Nascidos no Ano em que Haveria Eleição

Opa, tudo bem? Eu sei que estou me antecipando, você ainda não nasceu. Faltam ainda dois anos. Talvez um pouco menos. Mas é que eu tenho algo a lhe dizer: eu e você, camarada, nós temos algo em comum.

E que é o seguinte: eu nasci em 1965. Você, em 2018. Ambos anos em que estavam programadas eleições presidenciais no Brasil.

Houve o Golpe. Era para ser temporário, só para “restaurar a ordem”, tirar do Governo um presidente tido como inadmissível e incapaz de governar, as eleições que deveriam acontecer logo depois transcorreriam normalmente, o Brasil continuaria rigorosamente tão democrático quanto antes do golpe, e vida que segue. Havia candidatos fortes, possíveis zebras e muito tititi por conta das pesquisas de opinião. O candidato que liderava as pesquisas era um que já tinha sido Presidente, era dos poucos da história da República que completaram o mandato normalmente, era benquisto por ter presidido um período de progresso e alta auto-estima nacional, e tinha boas relações com o “inadmissível” deposto. Resumo da ópera: as eleições eram, elas próprias, tão inadmissíveis quanto o “comunista” enxotado do Planalto à força. Não deu outra: os golpistas cancelaram as eleições, baixaram decretos para cassar os direitos, silenciar, intimidar, exilar, torturar e matar (não necessariamente nessa ordem) os adversários, e ditadura viramos.

Já percebeu as semelhanças ou preciso continuar?

Ok, você provavelmente conhece pouco sobre o assunto, os livros de História no seu futuro (assim como no meu passado) são deliberadamente vagos sobre esse período. Não querem que as pessoas saibam o que aconteceu. E agora eles têm dois golpes para botar panos quentes, não só um. Trabalho dobrado para o Ministério da Verdade. (Sim, eu sei que não existe ministério com esse nome. Isto é referência a outro livro que você tem que ler. Mas eu divago.)

Para se informar corretamente, ajuda achar alguém que não se juntou ao Pensamento Único Obrigatório. Talvez aquele tio meio pancada que fala coisas estranhas no Natal da família, estranhas mas interessantíssimas, e que seus pais se sentem visivelmente desconfortáveis quando veem que você gosta do papo dele. Talvez aquele jornaleiro que vive falando mal do governo. Talvez aquele amigo que saca tanto de computador que consegue acessar sites proibidos (tipo El Pais, New York Times, Der Spiegel) que denunciam, lá fora, o que está acontecendo aqui. Aqueles que pra todo mundo dá erro 451.

Eu? Eu tive uma sorte tremenda: meu pai era imigrante de um país aonde aconteceu algo muito semelhante (noves fora o nível muito maior de carnificina) e me mandou a real: filho, isso que estão te dizendo na aula de História é mentira. Não somos uma democracia. O “presidente” é um ditador escolhido por uma junta. Tiraram do povo o direito de escolher seus governantes. Dado que eu tinha 8 anos, é perfeitamente compreensível ele não ter entrado em detalhes sobre torturas, assassinatos e desaparecimentos. Isso fiquei sabendo depois. Mas a pílula vermelha já havia sido engolida.

Ah, tá. Você está me dizendo que estou totalmente equivocado, porque houve eleição sim em 2018, eleição direta, a pessoa que teve mais votos recebeu a faixa do Temer e o golpe foi mesmo temporário. Mas pera lá, vamos analisar essa “eleição”. Quantos candidatos “inadmissíveis” tiveram seus direitos cassados, se retiraram da disputa e saíram do país inexplicavelmente, ou sofreram acidentes convenientemente fatais? E todas essas leis que tornaram mais difícil para as pessoas (principalmente aquelas de regiões ou demografias mais favoráveis aos “inadmissíveis”) votarem? E que, talvez mais importante que Presidente, garantem um Congresso pró-golpista indefinidamente a não ser que no mínimo 80% dos eleitores votem contra? Será que isso é mesmo uma eleição? Ou é outro 1965 disfarçado? Pense bem.

Sim, eu sei. Prever o futuro está longe de ser uma ciência exata. Estou sendo arrogante por achar que estou certo do que vai acontecer. Se, ao contrário do que estou dizendo, houver uma eleição em 2018 tão democrática quanto as sete anteriores, e houver a possibilidade real da vitória de um candidato que desagrada profundamente o poder econômico, estarei fazendo papel de palhaço. E fazer papel de palhaço agora é um mico muito maior que na minha época, porque agora existe Internet e, por mais censura que queiram fazer nela, a Internet não esquece.

Nunca na minha vida quis tanto fazer papel de palhaço.

O Escola (hahaha) Sem Partido e a censura à atividade docente

Uma grave ameaça à liberdade de expressão dos docentes ronda o Brasil. Projetos de leis estaduais e federais mostram intenção de prender professores por causa de opiniões expressas em sala de aula. O grupo que inspirou estes projetos atende pelo nome de Escola Sem Partido. No site deste grupo, está escrito:

Numa sociedade livre, as escolas deveriam funcionar como centros de produção e difusão do conhecimento, abertos às mais diversas perspectivas de investigação e capazes, por isso, de refletir, com neutralidade e equilíbrio, os infinitos matizes da realidade.

No Brasil, entretanto, a despeito da mais ampla liberdade, boa parte das escolas, tanto públicas, como particulares, lamentavelmente já não cumpre esse papel. Vítimas do assédio de grupos e correntes políticas e ideológicas com pretensões claramente hegemônicas, essas escolas se transformaram em meras caixas de ressonância das doutrinas e das agendas desses grupos e dessas correntes.”

As palavras parecem muito bonitas. Mas se for observado em detalhes o site do grupo, as palavras de seus líderes e as palavras dos deputados que fazem projetos de lei sugeridos pelo grupo, verifica-se que “neutralidade e equilíbrio” é aquilo que o Escola Sem Partido menos deseja. Adeptos do grupo praticam discursos fortemente direitistas e demonstram descontentamento com aquilo que consideram “doutrinação” apenas quando professores emitem opiniões de esquerda. O Escola Sem Partido parece não se incomodar com “doutrinação” se for do lado deles, ou seja, de direita. Parece não se incomodar com o conteúdo ensinado em colégios religiosos, colégios militares, faculdades de economia e administração. O grupo seria mais honesto caso o nome fosse Escola Sem Partido Inimigo Nosso e com Partido Amigo Nosso. Um dos grandes gurus intelectuais do Escola Sem Partido é o auto intitulado filósofo Olavo de Carvalho, admirador de líderes autoritários de direita.

Nesta semana, a Assembleia Legislativa de Alagoas aprovou um projeto de lei contra a “doutrinação em sala de aula”. Há projetos semelhantes em outras assembleias estaduais, e também na Câmara federal, o PL 1411/2015, de autoria do deputado Rogério Marinho (PSDB/RN).

Uma grande força inspiradora deste movimento e destes projetos de lei é o fanatismo religioso. Os defensores da mordaça nos professores desejam que as escolas não ensinem conteúdo que se opõe às convicções religiosas dos alunos e de seus respectivos pais. Em primeiro lugar, este raciocínio é absurdo porque considera que os pais são os donos das crianças. Em uma sociedade livre, é aceitável que professores tenham pontos de vista sobre política, moral e religião diferentes dos pais, e com o amadurecimento, as crianças (ou adolescentes) decidam por elas próprias quem está correto. Em segundo lugar, banir o ensino daquilo que contradiz religiões é um passo para a anti-ciência e para o preconceito. Se professores não tiverem permissão de ensinar aquilo que vai contra “convicções religiosas”, eles serão impedidos de ensinar a Teoria da Evolução, pois esta teoria diverge daquilo que livros sagrados religiosos dizem. Se professores não tiverem permissão de ensinar aquilo que vai contra “convicções religiosas”, eles serão impedidos de defender tolerância à homossexualidade. E aí, aumenta o risco dos alunos virarem futuros carecas agressores de homossexuais.

O Escola Sem Partido é hipócrita quando diz que defende a “neutralidade e o equilíbrio”, porque defende “neutralidade e equilíbrio” porra nenhuma, e mesmo se defendesse, já seria criticável. Em algumas questões, é difícil falar em “neutralidade e equilíbrio”. Não é possível falar em “neutralidade e equilíbrio” entre a Teoria da Evolução e a Teoria do Design Inteligente, porque uma é científica e a outra é pseudocientífica. Não é possível falar em “neutralidade e equilíbrio” entre o aquecimento global e o negacionismo do aquecimento global porque 97% dos cientistas que estudaram esta questão concordam que a atividade humana causa o aquecimento global. Não é possível falar em “neutralidade e equilíbrio” entre ser a favor e ser contra a homofobia. Não é possível falar em “neutralidade e equilíbrio” entre ser a favor e ser contra o racismo.

Professores, estudantes e qualquer outra pessoa que seja a favor da liberdade de pensamento devem se mobilizar para fazer resistência feroz à tentativa de introduzir a censura à atividade docente. Inclusive demonstrando que as leis “anti-doutrinação” poderiam ser utilizadas também contra “doutrinação” de direita, nos já mencionados exemplos de colégios religiosos, militares, e faculdades de economia e administração, e muitos outros exemplos também. Talvez, ajudaria até mesmo a fazer cair a máscara do Escola (hahaha) Sem Partido.

Manifestações de rua e mensagens a deputados são um bom início.

professor censurado

Stephen Krugman defende o financiamento privado de campanha eleitoral

Stephen Krugman não existe. Ele é um personagem criado com o objetivo de satirizar a nova safra de “pensadores” de direita existente no Brasil. Neste texto de 2014 (só com algumas citações diferentes do original), ele explica porque é a favor do financiamento privado de campanha eleitoral, por pessoas jurídicas. Nenhum texto a favor do financiamento empresarial é tão sincero quanto este. Na verdade, todos que defendem o financiamento empresarial pensam assim, mas têm receio de admitir. Argumentos como o de “mais transparência” ou “vai ocorrer de qualquer maneira, então é melhor regulação do que clandestinidade” são pura enrolation. Quem usa esses argumentos quer apenas ganhar mais aceitação. Mas os motivos que fazem defender o financiamento empresarial são os do Stephen Krugman.

 

Por que o financiamento público de campanha é uma ideia pervertida e pecaminosa

Por Stephen Krugman

Em meio a tantos impostos, tanta bandidagem, tantos programas sociais que incentivam a vagabundagem, tantos políticos populares exibindo baixo nível cultural e envergonhando nosso país, surge mais um motivo para os cidadãos de bem brasileiros acordarem: a tentativa de instituir o financiamento público de campanha. O sistema político, que já é ruim, tenderá a ficar péssimo. Por enquanto, poucas vozes se levantam contra esta perversidade. Honrosas exceções são o ministro Gilmar Mendes e os colunistas Merval Pereira e Bolívar Lamounier, homens de elevada grandeza moral e intelectual. Infelizmente, eles são um pouco temerosos de explicar profundamente porque o financiamento público de campanha é uma grande inversão de valores, com medo de recepção ruim que podem encontrar em um país mergulhado há muito tempo no politicamente correto gramsciano.

Já é um completo absurdo cada habitante do país ter número igual de títulos de eleitor, ou seja, um, independentemente de quanto contribuem para a geração de riqueza no país. O voto de um grande realizador como o Senor Abravanel ou o Antônio Ermírio de Morais vale tanto quanto o voto de um vagabundo que vive de Bolsa Família. Como os vagabundos são a maioria, é o voto deles que decide quem serão nossos líderes. Um bom medidor da qualidade de um líder político é o quanto os ricos aprovam este líder, porque se os ricos são aquelas pessoas que tiveram competência para gerar riqueza, são estes os mais habilitados para decidir como um país deve ser administrado. Dizem que o João Goulart tinha apoio da maioria dos pobres e que isto foi demonstrado em uma pesquisa de opinião. É verdade. E naquele tempo, os cidadãos de bem foram às ruas para clamar por sua deposição. Isto é a prova de quanto aquele presidente era de qualidade inferior, pois era popular entre quem não prestava e impopular entre quem realmente tem a opinião que deve ser considerada relevante. Não é à toa que a economia brasileira vivia um período de estagflação, e quando chegou o governo pedido pela Marcha da Família, a economia brasileira deslanchou. Mais recentemente, houve um presidente com imensa popularidade entre os pobres e com bem menor popularidade entre as pessoas que prestam, e foi uma pessoa de baixo patamar e um presidente de baixo patamar. Não precisa mencionar o nome. Os pobres são pobres porque são incapazes de administrar seus próprios recursos, portanto, são incapazes de opinar sobre como os recursos de um país devem ser administrados. Todos nós sabemos que quando pobre fala com as cordas vocais, só sai merda. Quando ele fala com os dedos na urna eletrônica, também só pode sair merda.

O financiamento privado de campanha permite neutralizar parcialmente a super-representação dos desqualificados ao permitir que os ricos ofereçam dinheiro para as campanhas dos candidatos decentes. Dessa maneira, é possível a eleição de bravos e honrosos parlamentares como Eduardo Cunha, Ronaldo Caiado, Duarte Nogueira e Onyx Lorenzoni, que atuam com coragem e brilhantismo na defesa do livre mercado e da propriedade privada, e impedem que o Brasil afunde em direção ao socialismo. Mikail Gorbatchev foi premiado por um Nobel da Paz por ter acabado com o comunismo na Rússia. O que ele fez foi simplesmente tentar transformar a Rússia em um país de socialismo europeu ocidental, que é quase tão nefasto quanto era o comunismo soviético. Eduardo Cunha é muito mais merecedor do prêmio, pois vem impedindo que o Brasil se transforme em um país comunista e vem defendendo o verdadeiro capitalismo. Se não fossem os parlamentares que mais dependem do financiamento privado, já teriam sido aprovados projetos de lei imorais e pervertidos que facilitariam a expropriação de terras, criariam impostos sobre grandes fortunas, punindo quem trabalha, e regulariam os meios de comunicação, impedindo que as emissoras de televisão cumpram seu papel de combater o comunismo. Não é à toa que os principais defensores do financiamento público são aqueles que querem punir os bem sucedidos, inchar o Estado, reduzir as liberdades de mercado e solapar os valores cristãos, que são a base de uma sociedade saudável.

Embora bem intencionados, estão equivocados aqueles que lutam contra o financiamento público de campanha dizendo que “o dinheiro de nossos impostos deve ser usado para a educação e a saúde, e não para sustentar campanha de político”. Estão corretos quanto à necessidade de combater o câncer do financiamento público, mas os motivos devem passar longe destes mencionados. Defender que os indolentes devem ter “gratuitamente” serviços de educação e saúde com a mesma qualidade desfrutada por quem trabalha e guarda dinheiro para pagar por estes serviços, é uma inversão de valores. Defender o uso de rios de dinheiro de impostos pagos pelos cidadãos de bem para financiar educação e saúde gratuita para vagabundo é reproduzir o discurso dos defensores do financiamento público de campanha. Quando até os pretensos adversários do comunismo recorrem a argumentos tipicamente comunistas para supostamente combater o comunismo, percebemos que nosso país está afundado no marxismo cultural.

 

blogdostephenkrugman.blogspot.com.br

capitalist_pig

O que a aliança de 2010 entre PT e PMDB nos ensina

Em 2010, PT e PMDB selaram um acordo. O PMDB apoiaria Dilma e alguns candidatos a senador pelo PT, o PT apoiaria alguns candidatos a governador pelo PMDB. Os petistas ganhariam o tempo de TV do PMDB para a Dilma, um Senado mais petista em favor do futuro governo Dilma e uma base parlamentar favorável do PMDB. O PT não perderia com o não lançamento de candidatos a governador, porque abriu mão dos estados onde não teria qualquer chance. No outro lado, os peemedebistas ganhariam a vice presidência, apoio para a presidência do Senado, os 80% de aprovação de Lula em favor dos seus candidatos a governador e a possibilidade de fazer governos estaduais ao estilo PSDB sem oposição do PT.

A face mais visível deste acordo ocorreu no Rio de Janeiro. O PT apoiou Sérgio Cabral para o governo do Estado, e o PMDB apoiou Lindberg para senador. O PT exigiu pouco. Não teve nem a candidatura a vice, nem apoio para a presidência da Alerj, que é cadeira cativa do PMDB. Ao contrário do que ocorre a nível federal, onde o apoio do PMDB ao governo puxa o governo para a direita, a nível estadual no Rio de Janeiro, o apoio do PT não puxa o governo para a esquerda. A administração Cabral/Pezão em nada foi/é diferente das administrações do PSDB de São Paulo. O PT teve duas secretarias com pouco poder político.

Mesmo quando tinha essas duas secretarias, o PT foi irrelevante nas definições dos rumos da administração Sérgio Cabral.

Ainda assim, o PT provavelmente pensou que tinha feito um plano perfeito igual aqueles de pegar o coelhinho da Mônica. Parecia tudo simples. Dilma faria uma administração popular e não teria problema para se reeleger (hahaha). O PT ficaria com as duas boquinhas da administração Cabral, e, portanto, não bateria na administração. Seria caronista do PSOL e do Garotinho, pois estes sim, bateriam na administração. Aí em 2014, romperia com Cabral e lançaria a candidatura do Lindberg ao governo. Não teria dificuldade para pescar uns escândalos dos peemedebistas do Rio de Janeiro. Provavelmente os petistas pensaram que a disputa de 2014 seria pulverizada, que Pezão não teria chance, que o DEM lançaria César Maia, que o PSDB lançaria Bernardinho, Luciano Huck, Ellen Gracie ou algum economista da PUC-RJ, que as Organizações Globo ficariam ao lado do candidato do PSDB, que o PMDB, o DEM e o PSDB dividiram o voto da elite, e que Lindberg enfrentaria Garotinho ou Crivella no segundo turno, podendo contar até mesmo, no segundo turno, com o voto útil da Zona Sul, que rejeita evangélicos. O PT se deu ao luxo de mesmo em 2012, oferecer seu tempo de TV à candidatura à reeleição de Eduardo Paes e a presença de Lula e Dilma nos programas do peemedebista, pois achava que aquela ainda não era a hora da ruptura. Mesmo tendo boa parte da militância do partido ido para as ruas apoiar Marcelo Freixo. Se deu ao luxo também no mesmo ano de 2012, se juntar com PMDB e PSDB para aliviar para Sérgio Cabral na CPI do Cachoeira, que estava investigando a Delta.

A vitória de Lindberg em 2014 era vista em 2011, 2012 e 2013 como um acontecimento muito provável. A elevada votação que ele teve para o Senado em 2010 ajudou a alimentar esta impressão. Trabalhei no serviço público do Estado do Rio de Janeiro neste período, e percebi como tanto quem queria, como quem não queria a vitória do Lindberg esperava que isto fosse acontecer. Alguns petistas imaginaram que a boa votação de Marcelo Freixo em 2012 teria sido uma entrada para o prato principal que seria a vitória de Lindberg em 2014. Chegaram a pensar até que o PSOL poderia aceitar informalmente o papel de linha auxiliar do Lindberg em 2014, pois os principais nomes do PSOL se candidatariam a deputado, e não a governador.

Bom, o plano de pegar o coelhinho da Mônica foi um estrondoso fiasco. Uma Batalha de Itararé. Nunca uma candidatura preparada por tanto tempo (talvez quatro anos) recebeu uma quantidade de votos tão mixaria. Dilma não estava com popularidade em alta, e não pode se dar ao luxo de abrir mão do PMDB, do PRB e do PR, portanto, não teve possibilidade de usar apenas Lindberg como palanque no Rio de Janeiro. O PSOL recusou o papel de linha auxiliar do Lindberg. Lançou o professor Tarcísio Motta, que mesmo desconhecido, brilhou mais que Lindberg nos debates, e só terminou um ponto percentual atrás por causa de Nova Iguaçu. Na capital, o professor superou o senador. Os pobres da Zona Norte, Zona Oeste, Baixada e São Gonçalo, que sempre votaram no Lula ou na Dilma para presidente, se dividiram entre Garotinho, Crivella e Pezão. Lindberg teve 10% cravado dos votos válidos. Por pouco não ficou com apenas um dígito. Nem a aliança com PSB e PV, que deu considerável tempo de TV (inferior ao de Pezão, mas superior ao de Crivella) funcionou. Lindberg talvez esperasse ter votos além dos de eleitores da Dilma (óbvio), também de eleitores da Marina Silva, do Eduardo Jorge e de Luciana Genro. Acabou tendo rejeição de todos eles. No segundo turno entre Pezão e Crivella, os petistas se dividiram entre um dos dois e o nulo.

Mas além das fraquezas da Dilma, do PT e do próprio Lindberg, o que contribuiu para o fracasso deste plano do PT para o Rio de Janeiro? O fato do PMDB também estar pensando estrategicamente em 2010 na hora em que fez o acordo. O PT fez o acordo pensando em como se livrar do PMDB no futuro. Deveria ter considerado o óbvio: o PMDB estava pensando em como se livrar do PT. E foi bem mais sucedido.

Mesmo sendo um partido da base aliada dilmista, o PMDB nunca deixou de ter forte apoio das Organizações Globo no Rio de Janeiro. Em 2014, costurou a aliança Aezão com o PSDB e o DEM. Isto garantiu muito tempo de TV para Pezão, e votos de eleitores da Zona Sul, que haviam ido para Frossard em 2006 e Gabeira em 2010. Se o Plano Lindberg já foi pensado em 2010, muito provavelmente o Plano Aezão já foi pensado em 2010 também. Durante o primeiro mandato de Dilma, PMDB, embora com uns atritos de vez em quando, votava com o PT no Congresso Nacional. Na Alerj, PT, embora com uns atritos de vez em quando, votava com o PMDB. Em público, principalmente em inauguração de obras, Cabral e Pezão eram só abraços e tapinhas nas costas com Lula e Dilma. Secretários estaduais do Rio de Janeiro e ministros do governo federal tinham relação cordial em público. Mas ouvindo conversas de secretários para baixo, a impressão que se tinha era que se tratava de um governo estadual de oposição ao federal, igual ao de São Paulo.

Atualmente, PMDB tem o governo do Estado do Rio de Janeiro, a presidência da Alerj, a presidência das duas casas do Congresso Nacional, a vice presidência, e agora a presidência.

O que esta história ensinou de lição? Sempre quando você for fazer uma aliança estratégica com alguém tão diferente, lembre-se de que este alguém também está pensando estrategicamente.

Outra história que ensinou esta lição foi a do Pacto Molotov Ribbentropp de 1939.
E o que houve no início de 2015? Os petistas do governo Dilma provavelmente pensaram que se tivessem dado tudo que a direita queria (entendendo a direita como empresários, mídia, PMDB, PP, PSD, PTB), a direita não apoiaria em uníssono o impeachment, o impeachment se tornaria inviável politicamente, e quando a economia começasse a se recuperar, seria possível dar um pé na bunda em parte da direita que estava no governo, uma vez que com a economia se recuperando, o apoio popular se recuperia, e o impeachment se tornaria inviável de qualquer maneira. Além disso, economia recuperando é mais emendas e cargos para partidos de aluguel, diminuindo o poder de chantagem da direita ideológica sobre o governo. Probleminha: muito provavelmente a direita sabia que os petistas estão planejando isso e preferiu se antecipar, não dando tempo para a recuperação da economia.

Por fim: será que quando o PMDB definiu, no final de 2009, o nome de Michel Temer para vice na chapa da Dilma, o partido já não estava considerando a possibilidade de impeachment? Michel Temer sempre teve ótima relação com os tucanos. Quando presidente da Câmara no tempo do FHC, ajudou bastante mobilizar a base para aprovar emendas constitucionais.

A falta de legitimidade de um governo Michel Temer

Independentemente do que se pense sobre a legalidade do impeachment, não se pode negar um fato: alguns líderes políticos e econômicos estão cagando para as pedaladas e querem o impeachment porque veem um governo tampão como uma janela de oportunidades para enfiar goela abaixo do povo um programa que dificilmente passaria pelo teste das urnas. Este programa é o “ponte para o futuro”, do PMDB de Michel Temer. Apesar das óbvias diferenças entre 1964 e 2016, o “ponte para o futuro” tem muitas semelhanças com o PAEG do Marechal Castelo Branco. Em ambos os momentos, se defende a ideia de que são necessários sacrifícios no presente para colher frutos no futuro. Os frutos do PAEG vieram em forma de crescimento acelerado do PIB, mas só uma parcela da população brasileira comeu este fruto. Quanto à “ponte para o futuro”, não se sabe nem mesmo se o crescimento acelerado posterior vem. É verdade que as dificuldades atuais na economia exigem algumas medidas que causam sacrifício no curto prazo, que qualquer governo faria. Mas o sacrifício da “ponte para o futuro” não é só de curto prazo: utiliza-se a crise política e econômica como arma para que sejam reduzidas as resistências para uma mutilação duradoura do Estado de Bem-Estar Social criado pela Constituição de 1988. É a típica aplicação da “Doutrina do Choque”, muito bem descrita por Naomi Klein.

Os entusiastas da “ponte para o futuro” têm tanta certeza da impopularidade das propostas que querem de qualquer maneira descartar a possibilidade de realização de uma nova eleição presidencial. Se isto ocorrer, Marina Silva, José Serra, Aécio Neves e Ciro Gomes seriam fortes candidatos. Todos eles defendem algumas políticas da “ponte para o futuro”. Mas a simples existência de uma disputa forçaria um ou todos eles a tentar ser mais popular.

Um governo não eleito não teria legitimidade para implementar um programa que afeta a vida de tantas pessoas.

Lendo isso, algumas pessoas contra argumentariam dizendo “o PT aceitou a aliança com o PMDB e a indicação do Michel Temer como vice” ou “quem votou na Dilma viu a foto do Michel Temer no canto da tela da urna eletrônica” ou “o nome do Michel Temer estava escrito nas bandeiras e nos panfletos da Dilma” ou “a constituição diz que o vice presidente é o primeiro da linha de sucessão do presidente”. Well, eu não estou falando de legalidade, e sim de legitimidade.

Michel Temer recebeu 54 milhões de votos. Para vice presidente, um cargo cerimonial. Quem votou nele para vice presidente foi quem não quer o programa que ele quer implementar. Quem quer o programa do Michel Temer votou no Aloysio Nunes para vice presidente. E nem todos que votaram no Aloysio Nunes para vice presidente querem Michel Temer como presidente. Tanto que antes da grande manifestação de 15/03/2015 pelo afastamento da Dilma, mobilizadores espalharam boatos pela Internet dizendo que se o afastamento da presidente ocorresse na primeira metade do mandato, haveria uma nova eleição. Estes mobilizadores pensavam que este boato ajudaria chamar mais pessoas para a manifestação, pois poder votar de novo e eleger o Aécio empolgava mais essas pessoas do que Michel Temer assumir a presidência. Isto ocorreu antes de Aécio ter sido citado em delações. Mesmo atualmente, a maioria dos manifestantes a favor da saída da Dilma não querem um governo Michel Temer. E mesmo se quisesse, a legitimidade de um governo Temer continuaria questionável.

Entre os defensores do impeachment da Dilma, há aqueles que alegam que mesmo sendo fraca a base legal, que são as pedaladas, haveria uma base moral muito forte. O PT participou de um grande esquema de corrupção envolvendo a Petrobras e por isso não poderia continuar ocupando o Palácio do Planalto. Em primeiro lugar, este argumento é estranho porque base moral não está na Constituição. E em segundo lugar, o mais importante: se o argumento da base moral é válido, o PMDB também não poderia ocupar o Palácio do Planalto, pois também participou do esquema.

Como muitos dos entusiastas do impeachment e formação de um governo Temer gostam de fazer paralelos com o impeachment de Collor ocorrido em 1992, vamos ajudar na comparação. Em 1992, Itamar Franco ficou no canto dele, aguardando chegar sua vez. Ele não mobilizou deputados para votar a favor da derrubada de Collor. Itamar também não pretendeu implementar um programa parecido com o de Lula de 1989, nem chamar o PT para compor os principais ministérios. Ele apenas chamou Erundina para um pequeno ministério. Se Itamar tivesse pretendido levar ao poder o partido derrotado na eleição, assim como Michel Temer quer fazer, certamente o impeachment de Collor não teria contado com tanto apoio, e haveria muito mais gente falando que era golpe.

Vamos a um exemplo mais recente: em 2012, Eduardo Paes, do PMDB, foi reeleito prefeito da cidade do Rio de Janeiro, e o vice prefeito eleito foi Adílson Pires, do PT. O que vocês achariam se o PT resolvesse, junto com o PSOL, tomar a prefeitura do Rio? Poderiam descobrir alguma obra olímpica superfaturada, iniciar uma campanha pelo impeachment de Paes. O Adílson convenceria vereadores de partidecos a votar pelo impeachment, oferecendo cargos em um futuro governo. O PSOL mobilizaria passeatas. Adílson Pires consultaria Marcelo Freixo para indicar nomes para as secretarias. Se isso realmente ocorresse, muito provavelmente quem hoje é entusiasta de um governo Temer não seria entusiasta de um governo Adílson. Diria que se o motivo do afastamento de Paes fosse alguma obra olímpica superfaturada, o PT também não teria condição moral de governar, pelo fato do governo federal ter apoiado as obras.

Foram bem intencionados, mas idiotas úteis, aqueles que andaram dizendo “fora Dilma, fora Temer, fora Cunha”, “fora todos”, “vamos fazer a faxina geral”, “vamos aprovar o impeachment da Dilma, e o Temer e o Cunha serão os próximos”. Isto porque a maneira mais difícil de realizar uma nova eleição presidencial ainda em 2016 é aprovando o impeachment da Dilma. Por enquanto, a maioria da população brasileira não quer Dilma, nem Temer, quer uma nova eleição. Mas com Temer empossado, muito provavelmente a grande mídia iniciará uma campanha de lavagem cerebral dizendo que como a economia brasileira está no buraco, é muito perigoso fazer uma nova eleição, que existe o risco do governo não conseguir mais pagar as dívidas e você ficar sem sua poupança, que existe o risco da Terra parar de girar… Enquanto a mídia tentar colocar apenas a economia no centro das atenções, existe a possibilidade de grande parte da população nem prestar atenção em um acordão na Câmara para salvar Eduardo Cunha. E não prestar atenção também na vergonhosa tentativa do TSE de separar o julgamento de Dilma e de Temer, mostrando um evidente casuísmo.

Acredito que dificilmente quem foi para as ruas gritar “fora Dilma” vai se juntar com quem foi para as ruas gritar “não vai ter golpe” para gritar “fora Temer”. Defendo a realização de protestos anti Temer, mas de preferência pacíficos. Se houver violência, isto pode ser capitalizado por Temer, a propaganda midiática pode incentivar quem antes dizia “fora Dilma, fora Temer” passar a dizer “fica Temer”.

E para concluir, um breve comentário sobre a possibilidade de José Serra ser ministro de Michel Temer. Desde quando a Nova República foi criada, apenas PRN e PT entraram no governo federal pela porta. O PSDB entrou pela janela uma vez, em 1992, no governo Itamar, e Fernando Henrique foi eleito duas vezes quando já era situação. Temos que reconhecer, é óbvio, que o Plano Real foi muito bom para o Brasil. E agora, o PSDB pode entrar pela janela de novo. Mesmo se eleger um presidente em 2018, manterá o tabu de nunca ter vencido uma eleição presidencial quando oposição.

Renunciar e permitir uma nova eleição seria uma atitude de bom senso de Michel Temer.

temer palpatine

Doutrinação Comunista? Não! Educação libertadora

De onde veio essa ideia da “doutrinação marxista”? Ao que parece, essa picuinha começou em 2007 quando o Ali Kamel, um dos diretores executivos da Globo começou a encher o saco por causa dos livros Nova Historia Crítica do Mario Schmit, acusando de fazer propaganda comunista, mas também, pode ser advinda do pseudo-pensador, astrólogo e diarreico mental Olavo de Carvalho, conhecido por suas posições “de direita”, normalmente vinculadas à cultura “letrada” ao qual forma-se uma legião de zumbis com repulsa ao “fantasma vermelho” – comunismo.

O que Olavo se esqueceu de dizer é que a educação é, e sempre foi, um ato político. Não foram os “esquerdistas”, ou Paulo Freire, que inventaram isso. Ensinar é um ato político, a despeito de se ter ou não consciência disso. Não apenas os conteúdos que ensinamos, mas forma pela qual o fazemos.

Acho que as pessoas têm todo o direito de não gostar de Marx ou de Paulo Freire, e de fato há um forte vínculo entre os dois. Mas o legado de Freire vai muito além do marxismo. Aliás, reduzi-lo a ideias comunistas ou doutrinantes é um delírio de quem vê inimigos vermelhos por toda parte. Paulo Freire é uma das grandes referências (se não a maior) da educação brasileira no exterior.

Deixo aqui algumas frases de Paulo Freire para salientar que, de “doutrinação marxista”, a educação libertadora posposta por ele não é, nem longe, uma espécie de rédeas psicológicas ou limitações ideológicas:

“Educação não transforma o mundo. Educação muda pessoas. Pessoas transformam o mundo.”

“Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”.

educação libertadora

Precisamos falar sobre Mídia

Debater o papel social e político da mídia na atualidade é fundamental para compreendermos sua influência nas configurações sociais e do exercício de poder. Entendo por mídia o conjunto de instituições que operam, por tecnologias específicas, no favorecimento da comunicação humana. Acredito que a função ética desse conjunto de instituições é justamente proporcionar e operacionalizar informações que respeitem a complexidade dos fatos noticiados e de fato informem consistentemente os cidadãos.

 

Vivemos o auge das tecnologias de informações, isso nos remete a duas constatações básicas: Primeiro, o lado positivo, é que o avanço tecnológico permite desmonopolizar o rumo editorial dos tradicionais veículos de comunicação (tudo bem, há nessa parte uma discussão aberta sobre a efetividade disso no momento, mas deixo para abordar sobre ulteriormente). Por outro, vivemos uma era de fragmentação dos fatos e uma tempestade de notícias, onde é difícil organizar, checar a veracidade e buscar inclusive informações que possibilitem outras versões sobre o mesmo fato.

 

Imagino eu, caro leitor, que essa última constatação tem todo um problema que nosso hábito contemporâneo enfrenta. Podemos dizer que vivemos a era do efêmero, do flash de notícia, do compartilhamento de supostos acontecimentos sem checar se é real, do sensacionalismo e da busca de ibope. Se ao mesmo tempo essas novas ferramentas são essenciais para a descentralização da informação, por outro lado o seu uso tem-se caracterizado de forma irracional e propiciado espaço inadequado para espalhar boatos difamatórios, ou falsas notícias que pouco contribuem para o conhecimento e o exercício da cidadania dos leitores/receptores. Aqui temos o primeiro desafio de nosso tempo: repensar o uso das novas ferramentas de informação e conscientizar para o uso de forma construtiva.

 

Falar é fácil realmente, mas temos potencialidade de criarmos um contradiscurso capaz de abalar o dominante, oportunizando para população acesso a informações para além da vertente editorial, aberto à complexidade dos fatos, instigando o pensar. Precisamos atingir principalmente os  nossos jovens através desses novos espaços e criar uma geração que de fato privilegie a informação em sua complexidade. É desafiador, ou utópico para alguns, mas se não tivermos essa disposição cederemos constantemente ao imediato, ao dado e possivelmente ao que induz, com mais facilidade, aos equívocos.
 falar sobre midia

Lênin, o Estado e a Revolução

Vivemos em tempos em que o véu das ideologias da sociedade brasileira, que encobria as contradições entre politica e economia, está sendo desfeito e as conquistas da social-democracia brasileira, iniciada em 2002, dão sinais de esgotamento; como consequência, os mais numerosos grupos sociais passam a lutar pela hegemonia em definir o que foi, o que é e o que será o Brasil.

A esquerda, dentro deste contexto, está extremamente fragilizada, dividida, perdendo terreno na luta pelo discurso e desacreditada por causa dos esquemas de corrupção e da covardia do governo do Partido dos Trabalhadores em realizar as reformas necessárias ao Brasil.

Deste modo, acredito que se nós da esquerda e do campo progressista tomarmos as reflexões de Lênin contidas em O Estado e a Revolução, poderemos iniciar uma debate válido sobre qual o papel dos movimentos sociais em tempos de crise e quais os caminhos possíveis para a conquista do poder no país.

Nosso autor parte do princípio de que Marx e Engels desenvolveram uma teoria geral do estado, passando a desenvolver o problema de qual seria o papel da máquina estatal e dos trabalhadores no processo revolucionário. Assim, Lêninafirma que o Estado nada mais é que um aparelho criado para oprimir uma classe sobre a outra. Isto é, o aparato público é um instrumento criado pela burguesia para ajudar na manutenção do seu poder de classe sobre os trabalhadores. Portanto, é um poder baseado na violência, no uso dos exércitos e da polícia.

Recusa qualquer diálogo com reformistas, moderados e sociais-democratas, a quem chama de oportunistas e chauvinistas, pois retardam a marcha da história, ou seja, a revolução. Para Lênin, estes grupos moderados, ao fechar os olhos para a contradição de classe, acabam fazendo o jogo do grande capital e, suas politicas, são tão cheias de contradições quando o capitalismo que fingem criticar.

Diante disso, cabe aos trabalhadores, organizados em torno da liderança doPartido Comunista, conquistar o Estado por meio de uma revolução violenta e usá-lo para instituir a ditadura do proletariado e esmagar a dominação de classe. Em outras palavras, trata-se de instituir uma sociedade onde a vontade da maioria, os trabalhadores, seja de fato aplicada e respeitada. Esta primeira fase seria chamada de socialismo.

O uso do aparato estatal para esmagar a sociedade de classes logo deixaria de existir quando a opressão fosse extinguida. Não havendo mais classes para oprimir outras classes, não haveria mais necessidade de existir o aparato estatal. Assim, o estado moderno se extinguiria e em seu lugar surgiria a Comuna, a autêntica forma de organização da sociedade comunista. Ela se caracterizaria pelo controle direto e democrático dos trabalhadores sobre os processos e sobre os frutos do trabalho.

Tomando a critica de Lênin sobre as sociais-democracias e observando o governo do Partido dos Trabalhadores, que se afundou em vários escândalos de corrupção, se recusou em fazer as reformas estruturais que estavam em seu programa histórico e adotou medidas de economia politica que qualquer governo de direita tomaria, vemos que, de fato, o líder soviético estava certo quanto aos grupos reformistas; ao ignorarem a contradição de classe existente no capitalismo e sua incapacidade deste de prover o desenvolvimento social pleno, suas politicas se tornaram tão cheias de contradições quanto o próprio capital.

Quanto à concepção do livro sobre o Estado, acredito que pode ser um bom ponto de partida para refletirmos sobre formas coletivas de governo, onde a participação direta dos cidadãos ocorra de maneira ilibada e eficiente, substituindo a falida democracia representativa por um controle mais democrático e mais condizente com as demandas sociais.

Escrito para guiar as massas em direção a tomada de poder, o livro de Lênin pode sofrer de alguns anacronismos inevitáveis para uma obra escrita no calor das agitações da Revolução de Outubro. Contudo, isso não tira o seu brilho como obra primordial dentro do marxismo e ainda pode ser uma interessante fonte de reflexões sobre o processo revolucionário e o principal alvo de todo movimento comunista, ou seja, a tomada do estado para revolucionar a sociedade e distribuir a riqueza entre aqueles que realmente produzem, os trabalhadores.

Entrevista: Professor Luiz Fernando de Paula fala sobre Keynes, 70 anos depois de seu falecimento e 80 anos depois de sua principal obra

Neste mês de abril de 2016, completam-se 70 anos do falecimento do economista britânico John Maynard Keynes. O ano atual também marca 80 anos da publicação da Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, obra principal de Keynes. Aniversários redondos são úteis para que sejam escritos em um curto período vários textos sobre um mesmo tema, permitindo um debate sobre fatos passados. Provavelmente, espera-se que vários periódicos de economia tenham artigos e reportagens sobre o Keynes. Para contribuir para o debate, foi feita uma entrevista com o Professor Luiz Fernando de Paula, especialista no pensamento do economista britânico.

Luiz Fernando de Paula tem graduação em Economia na UERJ, mestrado em Engenharia de Produção na UFRJ, doutorado em Economia na UNICAMP e pós doutorado em Economia na Universidade de Oxford, Inglaterra. Atualmente, é professor titular da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ. Ministra as disciplinas Economia Pós Keynesiana e Economia Brasileira Contemporânea. Suas principais áreas de pesquisa são Economia Monetária e Bancária, e Sistema Financeiro. Tem artigos publicados em várias revistas acadêmicas, notadamente a Revista de Economia Política, a Análise Econômica e Journal of Post Keynesian Economics. Faz parte do conselho consultivo da Associação Keynesiana Brasileira.

Entrevista feita por Marcelo Brito

 

Setenta anos depois do falecimento de John Maynard Keynes, e oitenta anos depois da publicação de sua principal obra, A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, quais ideias de Keynes são aproveitáveis até mesmo nos dias de hoje, e quais não são mais?

 

Suas ideias de que o capitalismo deixado puramente as forças do mercado (laissez-faire) gera instabilidade e má alocação de recursos, e que as forças monetárias e financeiras são determinantes para entender o processo de produção e acumulação de capital continuam atuais. A crise de 2007-08 é uma evidencia disto. Keynes era um reformista e acreditava ser possível um equilíbrio entre mercado e Estado. Minsky, economista americano pós-keynesiano, dizia que Keynes era o ombro necessário que podemos nos apoiar para entender melhor o funcionamento da economia.

 

Por que Keynes gera opiniões fortes tanto contra, quanto a favor?

 

Porque ele evidentemente incomoda os liberais que são a favor das livres forças do mercado e contra a participação/intervenção do Estado na economia, e os economistas/pensadores sociais radicais que querem uma mudança mais radical no capitalismo. Como disse acima, Keynes era um reformista econômico e social. Por exemplo, ele participou na elaboração das reformas sociais que permitiram a implantação do Estado de bem-estar social na Grã-Bretanha no pós-2ª Guerra Mundial.

 

Outros pensadores contemporâneos do Keynes também trataram da demanda efetiva. Keynes ficou mais conhecido porque havia alguma excepcionalidade em sua obra, ou porque ele vivia mais perto dos círculos do poder?

 

Os dois economistas que foram pioneiros no desenvolvimento da demanda efetiva foram Keynes e Kalecki. A ideia geral, de que o que determina a renda são as decisões de gastos dos agentes e que os empresários produzem e investem em função da demanda que esperam por seus produtos foram desenvolvidos por esses autores, ainda que haja diferenças nas formulações deles. Kalecki, de formação original marxista, enfatiza a questão das classes sociais (trabalhadores e capitalistas). Já Keynes enfatiza a questão das expectativas empresariais futuras, que pode se alterar em função das mudanças no estado de expectativas dos empresários. No fundo o que eles estão dizendo é o seguinte: quando o empresário se defronta com a questão “quanto produzir”, ele olha não somente a disponibilidade dos fatores de produção (insumos, mão de obra, capital, etc.), como também o quanto eles esperam que vão vender. Se a expectativa é de vendas fracas, ele não vai estar disposto a utilizar os fatores disponíveis e o resultado é baixa produção, baixo nível de emprego.

 

As ideias keynesianas perderam força no mainstream acadêmico a partir da estagflação ocorrida nos países desenvolvidos na década de 1970. É justo vincular Keynes com a estagflação da década de 1970?

 

Sem dúvida a crise das politicas keynesianas esteve relacionada ao processo de estagflação dos anos 70, já que prevalecia no keynesianismo padrão a concepção da Curva de Phillips (existência de um “trade-off” entre desemprego e inflação), que foi fortemente criticada empírica e teoricamente. A contra-revolução novo-classica, com a adoção da hipótese de expectativas racionais, decretou a morte do keynesianismo. Houve então duas reações a contra-revolução novo-clássica: a busca de microfundamentos para explicar a exisencia de rigidez de preços e salários e consequente ajustamento mais lento dos mercados de bens (novos-keynesianos), mas mantendo o arcabouço neoclássico intacto (agentes maximizadores, expectativas racionais, auto-equilibrio do mercado em condições de plena flexibilidade), e alternativamente o retorno a concepções originais de Keynes e Kalecki, como o principio da demanda efetiva. Uma das diferenças fundamentais entre novos e pós-keynesianos, é que para os primeiros uma economia com informação perfeita e salários e preços flexíveis tende a se auto-equilibrar em condições de pleno emprego; já na visão pós-keynesiana, mesmo com salários e preços flexíveis, as economias capitalistas tendem a instabilidade e crise (que pode não acontecer por conta da intervenção do Estado – pela ação do Big Bank e Big Government, para usar os termos de Minsky).

 

Por que os chamados pós keynesianos ocupam espaço tão pequeno nas mais conceituadas faculdades de economia do mundo? Por que o Journal of Post Keynesian Economics tem posição baixa em rankings de journals acadêmicos, se comparada com a posição dos principais journals ortodoxos?

 

De fato, o espaço para heterodoxia diminuiu nos EUA e na Europa, levando aquilo que o Prof Mario Possas denominou de “cheia do mainstream”. Contudo, o Brasil é uma exceção, havendo um espaço mais plural na academia e no debate político.

 

Uma crítica recorrente aos pós keynesianos é a de que eles seriam obcecados demais em interpretar o que Keynes quis dizer, e que o jeito certo de fazer ciência não seria decifrar o pensamento de autores passados, uma vez que ciência seria um acúmulo constante de conhecimento. Como esta crítica poderia ser respondida?

 

Esta é a visão intitulada de “fundamentalismo” keynesiano, não no sentido do fanatismo, mas de um retorno aos fundamentos teóricos originais de Keynes (incerteza não probabilística, moeda não neutra, principio da demanda efetiva, etc.), que tinham sido abstraídos da visão do keynesianismo neoclássico. Mas este foi um movimento nos anos 70 e 80. Contudo, mesmo nesta época avanços teóricos importantes foram feitos no pós-keynesianismo, como a hipótese de fragilidade financeira de Hyman Minsky, segundo o qual economias capitalistas em expansão geram um lento e não perceptível processo de fragilização financeira que pode levar a crises (teoria que voltou a moda com a crise de 2007-2008) e teoria da endogeneidade da oferta da moeda (oferta e demanda por moeda são interdependentes) em suas variadas versões – horizontalista ou estruturalista. Mais recentemente outros desenvolvimentos teóricos devem ser destacados, como a abordagem neo-kaleckiana de regimes de crescimento (wage-led ou profit-led), e o desenvolvimento dos modelos “stock flow consistent” (SFC), baseados em uma estrutura contábil que procura integrar fluxos e estoques em uma economia, além dos modelos (de inspiração kaldoriana) de crescimento com restrição externa desenvolvida originalmente por Thrirwall, e modelos de fragilidade financeira na tradição minskiana.

 

E os chamados novos keynesianos? Eles são keynesianos mesmo?

 

Na realidade são keynesianos apenas no sentido de resultados econômicos que não validam o “market clearing” (auto-regulação do mercado), e abrindo algum espaço para o intervencionismo estatal. Na realidade acabou havendo a partir dos anos 90 uma “nova síntese neoclássica” no que ficou conhecido como “Novo Consenso Macroeconômico”, no qual se aceita a estrutura teórica novo-clássica, mas integrada a existência de rigidez de preços e salários, o que abre espaço para alguma politica estabilizadora no curto prazo. O regime de metas de inflação seria o arranjo macroeconômico “ótimo” no sentido de conjugar o objetivo principal de estabilidade de preços com alguma flexibilidade para acomodar flutuações no produto e emprego. O Novo Consenso, em especial nos EUA, foi seriamente questionado com a crise de 2007-2008, abrindo uma discussão a respeito de uma revisão nas políticas convencionais.

 

As ideias de Keynes estão recuperando espaço na academia dos países desenvolvidos depois da crise mundial de 2008?

Sem dúvida. Economistas de origem novo-keynesianos, como Stiglitz e Krugman, passaram a ter mais atenção com Keynes. De forma geral, as ideias de Keynes voltaram com alguma força, mas é cedo para dizer que tenha havido uma revolução com relação a ortodoxia neoclássica.

 

 

Por outro lado, no Brasil, haverá declínio das ideias keynesianas depois do fracasso das políticas de expansão da demanda agregada do primeiro mandato da Dilma?

 

È um equivoco pensar que keynesianismo é um simples pé no acelerador. Politicas keynesianas tem que ser bem coordenadas, o que não foi o caso do 1º mandato da Dilma. Por exemplo ao invés de fazer uma politica fiscal pelo lado dos gastos (em particular investimento público), privilegiou a isenção fiscal, o que teve baixo multiplicar de renda na economia. E aí caímos no pior dos mundos: o governo abriu mão de receitas e como o PIB não reagiu, o desequilíbrio fiscal foi aumentando, diminuindo o espaço de politicas contraciclicas no momento que o país mais precisava, como em 2015. Foi uma politica mal coordenada e pagamos um preço alto por sua ineficácia.

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RAZÃO E REVOLUÇÃO – MARCUSE II

No meu primeiro tópico (clique aqui) o fichamento do livro de Marcuse circunscreveu a realidade histórica que se consolidava na Europa (principalmente na França, Inglaterra e Alemanha). Agora encerro a Introdução com  Marcuse descrevendo o cenário filosófico, que aborda principalmente as divergências filosóficas entre o empirismo  de Locke e Hume e a reação dos pensadores idealista, sobretudo Kant e Hegel.

 

Boa Leitura!

 

INTRODUÇÃO (Parte II)

2. O cenário filosófico 

P. 28

O idealismo alemão defendia a filosofia dos araques do empirismo inglês, e a luta entre as duas escolas não significava simplesmente o choque entre duas filosofias diferentes, mas uma luta que estava em jogo a filosofia como tal. (…) A significação prática da filosofia assumiria, com Descartes, uma nova forma que se ajustava ao imenso progresso das técnicas modernas.

P. 29

O domínio racional da natureza e da sociedade pressupunha o conhecimento da verdade, e a verdade era universal, em contraste com a aparência diversificada das coisas ou com sua forma imediata na percepção individual.

O contraste entre o universal e o individual assumiu uma forma exacerbada quando, na era moderna, cresceu o clamor de liberdade geral e sustentou-se que uma ordem social apropriada só se poderia efetivar pelo conhecimento e a atividade dos indivíduos emancipados. (…) A vida dos homens fora sacrificada aos mecanismos econômicos de um sistema social que relacionara os indivíduos uns aos outros como compradores e vendedores isolados de mercadorias. Esta ausência de fato de uma comunidade racional era responsável pela busca filosófica de unidade (Einheit) e universalidade (Allgemeinheit) na razão.

P. 30

Os empiristas ingleses haviam demonstrado que nem seque um único conceito ou lei da razão poderia aspirar à universalidade (…) Segundo os idealistas alemães, este ataque comprometia qualquer esforços que se fizessem no sentido de impor ordem às formas estabelecidas da vida. (…) O problema não era pois um problema meramente filosófico, mas ligava-se ao destino histórico da humanidade.

O contra-ataque do idealismo não foi provocado pela posição empirista de Locke e de Hume, mas por sua refutação das ideias gerais.

P.31

As ideias gerais, dizia Locke, são invenções e criaturas do entendimento, por ele forjadas para uso próprio, tendo a ver apenas com símbolos (…) Para Hume, as ideias gerais são abstraídas do particular (…) Esta conclusão, a que levam as investigações empiristas, fez mais do que mina a metafísica: ela confinou o homem ao limite do “dado”, à ordem existente das coisas e dos acontecimentos. (…) O empirismo, por limitar a natureza humana ao conhecimento “dado”, liquidava com o desejo de o transcender (…).

P. 32

Os idealistas alemães aquela filosofia a expressão da renúncia da razão. Para eles, atribuir a existência das ideias gerais à força do hábito, ou derivar de mecanismos psicológicos os princípios pelos quais se aprende a realidade, era o mesmo que negar a verdade e a razão.

Kant sustenta, porém, que os empiristas não demonstraram que a experiência determinasse também por que meios, e de que maneira, havia de organizar aquela matéria empírica. A independência e a liberdade da razão estariam salvaguardadas se demonstrasse que os princípios de organização eram propriedade inata do espírito humano, não sendo derivados, pois, da experiência.

P. 33

Kant pretende provar que o espírito humano é dono das “formas” universais que servem para organizar a multiplicidade dos dados a ele fornecidos pelos sentidos. As formas da “intuição” (espaço e tempo), e as formas do “entendimento” (categorias) são os universais mediante os quais o espírito ordena na continuidade da experiência, a multiplicidade sensível. (…) A experiência apresenta uma ordem necessária e universal, unicamente em virtude da atividade a priori do espírito humano, que percebe todas as coisas e todos os acontecimentos mediante as formas do espaço e do tempo, e que os compreende sob categorias da unidade, realidade, substancialidade, causalidade, etc.

Essa estrutura comum do espírito foi denominada por Kant “consciência transcendental”. (…) As formas transcendentais da intuição, ou sentido externo, sintetizam a diversidade dos dados sensoriais em uma ordem espaço temporal.

P. 34

O que Kant denomina síntese “suprema”, a da apercepção transcendental, é a consciência de um “eu penso”, a qual acompanha cada experiência. (…) A apercepção transcendental é, por conseguinte, a base última da unidade do sujeito e, pois, da universalidade e necessidade de todas as relações objetivas.

A consciência transcendental depende da matéria recebida pelos sentidos; (…) só conhecemos as impressões no contexto de formas a priori do espírito, não podemos conhecer como ou o que são as “coisas em si” que originam as impressões.

Hegel considera que este elemento céptico da filosofia de Kant invalida sua tentativa de defender a razão contra os severos ataque dos empiristas. Enquanto as coisas-em-si estiverem fora do alcance da razão, esta continuará a ser mero princípio subjetivo (…) Inúmeras vezes ele acentuou que a relação entre sujeito e objeto, ou melhor, sua oposição, denotava um conflito concreto na ordem da existência, e que a solução deste conflito, a reunificação dos opostos, era tanto uma questão de prática como de teoria.

P. 35

Ao mesmo tempo, o pensamento se apartava da realidade e a verdade se transformava em um ideal inoperante preservado pelo pensamento; (…) Se o homem não conseguisse reunir as partes separadas de seu mundo, e trazer a natureza e a sociedade para dentro do campo de sua razão, estaria sempre condenado a frustração.

A razão [ de Hegel] é a verdadeira forma da realidade. A filosofia de Hegel é, pois, necessariamente um sistema, subordinando todos os domínios do ser sob a ideia, totalizante, da razão. Os mundos inorgânicos e orgânicos, a natureza e a sociedade, são postos aqui sob o domínio do espírito.

Hegel considera o caráter sistemático da filosofia como um produto da situação histórica. A história atingiu uma etapa na qual é possível a realidade da liberdade humana. A liberdade, entretanto, pressupõe a realidade da razão. (…) O otimismo histórico que ele transpira fornece as bases para o chamado “panlogismo” de Hegel que considera toda espécie de ser uma forma da razão.

P. 36

A verdade não tem a ver apenas com proposições e juízos, isto é, ela não é tão-somente um atributo do pensamento, mas é também um atributo da realidade em formação Algo é verdadeiro se é o que pode ser, se satisfaz a todas as suas possibilidades objetivas. Na linguagem de Hegel, o que é verdadeiro é, pois, idêntico ao seu “conceito”.

O conceito tem uma dupla função. Ele compreende a natureza ou essência do objeto em questão, representando, pois, a apreensão verdadeira deste objeto pelo pensamento. Ao mesmo tempo o conceito se refere à realização efetiva daquela natureza ou essência, à sua existência concreta. (…) Todos os conceitos fundamentais do sistema hegeliano são caracterizados por esta mesma ambiguidade. (…) Hegel não pressupõe uma identidade mística do pensamento e da realidade, mas sustenta que o pensamento correto representa a realidade porque esta última, no seu desenvolvimento, atingiu o estágio em que está existindo em conformidade com a verdade.

P. 37

Temos insistido em que, para Hegel, a realidade atingiu um estágio no qual ela existe no modo da verdade. (…) A realização da razão não é um fato e sim uma tarefa. A forma pelo qual os objetos aparecem imediatamente não é ainda sua forma verdadeira. O simplesmente dado é, de saída, negativo, isto é, diferente de suas reais potencialidades. (…) Todas as formas são atingidas pelo movimento dissolvente da razão, que as revoga e as altera até que correspondam ao seu próprio conceito.

A filosofia de Hegel é, na verdade, aquilo que foi acusada por seus opositores imediatos: uma filosofia negativa. (…) A força que move o método dialético está na convicção crítica. A dialética está inteiramente ligada à ideia de que todas as formas do ser são perpassadas por uma negatividade essencial, e que esta negatividade determina seu conteúdo e movimento. A dialética constitui a oposição rigorosa a qualquer forma de positivismo.

P. 38

De Hume aos positivistas lógicos da atualidade o princípio de tal filosofia tem sido o prestígio definitivo do fato, e seu método fundamental de verificação, a observação do dado imediato. (…) Para Hegel, os fatos, enquanto fatos, não tem autoridade. Eles são “propostos” (gesetzt) pelo sujeito, que os mediatiza pelo processo de compreensão do seu desenvolvimento. (…) Tudo que é dado tem que se justificar ante a razão;

A filosofia de Hegel, entretanto, que começa pela negação do dado e conserva por toda a negatividade, chegará a concluir que a História atingiu 7

A filosofia atinge sua meta quando formula a visão de mundo no qual realiza a razão. (…) A verdade exigiria então a prática histórica real para realizar o ideal; ao deixar este de lado, a filosofia renúncia à sua tarefa crítica, transferindo-a a uma outra força.

P. 39

A filosofia de Hegel apresenta cinco diferentes estágios de desenvolvimento: 1 – O período de 170-1800 marca a tentativa de formular uma fundamentação religiosa para filosofia; 2 – 1800-1801, formulação do ponto de partida dos interesses filosóficos de Hegel, através da discussão crítica dos sistemas filosóficos contemporâneos, especialmente os de Kant, Fichte e Schelling; 3 – Os anos de 1801 a 2006 viram nascer o sistema jenense, primeira forma do sistema completo de Hegel; 4- 1807 Publicação da Fenomenologia do Espírito e; 5 – Período do sistema final;

A elaboração do sistema filosófico de Hegel foi acompanhada por uma série de textos políticas que procuravam aplicar suas novas ideias filosóficas (…)

P. 40

A relação de sua filosofia com os acontecimentos históricos daquela época faz com que os escritos políticos de Hegel sejam parte da sua obra sistemática; ambos devem ser tratados em conjunto a fim de que o conceitos hegelianos básicos sejam compreendidos não só sob o ponto de vista filosófico, como também histórico e político.

  • Na próxima publicação vamos abordar o Hegel jovem, enquanto estudante de Teologia e que dava início as análises que irão constituir os primeiros conceitos do seu sistema filosófico! Até mais! 🙂