Paralelos entre os EUA de 1980 e o Brasil de 2016

Há uma semelhança entre o que ocorreu nos Estados Unidos em 1980 e o que ocorreu no Brasil em 2016. Em ambas as situações, houve uma contra revolução conservadora. E não foram eventos que chegaram de disco voador. Em ambas as situações, as sociedades passaram por um longo período de preparação para o acontecimento. Óbvio que houve uma diferença fundamental: Ronald Reagan foi eleito presidente, seu governo foi perfeitamente legítimo. O mesmo não ocorreu com Michel Temer. Ah, outra diferença: o secretariado de Reagan teve mulher e negro.

Mas neste texto, vamos nos concentrar nas semelhanças. Apesar de Michel Temer ter chegado à presidência de uma maneira bastante estranha, não há como negar que embora não sejam a maioria, muitas pessoas apoiam as políticas que o novo governo quer implementar. Não apenas os ricos, mas uma parcela bastante grande da classe média. Importante lembrar que o Congresso, eleito pelo povo, é extremamente conservador. E como esta onda conservadora na sociedade brasileira foi possível?

Vamos começar com os Estados Unidos. Até a crise de 1929, os Estados Unidos tinham uma elevada desigualdade na distribuição de renda. O Estado era mínimo. Nos anos 1930 e 1940, o país passou pelo New Deal, durante os governos de Franklin Roosevelt e Truman. Foi estabelecido um Estado de Bem Estar Social e um sistema tributário progressivo. A sindicalização da força de trabalho aumentou. A concentração de renda caiu bruscamente. O New Deal acabou aceito até mesmo pelo establishment. Mesmo o business evitou fazer grande resistência. Até os presidentes republicanos Eisenhower (1953-1961), Richard Nixon (1969-1974) e Gerald Ford (1974-1977) não reverteram as políticas do New Deal.

Mas um movimento iniciado na década de 1950 foi ganhando força aos poucos, até chegar a seu auge em 1980, com a eleição de Ronald Reagan. Foi um movimento de criação de um conservadorismo de massas, que permitiu um candidato bastante conservador ganhar uma eleição. Grande parte da classe média e até mesmo da classe trabalhadora passou a endossar políticos que cortavam impostos dos super ricos e diminuíam programas sociais. E como isto aconteceu?

Os conservadores atuaram em várias frentes. O pensador William Buckley, com sua revista National Review, criada na década de 1950, ajudou a fomentar uma inteligência de direita. O business, que antes estava conformado pela nova ordem criada pelo New Deal, passou a contribuir ativamente para o retorno da sociedade com Estado limitado e alta concentração de renda. O farto dinheiro do business ajudou a financiar think thanks de direita, como o Cato Institute e a Heritage Foundation. Esse dinheiro ajudou a fomentar conservadores profissionais. Antes disso, havia economistas, historiadores, filósofos etc que eram conservadores. Depois disso, o conservadorismo passou a ser uma especialidade. Exemplo: Milton Friedman foi um importante economista com posições políticas conservadoras. Porém, não precisa ser conservador para aceitar algumas de suas contribuições para a ciência. Arthur Laffer, por outro lado, não foi um economista conservador. E sim um conservador que escreveu sobre economia.

Foi o pensamento econômico um grande palco para a guinada conservadora. O keynesianismo, que foi mainstream na academia nas décadas de 1950 e 1960, passou a ser fortemente contestado, em um movimento que teve início nas Universidades de Chicago e de Minnesotta.

Para criar a base popular do conservadorismo, foi explorado fortemente os sentimentos racistas dos sulistas brancos. Políticos e pensadores conservadores não eram explicitamente racistas, mas usavam linguagem codificada, o chamado dog whistle, para fazer apelos a racistas. Ronald Reagan, por exemplo, ao fazer campanha no Mississippi, defendeu os “direitos dos estados”. Um observador ingênuo poderia pensar que ele estava apenas querendo dizer que os estados deveriam ter mais autonomia perante à união. Mas era óbvio que ele estava falando para os segregacionistas inconformados com as políticas de direitos civis de John Kennedy e Lyndon Johnson. Os sulistas brancos, que antes votavam nos democratas, passaram a votar nos republicanos, e isso foi fundamental para mudar o balanço de poder nos Estados Unidos. Trabalhadores brancos passaram a votar nos republicanos até mesmo fora do sul. A classe média e a classe trabalhadora branca eram beneficiadas por um Estado de Bem Estar Social voltado para as pessoas que estavam dentro do mercado de trabalho. Mas passaram a ver com hostilidade os food stamps, um programa de auxílio a quem era tão pobre que estava fora do mercado de trabalho. Os beneficiários dos food stamps eram vistos como vagabundos. E como grande parte dos beneficiários eram negros e latinos, o ódio ao programa foi sempre muito próximo do ódio racial. Isto criou um ambiente político favorável aos simpatizantes dos cortes nos programas sociais. Muitos integrantes da classe média e da classe trabalhadora pensavam “Estado de Bem Estar Social para nós tudo bem, para those people não”. Antes mesmo de existir uso doméstico de Internet, já existiam boatos de beneficiários do food stamps que comiam T-bone, ou que andavam de Cadilac.

Facilitou a criação de um conservadorismo de massas também a aliança da direita econômica com a direita religiosa. Uma parte da sociedade norte americana pensou que a revolução nos costumes ocorrida na década de 1960 tinha ido longe demais, e que era necessário recuperar os valores cristãos. Os conservadores também estimularam a repulsa aos liberals das universidades. A exploração do perigo externo também favoreceu os conservadores: antes os vermelhos, depois os terroristas islâmicos.

Este movimento conservador, no início, não conseguia dominar nem mesmo o Partido Republicano. A primeira vez que conseguiu emplacar um candidato presidencial foi em 1964, com Barry Goldwater, que acabou perdendo de lavada para Lyndon Johnson. Porém, esta campanha plantou a semente para colheita futura. A estagflação da década de 1970, somada com a crise dos reféns na embaixada norte-americana no Irã, permitiu a eleição de Ronald Reagan em 1980.

Resultado da contra revolução conservadora: a renda nos Estados Unidos voltou a concentrar. Este gráfico mostra como a participação do 1% mais rico no total da renda dos Estados Unidos caiu fortemente nas décadas de 1930 e 1940, manteve-se razoavelmente baixa até 1980, e voltou a subir bruscamente. A guinada direitista de Reagan continuou com o Bush Senior, não foi revertida nem mesmo com o democrata Bill Clinton, e continuou com o Bush Junior. Importante para a contra revolução conservadora foi não apenas a conquista da presidência por Reagan em 1980, mas também a conquista da maioria republicana no Congresso em 1994.

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Aí chegou um momento que grande parte da sociedade norte americana percebeu os malefícios desta guinada conservadora, e isto teve como resultado a eleição de Barack Obama em 2008. Como as mudanças produzidas por Obama foram insuficientes, surgiu o fenômeno Bernie Sanders. Pela primeira vez, um auto denominado socialista (admirador do “socialismo” escandinavo) teve um resultado espetacular nas primárias. Alcançou aproximadamente dez milhões de votos.

Fenômenos parecidos aos que aconteceram nos Estados Unidos nas décadas de 1950, 1960 e 1970, que culminaram na contra revolução conservadora de 1980, ocorreram no Brasil nas décadas de 2000 e 2010, que culminaram na contra revolução conservadora de 2016.

Na década de 1990, poucos políticos e pensadores brasileiros se auto denominavam “direita”. Quem era de direita gostava de se definir como centro ou dizer que a divisão esquerda/direita não fazia mais sentido (embora isso ocorra em outros países também). Os poucos colunistas de direita eram Paulo Francis, Roberto Campos e João Guilherme Melquior. Nem mesmo as associações empresariais tinham vontade em fomentar fortemente o direitismo político.

Na década de 2000, colunistas de direita infestaram a imprensa brasileira: Olavo de Carvalho, Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo etc. Eram versões mais cafonas de William Buckley Jr. Os empresários passaram a financiar com força o pensamento de direita. O exemplo mais visível disso é o think thank conservador Instituto Millenium, financiado por grandes empresários. A Fiesp, com o pato amarelo, voltou a atuar politicamente com força, em favor da direita.

Assim como nos Estados Unidos, passou a haver no Brasil também “pensadores” cuja a especialidade era não uma área de conhecimento, mas o conservadorismo. Um exemplo: há uma década, aparecia com frequência na mídia o pensador Cláudio Moura de Castro, um especialista em educação que tinha posições políticas conservadoras, apesar de ser respeitado até por quem não tinha as posições políticas dele. Depois dele, ganhou evidência Gustavo Ioschpe, que não é um especialista em educação que tem posições políticas conservadoras, e sim um conservador que escreve sobre educação.

Assim como nos Estados Unidos, o ressentimento de parte da classe média e até mesmo de parte da classe trabalhadora por beneficiários de programas sociais de transferência de renda voltados para pessoas não colocadas no mercado de trabalho também virou uma grande força para a direita. O those people do Brasil foi o “nordestino vagabundo que recebe Bolsa Família e vota no Lula e na Dilma”. Além disso, foi disseminada por colunistas e comentaristas de sites de notícias a ideia de que as não minorias estavam sendo vítimas do “patrulhamento do politicamente correto”, que estaria havendo uma “tirania das minorias”. Alguns exageros (realmente existentes) de movimentos de minorias passaram a ser utilizados como bonecos de palha para fomentar esta visão absurda do vitimismo das não vítimas. O colunista Reinaldo Azevedo, mesmo não sendo explicitamente racista, homofóbico e pobrefóbico, passou a explorar estes sentimentos através de linguagem codificada. Importante mencionar que ele não é um simples conservador que opta pelo PSDB simplesmente por ser a opção mais à direita mais viável para eleições para o Poder Executivo. Este colunista da Veja tem boas relações com o PSDB desde a década de 1990. Portanto, o que ele escreve faz parte de uma estratégia política do PSDB.

A existência de redes sociais facilitou a boataria como forma de ação política. Difundiram-se muitos boatos sobre Bolsa Família, Auxílio Reclusão e a Lei Rouanet.

O ódio à esquerda universitária também passou a ser fomentado. É muito comum encontrar em redes sociais e em caixas de comentários de sites de notícias extremistas de direita associando o esquerdismo das ciências humanas de universidades públicas com o consumo de maconha. Muitas vezes, quem escreve estes comentários estuda ou estudou em universidades muito menos concorridas do que as dos supostos consumidores de maconha.

O perigo externo também foi capitalizado pela direita. O bolivarianismo dos países vizinhos passou a ser um forte espantalho. O PT gostava de mostrar que era aliado político de Hugo Chávez apenas para aquecer o coração de seus militantes, mas os governos Lula e Dilma nada tinham a ver com o chavismo. Porém, as demonstrações de simpatia de Lula e Dilma por Hugo Chávez foram fortemente capitalizadas pela direita.

Assim como nos Estados Unidos, a aliança entre a direita econômica e a direita religiosa foi importante para a guinada conservadora no Brasil. As igrejas evangélicas pentecostais foram úteis para fazer os pobres votarem na direita nas eleições legislativas. A candidatura de José Serra em 2010 foi derrotada, mas plantou a semente para a futura contra revolução conservadora. Foi a primeira grande candidatura anti-PT depois de 1989 que utilizou o anticomunismo e o fanatismo religioso como forças mobilizadoras. Marcou o início da aliança entre a direita econômica e a direita religiosa.

Por fim, os erros de política econômica da Dilma, que geraram a estagflação, a reação infame do PT ao julgamento do mensalão, e a descoberta do grande escândalo de corrupção da Petrobras favoreceram a formação da imensa maioria conservadora no Congresso Nacional depois das eleições de 2014 (a direita sempre foi maioria no Congresso, mas em 2014 bateu o recorde), e as grandes manifestações de camisa amarela.

Com a Constituição de 1988, a inclusão social entrou na pauta das políticas públicas no Brasil. Isto foi intensificado a partir de 2003. Porém, nem mesmo os governos José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso eram anti Estado de Bem Estar Social. A concentração de renda no Brasil, vinha caindo, conforme mostra o gráfico abaixo. Porém, com a contra revolução conservadora, existe o risco de muitos retrocessos em relação ao que foi conquistado a partir de 1988. A renda pode voltar a concentrar novamente. Além disso, este movimento conservador já está causando muitos retrocessos até mesmo em direitos políticos (conforme demonstrado em outro texto que escrevi para este site).

top um porcento brasil

Fonte: Ipeadata

 

E nós, que somos contra tudo isso, temos que perguntar: o que fazer?

Será que no futuro aparecerá um Bernie Sanders?

 

Observação: a fonte da maior parte das informações sobre os Estados Unidos foi o livro The Conscience of a Liberal, de Paul Krugman

 

temer reagan

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