Nascidos no Ano em que Haveria Eleição

Opa, tudo bem? Eu sei que estou me antecipando, você ainda não nasceu. Faltam ainda dois anos. Talvez um pouco menos. Mas é que eu tenho algo a lhe dizer: eu e você, camarada, nós temos algo em comum.

E que é o seguinte: eu nasci em 1965. Você, em 2018. Ambos anos em que estavam programadas eleições presidenciais no Brasil.

Houve o Golpe. Era para ser temporário, só para “restaurar a ordem”, tirar do Governo um presidente tido como inadmissível e incapaz de governar, as eleições que deveriam acontecer logo depois transcorreriam normalmente, o Brasil continuaria rigorosamente tão democrático quanto antes do golpe, e vida que segue. Havia candidatos fortes, possíveis zebras e muito tititi por conta das pesquisas de opinião. O candidato que liderava as pesquisas era um que já tinha sido Presidente, era dos poucos da história da República que completaram o mandato normalmente, era benquisto por ter presidido um período de progresso e alta auto-estima nacional, e tinha boas relações com o “inadmissível” deposto. Resumo da ópera: as eleições eram, elas próprias, tão inadmissíveis quanto o “comunista” enxotado do Planalto à força. Não deu outra: os golpistas cancelaram as eleições, baixaram decretos para cassar os direitos, silenciar, intimidar, exilar, torturar e matar (não necessariamente nessa ordem) os adversários, e ditadura viramos.

Já percebeu as semelhanças ou preciso continuar?

Ok, você provavelmente conhece pouco sobre o assunto, os livros de História no seu futuro (assim como no meu passado) são deliberadamente vagos sobre esse período. Não querem que as pessoas saibam o que aconteceu. E agora eles têm dois golpes para botar panos quentes, não só um. Trabalho dobrado para o Ministério da Verdade. (Sim, eu sei que não existe ministério com esse nome. Isto é referência a outro livro que você tem que ler. Mas eu divago.)

Para se informar corretamente, ajuda achar alguém que não se juntou ao Pensamento Único Obrigatório. Talvez aquele tio meio pancada que fala coisas estranhas no Natal da família, estranhas mas interessantíssimas, e que seus pais se sentem visivelmente desconfortáveis quando veem que você gosta do papo dele. Talvez aquele jornaleiro que vive falando mal do governo. Talvez aquele amigo que saca tanto de computador que consegue acessar sites proibidos (tipo El Pais, New York Times, Der Spiegel) que denunciam, lá fora, o que está acontecendo aqui. Aqueles que pra todo mundo dá erro 451.

Eu? Eu tive uma sorte tremenda: meu pai era imigrante de um país aonde aconteceu algo muito semelhante (noves fora o nível muito maior de carnificina) e me mandou a real: filho, isso que estão te dizendo na aula de História é mentira. Não somos uma democracia. O “presidente” é um ditador escolhido por uma junta. Tiraram do povo o direito de escolher seus governantes. Dado que eu tinha 8 anos, é perfeitamente compreensível ele não ter entrado em detalhes sobre torturas, assassinatos e desaparecimentos. Isso fiquei sabendo depois. Mas a pílula vermelha já havia sido engolida.

Ah, tá. Você está me dizendo que estou totalmente equivocado, porque houve eleição sim em 2018, eleição direta, a pessoa que teve mais votos recebeu a faixa do Temer e o golpe foi mesmo temporário. Mas pera lá, vamos analisar essa “eleição”. Quantos candidatos “inadmissíveis” tiveram seus direitos cassados, se retiraram da disputa e saíram do país inexplicavelmente, ou sofreram acidentes convenientemente fatais? E todas essas leis que tornaram mais difícil para as pessoas (principalmente aquelas de regiões ou demografias mais favoráveis aos “inadmissíveis”) votarem? E que, talvez mais importante que Presidente, garantem um Congresso pró-golpista indefinidamente a não ser que no mínimo 80% dos eleitores votem contra? Será que isso é mesmo uma eleição? Ou é outro 1965 disfarçado? Pense bem.

Sim, eu sei. Prever o futuro está longe de ser uma ciência exata. Estou sendo arrogante por achar que estou certo do que vai acontecer. Se, ao contrário do que estou dizendo, houver uma eleição em 2018 tão democrática quanto as sete anteriores, e houver a possibilidade real da vitória de um candidato que desagrada profundamente o poder econômico, estarei fazendo papel de palhaço. E fazer papel de palhaço agora é um mico muito maior que na minha época, porque agora existe Internet e, por mais censura que queiram fazer nela, a Internet não esquece.

Nunca na minha vida quis tanto fazer papel de palhaço.

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