Uso político do Discurso e Mídia: Uma Confluência Perversa

É indiscutível que estamos vivendo uma Crise e, como tal, precisa ser refletida à luz de sua complexidade e sob os diversos ângulos. Porém, o que observamos é que a produção dos discursos dos grandes veículos de comunicação criaram uma hegemonia editorial, onde ditam quais fatores são relevantes e quais são secundários no meio dessa situação. Um exemplo a ser dado é o descomprometimento da grande imprensa nacional sobre a oscilação do mercado internacional, da queda do preço do petróleo, da queda do crescimento Chinês e como tudo isso afeta o Brasil. Em compensação, o discurso da imprensa é direcionado fortemente para uma crise política institucional, protagonizada principalmente pelo poder executivo. Mas antes de abordarmos a materialidade dessa situação é preciso relembrar os ensinamentos de um dos pensadores mais inquietos do século XX: Michel Foucault.

Foucault vai nos oferecer uma leitura bastante pertinente sobre o discurso e seu uso na sociedade. Podemos dizer, sucintamente, que o discurso materializa ideologias, simboliza o poder e também, metalinguisticamente, passa a ser desejado por tudo que é capaz de conquistar. É comum pensarmos que o discurso é apenas o procedimento lógico de frases, cuja pretensão é um significado em si mesmo. Porém, é preciso compreender que seu uso contribui para o funcionamento e a ordem social. O discurso passa a ser objeto de desejo devido ao seu poder intrínseco de controle. É extremamente pertinente pensarmos sobre como o controle das palavras refletem na limitação que o interlocutor-receptor tem sobre determinados saberes.

Devido ao limite de linhas e não pretendendo esvaziar os desdobramentos e interpretações acerca do problema do Discurso em Foucault, penso que o foco de sua crítica em “A ordem do Discurso” é justamente elucidar os procedimentos que visam controle, para quem é e como é distribuído os respectivos discursos. Apesar de seu foco ser os saberes científicos, principalmente as Ciências voltada ao homem, podemos utilizar essas mesmas premissas para interpretarmos o discurso jornalístico. É visível o poder político e a capacidade de mobilização pública que os veículos de comunicação possuem.

Isso comprova o poder que o discurso é capaz de conquistar, principalmente em um país onde não há democratização da mídia e é marcado pelo oligopólio na área. A sutileza do discurso dominante é tão interessante que ele não se faz de maneira absoluta, há espaço para o controverso, não há uma censura total. Mas o espaço que o controverso e a pluralidade é aceita, se mostra simbólica, não efetiva.

Por fim, podemos questionar os pressupostos de neutralidade e liberdade de imprensa, argumento muitas vezes usado quando há propostas ou forças políticas querendo regulamentar e democratizar a comunicação. Da mesma forma é necessário refletir de como o domínio das poucas empresas de comunicações são capazes de ditar a agenda política e econômica do país. Resta aos profissionais da área, intelectuais e movimentos sociais fomentarem, a cada dia mais, um contra discurso político capaz de disseminar reflexões nessa direção, onde tenham propostas para transcender a esse quadro. Pois, quem perde são os cidadãos, reféns de um discurso editorial dominante, onde não contempla informações que privilegiem e respeitem as complexidades dos problemas noticiados.

 

Alexandro Kichileski

 

Professor de Sociologia da Rede Pública Estadual de Santa Catarina.

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