Uma reflexão sobre a caixa de bombons do Clarion

Neste texto, eu vou refletir sobre a metáfora da caixa de bombons do Clarion. Eu faço reflexão, não faço problematização. Quem ainda não viu este vídeo do Clarion deve fazer isso antes de ler este texto (clique aqui para ver o vídeo). Só entenderá este texto quem já viu o video.

Peço mais uma vez. Ainda não viu o vídeo, clique e veja o vídeo, antes de continuar a ler este texto.

 

Bom, viu? Então vamos lá.

Clarion fez uma metáfora. Ele comparou caixas de bombons com ideologias políticas. A caixa da Garoto seria uma ideologia. A caixa da Nestlé seria outra ideologia. Os bombons dentro de cada caixa seriam os posicionamentos daquela ideologia sobre cada assunto. Ele quis dizer no vídeo que ninguém é obrigado a aceitar uma ideologia completa, ou seja, uma caixa de bombons fechada. Os indivíduos teriam que ter a possibilidade de fazer sua própria caixa com bombons escolhidos livremente, ou seja, ter o posicionamento de uma ideologia em um assunto, e ter o posicionamento de outra ideologia em outro assunto. Ele não utilizou este exemplo, mas vamos utilizá-lo para ficar mais fácil de entender. Imaginem que uma caixa de bombons seja a ideologia progressista. A outra seja a ideologia conservadora. Na caixa progressista, há um bombom que representa a posição favorável à adoção de crianças por casais homossexuais, um bombom que representa a posição favorável à legalização do aborto, um bombom que representa a posição favorável à legalização da maconha e um bombom que representa a posição favorável às cotas. Na caixa conservadora, há um bombom representando a posição contrária a cada uma dessas questões. Em geral, as pessoas são a favor dos quatro ou contra os quatro. Mas ninguém é obrigado a ser assim. Tem gente que pode ser a favor da adoção de crianças por casais homossexuais, a favor da legalização do aborto, a favor da legalização da maconha, mas contra as cotas. Neste caso, não pegaria nem a caixa progressista inteira, nem a caixa conservadora inteira, mas sim três bombons da caixa progressista e um bombom da caixa conservadora.

A metáfora é boa? Sim. Clarion está correto? Sim. Mas…

O raciocínio aplicado por Clarion na metáfora se aplica melhor para pessoas como ele. Clarion é um professor de ciências naturais que também tem opiniões sobre política e filosofia. Ele faz vídeos com o objetivo de melhorar o conhecimento das pessoas. Isto é bom. Mas ele não está envolvido em movimentos por grandes transformações sociais, políticas e econômicas. Por isso, é mais fácil ter carreira solo, e, dessa forma, montar a própria caixa de bombons.

Quem faz militância em partidos, sindicatos, ONGs e movimentos sociais visando grandes transformações não pode se dar ao luxo de lutar pela sua personal chocolate box. Explicação muito simples: militância se faz em grupo. Uma militância de uma pessoa só não teria muito efeito. Mesmo se essa uma pessoa for um líder, este líder precisaria de seguidores para ser líder.

Continuando a metáfora dos bombons, devemos lembrar que a caixa da Garoto tem 12 tipos diferentes de bombom. A da Nestlé também (não sei se é isso exatamente, mas vamos considerar que sim). Se eu não quiser ter apenas duas opções, Garoto ou Nestlé, mas quiser montar minha própria caixa de 12 bombons, podendo pegar tanto bombons Garoto, quanto Nestlé, eu poderia fazer 2.704.156 combinações diferentes. A conta é 24!/(12!*12!). Imaginem se existissem 2.704.156 movimentos diferentes. Cada movimento teria um ou mesmo zero militante. Portanto, para que movimentos sejam numerosos e tenham alguma influência, é preciso lutar pela caixa da Garoto, ou da Nestlé, ou da Lacta inteiras.

Nem todo militante precisa, por convicção pessoal, preferir todos os bombons de sua própria caixa. É perfeitamente possível preferir um ou outro bombom de outra caixa. E até mesmo expressar esta preferência. Não defendo o centralismo democrático. Exemplo mais recente de preferência por bombom de outra caixa foi a opinião de Jean Wyllys sobre Israel, que é diferente da opinião de seu partido. Ainda assim, quem se dedica à militância, mesmo preferindo um ou outro bombom de outra caixa, deve entender que para atingir um determinado objetivo, as preferências individuais por outros bombons são menos importantes do que a luta pela caixa.

Isto vale até para eu decidir o que escrever aqui neste site. O Trincheiras não foi criado para ser um vale tudo. Foi criado para ser um site de esquerda. Aqui se encontram críticas às visões de mundo difundidas pela mídia dos Marinhos, dos Civitas, dos Mesquitas e dos Frias. Eu não tenho opiniões de esquerda em todos os assuntos. Não considero que os Marinhos, os Civitas, os Mesquitas e os Frias estejam errados em 100% dos assuntos. Mas não vou escrever para este site as opiniões que eu tenho que não são de esquerda. Elas não são relevantes no momento. Quem tem essas opiniões já tem meios suficientemente fortes para difundi-las. Só de vez em quando eu expressarei aqui o que eu discordo da maior parte da esquerda, no momento em que eu considerar que faz mal para a esquerda ter determinada opinião. Fora isso, prefiro expressar as poucas opiniões minhas que não são de esquerda apenas oralmente, no Facebook pessoal, no Twitter pessoal, no Blog pessoal, e principalmente, quando for perguntado.

Embora eu admita que é perfeitamente possível um militante preferir um ou outro bombom de outra caixa, não fosso deixar de mencionar que alguns bombons de caixas diferentes são perigosos. Como expressei aqui mesmo neste site, estou preocupado porque há marxistas-leninistas sendo influenciados pela Quarta Teoria Política, próximos de falar “Aiatolá Khomeini era legal, pois peitou o imperialismo estadunidense”, e também porque há adeptos da Nova Esquerda sendo influenciados pelo libertarianismo, próximos de falar “Milton Friedman era legal, pois era a favor da legalização da maconha e contra o serviço militar obrigatório”. Referências intelectuais são importantes não para proibir bombons de outra caixa, mas para desestimular quando esses bombons são perigosos.

Por fim, uma autocrítica: como este texto foi escrito já nas proximidades da Páscoa, corro o risco de ter incentivado o consumo excessivo de calorias.

bombons clarion

 

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