Auditoria da dívida pública? A questão é outra…

Não sou contra fazer uma auditoria na dívida pública brasileira. Mas não considero que isto seja a questão mais importante. Os defensores da auditoria alegam que o setor público brasileiro gasta muito dinheiro com o pagamento de juros da dívida pública. Isto é verdade. Dessa forma, passam a mensagem implícita de que como a despesa financeira do setor público brasileiro é muito grande, sobra pouco para a despesa primária, que seria pequena. Aí já não é mais verdade. (Por despesa primária, entende-se a construção de escolas, hospitais, delegacias, estradas, pagamento de servidores, programas sociais etc).

A despesa pública primária no Brasil, em torno de 40% do PIB, já é um ponto fora da curva se comparada internacionalmente. É próxima da de países de alta renda e bem superior à de países com renda semelhante à do Brasil.

Até a Constituição de 1988, o Brasil tinha uma relação despesa pública primária sobre PIB comparável à de países de renda semelhante. Até aquele momento, a preocupação dos governos era apenas o crescimento do PIB. Não havia preocupação com melhor distribuição, com transformar crescimento em qualidade de vida para a população inteira. A partir da Constituição de 1988, o Estado brasileiro passou a ter mais preocupação com a melhor distribuição de renda e com os indicadores sociais, mas fez isso apenas através do caminho de menor resistência política.

Não foi feita uma reforma tributária para introduzir maior progressividade nos nossos tributos. Não foi feita uma reforma urbana. A reforma agrária dos governos Fernando Henrique Cardoso e Lula foi bastante tímida. O único meio encontrado, portanto, para melhorar a distribuição de renda e os indicadores sociais foi o aumento da despesa pública. Foram obtidos alguns bons resultados. O índice de Gini no Brasil hoje é menor do que era em 1988. Os indicadores de alfabetização e expectativa de vida são bem melhores hoje do que eram em 1988. Porém, como a despesa pública foi o único meio, houve sobrecarga deste meio. Chegamos perto de uma relação de 40% de despesa primária sobre o PIB. Não há como crescer mais. Não adianta pensar que pagando menos juros da dívida pública poderemos aumentar a despesa primária.

Os defensores mais entusiásticos da auditoria da dívida pública têm uma visão em comum com os neoliberais. Ambos acham que uma relação dívida/PIB muito alta é ruim. Não é verdade. Não é apenas a relação dívida/PIB que determina o esforço que uma sociedade deve ter em pagar juros da dívida. O superávit primário necessário para manter estável a relação dívida/PIB, ou seja, o esforço necessário, é determinado pela fórmula a seguir:

x = b (r-y)

x = superávit primário, b = relação dívida/PIB, r = taxa real de juros, y = crescimento do PIB

Ou seja, não apenas a relação dívida/PIB, mas também a taxa real de juros e o crescimento do PIB são variáveis importantes. A relação dívida/PIB no Brasil é de aproximadamente 70%. A da Itália e a dos Estados Unidos é de aproximadamente 100%. A do Japão é de aproximadamente 200%. Esses países conseguem manter a relação estável, mesmo com déficit primário, porque têm taxa real de juros menor do que o crescimento do PIB.

Mesmo que uma auditoria faça a relação dívida/PIB do Brasil cair de 70% para 65%, isso não vai ser tão importante assim. Obter uma taxa de juros real menor (ou pelo menos não muito maior) do que o crescimento do PIB é muito mais relevante para evitar a necessidade de elevados superávits primários.

Alguns textos em defesa da auditoria da dívida pública dizem que “o pagamento dos juros da dívida consome 45% do orçamento”. Isso é verdade, mas pode induzir uma interpretação errônea. Alguns podem pensar que 45% da receita dos impostos que nós pagamos são destinados ao pagamento de juros da dívida. Isto não é verdade. O orçamento inclui não apenas impostos, mas também contração de novos empréstimos, ou seja, emissão de novos títulos. Até 2013, quando havia superávit primário, quase a totalidade do dinheiro destinado ao pagamento dos juros da dívida tinha origem nos novos empréstimos, e não nos impostos. A partir de 2014, quando passamos a ter déficit primário, a totalidade do dinheiro destinado ao pagamento dos juros da dívida tem origem nos novos empréstimos.

Devemos defender sim este patamar de despesa pública primária e criticar os neoliberais, que querem fazer redução drástica. Mas não podemos ter ilusão de que uma auditoria na dívida pública poderia fazer aumentar a despesa pública primária. Chegamos ao limite do uso deste instrumento para melhorar a distribuição de renda.

Devemos pensar nos outros instrumentos: reforma tributária progressiva (escrevi um texto sobre isso aqui neste site), reforma agrária e reforma urbana. E também, em mudar o perfil da despesa, para que ela seja favorável à população de mais baixa renda. Combater os supersalários, principalmente no Legislativo e no Judiciário, e o excesso de prioridade dos governos locais em obras nos bairros mais ricos das cidades. Não precisamos de mais dinheiro para as despesas primárias, mas fazer com que a receita tenha maior participação dos ricos do que o que ocorre atualmente, e a despesa beneficie mais os pobres do que o que ocorre atualmente.

 

Recomento a leitura deste texto da economista Laura Carvalho, em que ela critica a proposta de auditoria da dívida pública.

dinheiro brasileiro

Paralelos entre os EUA de 1980 e o Brasil de 2016

Há uma semelhança entre o que ocorreu nos Estados Unidos em 1980 e o que ocorreu no Brasil em 2016. Em ambas as situações, houve uma contra revolução conservadora. E não foram eventos que chegaram de disco voador. Em ambas as situações, as sociedades passaram por um longo período de preparação para o acontecimento. Óbvio que houve uma diferença fundamental: Ronald Reagan foi eleito presidente, seu governo foi perfeitamente legítimo. O mesmo não ocorreu com Michel Temer. Ah, outra diferença: o secretariado de Reagan teve mulher e negro.

Mas neste texto, vamos nos concentrar nas semelhanças. Apesar de Michel Temer ter chegado à presidência de uma maneira bastante estranha, não há como negar que embora não sejam a maioria, muitas pessoas apoiam as políticas que o novo governo quer implementar. Não apenas os ricos, mas uma parcela bastante grande da classe média. Importante lembrar que o Congresso, eleito pelo povo, é extremamente conservador. E como esta onda conservadora na sociedade brasileira foi possível?

Vamos começar com os Estados Unidos. Até a crise de 1929, os Estados Unidos tinham uma elevada desigualdade na distribuição de renda. O Estado era mínimo. Nos anos 1930 e 1940, o país passou pelo New Deal, durante os governos de Franklin Roosevelt e Truman. Foi estabelecido um Estado de Bem Estar Social e um sistema tributário progressivo. A sindicalização da força de trabalho aumentou. A concentração de renda caiu bruscamente. O New Deal acabou aceito até mesmo pelo establishment. Mesmo o business evitou fazer grande resistência. Até os presidentes republicanos Eisenhower (1953-1961), Richard Nixon (1969-1974) e Gerald Ford (1974-1977) não reverteram as políticas do New Deal.

Mas um movimento iniciado na década de 1950 foi ganhando força aos poucos, até chegar a seu auge em 1980, com a eleição de Ronald Reagan. Foi um movimento de criação de um conservadorismo de massas, que permitiu um candidato bastante conservador ganhar uma eleição. Grande parte da classe média e até mesmo da classe trabalhadora passou a endossar políticos que cortavam impostos dos super ricos e diminuíam programas sociais. E como isto aconteceu?

Os conservadores atuaram em várias frentes. O pensador William Buckley, com sua revista National Review, criada na década de 1950, ajudou a fomentar uma inteligência de direita. O business, que antes estava conformado pela nova ordem criada pelo New Deal, passou a contribuir ativamente para o retorno da sociedade com Estado limitado e alta concentração de renda. O farto dinheiro do business ajudou a financiar think thanks de direita, como o Cato Institute e a Heritage Foundation. Esse dinheiro ajudou a fomentar conservadores profissionais. Antes disso, havia economistas, historiadores, filósofos etc que eram conservadores. Depois disso, o conservadorismo passou a ser uma especialidade. Exemplo: Milton Friedman foi um importante economista com posições políticas conservadoras. Porém, não precisa ser conservador para aceitar algumas de suas contribuições para a ciência. Arthur Laffer, por outro lado, não foi um economista conservador. E sim um conservador que escreveu sobre economia.

Foi o pensamento econômico um grande palco para a guinada conservadora. O keynesianismo, que foi mainstream na academia nas décadas de 1950 e 1960, passou a ser fortemente contestado, em um movimento que teve início nas Universidades de Chicago e de Minnesotta.

Para criar a base popular do conservadorismo, foi explorado fortemente os sentimentos racistas dos sulistas brancos. Políticos e pensadores conservadores não eram explicitamente racistas, mas usavam linguagem codificada, o chamado dog whistle, para fazer apelos a racistas. Ronald Reagan, por exemplo, ao fazer campanha no Mississippi, defendeu os “direitos dos estados”. Um observador ingênuo poderia pensar que ele estava apenas querendo dizer que os estados deveriam ter mais autonomia perante à união. Mas era óbvio que ele estava falando para os segregacionistas inconformados com as políticas de direitos civis de John Kennedy e Lyndon Johnson. Os sulistas brancos, que antes votavam nos democratas, passaram a votar nos republicanos, e isso foi fundamental para mudar o balanço de poder nos Estados Unidos. Trabalhadores brancos passaram a votar nos republicanos até mesmo fora do sul. A classe média e a classe trabalhadora branca eram beneficiadas por um Estado de Bem Estar Social voltado para as pessoas que estavam dentro do mercado de trabalho. Mas passaram a ver com hostilidade os food stamps, um programa de auxílio a quem era tão pobre que estava fora do mercado de trabalho. Os beneficiários dos food stamps eram vistos como vagabundos. E como grande parte dos beneficiários eram negros e latinos, o ódio ao programa foi sempre muito próximo do ódio racial. Isto criou um ambiente político favorável aos simpatizantes dos cortes nos programas sociais. Muitos integrantes da classe média e da classe trabalhadora pensavam “Estado de Bem Estar Social para nós tudo bem, para those people não”. Antes mesmo de existir uso doméstico de Internet, já existiam boatos de beneficiários do food stamps que comiam T-bone, ou que andavam de Cadilac.

Facilitou a criação de um conservadorismo de massas também a aliança da direita econômica com a direita religiosa. Uma parte da sociedade norte americana pensou que a revolução nos costumes ocorrida na década de 1960 tinha ido longe demais, e que era necessário recuperar os valores cristãos. Os conservadores também estimularam a repulsa aos liberals das universidades. A exploração do perigo externo também favoreceu os conservadores: antes os vermelhos, depois os terroristas islâmicos.

Este movimento conservador, no início, não conseguia dominar nem mesmo o Partido Republicano. A primeira vez que conseguiu emplacar um candidato presidencial foi em 1964, com Barry Goldwater, que acabou perdendo de lavada para Lyndon Johnson. Porém, esta campanha plantou a semente para colheita futura. A estagflação da década de 1970, somada com a crise dos reféns na embaixada norte-americana no Irã, permitiu a eleição de Ronald Reagan em 1980.

Resultado da contra revolução conservadora: a renda nos Estados Unidos voltou a concentrar. Este gráfico mostra como a participação do 1% mais rico no total da renda dos Estados Unidos caiu fortemente nas décadas de 1930 e 1940, manteve-se razoavelmente baixa até 1980, e voltou a subir bruscamente. A guinada direitista de Reagan continuou com o Bush Senior, não foi revertida nem mesmo com o democrata Bill Clinton, e continuou com o Bush Junior. Importante para a contra revolução conservadora foi não apenas a conquista da presidência por Reagan em 1980, mas também a conquista da maioria republicana no Congresso em 1994.

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Aí chegou um momento que grande parte da sociedade norte americana percebeu os malefícios desta guinada conservadora, e isto teve como resultado a eleição de Barack Obama em 2008. Como as mudanças produzidas por Obama foram insuficientes, surgiu o fenômeno Bernie Sanders. Pela primeira vez, um auto denominado socialista (admirador do “socialismo” escandinavo) teve um resultado espetacular nas primárias. Alcançou aproximadamente dez milhões de votos.

Fenômenos parecidos aos que aconteceram nos Estados Unidos nas décadas de 1950, 1960 e 1970, que culminaram na contra revolução conservadora de 1980, ocorreram no Brasil nas décadas de 2000 e 2010, que culminaram na contra revolução conservadora de 2016.

Na década de 1990, poucos políticos e pensadores brasileiros se auto denominavam “direita”. Quem era de direita gostava de se definir como centro ou dizer que a divisão esquerda/direita não fazia mais sentido (embora isso ocorra em outros países também). Os poucos colunistas de direita eram Paulo Francis, Roberto Campos e João Guilherme Melquior. Nem mesmo as associações empresariais tinham vontade em fomentar fortemente o direitismo político.

Na década de 2000, colunistas de direita infestaram a imprensa brasileira: Olavo de Carvalho, Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo etc. Eram versões mais cafonas de William Buckley Jr. Os empresários passaram a financiar com força o pensamento de direita. O exemplo mais visível disso é o think thank conservador Instituto Millenium, financiado por grandes empresários. A Fiesp, com o pato amarelo, voltou a atuar politicamente com força, em favor da direita.

Assim como nos Estados Unidos, passou a haver no Brasil também “pensadores” cuja a especialidade era não uma área de conhecimento, mas o conservadorismo. Um exemplo: há uma década, aparecia com frequência na mídia o pensador Cláudio Moura de Castro, um especialista em educação que tinha posições políticas conservadoras, apesar de ser respeitado até por quem não tinha as posições políticas dele. Depois dele, ganhou evidência Gustavo Ioschpe, que não é um especialista em educação que tem posições políticas conservadoras, e sim um conservador que escreve sobre educação.

Assim como nos Estados Unidos, o ressentimento de parte da classe média e até mesmo de parte da classe trabalhadora por beneficiários de programas sociais de transferência de renda voltados para pessoas não colocadas no mercado de trabalho também virou uma grande força para a direita. O those people do Brasil foi o “nordestino vagabundo que recebe Bolsa Família e vota no Lula e na Dilma”. Além disso, foi disseminada por colunistas e comentaristas de sites de notícias a ideia de que as não minorias estavam sendo vítimas do “patrulhamento do politicamente correto”, que estaria havendo uma “tirania das minorias”. Alguns exageros (realmente existentes) de movimentos de minorias passaram a ser utilizados como bonecos de palha para fomentar esta visão absurda do vitimismo das não vítimas. O colunista Reinaldo Azevedo, mesmo não sendo explicitamente racista, homofóbico e pobrefóbico, passou a explorar estes sentimentos através de linguagem codificada. Importante mencionar que ele não é um simples conservador que opta pelo PSDB simplesmente por ser a opção mais à direita mais viável para eleições para o Poder Executivo. Este colunista da Veja tem boas relações com o PSDB desde a década de 1990. Portanto, o que ele escreve faz parte de uma estratégia política do PSDB.

A existência de redes sociais facilitou a boataria como forma de ação política. Difundiram-se muitos boatos sobre Bolsa Família, Auxílio Reclusão e a Lei Rouanet.

O ódio à esquerda universitária também passou a ser fomentado. É muito comum encontrar em redes sociais e em caixas de comentários de sites de notícias extremistas de direita associando o esquerdismo das ciências humanas de universidades públicas com o consumo de maconha. Muitas vezes, quem escreve estes comentários estuda ou estudou em universidades muito menos concorridas do que as dos supostos consumidores de maconha.

O perigo externo também foi capitalizado pela direita. O bolivarianismo dos países vizinhos passou a ser um forte espantalho. O PT gostava de mostrar que era aliado político de Hugo Chávez apenas para aquecer o coração de seus militantes, mas os governos Lula e Dilma nada tinham a ver com o chavismo. Porém, as demonstrações de simpatia de Lula e Dilma por Hugo Chávez foram fortemente capitalizadas pela direita.

Assim como nos Estados Unidos, a aliança entre a direita econômica e a direita religiosa foi importante para a guinada conservadora no Brasil. As igrejas evangélicas pentecostais foram úteis para fazer os pobres votarem na direita nas eleições legislativas. A candidatura de José Serra em 2010 foi derrotada, mas plantou a semente para a futura contra revolução conservadora. Foi a primeira grande candidatura anti-PT depois de 1989 que utilizou o anticomunismo e o fanatismo religioso como forças mobilizadoras. Marcou o início da aliança entre a direita econômica e a direita religiosa.

Por fim, os erros de política econômica da Dilma, que geraram a estagflação, a reação infame do PT ao julgamento do mensalão, e a descoberta do grande escândalo de corrupção da Petrobras favoreceram a formação da imensa maioria conservadora no Congresso Nacional depois das eleições de 2014 (a direita sempre foi maioria no Congresso, mas em 2014 bateu o recorde), e as grandes manifestações de camisa amarela.

Com a Constituição de 1988, a inclusão social entrou na pauta das políticas públicas no Brasil. Isto foi intensificado a partir de 2003. Porém, nem mesmo os governos José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso eram anti Estado de Bem Estar Social. A concentração de renda no Brasil, vinha caindo, conforme mostra o gráfico abaixo. Porém, com a contra revolução conservadora, existe o risco de muitos retrocessos em relação ao que foi conquistado a partir de 1988. A renda pode voltar a concentrar novamente. Além disso, este movimento conservador já está causando muitos retrocessos até mesmo em direitos políticos (conforme demonstrado em outro texto que escrevi para este site).

top um porcento brasil

Fonte: Ipeadata

 

E nós, que somos contra tudo isso, temos que perguntar: o que fazer?

Será que no futuro aparecerá um Bernie Sanders?

 

Observação: a fonte da maior parte das informações sobre os Estados Unidos foi o livro The Conscience of a Liberal, de Paul Krugman

 

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Quando eu ouço falar de Cultura…

Quando eu trabalhei com ilustração, muitos anos atrás, a coisa que eu mais ouvia era “faz um desenho bem simples, faz bem rapidinho” que era um jeito de dizer “faça barato”.

Na época (2001), eu era sócio de um estúdio e a gente tinha basicamente dois tipos de clientes: agências de publicidade e editoras de livros didáticos.

O trabalho de ilustrar livros didáticos era muito exaustivo e mecânico. Uma vez, fizemos uma ilustração de crianças brincando num pátio para uma grande editora. Recebemos um pedido para corrigir a ilustração: “clareiem essas crianças”. A gente ficou chocado, né? Mas você não discute com patrão porque ele tem o poder na negociação. Então, transformamos as crianças negras em loirinhos.

Muitos trabalhos de publicidade pediam pra gente copiar estilos de ilustração de sujeitos que cobravam caro demais. O “diretor de arte” chegava com a amostra e dizia “ó, faz assim, só que diferente”. Diferente o suficiente pra não ser processado. Claro que teve vezes que a gente conseguiu emplacar nosso próprio estilo, mas no geral apenas obedecíamos ordens e orientações do contratante.

Vale citar aqui a conversa que tive com um publicitário que me falou que não via diferença nenhuma entre um ilustrador e um vendedor de detergente: éramos todos fornecedores e todos éramos facilmente substituíveis. Ele me falou exatamente essas palavras.

Vale lembrar também o hábito das concorrências, no qual basicamente temos um cliente que chama cinco ou seis estúdios pra resolver um trabalho e paga apenas ao estúdio que escolher. Isto é, você faz todo o trabalho e se o cliente gostar mais do trabalho do seu concorrente, ele não te paga. Nesse sistema, de cinco estúdios, quatro trabalhavam absolutamente de graça. As justificativas para esse sistema eram: 1) é assim que as coisas funcionam; 2) ninguém te obriga a participar; 3) se reclamar, nunca mais te damos serviço.

Esse é um resumo da minha percepção da atividade de ilustrador. Em todas as conversas com editoras de livros didáticos, publicitários e marqueteiros, o trabalho de ilustração era desmerecido e desvalorizado ao máximo. Orçamentos feitos em cima do tempo necessário, dos custos operacionais, do esforço e da nossa habilidade eram considerados absurdos. Pessoas que não sabiam segurar um lápis vinham nos dizer que cobrávamos caro demais e propunham valores ridiculamente baixos seguidos de um “se quer, quer, se não quer, tá cheio de gente que sabe desenhar por aí”.

Essa descrição toda que estou dando aqui é a de “trabalho”. O ato de desenhar entendido não como “arte”, mas como uma habilidade disponível pra ser vendida e cumprir uma função específica e objetiva.

“O mundo é assim”. Essa é a justificativa.

Quando eu escuto pessoas falando que, agora que o Ministério da Cultura acabou, “vagabundos vão parar de mamar nas tetas do governo e começar a trabalhar”, eu penso que são as mesmas pessoas com quem eu tinha que tratar na época do estúdio. Gente que não enxerga nada além do seu próprio interesse, gente que não tem nenhum objetivo além do próprio lucro e, pior, gente que tem a certeza absoluta de que o mundo é exatamente do jeito que ela pensa e limitado ao que ela conhece.

Nesse caso, o valor de todas as coisas está limitado ao valor de dinheiro que elas podem oferecer e nada mais.

Um ministério é um setor do governo que ajuda a administrar um país e a administração de um país é algo muito complexo, que exige mais reflexão e informação do que o “negociador” padrão possui. Ainda mais um país continental como o Brasil.

O entendimento do Ministério da Cultura como um canal pra “dar” dinheiro público a artistas “vagabundos” é tão equivocado, tão ignóbil, que me dá um nó no estômago.

Sim, é verdade que há absurdos. Incentivos para Circos de Soleil e artistas tão bem posicionados que não precisariam desses apoios. Por outro lado, lembro das isenções fiscais dadas às montadoras automobilísticas aqui no Paraná. O objetivo era facilitar pra essas empresas (que não precisavam de nenhuma facilitação) porque a presença dessas empresas supostamente iria aquecer a economia do estado.

Pensar algo como a Cultura do ponto de vista de investimento econômico é entender a Cultura de forma limitada, mas ainda assim não é incorreto. Porque a produção cultural pode ser capitalizada, pode gerar empregos, pode gerar riquezas. Nesse sentido, políticas públicas como divulgação, verbas e projetos de incentivo são fundamentais para o desenvolvimento do setor.

Consideramos como indústria a produção de automóveis. Mas é uma produção que não tem mais como expandir. É absurdo querer colocar mais carros nas ruas. Daí faz muito sentido deslocar a relevância das indústrias automotivas para outras áreas, como a Cultura. Lógico que isso não interessa às grandes montadoras, aos grandes empresários, aos donos de tv e agências de publicidade que faturam alto com a propaganda dos carrinhos.

Mas pensa. É só uma questão de valorizar, de incentivar, e podemos ter produção de cinema, jogos, livros, quadrinhos, peças de teatro, uma porrada de produtos. O consumo pode ser ampliado, podemos ter produção local, podemos ter mais empregos, podemos criar uma atividade econômica estável em cima de produtos simbólicos. Podemos ter um mundo mais feliz. Trata-se de uma mudança de percepções, de paradigmas, que poderia implicar uma economia mais saudável, sustentável, digna e humana.

E pra isso precisávamos de um Ministério da Cultura, precisávamos de uma compreensão e um interesse da Cultura como uma alternativa econômica extremamente viável e atraente.

Mas não temos isso.

Temos pessoas que acham que a Cultura é mais uma bobagem, que não é trabalho de “verdade”. Temos pessoas que realmente não veem diferença nenhuma entre uma música, um filme, um livro ou um frasco de detergente. Aliás, elas veem sim. Pra elas, o frasco de detergente serve pra alguma coisa.

São essas pessoas que acham que “nenhum direito é absoluto”, que pensam que onerar a maioria da população com impostos e cortes em direitos à saúde e educação é contribuir pro crescimento do Brasil. Pra essas pessoas, o enriquecimento indecente daqueles que já tem muito mais do que merecem é a mesma coisa que o crescimento do Brasil. E esse pensamento não é exclusivo de certos brasileiros. Há muita gente em outros países que pensa da mesma forma.

É um pensamento empedrado, perverso, egoísta, que atende somente aos interesses dos muito ricos.

Mas também é um erro considerar que Cultura é só uma possibilidade de novas formas de mercado e economia.

Cultura também é festa, festas populares, festivais, museus, atividades comunitárias, bibliotecas, espaços para circular e trocar ideias e crescer como seres humanos. Nenhum interesse privado vai investir em bibliotecas ou museus a não ser para servir de marketing ou para afagar o ego do mega empresário que se vê como um bem-feitor da sociedade da qual toma todas as riquezas. Por isso era importante o Ministério da Cultura. Ainda que tivesse seus problemas, valia a pena corrigi-los. Valia a pena lutar por essa Cultura.

Esse textão dificilmente vai ser lido por muita gente. E muita gente não vai mudar de ideia, se lê-lo. Vai continuar achando que Cultura é coisa de vagabundo e que detergente é melhor do que livro. Essas pessoas são as que mais precisavam desse ministério. É triste.

Aos que estão aí e compreendem tudo isso, faço o convite de resistir como puder. Resistir nas conversas, resistir no diálogo, resistir na paciência de ser a água mole em pedra dura. Porque essas pessoas que tem pedras no lugar dos cérebros e do coração talvez possam ser despertas, talvez possam entender que o mundo tem espaço pra muitos outros jeitos de pensar além do delas.

E porque nós simplesmente não podemos desistir nunca de tentar tornar esse mundo um lugar um pouco menos miserável.

Texto de Liber Paz, publicado originalmente no Facebook.

Vamos falar sobre Auditoria da Dívida Pública?

Falar sobre corrupção é importante, porém não podemos ficar apenas nisso. Sonegação fiscal é também outro problema grave que engloba a corrupção. Contudo, é importante lembrar da estratosférica dívida pública que temos. De acordo com os dados do FMI, a dívida externa brasileira total atingiu 750 bilhões de dólares em 2015 (o equivalente a 1,8 trilhão de reais), ou 33,4% do Produto Interno Bruto (1,01% do PIB global). 


Como tudo tem um começo, a nossa dívida começou para reconhecer a Independência do Brasil, Portugal exigiu o pagamento de 3 milhões de libras esterlinas. Como o Brasil não possuía tantos recursos fez um empréstimo à Inglaterra e efetuou o pagamento em 1824. Tinha início nossa dívida externa. A grande parte dessa dívida começou a tomar proporções enormes após o golpe de 64 devido a política econômica desenvolvida então, particularmente no período que ficou conhecido como “milagre econômico”, quando a indústria brasileira cresceu a taxas elevadíssimas graças ao ingresso maciço de capitais estrangeiros, fazendo com que a dívida saltasse de 4 para 12 bilhões de dólares.

O endividamento pós 64 tem dois estágios: o primeiro é o dos governos Costa e Silva e Médici, nos anos 68-73, do “milagre econômico”. Nesse período, os empréstimos foram usados para, ao cabo de tudo, realizar ar operações de crédito na compra de geladeiras, secadores de cabelo, automóveis e outros bens supérfluos e também para financiar ar grandes obras urbanas e serviços que viabilizaram a existência dos automóveis e das geladeiras, tais como estradas, viadutos e redes de energia elétrica.

No final de 1983, em depoimento na CPI da Dívida Externa, Celso Furtado, economista que fora ministro do Planejamento antes do golpe, mostrou como o Brasil pós-64, graças a mudanças de política financeira e cambial – nas regras de conversão do dólar em cruzeiros, acabou na prática pagando, através do Banco Central, para os capitais estrangeiros, parte do preço de automóveis c secadores de cabelo, comprados a crédito obtido por dólares emprestados.

A Segunda fase do endividamento começa no governo do general Ernesto Geisel (1974-79). A partir de 74, a indústria de bens de consumo duráveis, com a produção de automóveis à frente, começa a encalhar, em grande parte devido a crise mundial do petróleo, que repercute na elevação nas taxas de juros, que somadas aos gastos dos grandes projetos de geração de energia. Em 1982 temos o ano da falência declarada do modelo brasileiro de desenvolvimento e o país recorre ao FMI e ao final do governo Figueiredo, que encerra a ditadura militar, a dívida externa chegava a casa de 100 bilhões de dólares. Em 2015, até 01/dez, a dívida consumiu R$ 958 bilhões = 46% do gasto federal.

É necessário que façamos a Auditoria da Dívida Pública, para buscar soluções imediatas a tal. “A dívida pública de forma técnica como podemos ler nos livros de Economia, é uma forma de complementar o financiamento do Estado. Em princípio, não há nada errado no fato de um país, de um estado ou de um município se endividar, porque o que está acima de tudo é o atendimento do interesse público. Se o Estado não arrecada o suficiente, em princípio, ele poderia se endividar para o ingresso de recursos para financiar todo o conjunto de obrigações que o Estado tem. Teoricamente, a dívida é isso. É para complementar os recursos necessários para o Estado cumprir com as suas obrigações”, como explica a ex-auditora da Receita Federal Ana Lúcia Fatorelli.

“Todo mundo fala no corte, no ajuste, na austeridade e tal. Desde o Plano Real, o Brasil produz superávit primário todo ano. Tem ano que produz mais alto, tem ano que produz mais baixo. Mas todo ano tem superávit primário. O que quer dizer isso, superávit primário? Que os gastos primários estão abaixo das receitas primárias. Gastos primários são todos os gastos, com exceção da dívida. É o que o Brasil gasta: saúde, educação… exceto juros. Tudo isso são gastos primários. Se você olhar a receita, o que alimenta o orçamento? Basicamente a receita de tributos. Então superávit primário significa que o que nós estamos arrecadando com tributos está acima do que estamos gastando, então está sobrando uma parte”, ela prossegue.

“Essa parte do superávit paga uma pequena parte dos juros porque, no Brasil, nós estamos emitindo nova dívida para pagar grande parte dos juros. Isso é escândalo, é inconstitucional. Nossa Constituição proíbe o que se chama de anatocismo. Quando você contrata dívida para pagar juros, o que você está fazendo? Você está transformando juros em uma nova divida sobre a qual vai incidir juros. É o tal de juros sobre juros. Isso cria uma bola de neve que gera uma despesa em uma escala exponencial, sem contrapartida, e o Estado não pode fazer isso. Quando nós investigamos qual é a contrapartida da dívida interna, percebemos que é uma dívida de juros sobre juros. A dívida brasileira assumiu um ciclo automático. Ela tem vida própria e se retroalimenta. Quando isso acontece, aqueles juros vão virar capitais. E, sobre aquele capital, vai incidir novos juros. E os juros seguinte, de novo vão se transformados em capital. É, por isso, que quando você olha a curva da dívida pública, a reta resultante é exponencial. Está crescendo e está quase na vertical. O problema é que vai explodir a qualquer momento”, concluiu.

auditoria divida

Cinelândia, Rio de Janeiro, 13 de maio de 2016

Na noite do 13 de maio de 2016, a Cinelândia, Rio de Janeiro, foi tomada por um ato contra o governo ilegítimo de Michel Temer. O ato foi organizado pela frente Povo Sem Medo, mas também contou com a participação de integrantes da Frente Brasil Popular. Discursaram Jandira Feghalli, Jean Wyllys, Marcelo Freixo e representantes de organizações estudantis e populares.

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PT. Por que deu PT?

Por causa da maior crise da história do Partido dos Trabalhadores (PT), este é mais um textão que tenta discutir: o que deu errado? E por que há pessoas que têm dificuldade de aceitar esta discussão? Muitos textos de esquerda que criticam o PT colocam como a raiz da crise atual do partido o desvio de suas ideias esquerdistas originais. O PT teria entrado em crise porque teria deixado de ser de esquerda da maneira que era antes. Eu considero esta visão simplista e um pouco wishful-thinking. Eu considero que o problema do PT não é nem ser de esquerda demais nem ser de esquerda de menos. Ou melhor, os problemas são estes. Os dois ao mesmo tempo. O PT que faz é de esquerda de menos. O PT que fala é de esquerda demais. O PT muitas vezes (mas nem sempre) se assemelha ao PSDB no fazer, e muitas vezes se assemelha ao PSOL no falar.

Desde quando assumiu o governo federal em primeiro de janeiro de 2003, houve um descasamento entre PT e governo do PT. O programa do governo Lula, lançado em junho de 2002, jamais virou um programa do PT. Os governos Lula e Dilma (2003-2016) tiveram algumas semelhanças com governos de partidos social democratas europeus, mas não ocorreu com o PT o mesmo que ocorreu com partidos social democratas europeus. O Partido Trabalhista Britânico, o Partido Social Democrata Alemão, o Partido Socialista Francês e o Partido Socialista Operário Espanhol nasceram com tendência marxista e, posteriormente, fizeram revisão programática, passando a rejeitar o que defendiam quando foram fundados. O mesmo não ocorreu com o PT. As posições oficiais do partido sofreram algumas mudanças se comparadas com as do ano de fundação, que foi 1980, mas as mudanças não foram tão grandes. Como bem disse André Singer, o Espírito de Sion (posição do partido em 1980) perdeu espaço para o Espírito do Anhembi (formulação da Carta de Junho de 2002), mas continua existindo. O PT pós-2002 passou a ter a capacidade de ser Édson e Pelé ao mesmo tempo. Como bem lembrado por Vladimir Safatle, o PT conseguiu ser ao mesmo tempo governo e líder de organizações que fazem críticas pela esquerda ao governo. Um exemplo emblemático foi a visita de George W. Bush ao Brasil em 2007, quando o então presidente norte americano foi recebido por Lula e quando protestos anti Bush foram organizados pelo PT. Podemos observar no comportamento de militantes petistas em redes sociais que, no discurso, o PT não abandonou a esquerda. Os militantes petistas falam mal do PSOL não porque considera este partido radical demais nas ideias. Estes militantes virtuais petistas se consideram tão (ou mais) esquerdistas quanto o PSOL. Estes militantes criticam o PSOL porque o PSOL divide a esquerda.

Alguns diriam: “a distância entre o PT governo e o PT partido existe por causa da composição do Congresso Nacional. O PT e seu aliado PCdoB nunca obtiveram juntos mais do que 20% das cadeiras. Por isso, tiveram que compor uma coalização com partidos não esquerdistas como o PMDB, o PP, o PTB, o PR e o PRB para poder governar”. Isto explica em parte. Mas não explica tudo. Algumas políticas não esquerdistas dos governos Lula e Dilma foram endossadas pelo próprio PT.

Não se pode tirar o mérito do governo Lula em ter reduzido o número de miseráveis e a concentração de renda do Brasil. Porém, este governo deve ser criticado por ter feito a redistribuição apenas no lado da despesa, através do Bolsa Família, do aumento do salário mínimo, do Prouni e do Minha Casa Minha Vida. A redistribuição pelo lado da receita não foi feita. O Brasil continuou tendo uma carga tributária com um peso enorme dos impostos sobre consumo, que oneram principalmente os mais pobres, que poupam menos, e um peso muito reduzido dos impostos sobre renda e patrimônio. É certo que o Congresso é composto majoritariamente por deputados e senadores que têm elevada renda e patrimônio, e dificilmente aprovaria a criação de uma nova alíquota de imposto de renda para rendas muito elevadas, o aumento do imposto sobre herança ou a criação de um imposto sobre grandes fortunas. Mas o Poder Executivo também não fez sua parte, pois não mandou um PL sobre esta matéria. Se tivesse isso, poderia ter gerado um debate na sociedade. A impressão que se pode ter é a de que as equipes econômicas de Antônio Palocci e Guido Mantega não tiveram interesse nesta mudança. E o Ministério da Fazenda foi um dos poucos a nunca ter passado pelas mãos de partidos fisiológicos. Somente quando Dilma estava arrumando as malas para deixar o Palácio da Alvorada é que mudanças progressivas na tributação foram preparadas.

A proibição do financiamento de campanhas eleitorais por pessoas jurídicas foi uma bandeira que passou a contar com campanha ativa do PT apenas em 2015, quando empresários já não tinham mais vontade de doar para o PT. Antes disso, o deputado petista Vacarezza chegou a propor a permissão do financiamento empresarial.

Os grandes eventos esportivos, que viraram um pretexto para priorizar investimentos públicos nas áreas menos carentes das grandes cidades, não foram imposição dos partidos não esquerdistas da base aliada. O próprio PT defendeu estes eventos. A política para a Amazônia sem muito compromisso com a preservação da floresta e do modo de vida dos índios não pode ser atribuída apenas aos ruralistas da base aliada. A própria noção de desenvolvimento de alguns integrantes do PT não é favorável à preservação.

Mas mesmo assim não é possível dizer que o PT abandonou completamente a esquerda? Não é. O PT tem os quadros que fazem as políticas que vão contra princípios de esquerda. Mas também tem quadros que criticam quem faz essas políticas.

E para piorar, há um fato mais bizarro: algumas vezes, quem está certo é quem faz, e não quem critica. Por exemplo, a política macroeconômica do primeiro mandato do Lula. Alguns setores do PT e do PCdoB fizeram coro com o PSOL e o PCB para falar que aquela política era neoliberal. Mas não era. Utilizar políticas fiscal e monetária restritivas, quando necessárias, para reduzir a inflação não é neoliberalismo. É apenas bom senso. Quem mais sofre com inflação alta é o trabalhador, que tem menos acesso a aplicações financeiras.

No caso da discussão regulação dos meios de comunicação, a situação é ainda mais complicada. Há alguns militantes do PT que dão a entender que consideram que mídia boa é mídia puxa saco de governo quando governo é progressista, o que é errado, e no outro extremo houve os governos Lula e Dilma que não tentaram fazer qualquer tipo de regulação e ainda distribuíram generosas verbas de publicidade para a grande mídia empresarial, o que também é errado. Seria bem mais razoável propor uma regulação para forçar a desoligopolização, e não para tornar chapa branca a mídia.

Um efeito negativo do resquício de esquerdismo radical no PT é a escassa presença de quadros tecnocratas no partido. A ala intelectual do partido tem muita ligação com a filosofia e com a ciência política, mas pouca com administração pública. Governos do PT muitas vezes acabam tendo que terceirizar quadros técnicos em administração pública, e isto acaba contribuindo para deixar as administrações mais conservadoras.

O abismo muito grande entre o que o PT fala e o que o PT faz pode ter contribuído para preservar o gigantismo do PT no momento de vacas gordas, pois permitiu ao PT ocupar um espaço no espectro político que ia do centro até a extrema esquerda. O PT podia ter em um lado a tolerância do grande capital, e no outro a sua própria extrema esquerda que criticava o que o governo do PT fazia, retendo militantes, evitando que eles fossem para partidos de extrema esquerda.

Mas a longo prazo, este abismo foi venenoso para a esquerda. A distância entre aquilo que o militante a favor do PT (e também do PCdoB) quer e aquilo que o PT faz foi tão grande que o militante acabou perdendo o discernimento sobre o que podia abrir mão e o que não podia, e muitos deles acabaram aceitando e justificando abrir mão de tudo. O velho argumento da “correlação de forças que não permite” virou justificativa para tudo. A existência de uma extrema esquerda sobrevivente dentro do PT acabou por contribuir para manter atrofiadas as forças de esquerda independentes do PT. Isto acabou sendo catastrófico para a esquerda brasileira quando o PT afundou por causa do escândalo de corrupção da Petrobras e da crise econômica, porque sem grandes forças independentes do PT, a esquerda afundou junto. E a sobrevivência do esquerdismo retórico dentro do PT forçou o governo Lula a tomar atitudes simbólicas como prêmio de consolação para a esquerda. Uma delas foi a política para o Cesare Battisti. Essas atitudes simbólicas em nada modificam a vida dos brasileiros e ainda incentivou a revolta da parcela da classe média que tem a opinião formada pela grande mídia empresarial. Deixar revoltada a classe média que tem opinião formada pela grande mídia empresarial é bom se for para fazer políticas que têm impacto na vida do país. Mas atiçar a raiva fazendo apenas políticas simbólicas muitas vezes exige compensar com políticas conservadoras na prática para neutralizar esta raiva. O irônico sobre o caso Cesare Battisti é que não apenas a grande mídia empresarial, mas também a Carta Capital se colocou contra a política do governo brasileiro.

Quanto aos escândalos de corrupção envolvendo o PT, não é possível reduzir tudo a “traição aos princípios originais de esquerda” ou “tentativa de governar com a direita”, nem é possível continuar criando desculpas. No escândalo da Petrobras, foi verificado que o PT não apenas ajudou a repassar propina para o PMDB e para o PP, como também ficou com uma parte do pixuleco. Isto derruba o argumento da governabilidade, utilizado no tempo do mensalão.

E por que o PT ainda tem seguidores fundamentalistas? Estes seguidores são facilmente identificáveis na Internet. São aqueles que procuram mil e duzentos defeitos em quem fala mal do PT. Alguns até toleram os políticos e militantes do PSOL que se limitam a criticar o PT por não ter sido de esquerda o suficiente, mas que sempre fecham com o PT quando a disputa é contra partidos de direita. O que os seguidores fundamentalistas não toleram é quem aponta outros defeitos do PT ou quem defendeu o voto nulo no segundo turno em 2014. Alguns dos seguidores fundamentalistas postam no Facebook a foto da casa simples do José Genoíno para “argumentar” que ele era inocente. Com isso, permitem interpretar que eles consideram intoleráveis os desvios apenas quando eles são para o próprio bolso, mas consideram toleráveis os desvios para campanhas do partido. Pode ter havido rigor exagerado contra Genoíno? Sim, mas a foto da casa simples dele não é prova disso. E não adianta dizer que “os outros também fizeram”, “os outros também fazem”. Até 2002, o PT tinha uma fama de partido honesto, fama na qual até quem não gostava do PT por outros motivos acreditava. É normal que a raiva gerada por não corresponder à fama fica maior. Outro vício é o de falar que Lula sofre perseguição da elite brasileira, ignorando que ele usufruiu de sítio em Atibaia e tríplex no Guarujá fornecidos por essa elite brasileira. Não é errado se revoltar com a indignação seletiva da mídia e dos leitores dessa mídia que só querem enxergar delitos praticados por políticos do PT e se esquecem de enxergar os delitos praticados por políticos de outros partidos. Mas por que não se revoltar também com o fato do partido pelo qual tivemos simpatia ter feito coisas tão ruins? Não seria mais adequado exigir que o partido que tem ideias mais parecidas com as nossas seja mais ético do que os outros partidos?

O impeachment da Dilma e a formação do governo Temer deve ser criticado até por quem não tem simpatia pelo PT. Agora, dizer que pedir renúncia da Dilma e do Temer (mesmo antes da votação no plenário da Câmara) e nova eleição é golpismo é querer colocar o PT como o centro do universo. A esquerda já gritou “Fora” várias vezes para governos eleitos, comemorou a queda de Fernando de la Rua, Lúcio Gutierrez e Sanchez Losada. A memória é muito curta? Só porque o governo é do PT foi criada uma nova regra que diz que defender a democracia é defender que a vontade popular só pode ser expressa uma vez a cada quatro anos?

Outro vício do petismo fundamentalista é o de falar como se entre 2003 e 2016, os únicos lugares do Brasil que tinham problemas sociais eram os estados e municípios administrados pelo PSDB e pelo DEM.

O fanatismo petista é semelhante ao fanatismo por um time de futebol que perde de três a zero, tendo o terceiro gol saído de um pênalti mal assinalado, e os torcedores se negarem a enxergar as falhas do time reclamando apenas da falha da arbitragem.

Os seguidores fundamentalistas do PT falam mal do Lula? De vez em quando sim, pelo fato dele não ter sido tão petista quanto eles. Lula é criticado por ter sido bonzinho demais e não ter colocado aliados políticos no Supremo Tribunal Federal. Mas na verdade, quando Lula colocou Joaquim Barbosa, Carlos Ayres Britto e Dias Tóffoli, ele pensou que estava colocando aliados políticos. Apenas posteriormente eles revelaram não ser.

E apenas um esclarecimento: em 2012, eu votei em Márcio Pochmann para prefeito de Campinas. Foi uma eleição que ocorreu no meio da AP 470. Eu enxergava que o STF estava cumprindo o seu papel. Estava otimista com a possibilidade do mensalão, depois das devidas punições, se transformar em uma página virada na história, e o PT ganhar novas lideranças, como Haddad e Pochmann. Mas o posicionamento do PT sobre o julgamento, manifestado depois das eleições, foi um dos motivos para desanimar cada vez mais com o partido.

Fechando o parênteses, vem a pergunta: por que ainda existem seguidores fundamentalistas do PT?

Em primeiro lugar, a história bonita do PT, do Lula e da Dilma. Histórias bonitas comovem pessoas. O PT tem a história de ter sido um partido formado por sindicatos de trabalhadores, por comunidades eclesiais de base, por intelectuais, durante o período regime militar. Foi o primeiro partido brasileiro a combinar as bandeiras da esquerda tradicional com as bandeiras da esquerda pós-1968. O Lula tem a história do retirante, do metalúrgico, do sindicalista, do líder que recebeu homenagem em várias partes do mundo. A Dilma tem a história da guerrilheira, da primeira mulher a ocupar a cadeira presidencial. Símbolos comovem pessoas. Mas se posicionar politicamente só por causa de símbolos é perigoso. Dilma é mulher. Golda Meir, Margaret Thatcher, Condoleeza Rice, Sarah Palin, Leila do Flamengo e Kátia Abreu (ops) também. Dilma participou da luta armada contra o regime militar. Aloysio Nunes, Raul Jungmann e Fernando Gabeira também. Dilma passou pelo Instituto de Economia da Unicamp. José Serra, Paulo Renato e Luiz Carlos Mendonça de Barros também.

Em segundo lugar, o papel da grande mídia empresarial, que foi um backlash, um efeito bumerangue, um tiro pela culatra. Estou falando da mídia dos Marinhos, dos Civitas, dos Mesquitas e dos Frias. A ideologia desta mídia é favorável ao Estado mínimo (com algumas exceções: distribuir verbas de publicidade e assinar jornais e revistas para escolas públicas). É errado dizer que esta mídia é favorável ao PSDB. Na verdade, é o PSDB que é favorável a esta mídia, que é um partido próprio, um Tea Party tupiniquim. Por causa disso, empresários e jornalistas desta mídia fazem parte do Instituto Millenium. Se o PSDB tiver uma “recaída” para a social democracia, esta mídia falará mal até do PSDB. E o que isso tem a ver com seu oposto, o grupo religioso pró-PT? É que são grupos inimigos que se retroalimentam. Na década de 1990, a grande mídia empresarial tentou preservar um equilíbrio, evitar contaminar o jornalismo profissional com suas posições políticas. No mundo inteiro, jornais declaram suas posições políticas, mas tentam ser honestos na informação e mantém colunistas com opiniões diferentes das opiniões dos jornais. Isto já ocorreu no Brasil. Franklin Martins, Luís Nassif, Wanderley Guilherme dos Santos, Maria Rita Kehl, Maria Aquino, Luís Felipe de Alencastro e Paulo Moreira Leite já foram colunistas da grande mídia empresarial. Já ocorreu uma tentativa de fazer um jornalismo razoavelmente isento. Isto mudou em meados da década de 2000, quando as grandes empresas de mídia passaram a vestir a camisa de suas posições políticas. Os colunistas que não se alinhavam ideologicamente com os donos foram demitidos um por um. Acadêmicos que se alinhavam ideologicamente com os donos da grande mídia se tornaram figuras carimbadas nas entrevistas, aparecendo um dia sim outro dia também sim. Chegou a parecer que Raul Veloso era o único brasileiro que entendia de finanças públicas, Fábio Giambiagi era o único brasileiro que entendia de previdência, Amadeo e Pastore eram os únicos brasileiros que entendiam de mercado de trabalho e Cláudio Moura de Castro e Gustavo Ioschpe eram os únicos brasileiros que entendiam de educação. Houve tentativa de criar novos “intelectuais”, como Ali Kamel e Leandro Narloch. O noticiário passou a ser contaminado pelas posições políticas dos donos da grande mídia. A diferença de abordagem entre a Operação Satiagraha e a Operação Lava Jato foi marcante. A diferença de tratamento que o William Bonner deu para José Serra e para Dilma Rousseff nas entrevistas com candidatos presidenciais em 2010 foi marcante. O puxa-saquismo da grande mídia ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é muito grande. Por causa de tudo isso, facilitou para os formadores de opinião pró-PT formarem a opinião de que a grande mídia empresarial não é confiável, e uma legião de seguidores duvidarem quando a grande mídia empresarial emite uma opinião ou uma informação anti-PT, mesmo quando esta opinião ou quando esta informação está correta. Muitas vezes, petistas acham que as pesquisas Datafolha ou Ibope estão subestimando a votação nos candidatos do PT, aí as eleições ocorrem e se verifica que os candidatos do PT tiveram desempenho pior do que o Datafolha e o Ibope previram. É aplicável neste caso a velha da fábula do mentiroso, que todas as crianças ouvem. Tinha um menino que sempre mentia. Um dia ele foi passear com colegas na floresta, se perdeu do grupo, foi atacado por lobos, gritou por ajuda, mas os demais pensaram que se tratava de mais uma mentira e não se mobilizaram para acudir. Bom, depois que a grande mídia empresarial decidiu vestir a camisa do partido anti-PT, lá por 2005, o PT ganhou três eleições presidenciais e só passou a ser rejeitado pela maioria da população brasileira depois que a crise econômica afetou diretamente o bolso das pessoas. Ou seja, a partidarização da grande mídia brasileira foi um fracasso político. E mais uma alerta deve ser feita: o que valeu para o PT também vale para grupos de direita. Donald Trump é uma figura detestável, há muitas verdades a serem ditas contra ele. Mas se a grande mídia apelar para a mentira para derrubar Trump, vai contribuir para fomentar uma rede de apoiadores. Mesmo no Brasil, não apenas a esquerda reclama da grande mídia. Existe uma parcela da extrema direita que acha que a grande mídia brasileira é de esquerda, e por isso também prefere meios de comunicação alternativos. É péssimo que se difunda a ideia de que a grande mídia não é confiável, porque isso ajuda a fomentar o pensamento de diversos tipos de malucos. Mas infelizmente, a grande mídia faz por merecer a desconfiança. Para finalizar este parágrafo, um reconhecimento deve ser feito: a Folha de S. Paulo voltou a contar com uma grande quantidade de colunistas que discordam das posições oficiais do jornal.

Em terceiro lugar, um motivo ligado ao segundo. A proliferação de periódicos e sites favoráveis ao PT, liderados por jornalistas expurgados da grande mídia empresarial. Estes periódicos e sites contam com recursos para a difusão em massa, pois recebem patrocínios de empresas públicas. A grande mídia empresarial recebe patrocínio de grandes empresas privadas. Ou seja, a mídia que tem dinheiro é ou de direita ou de esquerda alinhada ao PT. Muitas pessoas que procuram mídia de esquerda acabam encontrando apenas mídia de esquerda alinhada ao PT, aí é esta mídia que acaba formando a opinião. O fato da mídia ser alinhada ao PT não a torna automaticamente ruim. Eu gosto de 80% do conteúdo da revista Carta Capital, mas desconsidero alguns textos sobre política partidária brasileira. Enquanto isso, escritores de esquerda não alinhados com o PT, como Luiz Eduardo Soares, Idelber Avelar, Moysés Pinto Neto e Pablo Ortellado são fenômenos apenas no Facebook.

Em quarto lugar, ainda ligado ao segundo, aqueles que são mais realistas que o rei. Existem algumas pessoas anti-PT que acham que a grande mídia é vendida ao PT, e que acreditam em boatos de Internet porque querem acreditar. São as pessoas que difundiram o boato de que todas as famílias de presidiários recebem o auxílio reclusão. Que continuam insistindo na tese de que Lula matou os passageiros do avião da TAM em 2007 porque a pista estava escorregadia, mesmo depois do próprio Jornal Nacional ter negado esta versão. Essas pessoas incentivam os simpatizantes do PT a terem má vontade com críticos do PT.

Em quinto lugar, o governo Lula apresentou bons resultados. O crescimento do PIB per capita foi o maior de todos os governos da Nova República, a miséria caiu, a desigualdade caiu, a relação dívida/PIB caiu, as exportações cresceram. Alguns resultados estão associados ao boom internacional de commodities. Outros, às próprias políticas do Lula. A tentativa dos antipetistas fanáticos de negar estes bons resultados acabam fomentando ainda mais o petismo fanático.

Em sexto lugar, existe um temor justificado de que sem o PT, só restarão forças políticas sem qualquer compromisso com desconcentração de renda, direitos humanos e Estado laico. Isto inclui o PSDB, que em 1988 poderia ter sido considerado um partido progressista, mas que atualmente vota sempre junto com as bancadas Bíblia, Boi e Bala.

Em sétimo lugar, muitas pessoas adquiriram simpatia pelo PT por causa de experiências pessoais. Por terem conhecido pessoalmente muitas pessoas escrotas que odeiam o PT. É falso dizer que todos os odiadores do PT são elitistas, racistas, machistas, homofóbicos e xenofóbicos, mas é verdadeiro dizer que todos os elitistas, racistas, machistas, homofóbicos e xenofóbicos odeiam o PT (existem machistas e homofóbicos “involuntários” que gostam do PT, mas elitistas e racistas não). Propagandistas do PT gostam de retratar os PT haters como elitistas, racistas, machistas, homofóbicos e xenofóbicos. PT haters que difundem textos do Danilo Gentili, do Reinaldo Azevedo e do Jair Bolsonaro ajudam a estereotipação (os mencionados “pensadores” não são necessariamente tudo isso, mas apelam para as pessoas que são). Ainda assim, os PT lovers merecem críticas. É uma visão um pouco infantil achar que uma coisa é boa só porque pessoas ruins não gostam dela.

Odiadores do PT muitas vezes apelam para o ódio contra o Nordeste brasileiro. Mas há simpatizantes do PT que apelam para o ódio contra São Paulo, o berço do PT.

Em oitavo lugar, novamente experiências pessoais. Eu já reparei por minhas experiências pessoais e outras pessoas também podem ter reparado o mesmo: as pessoas que mais fazem gracinha com a falta de instrução formal do Lula são aquelas que tem um curso superior somente para permitir ter uma melhor renda, mas raramente comentam sobre um livro que estão lendo, um filme que viram, uma peça de teatro, um show… Deve ser o tipo de gente que fala que o Lula é analfabeto, mas falaria também que o Haddad é pedante por ser culto demais. Então, de quem esse tipo de gente gostaria? Hmmm…, … do Alckmin.

A sobrevivência da esquerda no Brasil depende de revisão de opiniões sobre o PT. Mais uma vez a analogia futebolística: se um time começa a perder muitos jogos em seguida, é hora de trocar a comissão técnica, ou até mesmo a diretoria. Agora que a esquerda vai ser 100% oposição, sua atuação dependerá de menos de partidos e mais de movimentos sociais e lideranças individuais. O petista Fernando Haddad admite isso. A existência novamente de um partido forte de esquerda no Brasil depende: 1. Do PSOL abrandar algumas de suas posições, possibilitando a governabilidade. 2. Da Rede se deslocar para a esquerda, porque se apenas reproduzir as visões da Marina Silva, não será exatamente um partido de esquerda. Alessandro Molon, Randolfe Rodriguez e Luiz Eduardo Soares poderiam colaborar para levar a Rede para a esquerda. 3. Do PDT, que havia virado um saco de gatos, redescobrir a esquerda. Ciro Gomes poderia ajudar. 4. Do PT trocar as lideranças e admitir para valer seus erros.

No início do texto, foi exposta uma diferença entre o PT e os partidos social democratas europeus. É importante concluir lembrando que esses também não são referência. Também estão em grave crise. Já tiveram 40% do eleitorado dos países europeus na década de 1970. Atualmente não passam dos 30%. Não conseguem mais se diferenciar dos partidos democrata cristãos. O governo social democrata da França enfrenta um grande movimento de trabalhadores.

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Pablo Ortellado comentando a declaração infeliz de Alckmin sobre pesquisa

Da página no Facebook de Pablo Ortellado, 27 de abril de 2016

Recentemente o governador Geraldo Alckmin reclamou que a FAPESP desperdiçava muito recurso público com pesquisa inútil, enquanto a vacina contra a dengue não tinha financiamento. É uma reclamação muito comum, que sempre reaparece — e não apenas no Brasil (Canadá e Japão passaram por problemas semelhantes nos últimos anos). Queria fazer uma reflexão muito concreta na qualidade de pesquisador “aplicado”, cheio de resultados “práticos”. As pesquisas do meu grupo já tiveram impacto (maior ou menor) na produção e na tramitação legislativa de muitas leis e projetos de lei (lei de REA, reforma da lei de direitos autorais, lei de proteção de dados pessoais, marco civil da internet), na criação de um programa (agente comunitário de cultura), já foram incorporadas em programas de governo de vários partidos (PT, PMDB e PSDB) e resultados de pesquisa já foram discutidos com diversas instituições políticas e do poder público (Instituto Lula, Instituto Fernando Henrique Cardoso, Ministério da Justiça, Prefeitura Municipal de São Paulo, Ministério da Cultura, Conselho Nacional de Combate a Pirataria, Ministério da Educação, Ministério das Comunicações, Secretaria Estadual de Cultura, Secretaria Municipal de Cultura) entre outros impactos “práticos”, como artigos e colaborações com meios de comunicação (New York Times, Financial Times, Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, o Globo, El País e muitos outros) — sempre na condição de pesquisadores acadêmicos e nunca na de consultores remunerados. Posso dizer, em resumo, que são pesquisas bastante “aplicadas”. Esse tipo de pesquisa é por isso mais relevante que a dos colegas que estudam de maneira “mais pura” ou “menos aplicada” os processos sociais? Eu não seria um tolo se acreditasse que, porque são aplicadas, pesquisas como as nossas são mais relevantes que as penetrantes análises de um crítico literário como o Roberto Schwarz? São mais importantes que as fascinantes descobertas sobre a cosmologia indígena de um Eduardo Viveiros de Castro? Só uma pessoa muito ignorante acharia que a produção desses gigantes do pensamento não tem valor ou tem valor menor que a produção aplicada, voltada para as políticas públicas (ou para o desenvolvimento tecnológico, no caso das ciências naturais). No fundo, esse pragmatismo grosseiro é amigo da ignorância orgulhosa — muitos conhecimentos sem aplicação são relevantes simplesmente porque dão sentido e ajudam a compreender o mundo e isso deveria valer por si só numa sociedade civilizada. Mas, para além disso, o que seria da pesquisa aplicada sem a pesquisa básica? Como poderíamos fazer quaisquer de nossas propostas legislativas — por exemplo, nossas propostas recentes para a alteração do anteprojeto de lei de proteção de dados pessoais — sem nos apoiar nos estudos filosóficos sobre vigilância (de Bentham a Foucault), sem nos apoiar nos estudos de sociologia econômica que investigam o mercado de dados ou no debate doutrinário no direito sobre a natureza da privacidade? Criticar a pesquisa básica nas ciências humanas ou nas ciências naturais é dar um passo para a barbárie — mas é também uma estupidez do ponto de vista do desenvolvimento das ciências aplicadas.

Hélio Gurovitz, o gerador automático de textos de direita

Hélio Gurovitz é colunista do G1. Quando começou a escrever suas colunas no portal no início do ano passado, se apresentou como liberal em economia e contra o politicamente correto. Havia 22.534 colunistas assim na mídia comercial brasileira. Depois dele, passou a haver 22.535. Então por que falar deste colunista? Porque o G1 é o portal de notícias mais lido do Brasil.

Os textos de Hélio Gurovitz parecem textos produzidos por geradores automáticos de textos de direita. Hélio Gurovitz não é igual a Olavo de Carvalho, Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino, Rachel Sheherazade, Luís Felipe Pondé e Danilo Gentili. Diferente destes, o objetivo de Gurovitz não é a provocação. Ele não escreve com o objetivo de ser odiado pelas pessoas com opiniões diferentes das dele. Ele é sério. Ainda assim, seus textos são repletos de chavões de direita.

No primeiro semestre de 2015, o Hélio Gurovitz chegou a escrever texto lambendo o saco do Eduardo Cunha. Relacionou visão negativa do Presidente da Câmara com propaganda do PT. Nisso, o colunista do G1 fez companhia para Reinaldo Azevedo, Marco Antônio Villa e Rachel Sheherazade. As contas na Suíça ainda não eram conhecidas. Mas as picaretagens dos tempos de Telerj e Cehab já eram. E mesmo se Eduardo Cunha não fosse corrupto, os lambe saco dele merecem ser criticados. Qualquer pessoa civilizada deveria repudiar o autor de um projeto de lei que tenta dificultar o aborto para vítimas de estupro. Hélio Gurovitz muito provavelmente não defende este projeto de lei, mas é do tipo que pensa “foda-se”. O colunista defende o projeto que permite a terceirização das atividades fim e o que permite o financiamento de campanhas eleitorais por pessoa jurídica. Por isso, tinha simpatia por Eduardo Cunha. Ou seja, o colunista é dos muitos na mídia comercial brasileira que defende a pauta da direita econômica, mas não a pauta da direita religiosa, porém, não vê problema em alianças de conveniência com a direita religiosa. Atualmente, para tentar consertar a cagada, o colunista do G1 critica com frequência o Eduardo Cunha.

Um dos chavões de direita recentemente utilizados por Hélio Gurovitz foi o de nivelar os torturadores da ditadura militar com os guerrilheiros. Reclamou da desproporção entre as muitas críticas a Jair Bolsonaro por ter exaltado Brilhante Ulstra e as poucas críticas a Glauber Braga por ter exaltado Carlos Marighella. A ditadura militar brasileira é a única ditadura que gerou uma considerável leva de “formadores de opinião” que nivela repressores e opositores da repressão. Ninguém pensa em nivelar os soldados da SS com os oficiais alemães que tentaram explodir Hitler em 1944. Ao reclamar da falta de críticas a Glauber Braga, Hélio Gurovitz ainda mencionou uma suposta tendência esquerdista da imprensa. Essa mesma imprensa que o emprega. Sim, isso mesmo. Hélio Gurovitz é colunista do G1. Leonardo Sakamoto não é colunista do G1. Os principais donos da imprensa brasileira são os marinhos, os civitas, os mesquitas e os frias. E mesmo assim, o colunista do G1 tirou da bunda uma suposta tendência esquerdista da imprensa.

Em um texto sobre a polarização entre coxinhas e mortadelas, Hélio Gurovitz afirmou que são dois grupos desiguais, escreveu como se apenas os mortadelas fossem geradores de males. Essa visão maniqueísta apresenta o risco de justificar os atos violentos praticados por coxinhas. Embora, seja importante destacar, ele não justificou atos violentos praticados por coxinhas. Mas difundir uma visão muito maniqueísta pode incentivar outras pessoas a fazerem isso.

Hélio Gurovitz tem o hábito de falar mal do Donald Trump. Vários direitistas fazem isso, porque Trump não é o tipo de direita que a direita mainstream gosta. Por causa de Gurovitz e de alguns outros “formadores de opinião” que falam mal do Donald Trump, cheguei até a tentar ter alguma simpatia pelo político republicano norte-americano. Hehehe. Mas não é possível, o cara é o cão.

O G1, assim como o Jornal Nacional, era a face isentona das Organizações Globo. Este conglomerado veste mais a camisa de suas posições políticas no Jornal da Globo, na Globonews, na CBN, no jornal O Globo e na Revista Época. Mas os textos de Hélio Gurovitz ajudam a dar uma poluidinha na face isentona. Ah, e por falar na Revista Época, foi sob o comando de Hélio Gurovitz que esta revista ficou cada vez mais parecida com a Veja.

helio gurovitz