Stalin não foi pior do que Hitler, nem mesmo equivalente

Provavelmente você já leu algum texto que começava com “Hitler e Stalin, os dois grandes líderes totalitários do século XX”. Ou então já viu algum meme no Facebook postado por algum “amigo” olavete que dizia coisas como “Hitler matou seis milhões, Stalin matou vinte milhões, logo o comunismo é pior do que o nazismo”.

Nivelar Stalin com Hitler, ou mesmo dizer que Stalin era pior, é a terceira empulhação sobre o nazismo produzida por grupos de direita. A primeira, praticada pela direita simpatizante do nazismo, é negar que o Holocausto tenha existido. É a mais absurda de todas, porém, é praticada por um número mais restrito de malucos. Dispensa comentários. A segunda, praticada pela direita não simpatizante do nazismo, e com um número maior de adeptos do que a primeira, é dizer que o nazismo era de esquerda por causa do nome por extenso (nacional-socialismo), da bandeira vermelha, do keynesianismo e de mais um ou outro detalhe. Afinal, filho feio é sempre dos outros. Em outro texto, é explicado porque é uma colossal groselha falar que o nazismo era de esquerda. A terceira, aparentemente menos feia do que a primeira e a segunda, e com um número ainda maior de adeptos, é nivelar Stalin com Hitler, ou mesmo dizer que Stalin foi mais brutal.

É historicamente e moralmente errado nivelar Stalin com Hitler, ou mesmo dizer que Stalin foi mais brutal. Entre os dois, há uma diferença essencial. Stalin foi um ditador cruel que, com o objetivo de permanecer no poder, prendeu e matou muitos opositores e potenciais opositores. Isto é horrível. Mas não se compara com o que Hitler fez. O ditador austríaco alemão decidiu deliberadamente eliminar fisicamente algumas etnias. Ter virado opositor de Stalin foi uma escolha de muitos cidadãos soviéticos. Os judeus residentes em locais ocupados pelos nazistas não tiveram escolha. Eles foram assassinados porque eram judeus por etnia. Não tiveram sequer a opção de deixar de seguir a religião judaica para continuar vivos (se tivesse matado apenas os judeus por opção já teria sido horrível, mas Hitler foi além). Nem as crianças escaparam.

Hitler construiu uma indústria de produção de cadáveres em larga escala. Tudo era meticulosamente planejado: os trens, as câmaras de gás, os fornos. Os campos nazistas, como o Auschwitz II e o Treblinka foram produzidos especificamente para praticar o extermínio em massa. A vontade de Hitler matar era tanta que a indústria da morte consumiu até mesmo recursos que poderiam ter sido empregados no esforço de guerra. Os gulags soviéticos eram prisões com condições muito ruins. Muitos detentos morreram, principalmente durante a Segunda Guerra Mundial, em um momento em que até a população “livre” passava fome. Mas os gulags não tinham como objetivo realizar matança em massa. Muitos detentos foram soltos depois do cumprimento das penas. Dos campos nazistas, ninguém foi solto pelos próprios nazistas. A esmagadora maioria foi executada. Alguns poucos conseguiram fugir. Outros poucos conseguiram permanecer vivos até a chegada das tropas aliadas.

Sabe-se que Hitler matou mais do que cinco milhões de judeus. E se somar com ciganos, homossexuais, deficientes, eslavos e prisioneiros de guerra soviéticos, é possível estimar que Hitler foi responsável por onze milhões de homicídios (fora os da guerra que ele iniciou). Ao Stalin são atribuídas mortes referentes à coletivização forçada da agricultura iniciada em 1928, à fome na Ucrânia de 1932 e ao Grande Expurgo de 1936-1938. O número de execuções não passou de oitocentos mil, o que já é absurdamente alto, mas não chegou perto dos números de Hitler. As outras mortes têm causas mais indiretas. Os “20 milhões de mortes do Stalin”, presentes no Livro Negro do Comunismo, bíblia das olavetes, são um chute de Robert Conquest. Os “100 milhões de mortos do comunismo” presentes no Livro Negro são um número pouco confiável. Ocorreram revoluções comunistas na Rússia e na China, países muito populosos, em que muita gente passava fome antes das revoluções, e não foram as revoluções que resolveram o problema imediatamente. Aí, os propagandistas anticomunistas colocam as mortes por fome no período pós revolucionário na conta dos “mortos pelo comunismo”.

Alguns defensores de Stalin usam o argumento de que “revoluções matam”. É verdade que revoluções matam. As revoluções inglesas do século XVII mataram, a Revolução Norte Americana (1776) matou, a Revolução Francesa (1789) matou, a Guerra Civil Norte Americana (1861-1865), responsável pela abolição da escravidão nos Estados Unidos, matou. Este argumento é mais difícil de ser aplicado a Stalin, que tomou o poder em 1924, sete anos depois da revolução. Muitas de suas vítimas foram participantes da revolução, que não gostaram do rumo tomado depois de 1924. Porém, mesmo não aprovando Stalin, é importante rebater mistificações propagandísticas da direita.

A União Soviética teve muitas mortes não controláveis por seus líderes. A Guerra Civil Russa (1918-1921), ainda antes do Stalin virar o líder, matou três milhões. Podem ser colocadas muitas destas mortes na conta das potências capitalistas estrangeiras, que lutaram junto das forças contra revolucionárias. A Segunda Guerra Mundial matou 20 milhões de soviéticos se somados os civis e os militares. É verdade que o número de soviéticos mortos nesta guerra foi ampliado por causa da decisão desastrada de Stalin de duvidar de que a Alemanha nazista atacaria já em 1941. Mas de qualquer forma, o agressor foi Hitler. Óbvio que Stalin não foi bonzinho no combate ao invasor nazista. E nem poderia ser, diante de um inimigo fortemente armado. Importante destacar a decisão de Stalin de ter permanecido em Moscou em novembro de 1941, quando os alemães estavam a apenas 20 quilômetros da cidade. O líder soviético poderia ter se mudado para o leste do Volga, por medida de segurança, assim como parte dos integrantes do governo fizeram. Mas entendeu que a permanência na capital ajudaria a manter o moral do povo em alta, no momento mais difícil da guerra. Também destaca-se o fato de Stalin ter considerado seu filho um soldado como qualquer outro.

Stalin pode ser criticado pelo pacto com os nazistas firmado em 1939. Porém, ele fez isso somente depois de ter fracassado sua tentativa de formar uma aliança anti nazi fascista com o Reino Unido e com a França. A União Soviética foi um dos poucos países do mundo a apoiar a República Espanhola, contra Franco e seus aliados nazi-fascistas. Nos anos 1930, os conservadores britânicos ainda não sabiam se o inimigo maior era a Alemanha Nazista ou a União Soviética. Os britânicos e os franceses também fizeram pacto com os nazistas, o Tratado de Munique. Britânicos, franceses e soviéticos tiveram o mesmo objetivo ao fazer pactos com nazistas: ganhar tempo e preparar suas forças.

Outra distinção importante entre Hitler e Stalin é referente à diferença entre a ocupação alemã da União Soviética, ocorrida entre 1941 e 1944, e a ocupação soviética da Alemanha, ocorrida entre 1945 e 1949. A primeira foi uma política oficial de extermínio de alguns civis e escravização de outros. Cidades inteiras foram destruídas. O Leste Europeu era visto pelos nazistas como o “espaço vital” para os germânicos, tido como superiores aos eslavos. A ocupação soviética na Alemanha foi um processo transitório para o reestabelecimento de um governo próprio alemão, não nazista. É óbvio que no início houve brutalidades praticadas espontaneamente por soldados do Exército Vermelho, mas o próprio regime soviético agiu para conter os excessos. Algumas medidas duras foram tomadas pelos soviéticos contra os alemães. Fábricas foram tiradas dos alemães e levadas para a União Soviética como indenização de guerra. Mas os soviéticos, logo após a rendição incondicional, decidiram fornecer comida para a população civil alemã e organizar o reestabelecimento de serviços básicos em Berlim.

Um fato pouco conhecido atualmente é o de que Stalin não era favorável ao estabelecimento de um estado comunista na zona de ocupação soviética da Alemanha. Quem desejou fazer isso foram os comunistas alemães. Stalin só autorizou a criação da República Democrática Alemã depois que a zona de ocupação norte americana, britânica e francesa se transformou na República Federal da Alemanha, eliminando a possibilidade de uma Alemanha unificada. Em 1952, Stalin ainda fez uma proposta de uma Alemanha unificada, com a possibilidade de manter o sistema capitalista e a democracia pluripartidária, desde que as forças armadas fossem pequenas, apenas para defesa, e que não fossem instalados mísseis no território. A proposta seria fazer da Alemanha algo parecido com o que havia sido feito na Áustria. O chanceler alemão ocidental Konrad Adenauer e as potências capitalistas recusaram a proposta.

Há alguns sites e algumas páginas no Facebook defensoras do “comunismo ortodoxo” reabilitando Stalin. O objetivo deste texto não foi este. Não se negam aqui as atrocidades praticadas pelo ditador georgiano soviético. Mas o nivelamento com Hitler é desonesto. Os dois viveram no passado, mas interpretações históricas geram consequências para o presente. Falar do “totalitarismo do século XX praticado por Hitler e Stalin”, como se fossem iguais, serve para transformar em assustadora qualquer proposta de transformação da sociedade.

Observação: se você for hoje (30/03) à Marcha Antifascista, a ser realizada na Central do Brasil, às 18 horas, e alguém te perguntar se o comunismo não é igual ao fascismo, lembre-se deste texto.

balança pratos

Uso político do Discurso e Mídia: Uma Confluência Perversa

É indiscutível que estamos vivendo uma Crise e, como tal, precisa ser refletida à luz de sua complexidade e sob os diversos ângulos. Porém, o que observamos é que a produção dos discursos dos grandes veículos de comunicação criaram uma hegemonia editorial, onde ditam quais fatores são relevantes e quais são secundários no meio dessa situação. Um exemplo a ser dado é o descomprometimento da grande imprensa nacional sobre a oscilação do mercado internacional, da queda do preço do petróleo, da queda do crescimento Chinês e como tudo isso afeta o Brasil. Em compensação, o discurso da imprensa é direcionado fortemente para uma crise política institucional, protagonizada principalmente pelo poder executivo. Mas antes de abordarmos a materialidade dessa situação é preciso relembrar os ensinamentos de um dos pensadores mais inquietos do século XX: Michel Foucault.

Foucault vai nos oferecer uma leitura bastante pertinente sobre o discurso e seu uso na sociedade. Podemos dizer, sucintamente, que o discurso materializa ideologias, simboliza o poder e também, metalinguisticamente, passa a ser desejado por tudo que é capaz de conquistar. É comum pensarmos que o discurso é apenas o procedimento lógico de frases, cuja pretensão é um significado em si mesmo. Porém, é preciso compreender que seu uso contribui para o funcionamento e a ordem social. O discurso passa a ser objeto de desejo devido ao seu poder intrínseco de controle. É extremamente pertinente pensarmos sobre como o controle das palavras refletem na limitação que o interlocutor-receptor tem sobre determinados saberes.

Devido ao limite de linhas e não pretendendo esvaziar os desdobramentos e interpretações acerca do problema do Discurso em Foucault, penso que o foco de sua crítica em “A ordem do Discurso” é justamente elucidar os procedimentos que visam controle, para quem é e como é distribuído os respectivos discursos. Apesar de seu foco ser os saberes científicos, principalmente as Ciências voltada ao homem, podemos utilizar essas mesmas premissas para interpretarmos o discurso jornalístico. É visível o poder político e a capacidade de mobilização pública que os veículos de comunicação possuem.

Isso comprova o poder que o discurso é capaz de conquistar, principalmente em um país onde não há democratização da mídia e é marcado pelo oligopólio na área. A sutileza do discurso dominante é tão interessante que ele não se faz de maneira absoluta, há espaço para o controverso, não há uma censura total. Mas o espaço que o controverso e a pluralidade é aceita, se mostra simbólica, não efetiva.

Por fim, podemos questionar os pressupostos de neutralidade e liberdade de imprensa, argumento muitas vezes usado quando há propostas ou forças políticas querendo regulamentar e democratizar a comunicação. Da mesma forma é necessário refletir de como o domínio das poucas empresas de comunicações são capazes de ditar a agenda política e econômica do país. Resta aos profissionais da área, intelectuais e movimentos sociais fomentarem, a cada dia mais, um contra discurso político capaz de disseminar reflexões nessa direção, onde tenham propostas para transcender a esse quadro. Pois, quem perde são os cidadãos, reféns de um discurso editorial dominante, onde não contempla informações que privilegiem e respeitem as complexidades dos problemas noticiados.

 

Alexandro Kichileski

 

Professor de Sociologia da Rede Pública Estadual de Santa Catarina.

 alexandro

 

Os Deveres da Esquerda Numa Época de Crise

O Planalto, acossado por denúncias de corrupção e por um processo de impedimento, se torna impotente para implementar as medidas necessárias para reaquecer a reprodução de capital; este, por sua vez, como precisa de segurança jurídica e paz social para se reproduzir, sai do país em busca de lugares onde estas condições são mais atrativas. É um ciclo vicioso que se retroalimenta.

Quem paga por tudo isso são os trabalhadores, com o aumento da taxa de desemprego, o rebaixamento dos salários (apesar do aumento risível do salário-mínimo), a retirada de direitos trabalhistas historicamente conquistados e uma maior precarização das condições de trabalho.

Corrupção vindo a tona, perda de controle da base aliada, fim da paz social e estagnação econômica sãos os ingredientes perfeitos para a decadência deste período histórico chamado Nova República…

Neste cenário, onde há crises por todos os lados e onde aquilo que os homens consideravam sólido, o crescimento econômico brasileiro, se esvai, então eles se apegam à utopia, na busca pela saída da crise num modelo de sociedade que se encontra distante no tempo; ou à nostalgia, sendo o retrocesso ao passado como forma de escapar a realidade presente, tão cinzenta e sem perspectiva.

A esquerda encontra-se em desvantagem em relação às narrativas de direita. Primeiro, porque é muito mais fácil para os homens apegarem-se a algo que eles já conhecem — por isso é tão difícil pensar além dos limites imposto pelo tempo histórico. Segundo, porque a esquerda hoje está desacreditada, pela incapacidade proposital de um governo que se recusou realizar as reformas estruturais defendidas historicamente pelo Partido dos Trabalhadores, se afastando dos movimentos sociais e se tornado cada vez mais burocrático, onde a manutenção da governabilidade sufoca a dimensão ideológica. E terceiro, porque governos na América Latina, que se auto declaram de esquerda, como o caso de Venezuela, tem entrado numa aguda crise econômica.

Dentro de um quadro de crise e perdendo terreno para narrativas e discursos de caráter conservador, fica a pergunta: Quais seriam os deveres para os grupos de esquerda se tornarem uma força relevante e, mesmo que não conquistem o poder, ao menos influenciem o direcionamento social do Brasil contemporâneo?

É necessário que a esquerda se imponha como uma alternativa independente, radicalizado o seu projeto histórico. O capitalismo global deve ser mostrado ao trabalhador como um sistema sempre sujeito a crises e criador de mais e mais desigualdades. Diante disso, um novo projeto de sociedade, baseado no gerenciamento democrático dos meios de produção e dos frutos do trabalho deve ser mostrado como uma alternativa possível ao sistema das crises cíclicas. Por isso, mostrar aos trabalhadores que é possível ter um emprego com um salário justo com a alternativa socialista e o principal objetivo que deve mirar a esquerda: a luta pelo fim da exploração do homem pelo homem.

A esquerda também precisa romper com o sistema politico vigente, isto é, deve ter em mente que os atores e o campo politico como estão organizados não contemplam os trabalhadores, só contemplam os beneficiários do capitalismo global. Isso não significa que as forças progressistas devem esquecer a politica tradicional, elas devem ser usadas em prol dos trabalhadores, mas devem ter em mente de que ela é fruto de um modelo de sociedade que deve ser superado. As estruturas do estado podem ser usadas, mas sempre tendo em vista o ponto final e principal para a luta da verdadeira esquerda: a superação da sociedade atual e do modo de produção capitalista.

Uma esquerda genuína é aquela que percebe é a luta de classes o motor da história, sendo ela a base principal onde se forjam todas as desigualdades da sociedade moderna.

Cabe à esquerda, como a verdadeira vanguarda da transformação social, se impor no dever de radicalizar a democracia e tornar real o lema da liberdade, igualdade e fraternidade.

A crise da Nova República pode ser uma alternativa para os campos progressistas, mesmo em desvantagem, para realizar uma autocritica, refazer suas estratégias na luta pela hegemonia, estudar com mais afinco a dinâmica do capital e formas de implementação da democracia participativa, e se preparar para ganhar a consciência dos trabalhadores num futuro próximo ou, quem sabe distante.

O retrocesso a uma democracia racionada

Aproximadamente duas semanas atrás, escrevi um texto sobre os colunistas Merval Pereira e Ricardo Noblat flertando com uma “intervenção militar”. Na verdade, não se trata de risco de um golpe militar com a posse de um presidente general, mas sim do uso das Forças Armadas para “manter a ordem”. Aliás, não é preciso falar de Forças Armadas, pois o Brasil já tem mais de 50 polícias (se contar as duas que todos os estados têm, mais a federal).

O Brasil não terá mais uma ditadura militar. Mas corre o risco de retroceder a uma democracia racionada. Um modelo bem conhecido de democracia racionada é o da Colômbia. Ao contrário de outros países da América do Sul, a Colômbia não teve ditadura militar entre as décadas de 1960 e 1980. Formalmente era uma democracia. Tinha partidos, eleições periódicas. Mas a esquerda era expulsa desse processo “democrático” pela força. Líderes sindicais, líderes de movimentos sociais e políticos de esquerda eram assassinados por paramilitares, com vista grossa das autoridades do Estado. Para esquerdistas, era mais seguro fazer parte das FARC e se esconder na floresta do que fazer política convencional. Com a esquerda inviabilizada politicamente, a disputa eleitoral se dava entre liberais e conservadores.

Há outros modelos de democracia racionada no mundo. Um deles é o da Ucrânia atual, que tem um governo de extrema-direita e tropas de choque paramilitares fascistas agindo livremente. Observando o passado, não precisa ir muito longe para encontrar outro modelo de democracia racionada: a do Brasil entre 1945 e 1964. O Partido Comunista era ilegal. Aprovados em concursos só poderiam ser nomeados funcionários públicos se tivessem ficha limpa no DOPS. O governo “democrático” do General Eurico Gaspar Dutra foi o que foi mais longe: houve prisões políticas, incluindo a de Caio Prado Jr e de Mário Lago.

Indícios de racionamento de democracia já estamos vendo aqui no Brasil atualmente. Alguns exemplos são:

As milícias nas favelas

Assassinato de testemunha de execução praticada por policiais

As prisões com provas capengas da Sininho e outros ativistas no Rio de Janeiro em 2014

As prisões dos líderes estudantis em Goiás que lutaram contra a política de OSs do governador Marconi Perilo

O clima de caça às bruxas aos líderes do movimento de ocupação de escolas em São Paulo, que se opôs à reorganização do Alckmin, assim como a brutal repressão policial àquele movimento

Os critérios diferenciados que a Polícia Militar de São Paulo tem em lidar com manifestações com as quais a corporação concorda e em lidar com manifestações com as quais a corporação não concorda

Tolerância das autoridades policiais à violência de grupos fascistas contra militantes de esquerda, como se viu na semana mais recente

A invasão de uma reunião sindical feita pela Polícia Militar de São Paulo

A tentativa do Ministério Público Eleitoral do Rio de Janeiro de incomodar pequenos doadores do PSOL

Lei aprovada pelo Congresso Nacional feita com propósito único de eliminar a participação dos candidatos do PSOL em debates televisionados

O projeto de lei que pretende censurar a atividade docente no Brasil, prevendo até mesmo prisão de professores que expressem opiniões políticas em sala de aula

As leis aprovadas por câmaras municipais para impedir o ensino sobre gênero nas escolas, e, assim, impedir o combate à transfobia

A situação tende a se agravar, ainda mais quando está em pauta à implementação de medidas econômicas impopulares.

Esta tragédia ocorrerá (ou melhor, está ocorrendo) independentemente do fato da Dilma permanecer, do Michel Temer assumir, ou de um outro ganhar uma nova eleição. A repressão praticada por Legislativo/Judiciário/polícias/paramilitares independe de quem ocupa o Poder Executivo. Outro exemplo de democracia racionada que é bem ilustrativo são os Estados Unidos durante o macarthismo, que ocorreu nas décadas de 1940 e 1950. O macarthismo começou na era Truman, um presidente progressista no espectro político norte-americano. Mas quem perseguia era o Congresso, e não o Poder Executivo. Um filme recente, o Trumbo, sobre a perseguição a um roteirista comunista de cinema, retratou muito bem aquela época.

No futuro, filmes retratarão este período horrível na história brasileira em que vivemos. O que temos que fazer agora é resistir. Como? Aceito sugestões.

conta gotas

 

A quem interessa falar dos “perigos” do Foro de São Paulo

O Foro de São Paulo é uma associação de partidos de esquerda da América Latina. Inclui tanto partidos comunistas, quanto social democratas. Os partidos brasileiros presentes no Foro são o PT, o PCdoB, o PCB, o PDT, o PPL, o PSB e o PPS (sim, dois partidos “tucanos” fazem parte do Foro). Associações de partidos com afinidade ideológica são comuns. Existem internacionais. Existem blocos de partidos ideologicamente alinhados no Parlamento Europeu.

Podemos observar que onze em cada dez referências ao Foro de São Paulo na imprensa brasileira são localizadas em textos com mimimi anticomunista, falando que o Foro articula planos para implantar o comunismo, comer criancinhas, distribuir Pepsi com fetos abortados e roubar o coelhinho da Mônica. Para tentar relacionar o Foro com alguma atividade criminosa, os mimizentos falam da presença das Farc no Foro. O problema é que as Farc deixaram o Foro em 2002. Antes disso, estavam tentando negociar com o governo colombiano para entregar as armas e virar um partido. Fora isso, a grande imprensa brasileira fala pouco do Foro. Não porque é cúmplice do plano secreto de assar as criancinhas, e sim porque não quer fazer propaganda de uma organização cuja orientação política é discordante.

Quem começou falando dos perigos do Foro foi o autointitulado filósofo Olavo de Carvalho. Ele sabe explorar muito bem um nicho comercial. Não tem vínculo forte com políticos e partidos. Os seguidores do Olavo difundem as teorias sobre os perigos do Foro porque realmente acreditam nelas.

Outros colunistas na imprensa passaram a falar dos perigos do Foro, mas com motivação muito pior. Eles têm simpatia pelo PSDB e pelo DEM, proximidade com políticos destes partidos, ou ao menos escrevem para periódicos que se simpatizam por esses partidos. Sabem que a maioria dos brasileiros tem desconfiança generalizada dos partidos políticos, que considera que a corrupção está em vários partidos, que a maldade não é restrita ao PT. Por isso, esses colunistas se veem na necessidade de criar uma historinha para mostrar que o PT é mais malzinho do que os outros partidos. Aí falam do Foro comedor de criancinhas. Dessa forma, induzem seus leitores a pensar que o PT tem a maldade extraordinária, e que por isso, o cidadão de bem deve aceitar os delitos praticados por políticos do PSDB e do DEM como um mal menor. Também deve aceitar os delitos dos políticos do PMDB e do PP como um mal menor, quando estes partidos não se comportam mais como aliados do PT. Deve aceitar que para tirar o PT, investigado pela Lava Jato, do Planalto, é aceitável o PSDB se aliar ao PMDB, outro investigado pela Lava Jato. Estes colunistas transmitem a ideia do “rouba, mas no momento é o que existe de força contra o PT”. Alguns destes colunistas têm ótimas relações com políticos delinquentes do PSDB, do DEM, do PMDB e do PP. Há até mesmo alguns que pagavam pau para o Eduardo Cunha antes da descoberta das contas na Suíça. Mas depois de já serem bem conhecidas as histórias da Telerj e da Cehab.

Então, meu amigo leitor, se você ler um colunista mencionando os perigos representados pelo Foro de São Paulo, tenha a consciência de que não se trata de um maluco paranoico. E nem simplesmente de “alguém que pensa diferente de mim”. Trata-se na verdade de um charlatão safado que tem interesse especial em passar pano em pilantras quando estes pilantras são do PSDB, DEM, PMDB ou similares, e quando estes pilantras têm afinidade ideológica ou até mesmo pessoal com o colunista. Sugiro dar um Google nos nomes dos colunistas que escrevem sobre os perigos do Foro, para verificar as afinidades destes colunistas.

Sim, achava que nem precisava escrever, mas sempre alertando, o fato dos adversários do PT terem feito sujeira não justifica as sujeiras do PT. Mas também as sujeiras do PT não justificam colunistas charlatões inventarem historinhas de perigos imaginários para proteger sujeiras de políticos pelos quais os colunistas charlatões têm afinidade.

foro de são paulo figura

8 de março: Dia de LUTA.

Dia 8 de março é marcado pelo Dia Internacional da Mulher, uma data histórica que teve seu início marcada por muita luta, e ao mesmo tempo, por muito sangue! Centenas de mulheres foram mortas e queimadas por estarem lutando por seu espaço no mercado de trabalho, na sociedade e no mundo.

Fonte: Divulgação.

Atualmente a mídia transformou esta data em algo comercial, como todas as outras. Ser mulher é motivo suficiente para ganhar presentes, flores, chocolates, etc. O que não costuma ser falado e debatido nesta data é justamente sobre o que ocorre na vida real das mulheres:

No mercado de trabalho, sofremos com a desigualdade de salários e hierarquias.
Na política, nosso espaço é reduzido.
Na rua, somos alvos de cantadas, assédios e piadas.
Nossa roupa é indecente. Nosso cabelo tem que ser liso, comprido e não deve ser chamativo. Nossas pernas tem que estar depiladas, assim como as axilas. Nosso corpo tem que ser magro. Nossa maquiagem tem que ser discreta. Nossas unhas devem estar sempre pintadas, mas de cores claras.

Quando as mulheres engravidam, alguns homens abandonam. Nós, não podemos. Somos julgadas por sermos mães solteiras, por ser mãe e pai ao mesmo tempo, sozinhas, e não conseguir educar nossos filhos da melhor forma. Em casa, temos que ser mães, donas de casa, cuidar do marido e trabalhar fora. E é no conforto do nosso lar que somos ameaçadas pelos nossos companheiros. Ameaças físicas, emocionais e chantagens das mais diversas formas. Mortes… F-E-M-I-N-I-C-Í-D-I-O-S!
Mulheres negras, além de tudo isso citado anteriormente, tem que conviver com o racismo que reflete na falta de oportunidades, violência, discriminação, etc.

Chamam mulheres lésbicas de sapatão. Travestis, Transexuais e Transgêneros são putas. Mulheres bissexuais são indecisas e safadas. Mulheres pertencentes ao grupo LGBTT sofrem em dobro, pois além de todos os cuidados por ser mulher, ainda precisa lidar com a homofobia e as mais diversas formas de preconceito.

Fonte: Divulgação.

As estatísticas mostram que:

“– 55% dos homens admitem ter xingado, empurrado, ameaçado, ter dado tapa, impedido de sair de casa, proibido de sair à noite, impedido o uso de determinada roupa, humilhado em público, obrigado a ter relações sexuais, entre outras agressões às parceiras;
– 48% dos homens acham errado a mulher sair sozinha com os amigos, sem a companhia do marido, namorado ou “ficante”;
– 43% dos jovens afirmaram já terem visto a mãe ser agredida pelo parceiro;
– 41% das pessoas entrevistadas conhecem alguém que foi violento com a parceira

Precisamos reconhecer o machismo da nossa sociedade e das nossas instituições para combatê-lo! Precisamos falar de gênero nas escolas, precisamos de ações que previnam e enfrentem todas as formas de violência, precisamos de delegacias da mulher e de abrigos com atendimento especializado!

Relatório completo da pesquisa aqui (Dados Instituto Avon e Data Popular, 2014).
Publicado por Coletivo Feminista Casa da Mãe Joana em Sexta, 4 de março de 2016.”

É por esses motivos e tantos outros que esta não é uma data para se comemorar. É uma data para refletir, para ajudar, para ouvir e estender à mão a todas as mulheres.

Não dê flores nem presentes… Troque-os por mais respeito, mais carinho, mais amor e MENOS DOR.
As flores eu ofereço à todas as guerreiras que infelizmente não conseguiram escapar desse mundo cruel e hoje não estão mais entre nós.

Hoje o dia é de LUTO e ao mesmo tempo, um pedido de PAZ!

Quartelada não! Ninguém merece uma nova noite!

Eu estava pensando em escrever sobre outro assunto hoje, mas não é possível deixar de ter posicionamento sobre as colunas publicadas hoje no jornal O Globo.

No início, pedidos de intervenção militar eram coisa de maluquetes. É bastante normal protestar contra o atual governo. Quando há crise econômica, escândalos de corrupção e epidemias, há protestos contra governo, independente do partido e da cor ideológica do governo. Mas pedir intervenção militar é coisa de demente. E agora, a demência chegou (novamente) à redação do jornal O Globo.

Ricardo Noblat e Merval Pereira alertaram seus leitores que os militares estão aí para garantir a ordem. Fizeram um nhemnhemnhem de que não se trata de golpe, mas deram a entender que aprovariam alguma ação que envolvesse força. Ricardo Noblat e Merval Pereira, embora tenham idade avançada, são dois moleques.

Sabemos muito bem o que ocorreu na última vez em que os militares garantiram a ordem e a democracia com o apoio do Globo. Este jornal apoiou não apenas o golpe em 1964, como também o AI-5 em 1968 (ano em que Merval Pereira entrou no jornal), e ainda fez um editorial em 1984, exaltando o regime que estava saindo de cena e mostrando o não arrependimento do apoio do jornal.

Mesmo sem fardados intervindo, já é preocupante a escalada autoritária que está ocorrendo no Brasil. Isto pode ser visto na prisão do morador de rua que carregava pinho sol. Na prisão de ativistas no Rio de Janeiro em 2014, motivada por provas que não conhecemos. Na violenta repressão policial a manifestantes em São Paulo, Paraná e Goiás em 2015 e 2016. Na prisão prolongada dos manifestantes de Goiás. No teor da proposta de lei antiterrorismo, que não visa combater exatamente o terrorismo. Na lei eleitoral feita com o propósito de excluir o PSOL dos debates. Na intimidação a pequenos doadores do PSOL feita pelo Ministério Público Eleitoral. Na ameaça que a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo fez em fazer interpelação judicial contra jornalistas que contestam dados oficiais de homicídios. E não esquecendo: a arbitrariedade que mesmo nos 31 anos de “democracia” nunca deixou de atingir as pessoas que vivem abaixo da linha de pobreza.

Nosso país vive em crepúsculo. Vamos esperar que não chegue uma nova noite.

o-globo-golpe-de-1964