Qual teria sido o posicionamento mais adequado para partidos/movimentos à esquerda do PT?

Este texto é muito mais uma dúvida do que uma resposta definitiva.

Sabemos que desde o ano passado, a maior parte do PSOL, principal partido que fazia oposição à esquerda aos governos Lula/Dilma, participou de manifestações contra o impeachment da Dilma, junto o PT e o PCdoB. O PCO fez o mesmo. Sabemos que os partidos da esquerda governista queriam a permanência da Dilma na presidência da República até 31 de dezembro de 2018. Enquanto isso, lideranças minoritárias do PSOL, como Babá e Luciana Genro, o PSTU, e intelectuais de esquerda não petistas como Luiz Eduardo Soares, Idelber Avelar e César Benjamin sugeriram outro posicionamento: mesmo antes de haver previsão sobre o placar da votação do impeachment no plenário da Câmara, ou até mesmo antes do pedido ter sido aceito por Eduardo Cunha, sugeriram a queda de Dilma e Michel Temer, e a consequente realização de nova eleição. Com dupla queda, o presidente da Câmara assumiria a presidência interinamente, então Eduardo Cunha teria que cair antes. A queda de Dilma e Temer poderia ocorrer por renúncia ou cassação da chapa. Uns defendiam um jeito, outros o outro, outros um ou outro.

Quem estava certo? Quem defendia a continuidade de Dilma até 2018 ou quem defendia nova eleição?

Primeiro, vamos aos argumentos favoráveis ao posicionamento da esquerda não petista por nova eleição.

Alguns perguntariam: mas a Dilma não foi eleita? O mandato dela não termina em 31 de dezembro de 2018? Bom, é possível responder com outra pergunta: desde quando a esquerda considera que democracia é a vontade popular só poder se manifestar uma vez a cada quatro anos? A esquerda gritou fora para vários presidentes, governadores e prefeitos eleitos, o “Fora Beto Richa” é bastante recente, a esquerda comemorou queda de presidentes eleitos na América do Sul ao longo das décadas de 1990 e 2000, tendo sido dois deles, Fernando de la Rua da Argentina e Lucio Gutierrez do Equador, eleitos e derrubados por forças de esquerda. Publicações de esquerda em 2001 e 2002 falavam do bravo povo argentino, que derrubava um presidente atrás do outro.

Talvez, ter existido forças significativas de esquerda pedindo “fora Dilma, fora Temer” poderia sido um combate mais eficaz ao impeachment e a formação do “temebroso” governo Temer. Pelo seguinte motivo:

Há três possibilidades de ocupação da cadeira presidencial no Brasil: Dilma até 31/12/2018, Temer até 31/12/2018, nova eleição direta em 2016. As pessoas têm ordens de preferência sobre essas possibilidades. São possíveis seis permutações, que vamos identificar por letras, para facilitar.

 

Ordem de Preferência A

Primeiro: Dilma até 31/12/2018

Segundo: Temer até 31/12/2018

Terceiro: nova eleição direta em 2016

 

Ordem de Preferência B

Primeiro: Dilma até 31/12/2018

Segundo: nova eleição direta em 2016

Terceiro: Temer até 31/12/2018

 

Ordem de Preferência C

Primeiro: Temer até 31/12/2018

Segundo: Dilma até 31/12/2018

Terceiro: nova eleição direta em 2016

 

Ordem de Preferência D

Primeiro: Temer até 31/12/2018

Segunda: nova eleição direta em 2016

Terceiro: Dilma até 31/12/2018

 

Ordem de Preferência E

Primeiro: nova eleição direta em 2016

Segundo: Dilma até 31/12/2018

Terceiro: Temer até 31/12/2018

 

Ordem de Preferência F

Primeiro: nova eleição direta em 2016

Segundo: Temer até 31/12/2018

Terceiro: Dilma até 31/12/2018

 

Muito provavelmente, quase ninguém tem as ordens de preferência A ou C, só um antimarinista muito fanático talvez. Acredito que a maioria da população brasileira tem a ordem de preferência F, embora a lavagem cerebral produzida pelas grandes empresas de mídia pode ter feito pessoas que estavam em F terem mudado para D. Os direitistas convictos são D. Os esquerdistas ex-governistas são B. Alguns esquerdistas oposicionistas, como o PSTU, a Luciana Genro, o Babá são E. Seria melhor a oposição de esquerda ter ficado em E ao invés de B?

Quando o resultado da votação do impeachment era incerto, e, principalmente, quando a aceitação do pedido pela Câmara era incerta, teria sido possível uma coalizão de E e F em favor do movimento por dupla (ou melhor, tripla) renúncia. Aí, mesmo os defensores de D poderiam pensar que a pressão por dupla renúncia seria o caminho mais curto para derrubar a Dilma, e a formação do governo Temer ficaria menos viável.

Agora que o impeachment já está quase no fim, e uma das possibilidades (Dilma até 31/12/2018) está quase que certamente eliminada, os adeptos de D podem esculachar de vez a proposta de nova eleição e ainda fazer lavagem cerebral para F virar D. Antes, a proposta de nova eleição poderia ser vista como um dos possíveis caminhos para mudar o comando do país. Atualmente, com a aprovação do impeachment na Câmara e acolhimento pelo Senado como fatos consumados, a proposta de nova eleição passa a ser vista por adeptos de C, D e ex-adeptos de F como mera tentativa de vingança da esquerda.

E mesmo se o impeachment tivesse sido derrotado no Congresso, o posicionamento E talvez pudesse ter sido melhor do que B para quem se considerava oposição de esquerda. A derrota do impeachment poderia ter sido uma vitória de curto prazo e derrota de longo prazo para a esquerda. Isto porque causaria a manutenção de um governo de baixa aprovação até o final de 2018, contra a vontade de mais de 60% da população brasileira.

Dentro destes mais de 60%, havia os direitistas convictos, mas havia também, talvez a maioria, pessoas que não são nem de esquerda nem de direita, mas queriam outro governo porque estavam insatisfeitas com a vida, por causa da crise econômica, e dos escândalos de corrupção. Caso o governo de baixa aprovação de Dilma Rousseff tivesse se prolongado por muito tempo, esses insatisfeitos que não são nem de esquerda nem de direita passariam a dar cada vez mais os ouvidos para Vem Pra Rua, Revoltados Online e Movimento Brasil Livre, e passariam a ser de direita. Isto porque estes grupos assumiram a vanguarda da luta para derrubar Dilma, ganharam visibilidade por isso. Dessa forma, pessoas que apenas queriam derrubar Dilma passariam ouvir outras coisas que esses movimentos dizem, como as opiniões deles sobre qual deve ser o papel do Estado.

Dada a composição do Congresso, a “guinada à esquerda”, solicitava por movimentos sociais, não poderia ocorrer. Dilma não faria um governo de esquerda. A esquerda levaria a culpa por um governo que não é seu. Forças de esquerda que disputassem a liderança dos insatisfeitos com esses grupos de direita poderiam neutralizar o processo de direitização da opinião pública brasileira. Dada a crise do PT, o campo democrático e popular, o campo progressista, ou, para simplificar, a esquerda, poderia parar de girar em torno da sigla.

O impeachment trocou o PT pelo PMDB como ocupante do Palácio do Planalto. Ou seja, trocou um partido envolvido no escândalo da Petrobras por outro. Por isso, não pode ter sido fundamentado em corrupção. Tiveram que arrumar um outro fundamento. Este processo pode ter sido uma vitória de curto prazo para a direita e uma derrota de longo prazo, ou seja, o oposto do que teria sido o não impeachment. Um governo muito ruim virou o centro das atenções, tirando o foco no PT. O processo de direitização da opinião pública brasileira pode (eu disse apenas pode) ter sofrido alguma pausa. Por outro lado, agora que o PT e todo o resto da esquerda estão no mesmo lado, fazendo oposição ao governo Temer, a criação de uma esquerda independente pode ter sofrido um baque.

Outra pergunta que surgiria é: pedir nova eleição não seria fazer o jogo da direita? Isto porque não há candidatos competitivos de esquerda. Segundo as pesquisas, Lula perde no segundo turno. Ciro tem só um dígito. O PSOL não passa dos 3%. Uma nova eleição poderia dar a presidência a Marina Silva, José Serra ou Aécio Neves (embora este último esteja queimado). Por que a esquerda deveria ajudar Marina Silva ou José Serra a chegar à presidência? A resposta é: porque o movimento por nova eleição não seria feito pensando nos próximos três, e sim nos próximos trinta anos. Uma nova eleição provavelmente elegeria um candidato não esquerdista, mas um movimento por nova eleição feito por organizações de esquerda poderia gerar novas lideranças que teriam importância no futuro. Se parte da esquerda estivesse mais em sintonia com a maioria da população, as ideias de direita teriam mais dificuldade em se propagar. E por fim: José Serra e Marina Silva não são de esquerda, mas se tivessem que disputar um contra o outro uma eleição, ambos teriam que deixar seus programas mais populares para disputar voto. Não haveria margem para um programa tão anti-popular quanto o do Michel Temer. É por isso que as organizações empresariais e midiáticas, e os políticos de direita querem tanto o governo Michel Temer, e não uma nova eleição. Essas organizações querem não apenas um governo de direita, como também um governo de direita que não precisa disputar voto.

Até agora, foram apresentados os argumentos a favor da esquerda não petista ter defendido nova eleição, e não a permanência da Dilma. Agora, vamos aos contrários.

Um posicionamento de parte do campo democrático e popular, progressista, da esquerda, a favor da abreviação do mandato da Dilma poderia ter causado uma grande ferida em um campo já enfraquecido. Os argumentos favoráveis ao posicionamento da esquerda não petista por nova eleição poderiam não ser compreendido por grande parte dos militantes de sindicatos e movimentos sociais. Sites e periódicos favoráveis ao PT, poderiam retratar os defensores de nova eleição como “cúmplices do golpe”. A história de que o PSOL ajuda o PSDB e o PIG é de 2006, ficou completamente desatualizada dez anos depois. Mas a história de que o PSOL agiu propositalmente em favor da Marina Silva, se este partido tivesse defendido nova eleição, poderia ter ecoado entre militantes.

E se a esquerda não petista tivesse entrado para valer na campanha por nova eleição, não há garantia de ocorreria uma nova eleição. Para isso, o Michel Temer teria que ser sensibilizado a renunciar. Uma campanha forte nas ruas por dupla renúncia e nova eleição, unindo esquerda e direita, poderia ter aumentado a pressão para que a mídia pressionasse Temer a renunciar, que PSDB e DEM não se dispusessem a fazer parte de um governo Temer, induzindo-o a aceitar a renúncia como possibilidade. Mas nada disso é certo. O efeito de uma campanha de esquerda por dupla renúncia e nova eleição poderia também ter tido um efeito oposto: a direita organizada ter iniciado mais cedo uma lavagem cerebral pró Temer.

Quanto à cassação da chapa pelo TSE, isto é possível de ser feito se for realmente encontrada prova de crime eleitoral. Caso contrário, seria um mero casuísmo.

 

E vocês: o que pensam sobre o posicionamento de partidos e movimentos à esquerda do PT sobre a crise política brasileira?

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