RAZÃO E REVOLUÇÃO – MARCUSE II

No meu primeiro tópico (clique aqui) o fichamento do livro de Marcuse circunscreveu a realidade histórica que se consolidava na Europa (principalmente na França, Inglaterra e Alemanha). Agora encerro a Introdução com  Marcuse descrevendo o cenário filosófico, que aborda principalmente as divergências filosóficas entre o empirismo  de Locke e Hume e a reação dos pensadores idealista, sobretudo Kant e Hegel.

 

Boa Leitura!

 

INTRODUÇÃO (Parte II)

2. O cenário filosófico 

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O idealismo alemão defendia a filosofia dos araques do empirismo inglês, e a luta entre as duas escolas não significava simplesmente o choque entre duas filosofias diferentes, mas uma luta que estava em jogo a filosofia como tal. (…) A significação prática da filosofia assumiria, com Descartes, uma nova forma que se ajustava ao imenso progresso das técnicas modernas.

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O domínio racional da natureza e da sociedade pressupunha o conhecimento da verdade, e a verdade era universal, em contraste com a aparência diversificada das coisas ou com sua forma imediata na percepção individual.

O contraste entre o universal e o individual assumiu uma forma exacerbada quando, na era moderna, cresceu o clamor de liberdade geral e sustentou-se que uma ordem social apropriada só se poderia efetivar pelo conhecimento e a atividade dos indivíduos emancipados. (…) A vida dos homens fora sacrificada aos mecanismos econômicos de um sistema social que relacionara os indivíduos uns aos outros como compradores e vendedores isolados de mercadorias. Esta ausência de fato de uma comunidade racional era responsável pela busca filosófica de unidade (Einheit) e universalidade (Allgemeinheit) na razão.

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Os empiristas ingleses haviam demonstrado que nem seque um único conceito ou lei da razão poderia aspirar à universalidade (…) Segundo os idealistas alemães, este ataque comprometia qualquer esforços que se fizessem no sentido de impor ordem às formas estabelecidas da vida. (…) O problema não era pois um problema meramente filosófico, mas ligava-se ao destino histórico da humanidade.

O contra-ataque do idealismo não foi provocado pela posição empirista de Locke e de Hume, mas por sua refutação das ideias gerais.

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As ideias gerais, dizia Locke, são invenções e criaturas do entendimento, por ele forjadas para uso próprio, tendo a ver apenas com símbolos (…) Para Hume, as ideias gerais são abstraídas do particular (…) Esta conclusão, a que levam as investigações empiristas, fez mais do que mina a metafísica: ela confinou o homem ao limite do “dado”, à ordem existente das coisas e dos acontecimentos. (…) O empirismo, por limitar a natureza humana ao conhecimento “dado”, liquidava com o desejo de o transcender (…).

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Os idealistas alemães aquela filosofia a expressão da renúncia da razão. Para eles, atribuir a existência das ideias gerais à força do hábito, ou derivar de mecanismos psicológicos os princípios pelos quais se aprende a realidade, era o mesmo que negar a verdade e a razão.

Kant sustenta, porém, que os empiristas não demonstraram que a experiência determinasse também por que meios, e de que maneira, havia de organizar aquela matéria empírica. A independência e a liberdade da razão estariam salvaguardadas se demonstrasse que os princípios de organização eram propriedade inata do espírito humano, não sendo derivados, pois, da experiência.

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Kant pretende provar que o espírito humano é dono das “formas” universais que servem para organizar a multiplicidade dos dados a ele fornecidos pelos sentidos. As formas da “intuição” (espaço e tempo), e as formas do “entendimento” (categorias) são os universais mediante os quais o espírito ordena na continuidade da experiência, a multiplicidade sensível. (…) A experiência apresenta uma ordem necessária e universal, unicamente em virtude da atividade a priori do espírito humano, que percebe todas as coisas e todos os acontecimentos mediante as formas do espaço e do tempo, e que os compreende sob categorias da unidade, realidade, substancialidade, causalidade, etc.

Essa estrutura comum do espírito foi denominada por Kant “consciência transcendental”. (…) As formas transcendentais da intuição, ou sentido externo, sintetizam a diversidade dos dados sensoriais em uma ordem espaço temporal.

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O que Kant denomina síntese “suprema”, a da apercepção transcendental, é a consciência de um “eu penso”, a qual acompanha cada experiência. (…) A apercepção transcendental é, por conseguinte, a base última da unidade do sujeito e, pois, da universalidade e necessidade de todas as relações objetivas.

A consciência transcendental depende da matéria recebida pelos sentidos; (…) só conhecemos as impressões no contexto de formas a priori do espírito, não podemos conhecer como ou o que são as “coisas em si” que originam as impressões.

Hegel considera que este elemento céptico da filosofia de Kant invalida sua tentativa de defender a razão contra os severos ataque dos empiristas. Enquanto as coisas-em-si estiverem fora do alcance da razão, esta continuará a ser mero princípio subjetivo (…) Inúmeras vezes ele acentuou que a relação entre sujeito e objeto, ou melhor, sua oposição, denotava um conflito concreto na ordem da existência, e que a solução deste conflito, a reunificação dos opostos, era tanto uma questão de prática como de teoria.

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Ao mesmo tempo, o pensamento se apartava da realidade e a verdade se transformava em um ideal inoperante preservado pelo pensamento; (…) Se o homem não conseguisse reunir as partes separadas de seu mundo, e trazer a natureza e a sociedade para dentro do campo de sua razão, estaria sempre condenado a frustração.

A razão [ de Hegel] é a verdadeira forma da realidade. A filosofia de Hegel é, pois, necessariamente um sistema, subordinando todos os domínios do ser sob a ideia, totalizante, da razão. Os mundos inorgânicos e orgânicos, a natureza e a sociedade, são postos aqui sob o domínio do espírito.

Hegel considera o caráter sistemático da filosofia como um produto da situação histórica. A história atingiu uma etapa na qual é possível a realidade da liberdade humana. A liberdade, entretanto, pressupõe a realidade da razão. (…) O otimismo histórico que ele transpira fornece as bases para o chamado “panlogismo” de Hegel que considera toda espécie de ser uma forma da razão.

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A verdade não tem a ver apenas com proposições e juízos, isto é, ela não é tão-somente um atributo do pensamento, mas é também um atributo da realidade em formação Algo é verdadeiro se é o que pode ser, se satisfaz a todas as suas possibilidades objetivas. Na linguagem de Hegel, o que é verdadeiro é, pois, idêntico ao seu “conceito”.

O conceito tem uma dupla função. Ele compreende a natureza ou essência do objeto em questão, representando, pois, a apreensão verdadeira deste objeto pelo pensamento. Ao mesmo tempo o conceito se refere à realização efetiva daquela natureza ou essência, à sua existência concreta. (…) Todos os conceitos fundamentais do sistema hegeliano são caracterizados por esta mesma ambiguidade. (…) Hegel não pressupõe uma identidade mística do pensamento e da realidade, mas sustenta que o pensamento correto representa a realidade porque esta última, no seu desenvolvimento, atingiu o estágio em que está existindo em conformidade com a verdade.

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Temos insistido em que, para Hegel, a realidade atingiu um estágio no qual ela existe no modo da verdade. (…) A realização da razão não é um fato e sim uma tarefa. A forma pelo qual os objetos aparecem imediatamente não é ainda sua forma verdadeira. O simplesmente dado é, de saída, negativo, isto é, diferente de suas reais potencialidades. (…) Todas as formas são atingidas pelo movimento dissolvente da razão, que as revoga e as altera até que correspondam ao seu próprio conceito.

A filosofia de Hegel é, na verdade, aquilo que foi acusada por seus opositores imediatos: uma filosofia negativa. (…) A força que move o método dialético está na convicção crítica. A dialética está inteiramente ligada à ideia de que todas as formas do ser são perpassadas por uma negatividade essencial, e que esta negatividade determina seu conteúdo e movimento. A dialética constitui a oposição rigorosa a qualquer forma de positivismo.

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De Hume aos positivistas lógicos da atualidade o princípio de tal filosofia tem sido o prestígio definitivo do fato, e seu método fundamental de verificação, a observação do dado imediato. (…) Para Hegel, os fatos, enquanto fatos, não tem autoridade. Eles são “propostos” (gesetzt) pelo sujeito, que os mediatiza pelo processo de compreensão do seu desenvolvimento. (…) Tudo que é dado tem que se justificar ante a razão;

A filosofia de Hegel, entretanto, que começa pela negação do dado e conserva por toda a negatividade, chegará a concluir que a História atingiu 7

A filosofia atinge sua meta quando formula a visão de mundo no qual realiza a razão. (…) A verdade exigiria então a prática histórica real para realizar o ideal; ao deixar este de lado, a filosofia renúncia à sua tarefa crítica, transferindo-a a uma outra força.

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A filosofia de Hegel apresenta cinco diferentes estágios de desenvolvimento: 1 – O período de 170-1800 marca a tentativa de formular uma fundamentação religiosa para filosofia; 2 – 1800-1801, formulação do ponto de partida dos interesses filosóficos de Hegel, através da discussão crítica dos sistemas filosóficos contemporâneos, especialmente os de Kant, Fichte e Schelling; 3 – Os anos de 1801 a 2006 viram nascer o sistema jenense, primeira forma do sistema completo de Hegel; 4- 1807 Publicação da Fenomenologia do Espírito e; 5 – Período do sistema final;

A elaboração do sistema filosófico de Hegel foi acompanhada por uma série de textos políticas que procuravam aplicar suas novas ideias filosóficas (…)

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A relação de sua filosofia com os acontecimentos históricos daquela época faz com que os escritos políticos de Hegel sejam parte da sua obra sistemática; ambos devem ser tratados em conjunto a fim de que o conceitos hegelianos básicos sejam compreendidos não só sob o ponto de vista filosófico, como também histórico e político.

  • Na próxima publicação vamos abordar o Hegel jovem, enquanto estudante de Teologia e que dava início as análises que irão constituir os primeiros conceitos do seu sistema filosófico! Até mais! 🙂

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