O que a aliança de 2010 entre PT e PMDB nos ensina

Em 2010, PT e PMDB selaram um acordo. O PMDB apoiaria Dilma e alguns candidatos a senador pelo PT, o PT apoiaria alguns candidatos a governador pelo PMDB. Os petistas ganhariam o tempo de TV do PMDB para a Dilma, um Senado mais petista em favor do futuro governo Dilma e uma base parlamentar favorável do PMDB. O PT não perderia com o não lançamento de candidatos a governador, porque abriu mão dos estados onde não teria qualquer chance. No outro lado, os peemedebistas ganhariam a vice presidência, apoio para a presidência do Senado, os 80% de aprovação de Lula em favor dos seus candidatos a governador e a possibilidade de fazer governos estaduais ao estilo PSDB sem oposição do PT.

A face mais visível deste acordo ocorreu no Rio de Janeiro. O PT apoiou Sérgio Cabral para o governo do Estado, e o PMDB apoiou Lindberg para senador. O PT exigiu pouco. Não teve nem a candidatura a vice, nem apoio para a presidência da Alerj, que é cadeira cativa do PMDB. Ao contrário do que ocorre a nível federal, onde o apoio do PMDB ao governo puxa o governo para a direita, a nível estadual no Rio de Janeiro, o apoio do PT não puxa o governo para a esquerda. A administração Cabral/Pezão em nada foi/é diferente das administrações do PSDB de São Paulo. O PT teve duas secretarias com pouco poder político.

Mesmo quando tinha essas duas secretarias, o PT foi irrelevante nas definições dos rumos da administração Sérgio Cabral.

Ainda assim, o PT provavelmente pensou que tinha feito um plano perfeito igual aqueles de pegar o coelhinho da Mônica. Parecia tudo simples. Dilma faria uma administração popular e não teria problema para se reeleger (hahaha). O PT ficaria com as duas boquinhas da administração Cabral, e, portanto, não bateria na administração. Seria caronista do PSOL e do Garotinho, pois estes sim, bateriam na administração. Aí em 2014, romperia com Cabral e lançaria a candidatura do Lindberg ao governo. Não teria dificuldade para pescar uns escândalos dos peemedebistas do Rio de Janeiro. Provavelmente os petistas pensaram que a disputa de 2014 seria pulverizada, que Pezão não teria chance, que o DEM lançaria César Maia, que o PSDB lançaria Bernardinho, Luciano Huck, Ellen Gracie ou algum economista da PUC-RJ, que as Organizações Globo ficariam ao lado do candidato do PSDB, que o PMDB, o DEM e o PSDB dividiram o voto da elite, e que Lindberg enfrentaria Garotinho ou Crivella no segundo turno, podendo contar até mesmo, no segundo turno, com o voto útil da Zona Sul, que rejeita evangélicos. O PT se deu ao luxo de mesmo em 2012, oferecer seu tempo de TV à candidatura à reeleição de Eduardo Paes e a presença de Lula e Dilma nos programas do peemedebista, pois achava que aquela ainda não era a hora da ruptura. Mesmo tendo boa parte da militância do partido ido para as ruas apoiar Marcelo Freixo. Se deu ao luxo também no mesmo ano de 2012, se juntar com PMDB e PSDB para aliviar para Sérgio Cabral na CPI do Cachoeira, que estava investigando a Delta.

A vitória de Lindberg em 2014 era vista em 2011, 2012 e 2013 como um acontecimento muito provável. A elevada votação que ele teve para o Senado em 2010 ajudou a alimentar esta impressão. Trabalhei no serviço público do Estado do Rio de Janeiro neste período, e percebi como tanto quem queria, como quem não queria a vitória do Lindberg esperava que isto fosse acontecer. Alguns petistas imaginaram que a boa votação de Marcelo Freixo em 2012 teria sido uma entrada para o prato principal que seria a vitória de Lindberg em 2014. Chegaram a pensar até que o PSOL poderia aceitar informalmente o papel de linha auxiliar do Lindberg em 2014, pois os principais nomes do PSOL se candidatariam a deputado, e não a governador.

Bom, o plano de pegar o coelhinho da Mônica foi um estrondoso fiasco. Uma Batalha de Itararé. Nunca uma candidatura preparada por tanto tempo (talvez quatro anos) recebeu uma quantidade de votos tão mixaria. Dilma não estava com popularidade em alta, e não pode se dar ao luxo de abrir mão do PMDB, do PRB e do PR, portanto, não teve possibilidade de usar apenas Lindberg como palanque no Rio de Janeiro. O PSOL recusou o papel de linha auxiliar do Lindberg. Lançou o professor Tarcísio Motta, que mesmo desconhecido, brilhou mais que Lindberg nos debates, e só terminou um ponto percentual atrás por causa de Nova Iguaçu. Na capital, o professor superou o senador. Os pobres da Zona Norte, Zona Oeste, Baixada e São Gonçalo, que sempre votaram no Lula ou na Dilma para presidente, se dividiram entre Garotinho, Crivella e Pezão. Lindberg teve 10% cravado dos votos válidos. Por pouco não ficou com apenas um dígito. Nem a aliança com PSB e PV, que deu considerável tempo de TV (inferior ao de Pezão, mas superior ao de Crivella) funcionou. Lindberg talvez esperasse ter votos além dos de eleitores da Dilma (óbvio), também de eleitores da Marina Silva, do Eduardo Jorge e de Luciana Genro. Acabou tendo rejeição de todos eles. No segundo turno entre Pezão e Crivella, os petistas se dividiram entre um dos dois e o nulo.

Mas além das fraquezas da Dilma, do PT e do próprio Lindberg, o que contribuiu para o fracasso deste plano do PT para o Rio de Janeiro? O fato do PMDB também estar pensando estrategicamente em 2010 na hora em que fez o acordo. O PT fez o acordo pensando em como se livrar do PMDB no futuro. Deveria ter considerado o óbvio: o PMDB estava pensando em como se livrar do PT. E foi bem mais sucedido.

Mesmo sendo um partido da base aliada dilmista, o PMDB nunca deixou de ter forte apoio das Organizações Globo no Rio de Janeiro. Em 2014, costurou a aliança Aezão com o PSDB e o DEM. Isto garantiu muito tempo de TV para Pezão, e votos de eleitores da Zona Sul, que haviam ido para Frossard em 2006 e Gabeira em 2010. Se o Plano Lindberg já foi pensado em 2010, muito provavelmente o Plano Aezão já foi pensado em 2010 também. Durante o primeiro mandato de Dilma, PMDB, embora com uns atritos de vez em quando, votava com o PT no Congresso Nacional. Na Alerj, PT, embora com uns atritos de vez em quando, votava com o PMDB. Em público, principalmente em inauguração de obras, Cabral e Pezão eram só abraços e tapinhas nas costas com Lula e Dilma. Secretários estaduais do Rio de Janeiro e ministros do governo federal tinham relação cordial em público. Mas ouvindo conversas de secretários para baixo, a impressão que se tinha era que se tratava de um governo estadual de oposição ao federal, igual ao de São Paulo.

Atualmente, PMDB tem o governo do Estado do Rio de Janeiro, a presidência da Alerj, a presidência das duas casas do Congresso Nacional, a vice presidência, e agora a presidência.

O que esta história ensinou de lição? Sempre quando você for fazer uma aliança estratégica com alguém tão diferente, lembre-se de que este alguém também está pensando estrategicamente.

Outra história que ensinou esta lição foi a do Pacto Molotov Ribbentropp de 1939.
E o que houve no início de 2015? Os petistas do governo Dilma provavelmente pensaram que se tivessem dado tudo que a direita queria (entendendo a direita como empresários, mídia, PMDB, PP, PSD, PTB), a direita não apoiaria em uníssono o impeachment, o impeachment se tornaria inviável politicamente, e quando a economia começasse a se recuperar, seria possível dar um pé na bunda em parte da direita que estava no governo, uma vez que com a economia se recuperando, o apoio popular se recuperia, e o impeachment se tornaria inviável de qualquer maneira. Além disso, economia recuperando é mais emendas e cargos para partidos de aluguel, diminuindo o poder de chantagem da direita ideológica sobre o governo. Probleminha: muito provavelmente a direita sabia que os petistas estão planejando isso e preferiu se antecipar, não dando tempo para a recuperação da economia.

Por fim: será que quando o PMDB definiu, no final de 2009, o nome de Michel Temer para vice na chapa da Dilma, o partido já não estava considerando a possibilidade de impeachment? Michel Temer sempre teve ótima relação com os tucanos. Quando presidente da Câmara no tempo do FHC, ajudou bastante mobilizar a base para aprovar emendas constitucionais.

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