Razão e Revolução – Marcuse

razao e revolucaoPor: Alexandro Kichileski

Vivemos  em um mundo pautado pela doxa, ou seja, um mundo caracterizado pela disseminação de opiniões que geralmente não são filtradas por um tratamento analítico específico. Na tentativa de atingir a episteme, ou melhorar nosso senso crítico (principalmente sobre temas refentes à  Modernidade), começarei a publicar o fichamento do livro Razão e Revolução, escrito pelo filósofo Hebert Marcuse.  Diante de um mundo pautado por crises, desencantamento e desacreditamento das instituições sociais e políticas,  a melhor forma para pensar saídas desse quadro é conhecer profundamente as bases da modernidade e não meramente negá-las.

Para não cansar o leitor, cada publicação conterá uma pequena parte do livro, tornando a leitura agradável. Qualquer dúvida, acréscimos e críticas, os comentários serão uma ótima ferramenta  para o aprimoramento do nosso conhecimento.

 

Boa leitura!

MARCUSE, Hebert. Razão e Revolução. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

INTRODUÇÃO (Parte I)

  1. Cenário Histórico.

P. 17

O idealismo alemão foi considerado a teoria da Revolução (…) em grande parte, escreveram suas filosofias em respostas aos desafios vindo da França à organização do estado e da sociedade em bases racionais (…) Apesar de severas críticas ao Terror, os idealistas alemães saudaram unanimemente a Revolução, considerando-a uma nova era.

A Revolução Francesa, aos olhos dos idealistas alemães, não só abolira o absolutismo feudal, substituindo-o pelo sistema econômico (…) mas, ao emancipar o indivíduo como senhor autoconfiante de sua vida, completara o que a Reforma Alemã havia começado. (…) tornaria o sujeito autônomo de seu próprio desenvolvimento.

P. 18

Os ideais da Revolução Francesa encontraram suporte nos processos do capitalismo industrial. (…) A crescente produção industrial parecia capaz de fornecer todos os meios necessários para satisfazer as necessidades do homem. Assim, ao tempo que Hegel elaborava seu sistema, Saint Simon (…) exaltava a indústria como único poder capaz de conduzir os homens a uma sociedade livre e racional.

O desenvolvimento econômico na Alemanha ficara muito atrás do da França e Inglaterra. (…) Assim, enquanto a Revolução Francesa começava por assegurar a realização da liberdade, ao idealismo alemão cabia apenas se ocupar com a ideia de liberdade. Os esforços históricos concretos para o estabelecimento de um tipo de sociedade racional haviam sido transpostos, na Alemanha, para o plano filosófico e transpareciam nos esforços para elaborar o conceito de razão.

Tal conceito está no cerne da filosofia do Hegel. Este sustenta que o pensamento filosófico nada pressupõe além da razão, que a história trata da razão, e somente da razão, e que o estado é a realização da razão.

P. 19

O núcleo da filosofia de Hegel é uma estrutura formada por conceitos – liberdade, sujeito, espírito, conceito – derivados da ideia de razão. A não ser que se aprenda com clareza o sentido de tais conceitos, e sua intrínseca correlação, o sistema de Hegel aparecerá como a obscura metafísica que de fato nunca foi.

O próprio Hegel relaciona seu conceito de razão à Revolução Francesa, e o faz com grande ênfase.

Na visão de Hegel, a reviravolta decisiva dada pela História, com a Revolução Francesa, foi que o homem veio a confiar no seu espírito e ousou submeter a realidade dada aos critérios da razão. (…) O homem se dispôs a organizar a realidade de acordo com as exigências do seu pensamento racional livre, em lugar de simplesmente se acomodar à ordem existentes e aos valores dominantes.

P. 20

A Revolução Francesa, segundo Hegel, proclamou o poder definitivo da razão sobre a realidade, o que ele resume dizendo que o princípio da Revolução Francesa afirma que o pensamento deve governar a realidade. (…) A não ser que o homem possua conceitos e princípios de pensamento que designem normas e condições universalmente válidas, seu pensamento não poderá pretender governar a realidade.

Todas as filosofias do Iluminismo Francês, e suas sucessoras revolucionárias, definiram a razão como uma força histórica objetiva, que uma vez libertada dos grilhões do despotismo, faria do mundo um lugar de progresso e felicidade.

P. 21

A razão deveria, em consequência, revelar-se imediatamente na prática; tal dogma, no entanto, não é confirmado pelo curso da História. Hegel acredita (…) no poder invencível da razão. “Esta faculdade que o homem pode considerar como sendo a que lhe é própria, elevada e acima da morte e da destruição …. é capaz de tomar decisões por si mesma. Ela se anuncia como razão. Seu legislar de nada depende (…)”¹ Para Hegel, contudo, a razão não pode governar a realidade, a não ser que a realidade se tenha tornado racional em si mesma. Esta racionalidade é possível pela irrupção do sujeito no próprio conteúdo da natureza e da história.

A Ideia de “substância do sujeito” concebe a realidade como um processo dentro do qual todo ser é unificação de forças contraditórias. (…) Tudo que existe só é “real” na medida em que atua como algo que é “o mesmo” através de todas as relações contraditórias que constituem a sua existência;

P. 22

(…) Só o homem tem o poder de auto-realização, o poder de ser um sujeito que se autodetermina em todos os processos do vir-a-ser, pois só ele tem entendimento do que sejam potencialidades, e conhecimento de “conceitos”. (…) Encontramos aqui a mais importante categoria da razão, a saber, a liberdade. A razão pressupõe a liberdade, o poder de agir de acordo com o conhecimento da verdade, o poder de ajusta a realidade às potencialidades. (…) A liberdade, em troca, pressupõe a razão, pois só o conhecimento compreensivo capacita o sujeito a conquistar e exercer esse poder.

A razão desemboca na liberdade, e a liberdade é a existência do sujeito.

P. 23

A razão só é uma força objetiva e uma realidade objetiva porque todos os modos de ser são (…) espécies de subjetividade, modos de realização. (…) A natureza se torna, pois, um meio para o desenvolvimento da liberdade.

A vida razão aparece na luta continua do homem para compreender o existente, transformando-o conforme verdade compreendida. A razão, portanto é essencialmente uma força histórica. (…) A palavra que designa a razão como história é Espírito (Geist): o mundo histórico considerado em relação ao progresso da humanidade.

Existem estágios diferentes na realização da razão, mas há apenas uma razão, da mesma forma que há apenas uma totalidade e uma verdade: a realização da liberdade.

Uma unidade imediata da razão e da realidade jamais existe. A unidade só aparece depois de um longo processo que se inicia no mais baixo nível da natureza e chega à mais alta forma de existência, à existência de um sujeito livre e racional.

P. 24

Enquanto a realidade não estiver modelada pela razão, não será ainda, no sentido forte da palavra, realidade. (…) “Real” é o racionalizável (racional), e só este o é.

O conceito hegeliano de razão tem, por conseguinte, um caráter nitidamente crítico e polêmico. Ele se opõe a toda aceitação imediata de um dado de coisas..

Em 1793, Hegel escreveu a Schelling: “A razão e a liberdade continuam a ser os nossos princípios”. Nos seus primeiros escritos, não há diferença entre os sentidos filosófico e social destes princípios, que são expressadas em linguagem revolucionária idêntica a dos Jacobinos franceses.

P. 25

Mas o sentido radical dos conceitos básicos do idealismo alemão foi sendo lentamente abandonado e, cada vez mais, aqueles conceitos se foram acomodando à forma social dominante.

No sistema de Hegel, porém, a forma particular que a reconciliação entre a filosofia e a realidade assumiu, foi determinada pela situação da Alemanha no período em que elaborou seu sistema. Os primeiros conceitos filosóficos de Hegel foram formulados no ambiente de uma Alemanha em decadência.

P. 26

Em vivo contraste com a França, não tinha a Alemanha uma classe média forte, consciente, politicamente educada, que liderasse uma luta contra aquele absolutismo.

Desde a Reforma Alemã, as massas se haviam habituado ao fato de que, para elas, a liberdade fosse um “valor interior”, compatível com todas as formas de servidão;

P. 27

A liberdade de pensamento era posta acima da liberdade de ação a moral acima da justiça prática, a vida interior acima da vida social do homem.

O sistema de Hegel é a última grande expressão deste idealismo cultural, a última grande tentativa para fazer do pensamento o refúgio da razão e da liberdade. O impulso original deste pensamento foi, porém, forte bastante para induzir Hegel a abandonar o tradicional afastamento entre o idealismo e a história. Ele fez da filosofia um fator histórico concreto, e trouxe a história à filosofia.

P. 28

O sistema de Hegel está necessariamente associado a uma dada filosofia política, e a uma dada ordem social e política. A dialética entre a sociedade civil e o estado da Restauração não é um acidente dentro da filosofia hegeliana, nem é, tão somente, uma seção de sua Filosofia do Direito; os princípios daquela dialética já faziam parte da estrutura conceitual do sistema de Hegel.

Cabe-nos remontar ao ponto de partida do sistema de Hegel, às suas origens na situação filosófica do seu tempo.

 

 

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