Entrevista: Professor Luiz Fernando de Paula fala sobre Keynes, 70 anos depois de seu falecimento e 80 anos depois de sua principal obra

Neste mês de abril de 2016, completam-se 70 anos do falecimento do economista britânico John Maynard Keynes. O ano atual também marca 80 anos da publicação da Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, obra principal de Keynes. Aniversários redondos são úteis para que sejam escritos em um curto período vários textos sobre um mesmo tema, permitindo um debate sobre fatos passados. Provavelmente, espera-se que vários periódicos de economia tenham artigos e reportagens sobre o Keynes. Para contribuir para o debate, foi feita uma entrevista com o Professor Luiz Fernando de Paula, especialista no pensamento do economista britânico.

Luiz Fernando de Paula tem graduação em Economia na UERJ, mestrado em Engenharia de Produção na UFRJ, doutorado em Economia na UNICAMP e pós doutorado em Economia na Universidade de Oxford, Inglaterra. Atualmente, é professor titular da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ. Ministra as disciplinas Economia Pós Keynesiana e Economia Brasileira Contemporânea. Suas principais áreas de pesquisa são Economia Monetária e Bancária, e Sistema Financeiro. Tem artigos publicados em várias revistas acadêmicas, notadamente a Revista de Economia Política, a Análise Econômica e Journal of Post Keynesian Economics. Faz parte do conselho consultivo da Associação Keynesiana Brasileira.

Entrevista feita por Marcelo Brito

 

Setenta anos depois do falecimento de John Maynard Keynes, e oitenta anos depois da publicação de sua principal obra, A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, quais ideias de Keynes são aproveitáveis até mesmo nos dias de hoje, e quais não são mais?

 

Suas ideias de que o capitalismo deixado puramente as forças do mercado (laissez-faire) gera instabilidade e má alocação de recursos, e que as forças monetárias e financeiras são determinantes para entender o processo de produção e acumulação de capital continuam atuais. A crise de 2007-08 é uma evidencia disto. Keynes era um reformista e acreditava ser possível um equilíbrio entre mercado e Estado. Minsky, economista americano pós-keynesiano, dizia que Keynes era o ombro necessário que podemos nos apoiar para entender melhor o funcionamento da economia.

 

Por que Keynes gera opiniões fortes tanto contra, quanto a favor?

 

Porque ele evidentemente incomoda os liberais que são a favor das livres forças do mercado e contra a participação/intervenção do Estado na economia, e os economistas/pensadores sociais radicais que querem uma mudança mais radical no capitalismo. Como disse acima, Keynes era um reformista econômico e social. Por exemplo, ele participou na elaboração das reformas sociais que permitiram a implantação do Estado de bem-estar social na Grã-Bretanha no pós-2ª Guerra Mundial.

 

Outros pensadores contemporâneos do Keynes também trataram da demanda efetiva. Keynes ficou mais conhecido porque havia alguma excepcionalidade em sua obra, ou porque ele vivia mais perto dos círculos do poder?

 

Os dois economistas que foram pioneiros no desenvolvimento da demanda efetiva foram Keynes e Kalecki. A ideia geral, de que o que determina a renda são as decisões de gastos dos agentes e que os empresários produzem e investem em função da demanda que esperam por seus produtos foram desenvolvidos por esses autores, ainda que haja diferenças nas formulações deles. Kalecki, de formação original marxista, enfatiza a questão das classes sociais (trabalhadores e capitalistas). Já Keynes enfatiza a questão das expectativas empresariais futuras, que pode se alterar em função das mudanças no estado de expectativas dos empresários. No fundo o que eles estão dizendo é o seguinte: quando o empresário se defronta com a questão “quanto produzir”, ele olha não somente a disponibilidade dos fatores de produção (insumos, mão de obra, capital, etc.), como também o quanto eles esperam que vão vender. Se a expectativa é de vendas fracas, ele não vai estar disposto a utilizar os fatores disponíveis e o resultado é baixa produção, baixo nível de emprego.

 

As ideias keynesianas perderam força no mainstream acadêmico a partir da estagflação ocorrida nos países desenvolvidos na década de 1970. É justo vincular Keynes com a estagflação da década de 1970?

 

Sem dúvida a crise das politicas keynesianas esteve relacionada ao processo de estagflação dos anos 70, já que prevalecia no keynesianismo padrão a concepção da Curva de Phillips (existência de um “trade-off” entre desemprego e inflação), que foi fortemente criticada empírica e teoricamente. A contra-revolução novo-classica, com a adoção da hipótese de expectativas racionais, decretou a morte do keynesianismo. Houve então duas reações a contra-revolução novo-clássica: a busca de microfundamentos para explicar a exisencia de rigidez de preços e salários e consequente ajustamento mais lento dos mercados de bens (novos-keynesianos), mas mantendo o arcabouço neoclássico intacto (agentes maximizadores, expectativas racionais, auto-equilibrio do mercado em condições de plena flexibilidade), e alternativamente o retorno a concepções originais de Keynes e Kalecki, como o principio da demanda efetiva. Uma das diferenças fundamentais entre novos e pós-keynesianos, é que para os primeiros uma economia com informação perfeita e salários e preços flexíveis tende a se auto-equilibrar em condições de pleno emprego; já na visão pós-keynesiana, mesmo com salários e preços flexíveis, as economias capitalistas tendem a instabilidade e crise (que pode não acontecer por conta da intervenção do Estado – pela ação do Big Bank e Big Government, para usar os termos de Minsky).

 

Por que os chamados pós keynesianos ocupam espaço tão pequeno nas mais conceituadas faculdades de economia do mundo? Por que o Journal of Post Keynesian Economics tem posição baixa em rankings de journals acadêmicos, se comparada com a posição dos principais journals ortodoxos?

 

De fato, o espaço para heterodoxia diminuiu nos EUA e na Europa, levando aquilo que o Prof Mario Possas denominou de “cheia do mainstream”. Contudo, o Brasil é uma exceção, havendo um espaço mais plural na academia e no debate político.

 

Uma crítica recorrente aos pós keynesianos é a de que eles seriam obcecados demais em interpretar o que Keynes quis dizer, e que o jeito certo de fazer ciência não seria decifrar o pensamento de autores passados, uma vez que ciência seria um acúmulo constante de conhecimento. Como esta crítica poderia ser respondida?

 

Esta é a visão intitulada de “fundamentalismo” keynesiano, não no sentido do fanatismo, mas de um retorno aos fundamentos teóricos originais de Keynes (incerteza não probabilística, moeda não neutra, principio da demanda efetiva, etc.), que tinham sido abstraídos da visão do keynesianismo neoclássico. Mas este foi um movimento nos anos 70 e 80. Contudo, mesmo nesta época avanços teóricos importantes foram feitos no pós-keynesianismo, como a hipótese de fragilidade financeira de Hyman Minsky, segundo o qual economias capitalistas em expansão geram um lento e não perceptível processo de fragilização financeira que pode levar a crises (teoria que voltou a moda com a crise de 2007-2008) e teoria da endogeneidade da oferta da moeda (oferta e demanda por moeda são interdependentes) em suas variadas versões – horizontalista ou estruturalista. Mais recentemente outros desenvolvimentos teóricos devem ser destacados, como a abordagem neo-kaleckiana de regimes de crescimento (wage-led ou profit-led), e o desenvolvimento dos modelos “stock flow consistent” (SFC), baseados em uma estrutura contábil que procura integrar fluxos e estoques em uma economia, além dos modelos (de inspiração kaldoriana) de crescimento com restrição externa desenvolvida originalmente por Thrirwall, e modelos de fragilidade financeira na tradição minskiana.

 

E os chamados novos keynesianos? Eles são keynesianos mesmo?

 

Na realidade são keynesianos apenas no sentido de resultados econômicos que não validam o “market clearing” (auto-regulação do mercado), e abrindo algum espaço para o intervencionismo estatal. Na realidade acabou havendo a partir dos anos 90 uma “nova síntese neoclássica” no que ficou conhecido como “Novo Consenso Macroeconômico”, no qual se aceita a estrutura teórica novo-clássica, mas integrada a existência de rigidez de preços e salários, o que abre espaço para alguma politica estabilizadora no curto prazo. O regime de metas de inflação seria o arranjo macroeconômico “ótimo” no sentido de conjugar o objetivo principal de estabilidade de preços com alguma flexibilidade para acomodar flutuações no produto e emprego. O Novo Consenso, em especial nos EUA, foi seriamente questionado com a crise de 2007-2008, abrindo uma discussão a respeito de uma revisão nas políticas convencionais.

 

As ideias de Keynes estão recuperando espaço na academia dos países desenvolvidos depois da crise mundial de 2008?

Sem dúvida. Economistas de origem novo-keynesianos, como Stiglitz e Krugman, passaram a ter mais atenção com Keynes. De forma geral, as ideias de Keynes voltaram com alguma força, mas é cedo para dizer que tenha havido uma revolução com relação a ortodoxia neoclássica.

 

 

Por outro lado, no Brasil, haverá declínio das ideias keynesianas depois do fracasso das políticas de expansão da demanda agregada do primeiro mandato da Dilma?

 

È um equivoco pensar que keynesianismo é um simples pé no acelerador. Politicas keynesianas tem que ser bem coordenadas, o que não foi o caso do 1º mandato da Dilma. Por exemplo ao invés de fazer uma politica fiscal pelo lado dos gastos (em particular investimento público), privilegiou a isenção fiscal, o que teve baixo multiplicar de renda na economia. E aí caímos no pior dos mundos: o governo abriu mão de receitas e como o PIB não reagiu, o desequilíbrio fiscal foi aumentando, diminuindo o espaço de politicas contraciclicas no momento que o país mais precisava, como em 2015. Foi uma politica mal coordenada e pagamos um preço alto por sua ineficácia.

luiz-fernando-de-paula

Comentários