PT. Por que deu PT?

Por causa da maior crise da história do Partido dos Trabalhadores (PT), este é mais um textão que tenta discutir: o que deu errado? E por que há pessoas que têm dificuldade de aceitar esta discussão? Muitos textos de esquerda que criticam o PT colocam como a raiz da crise atual do partido o desvio de suas ideias esquerdistas originais. O PT teria entrado em crise porque teria deixado de ser de esquerda da maneira que era antes. Eu considero esta visão simplista e um pouco wishful-thinking. Eu considero que o problema do PT não é nem ser de esquerda demais nem ser de esquerda de menos. Ou melhor, os problemas são estes. Os dois ao mesmo tempo. O PT que faz é de esquerda de menos. O PT que fala é de esquerda demais. O PT muitas vezes (mas nem sempre) se assemelha ao PSDB no fazer, e muitas vezes se assemelha ao PSOL no falar.

Desde quando assumiu o governo federal em primeiro de janeiro de 2003, houve um descasamento entre PT e governo do PT. O programa do governo Lula, lançado em junho de 2002, jamais virou um programa do PT. Os governos Lula e Dilma (2003-2016) tiveram algumas semelhanças com governos de partidos social democratas europeus, mas não ocorreu com o PT o mesmo que ocorreu com partidos social democratas europeus. O Partido Trabalhista Britânico, o Partido Social Democrata Alemão, o Partido Socialista Francês e o Partido Socialista Operário Espanhol nasceram com tendência marxista e, posteriormente, fizeram revisão programática, passando a rejeitar o que defendiam quando foram fundados. O mesmo não ocorreu com o PT. As posições oficiais do partido sofreram algumas mudanças se comparadas com as do ano de fundação, que foi 1980, mas as mudanças não foram tão grandes. Como bem disse André Singer, o Espírito de Sion (posição do partido em 1980) perdeu espaço para o Espírito do Anhembi (formulação da Carta de Junho de 2002), mas continua existindo. O PT pós-2002 passou a ter a capacidade de ser Édson e Pelé ao mesmo tempo. Como bem lembrado por Vladimir Safatle, o PT conseguiu ser ao mesmo tempo governo e líder de organizações que fazem críticas pela esquerda ao governo. Um exemplo emblemático foi a visita de George W. Bush ao Brasil em 2007, quando o então presidente norte americano foi recebido por Lula e quando protestos anti Bush foram organizados pelo PT. Podemos observar no comportamento de militantes petistas em redes sociais que, no discurso, o PT não abandonou a esquerda. Os militantes petistas falam mal do PSOL não porque considera este partido radical demais nas ideias. Estes militantes virtuais petistas se consideram tão (ou mais) esquerdistas quanto o PSOL. Estes militantes criticam o PSOL porque o PSOL divide a esquerda.

Alguns diriam: “a distância entre o PT governo e o PT partido existe por causa da composição do Congresso Nacional. O PT e seu aliado PCdoB nunca obtiveram juntos mais do que 20% das cadeiras. Por isso, tiveram que compor uma coalização com partidos não esquerdistas como o PMDB, o PP, o PTB, o PR e o PRB para poder governar”. Isto explica em parte. Mas não explica tudo. Algumas políticas não esquerdistas dos governos Lula e Dilma foram endossadas pelo próprio PT.

Não se pode tirar o mérito do governo Lula em ter reduzido o número de miseráveis e a concentração de renda do Brasil. Porém, este governo deve ser criticado por ter feito a redistribuição apenas no lado da despesa, através do Bolsa Família, do aumento do salário mínimo, do Prouni e do Minha Casa Minha Vida. A redistribuição pelo lado da receita não foi feita. O Brasil continuou tendo uma carga tributária com um peso enorme dos impostos sobre consumo, que oneram principalmente os mais pobres, que poupam menos, e um peso muito reduzido dos impostos sobre renda e patrimônio. É certo que o Congresso é composto majoritariamente por deputados e senadores que têm elevada renda e patrimônio, e dificilmente aprovaria a criação de uma nova alíquota de imposto de renda para rendas muito elevadas, o aumento do imposto sobre herança ou a criação de um imposto sobre grandes fortunas. Mas o Poder Executivo também não fez sua parte, pois não mandou um PL sobre esta matéria. Se tivesse isso, poderia ter gerado um debate na sociedade. A impressão que se pode ter é a de que as equipes econômicas de Antônio Palocci e Guido Mantega não tiveram interesse nesta mudança. E o Ministério da Fazenda foi um dos poucos a nunca ter passado pelas mãos de partidos fisiológicos. Somente quando Dilma estava arrumando as malas para deixar o Palácio da Alvorada é que mudanças progressivas na tributação foram preparadas.

A proibição do financiamento de campanhas eleitorais por pessoas jurídicas foi uma bandeira que passou a contar com campanha ativa do PT apenas em 2015, quando empresários já não tinham mais vontade de doar para o PT. Antes disso, o deputado petista Vacarezza chegou a propor a permissão do financiamento empresarial.

Os grandes eventos esportivos, que viraram um pretexto para priorizar investimentos públicos nas áreas menos carentes das grandes cidades, não foram imposição dos partidos não esquerdistas da base aliada. O próprio PT defendeu estes eventos. A política para a Amazônia sem muito compromisso com a preservação da floresta e do modo de vida dos índios não pode ser atribuída apenas aos ruralistas da base aliada. A própria noção de desenvolvimento de alguns integrantes do PT não é favorável à preservação.

Mas mesmo assim não é possível dizer que o PT abandonou completamente a esquerda? Não é. O PT tem os quadros que fazem as políticas que vão contra princípios de esquerda. Mas também tem quadros que criticam quem faz essas políticas.

E para piorar, há um fato mais bizarro: algumas vezes, quem está certo é quem faz, e não quem critica. Por exemplo, a política macroeconômica do primeiro mandato do Lula. Alguns setores do PT e do PCdoB fizeram coro com o PSOL e o PCB para falar que aquela política era neoliberal. Mas não era. Utilizar políticas fiscal e monetária restritivas, quando necessárias, para reduzir a inflação não é neoliberalismo. É apenas bom senso. Quem mais sofre com inflação alta é o trabalhador, que tem menos acesso a aplicações financeiras.

No caso da discussão regulação dos meios de comunicação, a situação é ainda mais complicada. Há alguns militantes do PT que dão a entender que consideram que mídia boa é mídia puxa saco de governo quando governo é progressista, o que é errado, e no outro extremo houve os governos Lula e Dilma que não tentaram fazer qualquer tipo de regulação e ainda distribuíram generosas verbas de publicidade para a grande mídia empresarial, o que também é errado. Seria bem mais razoável propor uma regulação para forçar a desoligopolização, e não para tornar chapa branca a mídia.

Um efeito negativo do resquício de esquerdismo radical no PT é a escassa presença de quadros tecnocratas no partido. A ala intelectual do partido tem muita ligação com a filosofia e com a ciência política, mas pouca com administração pública. Governos do PT muitas vezes acabam tendo que terceirizar quadros técnicos em administração pública, e isto acaba contribuindo para deixar as administrações mais conservadoras.

O abismo muito grande entre o que o PT fala e o que o PT faz pode ter contribuído para preservar o gigantismo do PT no momento de vacas gordas, pois permitiu ao PT ocupar um espaço no espectro político que ia do centro até a extrema esquerda. O PT podia ter em um lado a tolerância do grande capital, e no outro a sua própria extrema esquerda que criticava o que o governo do PT fazia, retendo militantes, evitando que eles fossem para partidos de extrema esquerda.

Mas a longo prazo, este abismo foi venenoso para a esquerda. A distância entre aquilo que o militante a favor do PT (e também do PCdoB) quer e aquilo que o PT faz foi tão grande que o militante acabou perdendo o discernimento sobre o que podia abrir mão e o que não podia, e muitos deles acabaram aceitando e justificando abrir mão de tudo. O velho argumento da “correlação de forças que não permite” virou justificativa para tudo. A existência de uma extrema esquerda sobrevivente dentro do PT acabou por contribuir para manter atrofiadas as forças de esquerda independentes do PT. Isto acabou sendo catastrófico para a esquerda brasileira quando o PT afundou por causa do escândalo de corrupção da Petrobras e da crise econômica, porque sem grandes forças independentes do PT, a esquerda afundou junto. E a sobrevivência do esquerdismo retórico dentro do PT forçou o governo Lula a tomar atitudes simbólicas como prêmio de consolação para a esquerda. Uma delas foi a política para o Cesare Battisti. Essas atitudes simbólicas em nada modificam a vida dos brasileiros e ainda incentivou a revolta da parcela da classe média que tem a opinião formada pela grande mídia empresarial. Deixar revoltada a classe média que tem opinião formada pela grande mídia empresarial é bom se for para fazer políticas que têm impacto na vida do país. Mas atiçar a raiva fazendo apenas políticas simbólicas muitas vezes exige compensar com políticas conservadoras na prática para neutralizar esta raiva. O irônico sobre o caso Cesare Battisti é que não apenas a grande mídia empresarial, mas também a Carta Capital se colocou contra a política do governo brasileiro.

Quanto aos escândalos de corrupção envolvendo o PT, não é possível reduzir tudo a “traição aos princípios originais de esquerda” ou “tentativa de governar com a direita”, nem é possível continuar criando desculpas. No escândalo da Petrobras, foi verificado que o PT não apenas ajudou a repassar propina para o PMDB e para o PP, como também ficou com uma parte do pixuleco. Isto derruba o argumento da governabilidade, utilizado no tempo do mensalão.

E por que o PT ainda tem seguidores fundamentalistas? Estes seguidores são facilmente identificáveis na Internet. São aqueles que procuram mil e duzentos defeitos em quem fala mal do PT. Alguns até toleram os políticos e militantes do PSOL que se limitam a criticar o PT por não ter sido de esquerda o suficiente, mas que sempre fecham com o PT quando a disputa é contra partidos de direita. O que os seguidores fundamentalistas não toleram é quem aponta outros defeitos do PT ou quem defendeu o voto nulo no segundo turno em 2014. Alguns dos seguidores fundamentalistas postam no Facebook a foto da casa simples do José Genoíno para “argumentar” que ele era inocente. Com isso, permitem interpretar que eles consideram intoleráveis os desvios apenas quando eles são para o próprio bolso, mas consideram toleráveis os desvios para campanhas do partido. Pode ter havido rigor exagerado contra Genoíno? Sim, mas a foto da casa simples dele não é prova disso. E não adianta dizer que “os outros também fizeram”, “os outros também fazem”. Até 2002, o PT tinha uma fama de partido honesto, fama na qual até quem não gostava do PT por outros motivos acreditava. É normal que a raiva gerada por não corresponder à fama fica maior. Outro vício é o de falar que Lula sofre perseguição da elite brasileira, ignorando que ele usufruiu de sítio em Atibaia e tríplex no Guarujá fornecidos por essa elite brasileira. Não é errado se revoltar com a indignação seletiva da mídia e dos leitores dessa mídia que só querem enxergar delitos praticados por políticos do PT e se esquecem de enxergar os delitos praticados por políticos de outros partidos. Mas por que não se revoltar também com o fato do partido pelo qual tivemos simpatia ter feito coisas tão ruins? Não seria mais adequado exigir que o partido que tem ideias mais parecidas com as nossas seja mais ético do que os outros partidos?

O impeachment da Dilma e a formação do governo Temer deve ser criticado até por quem não tem simpatia pelo PT. Agora, dizer que pedir renúncia da Dilma e do Temer (mesmo antes da votação no plenário da Câmara) e nova eleição é golpismo é querer colocar o PT como o centro do universo. A esquerda já gritou “Fora” várias vezes para governos eleitos, comemorou a queda de Fernando de la Rua, Lúcio Gutierrez e Sanchez Losada. A memória é muito curta? Só porque o governo é do PT foi criada uma nova regra que diz que defender a democracia é defender que a vontade popular só pode ser expressa uma vez a cada quatro anos?

Outro vício do petismo fundamentalista é o de falar como se entre 2003 e 2016, os únicos lugares do Brasil que tinham problemas sociais eram os estados e municípios administrados pelo PSDB e pelo DEM.

O fanatismo petista é semelhante ao fanatismo por um time de futebol que perde de três a zero, tendo o terceiro gol saído de um pênalti mal assinalado, e os torcedores se negarem a enxergar as falhas do time reclamando apenas da falha da arbitragem.

Os seguidores fundamentalistas do PT falam mal do Lula? De vez em quando sim, pelo fato dele não ter sido tão petista quanto eles. Lula é criticado por ter sido bonzinho demais e não ter colocado aliados políticos no Supremo Tribunal Federal. Mas na verdade, quando Lula colocou Joaquim Barbosa, Carlos Ayres Britto e Dias Tóffoli, ele pensou que estava colocando aliados políticos. Apenas posteriormente eles revelaram não ser.

E apenas um esclarecimento: em 2012, eu votei em Márcio Pochmann para prefeito de Campinas. Foi uma eleição que ocorreu no meio da AP 470. Eu enxergava que o STF estava cumprindo o seu papel. Estava otimista com a possibilidade do mensalão, depois das devidas punições, se transformar em uma página virada na história, e o PT ganhar novas lideranças, como Haddad e Pochmann. Mas o posicionamento do PT sobre o julgamento, manifestado depois das eleições, foi um dos motivos para desanimar cada vez mais com o partido.

Fechando o parênteses, vem a pergunta: por que ainda existem seguidores fundamentalistas do PT?

Em primeiro lugar, a história bonita do PT, do Lula e da Dilma. Histórias bonitas comovem pessoas. O PT tem a história de ter sido um partido formado por sindicatos de trabalhadores, por comunidades eclesiais de base, por intelectuais, durante o período regime militar. Foi o primeiro partido brasileiro a combinar as bandeiras da esquerda tradicional com as bandeiras da esquerda pós-1968. O Lula tem a história do retirante, do metalúrgico, do sindicalista, do líder que recebeu homenagem em várias partes do mundo. A Dilma tem a história da guerrilheira, da primeira mulher a ocupar a cadeira presidencial. Símbolos comovem pessoas. Mas se posicionar politicamente só por causa de símbolos é perigoso. Dilma é mulher. Golda Meir, Margaret Thatcher, Condoleeza Rice, Sarah Palin, Leila do Flamengo e Kátia Abreu (ops) também. Dilma participou da luta armada contra o regime militar. Aloysio Nunes, Raul Jungmann e Fernando Gabeira também. Dilma passou pelo Instituto de Economia da Unicamp. José Serra, Paulo Renato e Luiz Carlos Mendonça de Barros também.

Em segundo lugar, o papel da grande mídia empresarial, que foi um backlash, um efeito bumerangue, um tiro pela culatra. Estou falando da mídia dos Marinhos, dos Civitas, dos Mesquitas e dos Frias. A ideologia desta mídia é favorável ao Estado mínimo (com algumas exceções: distribuir verbas de publicidade e assinar jornais e revistas para escolas públicas). É errado dizer que esta mídia é favorável ao PSDB. Na verdade, é o PSDB que é favorável a esta mídia, que é um partido próprio, um Tea Party tupiniquim. Por causa disso, empresários e jornalistas desta mídia fazem parte do Instituto Millenium. Se o PSDB tiver uma “recaída” para a social democracia, esta mídia falará mal até do PSDB. E o que isso tem a ver com seu oposto, o grupo religioso pró-PT? É que são grupos inimigos que se retroalimentam. Na década de 1990, a grande mídia empresarial tentou preservar um equilíbrio, evitar contaminar o jornalismo profissional com suas posições políticas. No mundo inteiro, jornais declaram suas posições políticas, mas tentam ser honestos na informação e mantém colunistas com opiniões diferentes das opiniões dos jornais. Isto já ocorreu no Brasil. Franklin Martins, Luís Nassif, Wanderley Guilherme dos Santos, Maria Rita Kehl, Maria Aquino, Luís Felipe de Alencastro e Paulo Moreira Leite já foram colunistas da grande mídia empresarial. Já ocorreu uma tentativa de fazer um jornalismo razoavelmente isento. Isto mudou em meados da década de 2000, quando as grandes empresas de mídia passaram a vestir a camisa de suas posições políticas. Os colunistas que não se alinhavam ideologicamente com os donos foram demitidos um por um. Acadêmicos que se alinhavam ideologicamente com os donos da grande mídia se tornaram figuras carimbadas nas entrevistas, aparecendo um dia sim outro dia também sim. Chegou a parecer que Raul Veloso era o único brasileiro que entendia de finanças públicas, Fábio Giambiagi era o único brasileiro que entendia de previdência, Amadeo e Pastore eram os únicos brasileiros que entendiam de mercado de trabalho e Cláudio Moura de Castro e Gustavo Ioschpe eram os únicos brasileiros que entendiam de educação. Houve tentativa de criar novos “intelectuais”, como Ali Kamel e Leandro Narloch. O noticiário passou a ser contaminado pelas posições políticas dos donos da grande mídia. A diferença de abordagem entre a Operação Satiagraha e a Operação Lava Jato foi marcante. A diferença de tratamento que o William Bonner deu para José Serra e para Dilma Rousseff nas entrevistas com candidatos presidenciais em 2010 foi marcante. O puxa-saquismo da grande mídia ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é muito grande. Por causa de tudo isso, facilitou para os formadores de opinião pró-PT formarem a opinião de que a grande mídia empresarial não é confiável, e uma legião de seguidores duvidarem quando a grande mídia empresarial emite uma opinião ou uma informação anti-PT, mesmo quando esta opinião ou quando esta informação está correta. Muitas vezes, petistas acham que as pesquisas Datafolha ou Ibope estão subestimando a votação nos candidatos do PT, aí as eleições ocorrem e se verifica que os candidatos do PT tiveram desempenho pior do que o Datafolha e o Ibope previram. É aplicável neste caso a velha da fábula do mentiroso, que todas as crianças ouvem. Tinha um menino que sempre mentia. Um dia ele foi passear com colegas na floresta, se perdeu do grupo, foi atacado por lobos, gritou por ajuda, mas os demais pensaram que se tratava de mais uma mentira e não se mobilizaram para acudir. Bom, depois que a grande mídia empresarial decidiu vestir a camisa do partido anti-PT, lá por 2005, o PT ganhou três eleições presidenciais e só passou a ser rejeitado pela maioria da população brasileira depois que a crise econômica afetou diretamente o bolso das pessoas. Ou seja, a partidarização da grande mídia brasileira foi um fracasso político. E mais uma alerta deve ser feita: o que valeu para o PT também vale para grupos de direita. Donald Trump é uma figura detestável, há muitas verdades a serem ditas contra ele. Mas se a grande mídia apelar para a mentira para derrubar Trump, vai contribuir para fomentar uma rede de apoiadores. Mesmo no Brasil, não apenas a esquerda reclama da grande mídia. Existe uma parcela da extrema direita que acha que a grande mídia brasileira é de esquerda, e por isso também prefere meios de comunicação alternativos. É péssimo que se difunda a ideia de que a grande mídia não é confiável, porque isso ajuda a fomentar o pensamento de diversos tipos de malucos. Mas infelizmente, a grande mídia faz por merecer a desconfiança. Para finalizar este parágrafo, um reconhecimento deve ser feito: a Folha de S. Paulo voltou a contar com uma grande quantidade de colunistas que discordam das posições oficiais do jornal.

Em terceiro lugar, um motivo ligado ao segundo. A proliferação de periódicos e sites favoráveis ao PT, liderados por jornalistas expurgados da grande mídia empresarial. Estes periódicos e sites contam com recursos para a difusão em massa, pois recebem patrocínios de empresas públicas. A grande mídia empresarial recebe patrocínio de grandes empresas privadas. Ou seja, a mídia que tem dinheiro é ou de direita ou de esquerda alinhada ao PT. Muitas pessoas que procuram mídia de esquerda acabam encontrando apenas mídia de esquerda alinhada ao PT, aí é esta mídia que acaba formando a opinião. O fato da mídia ser alinhada ao PT não a torna automaticamente ruim. Eu gosto de 80% do conteúdo da revista Carta Capital, mas desconsidero alguns textos sobre política partidária brasileira. Enquanto isso, escritores de esquerda não alinhados com o PT, como Luiz Eduardo Soares, Idelber Avelar, Moysés Pinto Neto e Pablo Ortellado são fenômenos apenas no Facebook.

Em quarto lugar, ainda ligado ao segundo, aqueles que são mais realistas que o rei. Existem algumas pessoas anti-PT que acham que a grande mídia é vendida ao PT, e que acreditam em boatos de Internet porque querem acreditar. São as pessoas que difundiram o boato de que todas as famílias de presidiários recebem o auxílio reclusão. Que continuam insistindo na tese de que Lula matou os passageiros do avião da TAM em 2007 porque a pista estava escorregadia, mesmo depois do próprio Jornal Nacional ter negado esta versão. Essas pessoas incentivam os simpatizantes do PT a terem má vontade com críticos do PT.

Em quinto lugar, o governo Lula apresentou bons resultados. O crescimento do PIB per capita foi o maior de todos os governos da Nova República, a miséria caiu, a desigualdade caiu, a relação dívida/PIB caiu, as exportações cresceram. Alguns resultados estão associados ao boom internacional de commodities. Outros, às próprias políticas do Lula. A tentativa dos antipetistas fanáticos de negar estes bons resultados acabam fomentando ainda mais o petismo fanático.

Em sexto lugar, existe um temor justificado de que sem o PT, só restarão forças políticas sem qualquer compromisso com desconcentração de renda, direitos humanos e Estado laico. Isto inclui o PSDB, que em 1988 poderia ter sido considerado um partido progressista, mas que atualmente vota sempre junto com as bancadas Bíblia, Boi e Bala.

Em sétimo lugar, muitas pessoas adquiriram simpatia pelo PT por causa de experiências pessoais. Por terem conhecido pessoalmente muitas pessoas escrotas que odeiam o PT. É falso dizer que todos os odiadores do PT são elitistas, racistas, machistas, homofóbicos e xenofóbicos, mas é verdadeiro dizer que todos os elitistas, racistas, machistas, homofóbicos e xenofóbicos odeiam o PT (existem machistas e homofóbicos “involuntários” que gostam do PT, mas elitistas e racistas não). Propagandistas do PT gostam de retratar os PT haters como elitistas, racistas, machistas, homofóbicos e xenofóbicos. PT haters que difundem textos do Danilo Gentili, do Reinaldo Azevedo e do Jair Bolsonaro ajudam a estereotipação (os mencionados “pensadores” não são necessariamente tudo isso, mas apelam para as pessoas que são). Ainda assim, os PT lovers merecem críticas. É uma visão um pouco infantil achar que uma coisa é boa só porque pessoas ruins não gostam dela.

Odiadores do PT muitas vezes apelam para o ódio contra o Nordeste brasileiro. Mas há simpatizantes do PT que apelam para o ódio contra São Paulo, o berço do PT.

Em oitavo lugar, novamente experiências pessoais. Eu já reparei por minhas experiências pessoais e outras pessoas também podem ter reparado o mesmo: as pessoas que mais fazem gracinha com a falta de instrução formal do Lula são aquelas que tem um curso superior somente para permitir ter uma melhor renda, mas raramente comentam sobre um livro que estão lendo, um filme que viram, uma peça de teatro, um show… Deve ser o tipo de gente que fala que o Lula é analfabeto, mas falaria também que o Haddad é pedante por ser culto demais. Então, de quem esse tipo de gente gostaria? Hmmm…, … do Alckmin.

A sobrevivência da esquerda no Brasil depende de revisão de opiniões sobre o PT. Mais uma vez a analogia futebolística: se um time começa a perder muitos jogos em seguida, é hora de trocar a comissão técnica, ou até mesmo a diretoria. Agora que a esquerda vai ser 100% oposição, sua atuação dependerá de menos de partidos e mais de movimentos sociais e lideranças individuais. O petista Fernando Haddad admite isso. A existência novamente de um partido forte de esquerda no Brasil depende: 1. Do PSOL abrandar algumas de suas posições, possibilitando a governabilidade. 2. Da Rede se deslocar para a esquerda, porque se apenas reproduzir as visões da Marina Silva, não será exatamente um partido de esquerda. Alessandro Molon, Randolfe Rodriguez e Luiz Eduardo Soares poderiam colaborar para levar a Rede para a esquerda. 3. Do PDT, que havia virado um saco de gatos, redescobrir a esquerda. Ciro Gomes poderia ajudar. 4. Do PT trocar as lideranças e admitir para valer seus erros.

No início do texto, foi exposta uma diferença entre o PT e os partidos social democratas europeus. É importante concluir lembrando que esses também não são referência. Também estão em grave crise. Já tiveram 40% do eleitorado dos países europeus na década de 1970. Atualmente não passam dos 30%. Não conseguem mais se diferenciar dos partidos democrata cristãos. O governo social democrata da França enfrenta um grande movimento de trabalhadores.

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