Pablo Ortellado comentando a declaração infeliz de Alckmin sobre pesquisa

Da página no Facebook de Pablo Ortellado, 27 de abril de 2016

Recentemente o governador Geraldo Alckmin reclamou que a FAPESP desperdiçava muito recurso público com pesquisa inútil, enquanto a vacina contra a dengue não tinha financiamento. É uma reclamação muito comum, que sempre reaparece — e não apenas no Brasil (Canadá e Japão passaram por problemas semelhantes nos últimos anos). Queria fazer uma reflexão muito concreta na qualidade de pesquisador “aplicado”, cheio de resultados “práticos”. As pesquisas do meu grupo já tiveram impacto (maior ou menor) na produção e na tramitação legislativa de muitas leis e projetos de lei (lei de REA, reforma da lei de direitos autorais, lei de proteção de dados pessoais, marco civil da internet), na criação de um programa (agente comunitário de cultura), já foram incorporadas em programas de governo de vários partidos (PT, PMDB e PSDB) e resultados de pesquisa já foram discutidos com diversas instituições políticas e do poder público (Instituto Lula, Instituto Fernando Henrique Cardoso, Ministério da Justiça, Prefeitura Municipal de São Paulo, Ministério da Cultura, Conselho Nacional de Combate a Pirataria, Ministério da Educação, Ministério das Comunicações, Secretaria Estadual de Cultura, Secretaria Municipal de Cultura) entre outros impactos “práticos”, como artigos e colaborações com meios de comunicação (New York Times, Financial Times, Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, o Globo, El País e muitos outros) — sempre na condição de pesquisadores acadêmicos e nunca na de consultores remunerados. Posso dizer, em resumo, que são pesquisas bastante “aplicadas”. Esse tipo de pesquisa é por isso mais relevante que a dos colegas que estudam de maneira “mais pura” ou “menos aplicada” os processos sociais? Eu não seria um tolo se acreditasse que, porque são aplicadas, pesquisas como as nossas são mais relevantes que as penetrantes análises de um crítico literário como o Roberto Schwarz? São mais importantes que as fascinantes descobertas sobre a cosmologia indígena de um Eduardo Viveiros de Castro? Só uma pessoa muito ignorante acharia que a produção desses gigantes do pensamento não tem valor ou tem valor menor que a produção aplicada, voltada para as políticas públicas (ou para o desenvolvimento tecnológico, no caso das ciências naturais). No fundo, esse pragmatismo grosseiro é amigo da ignorância orgulhosa — muitos conhecimentos sem aplicação são relevantes simplesmente porque dão sentido e ajudam a compreender o mundo e isso deveria valer por si só numa sociedade civilizada. Mas, para além disso, o que seria da pesquisa aplicada sem a pesquisa básica? Como poderíamos fazer quaisquer de nossas propostas legislativas — por exemplo, nossas propostas recentes para a alteração do anteprojeto de lei de proteção de dados pessoais — sem nos apoiar nos estudos filosóficos sobre vigilância (de Bentham a Foucault), sem nos apoiar nos estudos de sociologia econômica que investigam o mercado de dados ou no debate doutrinário no direito sobre a natureza da privacidade? Criticar a pesquisa básica nas ciências humanas ou nas ciências naturais é dar um passo para a barbárie — mas é também uma estupidez do ponto de vista do desenvolvimento das ciências aplicadas.

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