou seria da geração playstation. É lamentável ver até um comentarista tão culto quando o Juca Kfouri dizendo que se não fossem os dirigentes brasileiros, o Brasil teria sido campeão de todas as Copas. É verdade que os dirigentes estragam. Mas é um ufanismo muito grande achar que o Brasil tem sempre os melhores jogadores. Este ufanismo nos leva a pensar que é o Brasil que perde Copas, e não que os adversários ganham. Que os gols dos adversários acontecem sempre por falha da defesa brasileira, e não por brilhantismo das jogadas dos adversários. Muitos ainda acreditam que a vitória de três a zero da França sobre Brasil em 1998 foi comprada. Não aceitam que a França tinha uma seleção muito boa, que era melhor do que a do Brasil sem o Ronaldo em boa forma, e não se lembram que o Brasil perdeu para a Noruega na primeira fase, enquanto que a França ganhou os três jogos. Os mais ufanistas dizem que o futebol arte morreu quando a Itália derrotou o Brasil na Copa de 1982. E o que dizer de um time da cidade onde ocorreu aquele jogo, o Barcelona atual? Não é futebol arte? E tem brasileiro jogando, o Neymar. A Alemanha e a Argentina deram muito espetáculo recentemente, não apenas quando chegaram à final em 2014, mas também quando não ganharam em 2006 e 2010. Ainda existem aqueles brasileiros que desvalorizam os títulos de 1994 e 2002, porque o Brasil teria jogado com um esquema tático muito europeu. Como se isso fosse defeito, como se existisse uma pureza racial futebolística. Países trocam conhecimento até mesmo no futebol. Quando foram muitos brasileiros jogar na Europa, os europeus foram influenciados pelo jeito brasileiro de jogar. Não surpreende que brasileiros também tenham sido influenciados pelo jeito europeu de jogar. E mesmo com população grande, o Brasil não tem obrigação de ter sempre os melhores jogadores de futebol do mundo. População não necessariamente implica desempenho melhor. O tênis é popular nos Estados Unidos, mas mesmo com seus 300 milhões de habitantes, os Estados Unidos não têm os melhores tenistas do mundo atualmente. Eles estão na Suíça, na Espanha e na ex-Iugoslávia.

Há um ufanismo exacerbado também na Fórmula Um. Muitos brasileiros viam Fórmula Um não porque gostavam de ver carros correndo, e sim porque gostavam de ver um brasileiro cruzando a linha em primeiro, ouvir o Brasil-sil-sil e o tantantan tantantan. Até aí não tem problema, cada um tem seu gosto. Embora às vezes o gosto parece mesmo estragado. Eu lembro quando vi o Grande Prêmio do Brasil de 2001 em Interlagos. O ingresso custava o equivalente a cem dólares. Alguns sujeitos foram embora do autódromo na terceira volta, quando o Barrichello bateu no Ralf Schumacher e abandonou a corrida. Gostar de um esporte só por causa de compatriotas vencedores não é errado. O problema é quando o patriotismo gera visão distorcida. Podemos achar que Ayrton Senna foi o melhor de todos, podemos achar que foi o Michael Schumacher. O ruim são aqueles que mesmo não tendo escolhido nascer no país de Senna (ninguém escolhe seu país), pensam que têm obrigação de achar que o Senna foi o melhor só por causa da nacionalidade, aí utilizam argumentos muito fracos. Para os senistas mais fanáticos, o diferencial de carro só contava quando o carro do Senna não era o melhor. Para os senistas mais fanáticos, as 41 vitórias do Senna foram mais espetaculares do que as 91 vitórias do Schumacher, que teriam sido sem graça. Verdade que muitas das 91 vitórias do Schumacher foram sem graça, mas neste enorme número de vitórias, também houve as espetaculares, com chuva e ultrapassagens. Mesmo com Schumacher tendo 50 vitórias a mais e quatro títulos a mais, é possível encontrar argumentos para defender a tese de que Senna foi melhor. Mas neste caso, seria necessário admitir que pilotos com menos vitórias e títulos do que o Senna também teriam que entrar na comparação. E mais um lembrete: quando Schumacher foi campeão, primeiro Benetton e depois Ferrari tinham os melhores carros. Mas quando Schumacher entrou tanto na Benetton, quanto na Ferrari, esses construtores não tinham os melhores carros. O trabalho de longo prazo do qual Schumacher participou colocou estas equipes no topo. Este mérito, além da habilidade de pilotar, tem que ser reconhecido.

Por fim, o objetivo deste texto não foi ser anti-Brasil e sim anti-ufanismo. Não pretendo me misturar com o sentimento anti-Brasil de seguidores do Diogo Mainardi. Esses aí tem o estranho hábito de associar o subdesenvolvimento do Brasil com esquerda, como se o Brasil tivesse sido muito próspero antes de 2002. E muitos desses aí rejeitam o ufanismo pró-Brasil mas aceitam o ufanismo pró-São Paulo, defendendo ideias absurdas como a de que São Paulo é quase Primeiro Mundo.

rotweiler

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