Stalin não foi pior do que Hitler, nem mesmo equivalente

Provavelmente você já leu algum texto que começava com “Hitler e Stalin, os dois grandes líderes totalitários do século XX”. Ou então já viu algum meme no Facebook postado por algum “amigo” olavete que dizia coisas como “Hitler matou seis milhões, Stalin matou vinte milhões, logo o comunismo é pior do que o nazismo”.

Nivelar Stalin com Hitler, ou mesmo dizer que Stalin era pior, é a terceira empulhação sobre o nazismo produzida por grupos de direita. A primeira, praticada pela direita simpatizante do nazismo, é negar que o Holocausto tenha existido. É a mais absurda de todas, porém, é praticada por um número mais restrito de malucos. Dispensa comentários. A segunda, praticada pela direita não simpatizante do nazismo, e com um número maior de adeptos do que a primeira, é dizer que o nazismo era de esquerda por causa do nome por extenso (nacional-socialismo), da bandeira vermelha, do keynesianismo e de mais um ou outro detalhe. Afinal, filho feio é sempre dos outros. Em outro texto, é explicado porque é uma colossal groselha falar que o nazismo era de esquerda. A terceira, aparentemente menos feia do que a primeira e a segunda, e com um número ainda maior de adeptos, é nivelar Stalin com Hitler, ou mesmo dizer que Stalin foi mais brutal.

É historicamente e moralmente errado nivelar Stalin com Hitler, ou mesmo dizer que Stalin foi mais brutal. Entre os dois, há uma diferença essencial. Stalin foi um ditador cruel que, com o objetivo de permanecer no poder, prendeu e matou muitos opositores e potenciais opositores. Isto é horrível. Mas não se compara com o que Hitler fez. O ditador austríaco alemão decidiu deliberadamente eliminar fisicamente algumas etnias. Ter virado opositor de Stalin foi uma escolha de muitos cidadãos soviéticos. Os judeus residentes em locais ocupados pelos nazistas não tiveram escolha. Eles foram assassinados porque eram judeus por etnia. Não tiveram sequer a opção de deixar de seguir a religião judaica para continuar vivos (se tivesse matado apenas os judeus por opção já teria sido horrível, mas Hitler foi além). Nem as crianças escaparam.

Hitler construiu uma indústria de produção de cadáveres em larga escala. Tudo era meticulosamente planejado: os trens, as câmaras de gás, os fornos. Os campos nazistas, como o Auschwitz II e o Treblinka foram produzidos especificamente para praticar o extermínio em massa. A vontade de Hitler matar era tanta que a indústria da morte consumiu até mesmo recursos que poderiam ter sido empregados no esforço de guerra. Os gulags soviéticos eram prisões com condições muito ruins. Muitos detentos morreram, principalmente durante a Segunda Guerra Mundial, em um momento em que até a população “livre” passava fome. Mas os gulags não tinham como objetivo realizar matança em massa. Muitos detentos foram soltos depois do cumprimento das penas. Dos campos nazistas, ninguém foi solto pelos próprios nazistas. A esmagadora maioria foi executada. Alguns poucos conseguiram fugir. Outros poucos conseguiram permanecer vivos até a chegada das tropas aliadas.

Sabe-se que Hitler matou mais do que cinco milhões de judeus. E se somar com ciganos, homossexuais, deficientes, eslavos e prisioneiros de guerra soviéticos, é possível estimar que Hitler foi responsável por onze milhões de homicídios (fora os da guerra que ele iniciou). Ao Stalin são atribuídas mortes referentes à coletivização forçada da agricultura iniciada em 1928, à fome na Ucrânia de 1932 e ao Grande Expurgo de 1936-1938. O número de execuções não passou de oitocentos mil, o que já é absurdamente alto, mas não chegou perto dos números de Hitler. As outras mortes têm causas mais indiretas. Os “20 milhões de mortes do Stalin”, presentes no Livro Negro do Comunismo, bíblia das olavetes, são um chute de Robert Conquest. Os “100 milhões de mortos do comunismo” presentes no Livro Negro são um número pouco confiável. Ocorreram revoluções comunistas na Rússia e na China, países muito populosos, em que muita gente passava fome antes das revoluções, e não foram as revoluções que resolveram o problema imediatamente. Aí, os propagandistas anticomunistas colocam as mortes por fome no período pós revolucionário na conta dos “mortos pelo comunismo”.

Alguns defensores de Stalin usam o argumento de que “revoluções matam”. É verdade que revoluções matam. As revoluções inglesas do século XVII mataram, a Revolução Norte Americana (1776) matou, a Revolução Francesa (1789) matou, a Guerra Civil Norte Americana (1861-1865), responsável pela abolição da escravidão nos Estados Unidos, matou. Este argumento é mais difícil de ser aplicado a Stalin, que tomou o poder em 1924, sete anos depois da revolução. Muitas de suas vítimas foram participantes da revolução, que não gostaram do rumo tomado depois de 1924. Porém, mesmo não aprovando Stalin, é importante rebater mistificações propagandísticas da direita.

A União Soviética teve muitas mortes não controláveis por seus líderes. A Guerra Civil Russa (1918-1921), ainda antes do Stalin virar o líder, matou três milhões. Podem ser colocadas muitas destas mortes na conta das potências capitalistas estrangeiras, que lutaram junto das forças contra revolucionárias. A Segunda Guerra Mundial matou 20 milhões de soviéticos se somados os civis e os militares. É verdade que o número de soviéticos mortos nesta guerra foi ampliado por causa da decisão desastrada de Stalin de duvidar de que a Alemanha nazista atacaria já em 1941. Mas de qualquer forma, o agressor foi Hitler. Óbvio que Stalin não foi bonzinho no combate ao invasor nazista. E nem poderia ser, diante de um inimigo fortemente armado. Importante destacar a decisão de Stalin de ter permanecido em Moscou em novembro de 1941, quando os alemães estavam a apenas 20 quilômetros da cidade. O líder soviético poderia ter se mudado para o leste do Volga, por medida de segurança, assim como parte dos integrantes do governo fizeram. Mas entendeu que a permanência na capital ajudaria a manter o moral do povo em alta, no momento mais difícil da guerra. Também destaca-se o fato de Stalin ter considerado seu filho um soldado como qualquer outro.

Stalin pode ser criticado pelo pacto com os nazistas firmado em 1939. Porém, ele fez isso somente depois de ter fracassado sua tentativa de formar uma aliança anti nazi fascista com o Reino Unido e com a França. A União Soviética foi um dos poucos países do mundo a apoiar a República Espanhola, contra Franco e seus aliados nazi-fascistas. Nos anos 1930, os conservadores britânicos ainda não sabiam se o inimigo maior era a Alemanha Nazista ou a União Soviética. Os britânicos e os franceses também fizeram pacto com os nazistas, o Tratado de Munique. Britânicos, franceses e soviéticos tiveram o mesmo objetivo ao fazer pactos com nazistas: ganhar tempo e preparar suas forças.

Outra distinção importante entre Hitler e Stalin é referente à diferença entre a ocupação alemã da União Soviética, ocorrida entre 1941 e 1944, e a ocupação soviética da Alemanha, ocorrida entre 1945 e 1949. A primeira foi uma política oficial de extermínio de alguns civis e escravização de outros. Cidades inteiras foram destruídas. O Leste Europeu era visto pelos nazistas como o “espaço vital” para os germânicos, tido como superiores aos eslavos. A ocupação soviética na Alemanha foi um processo transitório para o reestabelecimento de um governo próprio alemão, não nazista. É óbvio que no início houve brutalidades praticadas espontaneamente por soldados do Exército Vermelho, mas o próprio regime soviético agiu para conter os excessos. Algumas medidas duras foram tomadas pelos soviéticos contra os alemães. Fábricas foram tiradas dos alemães e levadas para a União Soviética como indenização de guerra. Mas os soviéticos, logo após a rendição incondicional, decidiram fornecer comida para a população civil alemã e organizar o reestabelecimento de serviços básicos em Berlim.

Um fato pouco conhecido atualmente é o de que Stalin não era favorável ao estabelecimento de um estado comunista na zona de ocupação soviética da Alemanha. Quem desejou fazer isso foram os comunistas alemães. Stalin só autorizou a criação da República Democrática Alemã depois que a zona de ocupação norte americana, britânica e francesa se transformou na República Federal da Alemanha, eliminando a possibilidade de uma Alemanha unificada. Em 1952, Stalin ainda fez uma proposta de uma Alemanha unificada, com a possibilidade de manter o sistema capitalista e a democracia pluripartidária, desde que as forças armadas fossem pequenas, apenas para defesa, e que não fossem instalados mísseis no território. A proposta seria fazer da Alemanha algo parecido com o que havia sido feito na Áustria. O chanceler alemão ocidental Konrad Adenauer e as potências capitalistas recusaram a proposta.

Há alguns sites e algumas páginas no Facebook defensoras do “comunismo ortodoxo” reabilitando Stalin. O objetivo deste texto não foi este. Não se negam aqui as atrocidades praticadas pelo ditador georgiano soviético. Mas o nivelamento com Hitler é desonesto. Os dois viveram no passado, mas interpretações históricas geram consequências para o presente. Falar do “totalitarismo do século XX praticado por Hitler e Stalin”, como se fossem iguais, serve para transformar em assustadora qualquer proposta de transformação da sociedade.

Observação: se você for hoje (30/03) à Marcha Antifascista, a ser realizada na Central do Brasil, às 18 horas, e alguém te perguntar se o comunismo não é igual ao fascismo, lembre-se deste texto.

balança pratos

Comentários