O Perigo de Acreditar em Soluções Fáceis

Um dos maiores perigos, penso eu, nestes tempos em que atravessamos a Zona do Furacão, é a incrível capacidade da maioria das pessoas de acreditar em soluções fáceis, medidas que, tomadas de supetão, se transformariam numa quimera para nossas questões sociais, ou em profetas que trazem as respostas prontas para todos os problemas que atravessamos hoje.

Confesso que sempre desconfiei de respostas prontas para questões difíceis, ou daqueles que, apontando o dedo condenatório para tudo e para todos, se arvoram de uma autoridade messiânica que os fariam capazes de trazer o paraíso à terra. Nunca dei muito crédito para quem tivesse uma postura assim, seja conservador, socialista, liberal, comunista ou tradicionalista.

Nesses tempos difíceis que atravessamos, as instituições da Nova República e sua Constituição de 1988 estão desfalecendo diante das suas contradições e sendo postas a nu. Nossa Constituição funciona como uma espécie de tradição, como uma religião civil que concede a direção certa num mundo desencantado, num país que sentia a ressaca de vinte anos de abusos de período ditatorial. Nossas instituições, por sua vez, eram as guardiães dessa tradição civil, dessa vontade geral, desse texto sacrossanto a quem todos deviam obedecer, respeitar e seguir. As instituições e seus atores eram os zeladores desta convenção, cabia a eles sua aplicação e bom funcionamento.

O grande problema é que, com a Escuridão tomando conta de tudo, com o Furacão destruindo tudo e todos, ficamos desnorteados e incapazes de tomar qualquer direção. O que fazer quando aqueles deveriam zelar pelo contrato social e pela nossa tradição civil são os que mais os desprezam, os denigrem e os violam? O Vórtice da Desilusão, da revolta e da raiva toma conta de nós. Temos a sensação de estarmos vivendo uma farsa. Nossa sociedade se esfacela e entra em estado de anomia.

Então vemos aquilo que mais temíamos enquanto cidadãos acontecer. A Nova República está em plena decadência; o que é pior, não vemos algo novo nascer, não vemos a luz de um novo pacto erguer-se. Muito pelo contrário, vemos um corpo decrépito em seus últimos suspiros tornar-se um zumbi, um natimorto, uma monstruosidade social.

Tudo, é claro, articulado por políticos disfarçados de lobistas e por tecnocratas das instituições e do grande capital. Se depender deles teremos uma república zumbi com direitos sociais e políticos extremamente limitados.

Como afirmei acima, nossa falta de cultura politica nos tornam presas de demagogos e de impostores que nos seduzem com soluções fáceis para problemas difíceis. Isso decorre porque a sociedade brasileira é extremamente autoritária, temos uma resistência sociopática a mudança social, gostamos de ser tutelados politicamente ao mesmo tempo em que desprezamos a Política e acreditamos que ela se resume a politicalha.

Adoramos ideias e esquemas que afagam nosso ego ou se encaixam em nossas pré- noções. Assim desprezamos tudo o que é diferente e tudo que for complicado demais para nosso senso comum. Por isso, ao invés de compreender e interpretar, preferimos julgar e ridicularizar.

Ideias rasas e soluções medíocres encontram-se em todos os espectros políticos. Tenho uma grande reserva em relação a liberais medíocres como Rodrigo Constantino e a vulgata do Movimento Brasil Livre (MBL). Falar que o problema do Brasil é um problema de falta de liberdade demonstra uma falta de conhecimento dos processos de formação da sociedade brasileira. É impossível, repito, impossível, falar em liberdade num país que está entre os mais desiguais do mundo. Só é possível falar em liberdade entre indivíduos e grupos em condições econômicas, politicas e culturais semelhantes. Algo que é impossível encontrar por aqui, onde os níveis de heteronomia social são altíssimos. Colocar que o problema brasileiro se resume a falta de liberdade da economia é desconhecer que o Estado sempre possuiu uma preponderância no capitalismo brasileiro, também é ignorar que, sem Estado, não há capitalismo. Isso, portanto, é um Não-Problema.

Confesso que também nutro um certo desprezo em relação ao deputado Bolsonaro e seus apoiadores. Ao defenderem que nosso problema se resumiria a um aumento na repressão na segurança pública e onde uma suposta minoria deveria se curvar a vontade de uma suposta maioria, Bolsonaro certamente ignora que a sociedade brasileira sempre foi extremamente repressora, a prova disso são seus altos índices de encarceramento e repressões violentas a movimentos civis em toda a sua história; ela sempre adotou, desde 1500, o Projeto Bolsonaro de segurança pública. Ele e seus fãs também ignoram que a globalização e o processo de divisão social do trabalho tornam as sociedades tão complexas e segmentadas que todos, inclusive ele, fazem parte, de uma forma ou de outra, de alguma minoria. Se ele e seus minions se não sabem disso são mal informados ou se sabem e ignoram agem de má-fé. 

Até a esquerda merece uma critica. Sou do campo socialista desde a adolescência e sempre me estranhou a defesa quase mítica de que uma revolução armada resolveria todos os problemas do Brasil. Será mesmo que uma revolução pode resolver todas as nossas distorções? Ainda é possível pensar num método de mudança social baseado no militarismo cujo sucesso se deu ainda no século XX? Sempre pensei que a mítica Revolução nunca será a solução de nossos problemas mas, ao contrário disso, uma oportunidade para realizar as reformas necessárias. Há ainda outra coisa a ser considerada, com uma economia tão dependente de investimentos estranheiro como a nossa, o rompimento unilateral com os fluxos globais de capital geraria um aumento exponencial do desemprego. Em outras palavras, ficaria um buraco na nossa economia. O que fazer para tapar esse buraco? Altas taxas de desemprego significam trabalhadores descontentes nas ruas protestando. Como lidar com esses protestos? Como lidar com aqueles que seriam contra a revolução? Digo isso porque o trabalhador é extremamente pragmático. Ele não liga muito para ideologias. Ele quer saber de estar empregado e que seu filho, ao completar dezoito anos, também consiga um emprego. Como lidar com isso? Saber o que fazer no momento certo é algo que as esquerdas precisam saber ter e ainda não sabem.

Pessoalmente defendo um reformismo radical. Em outras palavras, defendo um governo que ataque em duas frentes, através da via democrática e institucional tendo o apoio massivo das massas nas ruas. Deste modo cria-se a ambiente propício para as reformas necessárias — algo que o PT teve a chance de fazer e desperdiçou covardemente.

Temos que nos afastar de ideias e soluções levianas, precisamos desconfiar dos impostores, daqueles que gritam aos quatro ventos que tem a solução de tudo, de pessoas que apresentam respostas quiméricas para nossos problemas seculares. Precisamos também tratar a política como ela deve ser tratada, como uma esfera da vida social que precisa ser sempre vigiada e cultivada. Precisamos debater os temas mais espinhosos, precisamos pôr em perspectiva esquemas pré-concebidos, precisamos aumentar os graus de participação politica do trabalhador, seja nos bairros, nas prefeituras e nas escolas.

Precisamos, enfim, deixar de pôr nossa fé em farsantes e em ideias tolas, deixar de pensar que politica se resume à politicalha e começar a fazer politica com P maiúsculo — a política das massas, do povo, da democracia participativa.

Sem embargo, leitor amigo, só assim estaremos dando um primeiro passo para a verdadeira mudança social, que é aquela que vem de baixo para cima.

Qual teria sido o posicionamento mais adequado para partidos/movimentos à esquerda do PT?

Este texto é muito mais uma dúvida do que uma resposta definitiva.

Sabemos que desde o ano passado, a maior parte do PSOL, principal partido que fazia oposição à esquerda aos governos Lula/Dilma, participou de manifestações contra o impeachment da Dilma, junto o PT e o PCdoB. O PCO fez o mesmo. Sabemos que os partidos da esquerda governista queriam a permanência da Dilma na presidência da República até 31 de dezembro de 2018. Enquanto isso, lideranças minoritárias do PSOL, como Babá e Luciana Genro, o PSTU, e intelectuais de esquerda não petistas como Luiz Eduardo Soares, Idelber Avelar e César Benjamin sugeriram outro posicionamento: mesmo antes de haver previsão sobre o placar da votação do impeachment no plenário da Câmara, ou até mesmo antes do pedido ter sido aceito por Eduardo Cunha, sugeriram a queda de Dilma e Michel Temer, e a consequente realização de nova eleição. Com dupla queda, o presidente da Câmara assumiria a presidência interinamente, então Eduardo Cunha teria que cair antes. A queda de Dilma e Temer poderia ocorrer por renúncia ou cassação da chapa. Uns defendiam um jeito, outros o outro, outros um ou outro.

Quem estava certo? Quem defendia a continuidade de Dilma até 2018 ou quem defendia nova eleição?

Primeiro, vamos aos argumentos favoráveis ao posicionamento da esquerda não petista por nova eleição.

Alguns perguntariam: mas a Dilma não foi eleita? O mandato dela não termina em 31 de dezembro de 2018? Bom, é possível responder com outra pergunta: desde quando a esquerda considera que democracia é a vontade popular só poder se manifestar uma vez a cada quatro anos? A esquerda gritou fora para vários presidentes, governadores e prefeitos eleitos, o “Fora Beto Richa” é bastante recente, a esquerda comemorou queda de presidentes eleitos na América do Sul ao longo das décadas de 1990 e 2000, tendo sido dois deles, Fernando de la Rua da Argentina e Lucio Gutierrez do Equador, eleitos e derrubados por forças de esquerda. Publicações de esquerda em 2001 e 2002 falavam do bravo povo argentino, que derrubava um presidente atrás do outro.

Talvez, ter existido forças significativas de esquerda pedindo “fora Dilma, fora Temer” poderia sido um combate mais eficaz ao impeachment e a formação do “temebroso” governo Temer. Pelo seguinte motivo:

Há três possibilidades de ocupação da cadeira presidencial no Brasil: Dilma até 31/12/2018, Temer até 31/12/2018, nova eleição direta em 2016. As pessoas têm ordens de preferência sobre essas possibilidades. São possíveis seis permutações, que vamos identificar por letras, para facilitar.

 

Ordem de Preferência A

Primeiro: Dilma até 31/12/2018

Segundo: Temer até 31/12/2018

Terceiro: nova eleição direta em 2016

 

Ordem de Preferência B

Primeiro: Dilma até 31/12/2018

Segundo: nova eleição direta em 2016

Terceiro: Temer até 31/12/2018

 

Ordem de Preferência C

Primeiro: Temer até 31/12/2018

Segundo: Dilma até 31/12/2018

Terceiro: nova eleição direta em 2016

 

Ordem de Preferência D

Primeiro: Temer até 31/12/2018

Segunda: nova eleição direta em 2016

Terceiro: Dilma até 31/12/2018

 

Ordem de Preferência E

Primeiro: nova eleição direta em 2016

Segundo: Dilma até 31/12/2018

Terceiro: Temer até 31/12/2018

 

Ordem de Preferência F

Primeiro: nova eleição direta em 2016

Segundo: Temer até 31/12/2018

Terceiro: Dilma até 31/12/2018

 

Muito provavelmente, quase ninguém tem as ordens de preferência A ou C, só um antimarinista muito fanático talvez. Acredito que a maioria da população brasileira tem a ordem de preferência F, embora a lavagem cerebral produzida pelas grandes empresas de mídia pode ter feito pessoas que estavam em F terem mudado para D. Os direitistas convictos são D. Os esquerdistas ex-governistas são B. Alguns esquerdistas oposicionistas, como o PSTU, a Luciana Genro, o Babá são E. Seria melhor a oposição de esquerda ter ficado em E ao invés de B?

Quando o resultado da votação do impeachment era incerto, e, principalmente, quando a aceitação do pedido pela Câmara era incerta, teria sido possível uma coalizão de E e F em favor do movimento por dupla (ou melhor, tripla) renúncia. Aí, mesmo os defensores de D poderiam pensar que a pressão por dupla renúncia seria o caminho mais curto para derrubar a Dilma, e a formação do governo Temer ficaria menos viável.

Agora que o impeachment já está quase no fim, e uma das possibilidades (Dilma até 31/12/2018) está quase que certamente eliminada, os adeptos de D podem esculachar de vez a proposta de nova eleição e ainda fazer lavagem cerebral para F virar D. Antes, a proposta de nova eleição poderia ser vista como um dos possíveis caminhos para mudar o comando do país. Atualmente, com a aprovação do impeachment na Câmara e acolhimento pelo Senado como fatos consumados, a proposta de nova eleição passa a ser vista por adeptos de C, D e ex-adeptos de F como mera tentativa de vingança da esquerda.

E mesmo se o impeachment tivesse sido derrotado no Congresso, o posicionamento E talvez pudesse ter sido melhor do que B para quem se considerava oposição de esquerda. A derrota do impeachment poderia ter sido uma vitória de curto prazo e derrota de longo prazo para a esquerda. Isto porque causaria a manutenção de um governo de baixa aprovação até o final de 2018, contra a vontade de mais de 60% da população brasileira.

Dentro destes mais de 60%, havia os direitistas convictos, mas havia também, talvez a maioria, pessoas que não são nem de esquerda nem de direita, mas queriam outro governo porque estavam insatisfeitas com a vida, por causa da crise econômica, e dos escândalos de corrupção. Caso o governo de baixa aprovação de Dilma Rousseff tivesse se prolongado por muito tempo, esses insatisfeitos que não são nem de esquerda nem de direita passariam a dar cada vez mais os ouvidos para Vem Pra Rua, Revoltados Online e Movimento Brasil Livre, e passariam a ser de direita. Isto porque estes grupos assumiram a vanguarda da luta para derrubar Dilma, ganharam visibilidade por isso. Dessa forma, pessoas que apenas queriam derrubar Dilma passariam ouvir outras coisas que esses movimentos dizem, como as opiniões deles sobre qual deve ser o papel do Estado.

Dada a composição do Congresso, a “guinada à esquerda”, solicitava por movimentos sociais, não poderia ocorrer. Dilma não faria um governo de esquerda. A esquerda levaria a culpa por um governo que não é seu. Forças de esquerda que disputassem a liderança dos insatisfeitos com esses grupos de direita poderiam neutralizar o processo de direitização da opinião pública brasileira. Dada a crise do PT, o campo democrático e popular, o campo progressista, ou, para simplificar, a esquerda, poderia parar de girar em torno da sigla.

O impeachment trocou o PT pelo PMDB como ocupante do Palácio do Planalto. Ou seja, trocou um partido envolvido no escândalo da Petrobras por outro. Por isso, não pode ter sido fundamentado em corrupção. Tiveram que arrumar um outro fundamento. Este processo pode ter sido uma vitória de curto prazo para a direita e uma derrota de longo prazo, ou seja, o oposto do que teria sido o não impeachment. Um governo muito ruim virou o centro das atenções, tirando o foco no PT. O processo de direitização da opinião pública brasileira pode (eu disse apenas pode) ter sofrido alguma pausa. Por outro lado, agora que o PT e todo o resto da esquerda estão no mesmo lado, fazendo oposição ao governo Temer, a criação de uma esquerda independente pode ter sofrido um baque.

Outra pergunta que surgiria é: pedir nova eleição não seria fazer o jogo da direita? Isto porque não há candidatos competitivos de esquerda. Segundo as pesquisas, Lula perde no segundo turno. Ciro tem só um dígito. O PSOL não passa dos 3%. Uma nova eleição poderia dar a presidência a Marina Silva, José Serra ou Aécio Neves (embora este último esteja queimado). Por que a esquerda deveria ajudar Marina Silva ou José Serra a chegar à presidência? A resposta é: porque o movimento por nova eleição não seria feito pensando nos próximos três, e sim nos próximos trinta anos. Uma nova eleição provavelmente elegeria um candidato não esquerdista, mas um movimento por nova eleição feito por organizações de esquerda poderia gerar novas lideranças que teriam importância no futuro. Se parte da esquerda estivesse mais em sintonia com a maioria da população, as ideias de direita teriam mais dificuldade em se propagar. E por fim: José Serra e Marina Silva não são de esquerda, mas se tivessem que disputar um contra o outro uma eleição, ambos teriam que deixar seus programas mais populares para disputar voto. Não haveria margem para um programa tão anti-popular quanto o do Michel Temer. É por isso que as organizações empresariais e midiáticas, e os políticos de direita querem tanto o governo Michel Temer, e não uma nova eleição. Essas organizações querem não apenas um governo de direita, como também um governo de direita que não precisa disputar voto.

Até agora, foram apresentados os argumentos a favor da esquerda não petista ter defendido nova eleição, e não a permanência da Dilma. Agora, vamos aos contrários.

Um posicionamento de parte do campo democrático e popular, progressista, da esquerda, a favor da abreviação do mandato da Dilma poderia ter causado uma grande ferida em um campo já enfraquecido. Os argumentos favoráveis ao posicionamento da esquerda não petista por nova eleição poderiam não ser compreendido por grande parte dos militantes de sindicatos e movimentos sociais. Sites e periódicos favoráveis ao PT, poderiam retratar os defensores de nova eleição como “cúmplices do golpe”. A história de que o PSOL ajuda o PSDB e o PIG é de 2006, ficou completamente desatualizada dez anos depois. Mas a história de que o PSOL agiu propositalmente em favor da Marina Silva, se este partido tivesse defendido nova eleição, poderia ter ecoado entre militantes.

E se a esquerda não petista tivesse entrado para valer na campanha por nova eleição, não há garantia de ocorreria uma nova eleição. Para isso, o Michel Temer teria que ser sensibilizado a renunciar. Uma campanha forte nas ruas por dupla renúncia e nova eleição, unindo esquerda e direita, poderia ter aumentado a pressão para que a mídia pressionasse Temer a renunciar, que PSDB e DEM não se dispusessem a fazer parte de um governo Temer, induzindo-o a aceitar a renúncia como possibilidade. Mas nada disso é certo. O efeito de uma campanha de esquerda por dupla renúncia e nova eleição poderia também ter tido um efeito oposto: a direita organizada ter iniciado mais cedo uma lavagem cerebral pró Temer.

Quanto à cassação da chapa pelo TSE, isto é possível de ser feito se for realmente encontrada prova de crime eleitoral. Caso contrário, seria um mero casuísmo.

 

E vocês: o que pensam sobre o posicionamento de partidos e movimentos à esquerda do PT sobre a crise política brasileira?

Quem andou para a esquerda quando ficou mais experiente

Muitos de vocês já devem ter escutado a frase “quem tem menos de 30 anos e não é de esquerda não tem coração, quem tem mais de 30 anos e é de esquerda não tem cérebro”. Nesta frase, fica subentendido que ser de direita é um sinal de maturidade, que é uma tendência natural do ser humano se mover para a direita à medida em que envelhece. Existem muitos exemplos de líderes políticos e intelectuais que seguiram esta tendência. No Brasil, os casos mais notáveis de políticos que estiveram na esquerda quando jovens e na direita quando velhos são os do PSDB: Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Aloysio Nunes, Alberto Goldman. Há políticos mais antigos que seguiram esta tendência, como Carlos Lacerda. Ex-trotskistas fizeram ou fazem parte da direita jornalística brasileira: Paulo Francis, Reinaldo Azevedo e Demétrio Magnolli. No mundo inteiro, são frequentes os casos de baby boomers que foram hippies na década de 1960 e viraram yuppies na década de 1980. E ainda há exemplos bem mais antigos de ex-esquerdistas que viraram direitistas, como Benito Mussolini e Ronald Reagan. Porém, dizer que isso é uma regra é uma demonstração de imensa ignorância sobre a história de líderes políticos e intelectuais. Há inúmeros exemplos de pessoas que fizeram o caminho oposto à medida em que envelheceram.

Não estou falando apenas de líderes que eram de direita e passaram a ser de esquerda. Estou falando, de forma genérica, de líderes que moveram-se para a esquerda à medida em que envelheceram. Inclui também quem passou da esquerda moderada para a esquerda radical, ou quem passou da direita radical para o centro.

Podemos começar os exemplos nos Estados Unidos, com os economistas desse país. John Kenneth Galbraith sempre foi progressista, mas durante grande parte de sua vida foi apenas uma parte do braço progressista do establishment norte-americano. Participou da administração de John Kennedy. No final de sua vida, era extrema-esquerda dentro do espectro político norte americano, bem à esquerda do Partido Democrata. Paul Krugman era um economista bem mainstream na década de 1990. Ao longo da década de 2000, passou a fazer fortes críticas ao mainstream do pensamento econômico, criticando ideias conservadoras do mainstream, como a de que a tecnologia era o principal causador da desigualdade, a de que salário mínimo alto aumentava desemprego, a de que só rigidez de preço causava equilíbrio sem pleno emprego. Em 2016, teve uma recaída, quando fez fortes críticas a Bernie Sanders. Joseph Stiglitz, no início de sua carreira acadêmica, era um pesquisador quase neutro. Fazia modelos matemáticos sobre mercado de trabalho. Stiglitz entrou no ativismo de esquerda quando envelheceu. Jeffrey Sachs ficou famoso com sua sugestão de plano de estabilização austero para a Bolívia na década de 1980. Nas décadas seguintes, inclinou-se mais para a esquerda.

Passando da economia para a política, podemos falar de uma pessoa com bastante evidência na mídia atualmente: Hillary Clinton. Quando estudante de high school em 1964, apoiou Barry Goldwater. o candidato ultraconservador republicano. Não votou porque ainda não tinha idade. Já na faculdade, em 1968, se tornou democrata. O próprio Goldwater é outro exemplo. Foi o ícone do movimento para puxar o Partido Republicano para a extrema direita na década de 1960, quando este partido ainda tinha políticos moderados. Depois que a guinada para a extrema direita ocorreu, Goldwater passou a ser crítico do rumo tomado. Democratas do sul são exemplos de políticos que começam a carreira política defendendo ideias conservadoras, talvez para agradar a base, e depois se tornam mais progressistas depois que envelhecem. Isso pode ser dito de Lyndon Johnson, Jimmy Carter, Bill Clinton e Al Gore. E isto não se restringe ao sul. A senadora democrata do Massachusetts Elizabeth Warren é uma das vozes mais à esquerda do partido. Foi republicana até 1996. O democrata de Massachusetts Robert Kennedy foi outro que defendeu posições mais progressistas quando mais velho do que quando era um jovem político.

Agora passamos para o Brasil. Na década de 1930, alguns famosos integralistas foram Santiago Dantas, Vinícius de Moraes e Helder Câmara. Posteriormente, o primeiro foi ministro das relações exteriores e da fazenda de João Goulart, o segundo foi afastado do Itamaraty pela ditadura militar, e o terceiro defendeu muitos perseguidos políticos pela ditadura. Há também exemplos de políticos mais recentes. Teotônio Vilela, parlamentar alagoano, foi por muito tempo membro da UDN e da Arena. No final da década de 1970, mudou para o MDB e passou a ser um forte defensor da redemocratização. Plínio de Arruda Sampaio iniciou sua carreira política no Partido Democrata Cristão. Já era esquerdista, defensor da reforma agrária, mas ainda bastante moderado. Na década de 1980, foi uma das vozes moderadas do PT. Foi cogitado para ser Ministro da Economia, caso Lula fosse eleito em 1989, justamente porque era um dos petistas que tinha melhor relação com os empresários. No final de sua vida, foi uma das vozes mais radicais do PSOL. Ciro Gomes começou sua carreira política no PDS. Atualmente, é um dos maiores críticos da direita brasileira.

Mino Carta é o redator chefe da revista Carta Capital. Foi o fundador da Veja. A Veja, no seu tempo, não era igual ao que a Veja é hoje. Mas também não era igual à Carta Capital. O economista Luís Carlos Bresser Pereira era um símbolo do neoliberalismo na década de 1990 (embora sempre tenha rejeitado este rótulo) e atualmente é um dos mais conhecidos críticos do neoliberalismo entre os economistas brasileiros. Se Delfim Netto tivesse sofrido um ataque cardíaco ou um acidente até 2014, poderia entrar na lista deste texto. Mas parece que pelo que fez nos últimos meses, não pode mais…

Vamos citar, agora, exemplos de outros países. Um deles trata-se de uma celebridade bastante presente na mídia: o Papa Francisco. No tempo em que ele era o Cardeal Jorge Mario Bergoglio, ele era bem mais conservador. O Papa João Paulo II também pode ser mencionado como exemplo. Na primeira década do seu pontificado, que ocorreu durante a Guerra Fria, ele era um anticomunista ferrenho. Depois do fim do bloco comunista, João Paulo II passou a defender posições mais progressistas.

O ex-presidente da França François Mitterrand (1981-1995) teve uma longa carreira política no Partido Socialista. Mas quando era jovem, na década de 1930, militava na extrema-direita. O importante político alemão Heiner Geissler, que já foi secretário geral da União Democrata Cristã (CDU), e chegou a chamar os social democratas de “quinta coluna dos soviéticos”, tornou-se um forte crítico do neoliberalismo depois do fim da Guerra Fria e passou a fazer parte da Attac. O político trabalhista britânico Tony Benn foi um moderado durante a maior parte de sua carreira política, e moveu-se para a extrema-esquerda quando ficou velho.

Exemplos são muitos, não vou entrar em detalhes sobre cada um. Quem ficar curioso por alguns especificamente, pode pesquisar mais sobre a biografia (não apenas na Wikipédia).

Quem repete a afirmação “quem tem menos de 30 anos e não é de esquerda não tem coração, quem tem mais de 30 anos e é de esquerda não tem cérebro” tem cérebro, porque nenhum ser humano vive sem cérebro por muito tempo, mas utiliza muito mal este órgão. E, talvez, é contra o direito ao aborto até mesmo para o caso de acefalia.

Quem acha que ser de esquerda quando jovem e ser de direita quando velho é sinal de sensatez, será que consideraria Benito Mussolini uma pessoa sensata?

Agora, falando de pessoas do meu convívio, e não de pessoas famosas, eu tenho a oportunidade de acompanhar pelo Facebook o que meus ex-colegas de colégio e de faculdade pensam. Alguns eram de direita e continuaram assim. Outros eram de esquerda e continuaram assim. Outros moveram da esquerda para a direita. Outros fizeram o caminho oposto.

vire a esquerda

Os neoliberais e o efeito distributivo

Os apologistas da destruição do Estado de Bem Estar Social Brasileiro tiveram uma súbita “preocupação” com a distribuição de renda. Frequentemente fazem afirmações como:

  • Como os ricos podem utilizar o SUS, o gasto em saúde não é voltado exclusivamente aos mais pobres
  • Como os filhos dos ricos estudam de graça na universidade pública, o gasto em educação não prioriza o ensino básico dos pobres
  • O governo gasta muito com aposentadoria e falta dinheiro para o saneamento
  • Os salários dos funcionários públicos são astronômicos, muito acima da média nacional
  • O BNDES só favorece grandes empresas

Ou seja, eles pescam alguns itens do Estado de Bem Estar Social Brasileiro que favorecem população de mais alta renda com o objetivo de parecerem mais simpáticos, que estão preocupados em reduzir a concentração de renda, e dessa forma tentar ganhar mais aceitação para suas ideias de destruição do Estado de Bem Estar Social Brasileiro.

Eles estão sinceramente preocupados com a questão da distribuição de renda no Brasil? Podemos fazer um teste. Sabemos que um dos grandes fomentadores da concentração de renda no Brasil é o sistema tributário, composto na maior parte por impostos sobre consumo, que pesam mais no bolso dos mais pobres. Não há um imposto sobre grandes fortunas, o imposto sobre herança e o imposto sobre propriedade rural têm alíquotas irrisórias, o imposto de renda de pessoa física tem uma das alíquotas marginais máximas mais baixas do mundo (27,5%) e apenas no Brasil e na Estônia existe isenção para distribuição de lucros e dividendos. A estrutura de propriedade da terra também favorece a concentração de renda. Que tal fazer uma reforma tributária progressiva e progressista? É muito fácil no Brasil ter terreno ocioso. Isso faz com que as cidades brasileiras tenham vazios com boa infra estrutura e pessoas morando em áreas precárias. Que tal fazer uma reforma urbana? E uma reforma agrária?

Quem ou ignora ou é hostil à reforma tributária progressiva e progressista, à reforma urbana e à reforma agrária muito provavelmente está cagando para a questão da distribuição de renda. Utiliza o efeito redistributivo de políticas como o SUS, a gratuidade das universidades públicas, a previdência e o salário do funcionalismo apenas como truque retórico.

Essas discussões mencionadas não são completamente inúteis. É verdade que por causa do envelhecimento da população, as pessoas precisam aposentar mais tarde. Não é mais sustentável que um servidor público que começou a trabalhar com 22 anos, sempre debaixo de teto, protegido de sol e chuva, possa se aposentar aos 57. Mas isto não pode ser utilizado como pretexto para implementar imediatamente a idade mínima de 65 para todos, como alguns dos descritos por este texto propõem. Há pessoas que começaram cedo a fazer trabalho braçal, que talvez nem consigam completar 65 anos de vida.

É aceitável discutir se vale a pena manter a gratuidade irrestrita nas universidades públicas, considerando que a maioria dos estudantes é de classe média. O problema é que caso seja estabelecida alguma forma de cobrança, o que muito provavelmente ocorrerá é que os estudantes pobres teriam acesso apenas a programas de créditos. Ou seja, o filho do pobre começaria a vida profissional com dívidas e o filho do rico não. Isto fere o princípio da igualdade na largada, tão presente no discurso da meritocracia. Alguma cobrança em universidades públicas só seria compatível com a ideia de justiça social se houvesse algumas vagas gratuitas para estudantes de baixa renda. Para os que falam tanto dos “filhinhos de papai que estudam de graça em universidade pública”: que tal defender políticas que aumentem o acesso dos pobres, ao invés de focar apenas em cobrança dos ricos?

Quanto a ideia de restringir a saúde pública gratuita aos pobres, há um grande problema: políticas exclusivas para pobres tendem a ser políticas pobres. Se o SUS for proibido de atender ricos, o que mais provavelmente ocorrerá não é sobrar mais recursos para os pobres e sim diminuir o total de recursos para a saúde pública e diminuir a vontade do poder público em prover saúde decente (o que já não existe muito).

Quanto aos salários do funcionalismo público, é de notório conhecimento que existem supersalários em algumas carreiras, principalmente no Legislativo e no Judiciário, que é vergonhoso existir uma quantidade grande de “servidores” ganhando acima do que deveria ser o teto, que é o subsídio dos ministros do STF. Mas nem todas as carreiras do serviço público tem supersalários, e a existência de alguns supersalários não pode ser utilizada como pretexto para defender arrocho generalizado.

Em resumo: há algumas distorções no Estado de Bem Estar Social Brasileiro que precisam ser corrigidas. O problema é que existem alguns neoliberais que apontam estas distorções não com o propósito de corrigir, mas de destruir o Estado de Bem Estar Social Brasileiro. Se apresentam como madres teresas da distribuição de renda para falar do rico que usa o SUS ou que manda seus filhos para a universidade pública, mas não tocam ou são hostis às questões mais centrais da distribuição de renda, que são a reforma tributária progressiva e progressista e a reforma urbana.

Portanto, quem quiser falar de distribuição de renda, de efeito distributivo de políticas, deveriam assinar este termo de compromisso.

termo de compromisso lugar de fala

Somente assinando este termo de compromisso, seria possível obter este certificado.

certificado lugar de fala

Somente pessoas com este certificado poderiam ter suas falas sobre distribuição de renda consideradas relevantes.

Isso mesmo: se você fica reclamando que rico usa o SUS, que rico manda seus filhos estudarem de graça na universidade pública, mas não defende que ricos paguem mais impostos, em um país onde os ricos pagam baixos impostos, sua opinião sobre distribuição de renda não conta. Você não está contra a concentração de renda. Você está contra apenas o SUS e a universidade pública.