Atritos entre esquerda universalista e movimentos de grupos oprimidos específicos

Os movimentos de defesa de grupos oprimidos, como negros, índios, mulheres e LGBTs, muitas vezes são aliados dos movimentos de esquerda. Porém, nos meses recentes, houve vários casos de atrito entre esquerdistas universalistas e os militantes de grupos específicos. Entre estes casos estão:

 

  • A crítica que feministas radicais fizeram a Gregório Duvivier por ele ter aparecido na capa da Trip como militante a favor da legalização do aborto. Para elas, o humorista estaria tirando o protagonismo que deveria ser das mulheres
  • A crítica que feministas radicais fizeram a homens de esquerda que ajudaram a divulgar pelas redes sociais um texto da feminista moderada Cynthia Semíramis, que defendia o feminismo moderado e criticava o feminismo radical.
  • O protesto do movimento negro na FFLCH-USP contra a aula magna do professor esquerdista José de Souza Martins pelo fato da aula magna, diferente da reinvindicação do movimento, não ter sido sobre questões raciais
  • A reação hostil de militantes negros a uma menina branca que foi ao carnaval de rua fantasiada de mãe-de-santo. A fantasia era sobre cura a saudosistas da ditadura militar. Mas os militantes negros consideraram um insulto às religiões de origem africana
  • O texto de uma feminista norte americana de meia idade criticando mulheres jovens que votam no Bernie Sanders e não na Hillary Clinton. Segundo esta feminista, as jovens estariam sendo obedientes aos homens
  • As críticas de militantes pró LGBT a Boechat, que mandou Silas Malafaia procurar uma rola. Para estes militantes, Boechat, mesmo bem intencionado ao atacar um homofóbico, estaria involuntariamente endossando a ideia de que homem gostar de rola é ridículo

 

 

Os partidos, movimentos e líderes de esquerda no Brasil incorporaram tardiamente a luta dos grupos oprimidos específicos como pauta. Racismo, machismo e homofobia sempre existiram na sociedade, e nem mesmo partidos, movimentos e líderes de esquerda ficaram imunes a estes males. Muitas vezes, de forma inconsciente. Grupos oprimidos, muitas vezes, são utilizados como meras peças do tabuleiro de xadrez dos partidos de esquerda.

Aí, ocorreu o fenômeno que pode ser descrito pela “analogia do pêndulo”. Quando um peso fica preso em um dos lados do pêndulo e finalmente consegue ser solto, ele não volta para a posição de repouso, mas se desloca para o outro lado.

Os movimentos de grupos oprimidos passaram a ter suas versões identitaristas (que não representam todo o movimento) que defendem não que “nosso grupo não deve ser mais oprimido”, e sim que “pessoas do nosso grupo são melhores e pessoas de fora dele são uns bostas”.

Os militantes dos movimentos de grupos oprimidos dizem acertadamente que é necessário ouvir pessoas destes grupos antes de formar opinião sobre questões relativas a estes grupos, porque algumas opressões são imperceptíveis para quem não as sente. O problema é que esta constatação correta ganhou um desdobramento equivocado: o de que apenas integrantes dos grupos oprimidos devem ter a palavra sobre questões relativas à opressão. É um mau uso do conceito de “lugar de fala”. O conceito é importante, mas muitas vezes é apresentado de forma distorcida. Alguns militantes procuram esclarecer que se preocupar com lugar de fala não é dizer “cala a boca homem” e “cala a boca branco”. Outros, porém, falam como se fosse isso mesmo.

Muitas vezes, militantes identitaristas de grupos oprimidos dirigem hostilidade até mesmo a militantes de esquerda que não fazem parte dos grupos oprimidos, como demonstrado nos exemplos do início do texto.

E os militantes da esquerda universalista, o que fazem? Bom, o peso do pêndulo continua não parando na posição de repouso. Alguns esquerdistas universalistas reagem da maneira mais estúpida possível. Ao invés de críticas construtivas, fazem textões e ataques irônicos contra os movimentos dos grupos oprimidos. Exemplos desta estupidez podem ser vistos em grupos no Facebook como o “pós moderno” e o “esquerda rihappy”. Estes esquerdistas pretensamente universalistas xingando os militantes dos grupos específicos de “pós modernos” não se diferem muito dos direitistas xingando estes mesmos militantes de “politicamente corretos”. O resultado termina sendo o efeito bumerangue, ou, utilizando outros nomes, o tiro pela culatra, ou ainda, o backlash. Este comportamento dos anti-identaristas acaba for incentivar ainda mais que membros de grupos oprimidos assumam um posicionamento identitarista. Isto porque esquerdistas pretensamente universalistas, não pertencentes a grupos oprimidos, passam a impressão de que são hostis a estes grupos, e aí, incentivam reação hostil.

Os movimentos identitaristas de grupos oprimidos podem estar ocupando um espaço vazio deixado por outros movimentos. Talvez porque os movimentos não identitaristas dos grupos oprimidos estejam silenciosos demais. Talvez porque a esquerda universalista não esteja se mostrando suficientemente sensível à problemática dos grupos oprimidos. Uma mulher que, por alguma experiência pessoal, se sentiu oprimida por homens, pode ter optado por seguir o feminismo radical (o radfem) não porque ela conscientemente decidiu que o radfem era a melhor forma de feminismo, e sim porque foi a única forma de feminismo que ela conheceu, porque este movimento conseguiu ser mais barulhento, e, portanto, ela pode pensar que feminismo é radfem.

Seria muito bom que a esquerda universalista respeitasse as particularidades, porque as particularidades fazem parte do universo, e entendessem que negros, índios, mulheres e LGBTs não têm obrigação de se considerar apenas membros da classe trabalhadora internacional, e que eles podem sim ter demandas específicas. Inclusive, demandas não classistas. Não devemos aceitar a atitude de trabalhadores da construção civil que fazem fiu fiu para mulheres, mesmo que sejam mulheres de classe média, só porque estamos do lado da classe trabalhadora. A esquerda universalista deve entender que a militância pelo grupo oprimido pode ser a porta de entrada para a militância por outras causas progressistas.

Seria muito bom que os membros de grupos oprimidos não pensassem que seus respectivos grupos são os mais oprimidos do mundo só porque nasceram neste grupo, mesmo sem ter escolhido. Ninguém escolhe nascer negro, índio, mulher ou LGBT. E que entendessem que esquerdistas homens, brancos e heterossexuais podemos ter opinião divergente, mesmo se estão errados. Só é possível saber que esquerdistas homens, brancos e heterossexuais estamos errados quando abrimos a boca.

A esquerda universalista pode e deve estar do lado dos movimentos de grupos oprimidos, e vice versa. Há um grande potencial para serem parceiros, e não adversários.

 

Observação: a suposta defesa de grupos oprimidos que às vezes entra em choque com a esquerda não é apenas de grupos étnicos e sexuais. Ás vezes, tem gente que gosta de criar oposição entre pobres e esquerda. Quando a Polícia Militar distribui porrete em militantes esquerdistas de classe média, logo aparecem aqueles que dizem “os esquerdistas de classe média estão sofrendo apenas uma amostra do que a periferia sofre todo dia da Polícia Militar”. Quando ocorre no dia seguinte a uma violenta repressão da Polícia Militar a esquerdistas de classe média, esta afirmação só serve para criar cortina de fumaça. Quem mais se incomoda com o que a Polícia Militar faz na periferia são os esquerdistas. Quem defende o porrete nos militantes de esquerda também defende os tiros nos moradores de periferia. A oposição “lembrar dos esquerdistas que apanharam versus lembrar dos moradores de periferia que foram baleados” é falsa.

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